Rosenzweig, Fackenheim, Plaskow
Data
1886d.C.
1886 a 2003
Pensadores judeus modernos tentaram permanecer fiéis à aliança do Sinai aceitando a crítica histórica, a experiência do Holocausto e novos valores, com respostas muito diferentes.
Narrativa com fontes
Cada bloco é uma afirmação verificável. O número abre a página citada; blocos em âmbar ou coral sinalizam tradição ou interpretação contestada.
6 afirmações
01O desafio
Para os pensadores judeus modernos que se sentem comprometidos com a aliança do Sinai mas aceitam a pesquisa moderna, a revelação do Sinai é um desafio: como entender uma experiência em desacordo com a compreensão científica da realidade? No centro dela há um ser sobrenatural e, mesmo seus aspectos historicamente mais plausíveis, como a existência de um monte Sinai ou de um profeta Moisés, não podem ser verificados. Alguns estudiosos dizem que todo o relato do Sinai é ficção, acrescentada depois à Torá. Além dos problemas históricos, o relato é contradito por experiências e valores modernos. O Holocausto, em que morreram milhões de judeus, seculares e religiosos, questionou o compromisso que Deus assumira com Israel no Sinai. Judeus feministas lutam com a Torá por outros motivos: suas narrativas marginalizam as mulheres, e suas leis e rituais as excluem e podem até ser citados como justificativa para abusar delas.
02Respostas
Uma saída foi minimizar a revelação do Sinai como evento histórico e enfatizar seu efeito sobre a mente, como o Sinai é vivido, sentido e lembrado. Para o teólogo judeu alemão Franz Rosenzweig (1886 a 1929), a Bíblia registra algo genuíno, mas pouco importava se os israelitas cruzaram mesmo o Mar Vermelho como diz a narrativa, pois o evento talvez se devesse a um fenômeno climático raro; o crucial eram as percepções psicológico-espirituais, como sentir o nascimento como dádiva vinda de fora de si (o cerne da Criação) ou sentir-se comandado (a raiz da narrativa do Sinai).
Rosenzweig não reduzia a experiência religiosa a mera projeção da mente: via na Bíblia uma revelação genuína de Deus. Mas, para ele, a experiência da revelação não tinha conteúdo verbal e todas as palavras da Torá foram produzidas por seres humanos, o que mostra a influência da pesquisa bíblica moderna. Pouco lhe importava que ela desafiasse a veracidade histórica do relato, pois via o próprio ato de ler a Torá como experiência religiosa, que leva o intérprete a um encontro com Deus.
Outros recorreram a técnicas tradicionais de interpretação, como o midrash, que encontra sentido nos silêncios do texto bíblico. O filósofo pós-Holocausto Emil Fackenheim (1916 a 2003), refugiado dos nazistas, tratou provocativamente o Holocausto como uma segunda revelação, que ameaçava destruir a fé dos judeus em Deus mas ao mesmo tempo impunha o imperativo de permanecer fiel à aliança do Sinai, negando a Hitler uma vitória póstuma. A teóloga feminista Judith Plaskow reimagina o Sinai afastando a descrição masculina de Deus e incluindo as mulheres como parceiras plenas da revelação.
Para muitos judeus esses esforços são irrelevantes: alguns judeus religiosos não reconhecem os desafios da pesquisa moderna ou não os conhecem, e judeus seculares podem não ver sentido em salvar uma história que tomam por mito. Mas muitos ficam entre o compromisso com a tradição e uma orientação secularizada, e as interpretações descritas nascem da luta para integrar essas perspectivas conflitantes.
§ 03Historiografia
O que os estudiosos discutem
Debate acadêmico · 01
Como judeus modernos se relacionam com a revelação do Sinai?
4 posições · sem resposta única · sentar à mesa →
- A
Revelação sem conteúdo verbal (Rosenzweig)
Franz Rosenzweig
A Bíblia registra algo genuíno, mas importa o que a experiência provoca, não se os fatos ocorreram: todas as palavras da Torá são humanas, e ler a Torá é um encontro com Deus.
- B
O Holocausto como segunda revelação (Fackenheim)
Emil Fackenheim
O Holocausto ameaçou destruir a fé em Deus, mas também impôs a ordem de permanecer fiel à aliança do Sinai, negando a Hitler uma vitória póstuma.
- C
Mulheres como parceiras plenas da revelação (Plaskow)
Judith Plaskow
Recorrendo ao midrash como precedente, a teóloga reimagina o Sinai afastando a descrição masculina de Deus e incluindo as mulheres plenamente.
- D
Os esforços são irrelevantes
Judeus religiosos que não reconhecem a pesquisa e judeus seculares
Alguns não reconhecem os desafios da pesquisa moderna; outros não veem sentido em salvar o que tomam por mito.
§ 05Bibliografia
Para continuar
Benjamin Sommer, Jewish Concepts of Scripture: A Comparative Introduction (New York: New York University Press, 2012).
O que a Bíblia significou para os judeus em diferentes momentos · recomendado em Efron, Lehmann e Weitzman, p. 61
§ 06Aparato
Fontes desta página
- 01Efron, Lehmann e Weitzman, p. 56; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 56inspecionar
- 02Efron, Lehmann e Weitzman, p. 56; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 56inspecionar
- 03Efron, Lehmann e Weitzman, p. 56; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 56inspecionar
- 04Efron, Lehmann e Weitzman, p. 56; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 56inspecionar
- 05Efron, Lehmann e Weitzman, p. 56inspecionar
- 06Efron, Lehmann e Weitzman, p. 56inspecionar
- Evidência documentadaAtestado por evidência da própria época: textos, inscrições, moedas, papiros ou arqueologia.
- Reconstrução acadêmicaInferência dos historiadores a partir de evidência indireta.
- Tradição ou narrativaRelato literário, tradicional ou religioso; importante em si, mas não verificado de forma independente.
- Interpretação contestadaEstudiosos discordam explicitamente; veja as posições em debate.
- Reconstrução ilustrativaHipótese ou esquema visual para orientar a leitura; não é afirmação histórica.