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ZAKHORIUM

§ 08 · Fontes

Aparato crítico

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§ 01Registro

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62

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519

Início da cronologia

Densidade de citações por página · capítulos 1 a 15 · pp. 1 a 518 · as marcas indicam o início de cada capítulo

§ 03Afirmações

3038 afirmações, por página

164 tradição ou narrativa · 1908 reconstrução acadêmica · 94 interpretação contestada · 864 evidência documentada · 8 reconstrução ilustrativa
  • Evidência documentadaAtestado por evidência da própria época: textos, inscrições, moedas, papiros ou arqueologia.
  • Reconstrução acadêmicaInferência dos historiadores a partir de evidência indireta.
  • Tradição ou narrativaRelato literário, tradicional ou religioso; importante em si, mas não verificado de forma independente.
  • Interpretação contestadaEstudiosos discordam explicitamente; veja as posições em debate.
  • Reconstrução ilustrativaHipótese ou esquema visual para orientar a leitura; não é afirmação histórica.
  1. p. 1Os judeus há muito situam suas origens nos cinco livros de Moisés: a história de Abraão e Sara e de seus descendentes, o Êxodo do Egito e a revelação no monte Sinai.c1-origins-tradition
  2. p. 1, p. 1Nos últimos séculos os estudiosos passaram a questionar esse relato tradicional e propuseram várias reconstruções alternativas, algumas em franco desacordo com a Bíblia. Os autores admitem que ninguém chegou a um consenso sobre como os judeus surgiram.c1-scholars-doubt-tradition
  3. p. 1Graças à pesquisa histórica e arqueológica, dizem os autores, já não se pode ter certeza de que figuras como Abraão, Moisés e Davi tenham existido. Duvidar delas, porém, não resolve a questão de como os judeus se originaram.c1-figures-uncertain
  4. p. 1Fixar um começo é difícil porque as pessoas descritas na maior parte da Bíblia não se chamam judeus, e sim israelitas ('filhos de Israel'), e sua cultura e religião diferem em muitos pontos das dos judeus posteriores.c1-israelites-not-jews
  5. p. 1, p. 1Muitos estudiosos situam a passagem de israelitas a judeus depois do Exílio Babilônico, em 586 a.C.; alguns a colocam depois das conquistas de Alexandre, e outros ainda mais tarde, na era do domínio romano e da ascensão do cristianismo. Conforme a resposta, a história judaica começa há 4.000 anos ou há 2.000.c1-when-israelites-become-jews
  6. p. 1, p. 1A palavra 'judeu' vem do nome Judá (Yehuda), que na própria Bíblia designa uma tribo israelita, um território no sul de Canaã e o reino de Davi e seus descendentes. Depois da era bíblica, os termos para 'judeu' passaram a indicar um modo de vida ou crenças, e hoje podem significar religião, identidade cultural ou étnica, ou identidade nacional.c1-jew-term-ambiguity
  7. p. 1Levy sustenta que descendentes dos convertidos de 1497 estiveram entre os pioneiros da descoberta do ouro e diamantes e da fundação das primeiras vilas do ouro.c9-new-christians-gold-pioneers
  8. p. 1Segundo Levy, Garcia Rodrigues Paes, tratado como marrano, construiu o Caminho do comércio (Caminho Novo) que encurtou a rota entre o Rio de Janeiro e Ouro Preto.c9-caminho-novo
  9. p. 1, p. 3Coletâneas e estudos desde o final do século XX (incluindo The Ways That Never Parted e trabalhos de Boyarin) deslocaram os judeus crentes e os 'judaizantes' gentios do margen para o centro do debate: eles encarnam a não separação limpa das tradições, sem que haja consenso único entre os autores.cjb-ways-never-parted-frame
  10. p. 2, p. 2Os autores adotam dois pontos de partida: a história israelita antes do Exílio Babilônico de 586 a.C. (tema deste capítulo) e o surgimento da própria Bíblia hebraica (tema do capítulo 2). Defendem que a formação da condição judaica e a formação da Bíblia estão inseparavelmente ligadas.c1-two-starting-points
  11. p. 2A erudição moderna duvida do valor da Bíblia hebraica como documento histórico: questiona se Abraão e Moisés existiram e se eventos centrais, como o Êxodo e a revelação no Sinai, ocorreram. O ceticismo afastou alguns judeus e cristãos que tomam a Bíblia por relato exato, mas, dizem os autores, suas razões não podem ser descartadas de saída.c1-bible-as-history-doubt
  12. p. 2, p. 2A cultura judaica não surgiu de repente: evoluiu de uma cultura israelita anterior, da qual herdou crenças, práticas, línguas, textos e padrões de organização social. Perguntas como a origem da circuncisão, do sábado e das regras alimentares só se respondem olhando para essa cultura pré-judaica, e a literatura bíblica é a fonte mais rica sobre ela.c1-why-start-with-bible
  13. p. 2, p. 2Mesmo que a Bíblia fosse inútil como fonte histórica, saber o que ela diz é essencial, porque há pelo menos dois mil anos os judeus recorrem a ela para saber quem são. Muitos traçam sua linhagem até Abraão e Jacó, relembram o Êxodo na Páscoa como se estivessem no Egito e esperam um messias da linhagem de Davi; até judeus seculares a usam como fonte de poesia e arte.c1-bible-as-self-image
  14. p. 2Como o testemunho da Bíblia sozinho é discutível, o capítulo apresenta a história israelita tal como reconstruída por especialistas bíblicos, que a situam no contexto de outras fontes do Antigo Oriente Próximo e da escavação arqueológica.c1-reconstruct-from-near-east
  15. p. 2, p. 3, p. 115O modelo de uma 'separação dos caminhos' precoce e absoluta entre judaísmo e cristianismo, depois da qual cada tradição teria vivido em isolamento relativo, não corresponde bem aos dados literários e arqueológicos da Antiguidade tardia e do início da Idade Média.cjb-parting-not-simple
  16. p. 2Hayes e Roth registram que muitos estudiosos preferem Shoah (destruição catastrófica) porque 'Holocaust' deriva de oferta pelo fogo e carrega conotações santificantes; ainda assim, desde os anos 1950 Holocaust tornou-se o descritor mais vigente em várias línguas e o título adequado para o campo.c-h502-hayes-holocaust-term-prevalent
  17. p. 3, p. 3As siglas AEC e EC (BCE e CE), usadas neste livro, dependem de uma contagem cristã do tempo: o sistema de datar a partir do nascimento de Jesus foi criado no século VI por um monge, Dionísio Exíguo, e muitos estudiosos acham que Jesus nasceu entre 6 e 4 a.C. As siglas 'antes da Era Comum' e 'Era Comum' foram adotadas para indicar datas comuns a toda a humanidade.c1-bce-ce-christian
  18. p. 3A contagem 'antes de Cristo' foi desenvolvida nos séculos XVII e XVIII, retrocedendo a partir do ano 1 a.C.; não existe ano zero.c1-no-year-zero
  19. p. 3Os judeus usam há muito seu próprio calendário, que conta a partir da criação do mundo segundo a tradição. Suas origens são obscuras, mas a criação como ponto de partida parece ter sido adotada pelas comunidades no século X ou XI, talvez como reação à influência do calendário cristão; em 2018, era o ano 5778.c1-jewish-calendar
  20. p. 3Aplicar AEC e EC à história judaica tem valor, porque situa os judeus na história mais ampla da humanidade, mas lembra que o modo de pensar o passado foi moldado pelo contexto cristão europeu em que a disciplina histórica surgiu.c1-calendar-lesson
  21. p. 3, p. 4Em 1 Samuel 17, Davi derrota o filisteu Golias com uma funda. Mas outra passagem bíblica (2 Samuel 21:19) atribui a morte de Golias a um guerreiro quase desconhecido, Elanã de Belém, descrito com os mesmos termos.c1-goliath-two-versions
  22. p. 3, p. 3Intérpretes tentaram conciliar os relatos dizendo que Elanã seria outro nome de Davi, mas a Bíblia trata os dois como pessoas distintas. Crônicas, escrito muito depois de Samuel, afirma que Elanã matou o irmão de Golias, solução que os autores consideram artificial.c1-goliath-harmonizations
  23. p. 3Levy destaca o papel relevante dos cristãos-novos no envolvimento inicial do ouro em Minas, em território de disputas e pioneirismo.c9-gold-new-christians-role
  24. p. 3, p. 4Neste eixo, 'judeus crentes em Jesus' designa judeus de nascimento ou conversão que, de algum modo, creram que Jesus era seu salvador. O critério é a etnicidade, não um pacote único de teologia ou praxis. Assim entram tanto quem manteve um modo de vida judaico quanto quem se assimilou a comunidades mistas de maioria gentia.cjb-definition-ethnicity
  25. p. 3Chazan situa o despertar da cristandade latina (fins do séc. X e séc. XI) em crescimento demográfico, economia, estabilidade política, força militar e criatividade cultural, com reforço mútuo entre esses planos.c-h502-chazan-latin-christendom-expansion
  26. p. 3Fonrobert e Jaffee assinalam que o próprio termo 'literatura rabínica' é criação do estudo histórico moderno da tradição judaica; seria ininteligível para os produtores desses textos.c-h502-fonrobert-rabbinic-literature-modern-term
  27. p. 3Segundo a introdução do Companion, quase nada se sabe sobre a última geração de sábios que editou o material e deu forma aproximada aos manuscritos; os produtores obscureceram as pegadas históricas da redação, e séculos separam a redação presumida dos primeiros manuscritos sobreviventes.c-h502-fonrobert-blurred-redaction
  28. p. 3O Companion argumenta que os textos rabínicos desafiam classificação fácil e só com dificuldade se encaixam em categorias ocidentais como código legal, enciclopédia ou mesmo 'literatura'.c-h502-fonrobert-genres-resist-western
  29. p. 4, p. 4Os autores consideram mais provável que o verdadeiro matador de Golias tenha sido Elanã, e que a versão famosa de 1 Samuel 17 seja um desenvolvimento posterior para realçar a imagem heroica do rei Davi. O duelo bíblico, concluem, provavelmente não reflete o que aconteceu.c1-goliath-elhanan-likely
  30. p. 4, p. 4Os estudiosos modernos não querem minar crenças religiosas: seguem um modo de conhecer baseado em evidências empíricas, questionamento livre e explicação racional, e não na tradição. Como juízes num julgamento, querem ouvir várias testemunhas e interrogá-las antes de concluir.c1-scholarly-method
  31. p. 4, p. 4Para a erudição moderna, o que a Bíblia diz sobre o passado fica mais crível quando fontes independentes o confirmam: textos escritos fora da Bíblia (inscrições de Israel e textos de outras culturas do Oriente Próximo) e a arqueologia. A confirmação às vezes ocorre, mas com mais frequência as evidências desafiam o que se acreditava ou tratam de aspectos que a Bíblia não registra.c1-corroboration
  32. p. 4Os dois tipos de evidência se complementam: os textos revelam o que as pessoas pensavam e como se expressavam; a arqueologia (cerâmica, ruínas, ferramentas, armas, joias) mostra o que faziam, o que comiam, como trabalhavam, lutavam e enterravam seus mortos.c1-two-kinds-of-evidence
  33. p. 4, p. 4A erudição bíblica hoje vive um debate vivo e sem solução sobre o que realmente ocorreu na história israelita: alguns acham que a Bíblia ensina muito sobre o antigo Israel; outros propõem relatos alternativos que divergem dela ou a contradizem. Os autores lembram que essas reconstruções são sempre hipotéticas.c1-debate-unresolved
  34. p. 4, p. 4Canaã foi habitada continuamente desde a pré-história e abriga alguns dos assentamentos mais antigos conhecidos, como o local da futura Jericó, ocupado já por volta de 9000 a.C. A Bíblia reconhece que havia gente ali antes dos israelitas, e as evidências literárias e arqueológicas confirmam isso.c1-canaan-ancient-settlement
  35. p. 4A cultura de Canaã sempre esteve ligada à topografia da região: uma faixa costeira a oeste, vales férteis e serras ásperas no interior, deserto a leste e ao sul.c1-canaan-geography
  36. p. 4, p. 4Na Idade do Bronze Tardio (c. 1550 a 1200 a.C.), Canaã era dominada por cidades-Estado como Hazor, Megido e até Jerusalém, governadas por reis que controlavam o território ao redor. Esses reis às vezes disputavam entre si, mas todos deviam obediência ao rei do Egito, que governava a região como parte de seu império.c1-late-bronze-city-states
  37. p. 4, p. 4O pano de fundo geográfico que a Bíblia registra é exato: há histórias no Negev, nas serras perto de Jerusalém e no norte, junto ao mar da Galileia e ao monte Carmelo. Quem produziu Gênesis, Juízes e Samuel conhecia o terreno, o clima, os animais e as plantas da antiga Canaã.c1-bible-knows-canaan
  38. p. 4Nas fontes antigas, a divisão costuma ser étnica: crentes 'dentre os judeus' e 'dentre os gentios'. Com o tempo, 'cristão' passou a soar, para muitos ouvidos judeus, como algo gentio e não judaico; por isso vários judeus crentes modernos rejeitam o rótulo 'judeu cristão'.cjb-term-christian-shift
  39. p. 5, p. 5Perguntas básicas seguem em aberto: quando os israelitas apareceram em Canaã; se eram migrantes ou refugiados, como diz Gênesis, ou se surgiram da população local; se a história deles ali começou com uma conquista violenta, como em Josué. Só duas coisas são certas: muitos estudiosos duvidam do que a Bíblia diz sobre os primórdios de Israel, e ela não conta a história toda.c1-open-origin-questions
  40. p. 5, p. 5, p. 519Um povo chamado 'Israel' já estava em Canaã no século XIII a.C. Sabemos disso porque ele é mencionado num hino de vitória do reinado do rei egípcio Merneptá (c. 1213 a 1203 a.C.), gravado numa estela que pode ser datada com precisão. A cronologia do livro registra que, em 1207 a.C., o povo de Israel já aparecia vivendo em Canaã.c1-merneptah-israel
  41. p. 5, p. 5Os versos da estela listam inimigos derrotados por Merneptá em Canaã: a própria Canaã, Ascalon, Gezer, Yanoam e Israel, este último dado como arrasado e sem descendência. A afirmação era exagerada, pois, nas palavras irônicas dos autores, de outro modo este livro teria sido muito curto.c1-merneptah-text
  42. p. 5, p. 6Os egípcios usavam sinais especiais para indicar o tipo de coisa que uma palavra designava. Na estela, Ascalon, Gezer e Yanoam levam o sinal de cidade-Estado, enquanto Israel leva o de povo ou grupo étnico. A diferença pode indicar que os primeiros israelitas não se ligavam a uma cidade, mas eram um povo rural ou nômade, o que combina com a descrição de Gênesis.c1-merneptah-determinative
  43. p. 5A introdução do Handbook liga o domínio nazista na Europa a engenharia demográfica na qual a aniquilação dos judeus era a aspiração central, articulada a nacionalismo e pensamento racial.c-h502-hayes-demographic-engineering-core
  44. p. 6, p. 6A única explicação do nome Israel vinda de uma fonte israelita está em Gênesis, onde é outro nome de Jacó. Há duas versões de como Jacó o recebeu: em Gênesis 32, depois de lutar com Deus, e em Gênesis 35, num lugar depois chamado Betel, sem luta. Isso mostra que havia mais de um entendimento do nome dentro do próprio Israel.c1-name-israel-genesis
  45. p. 6, p. 6É provável que a Bíblia registre entendimentos tardios de um nome cujo sentido original se perdera. Como em Canaã 'El' podia ser o deus cananeu El, estudiosos sugerem que 'Israel' descrevia a ação dessa divindade ('El prevaleceu', 'El lutou', 'El protegeu'): um palpite fundamentado. Depois do século I d.C., alguns judeus o entenderam como 'o homem que viu Deus'.c1-name-israel-alternatives
  46. p. 6Não existem fontes escritas sobre a história de Israel entre a estela de Merneptá e o século IX a.C., o que deixa um vazio documental justamente no período em que a sociedade israelita se formava em Canaã.c1-documentary-gap
  47. p. 6, p. 6Pela Bíblia, os israelitas não começaram como cananeus, mas como forasteiros: Abraão teria ido com Sara a Canaã, por ordem de Deus, vindo de uma região entre o Tigre e o Eufrates. Mesmo depois de se fixarem, mantinham laços com lá: Abraão manda buscar esposa para Isaac na Mesopotâmia, e Jacó encontra ali Lia e Raquel.c1-bible-immigrant-story
  48. p. 6, p. 6Independentemente de Abraão ter existido, a Bíblia registra uma geografia do Oriente Próximo coerente com o que se sabe por outras fontes. A Mesopotâmia abrigou sumérios, assírios e babilônios, e Ur, cidade antiga de lá, é provavelmente a mencionada em Gênesis 12 como terra natal de Abraão; a Babilônia é a Babel de Gênesis 11.c1-mesopotamia-geography-fits
  49. p. 7, p. 7A torre de Babel lembra um grande templo-torre erguido na Babilônia, bem depois da época em que Abraão teria vivido; isso sugere que o relato foi composto relativamente tarde.c1-tower-of-babel-late
  50. p. 7, p. 7Estudiosos tentaram dar plausibilidade histórica aos patriarcas ligando-os aos Amurru, povo conhecido por fontes mesopotâmicas como 'ocidental', talvez nômade na origem e proeminente entre 2000 e 1600 a.C. Esse seria, aproximadamente, o período de Abraão se se contar de trás para a frente a partir de um Davi por volta de 1000 a.C. com a cronologia bíblica. O esforço ficou conhecido como a hipótese amorita.c1-amorite-hypothesis
  51. p. 7, p. 7Não há como provar a hipótese amorita. Procurar um pastor nômade como Abraão nos escassos vestígios do passado é mais difícil do que achar uma agulha num palheiro, pois nem se sabe em que período procurar. Também não se pode provar que ele não existiu.c1-abraham-unprovable
  52. p. 7, p. 7Em Hebron, na Cisjordânia, religiosos judeus veneram a Caverna de Macpelá como túmulo de Abraão. A identificação se desenvolveu entre judeus e cristãos na Antiguidade e não se apoia em evidência de que Abraão e seus descendentes estejam ali enterrados; o local está envolvido no conflito entre israelenses e palestinos.c1-cave-of-machpelah
  53. p. 7, p. 7Nomes parecidos com Abrão e Jacó aparecem em fontes mesopotâmicas do início ou meados do segundo milênio a.C., e costumes descritos em Gênesis (adoção de um servo como herdeiro, arranjo de casamentos, bênçãos no leito de morte) pareciam, à primeira vista, combinar com textos de sítios como Nuzi. Esses paralelos foram lidos como memória de uma origem nômade ligada à Mesopotâmia.c1-patriarch-parallels
  54. p. 7, p. 7Os autores chamam isso de pouco mais que adivinhação fundamentada: nenhum acontecimento específico de Gênesis pode ser confirmado, e a ligação com os amorreus se mostrou pouco convincente. Um Abraão poderia ter vivido mil anos depois dos Amurru, pois seu nome e seu nomadismo têm paralelos de épocas posteriores.c1-patriarchs-guesswork
  55. p. 7, p. 7O próprio Gênesis traz sinais de composição tardia: diz que a família de Abraão veio de 'Ur dos caldeus', mas os caldeus só são conhecidos por fontes do século IX a.C. em diante; e menciona os filisteus, que só surgem em Canaã depois de cerca de 1200 a.C. As lembranças reais que houver parecem inseridas numa narrativa de época posterior.c1-genesis-anachronisms
  56. p. 7Até hoje não há método acordado para separar, em Gênesis, a experiência histórica genuína da invenção ficcional, e muitos estudiosos são céticos quanto à maior parte do que o livro afirma sobre o passado.c1-genesis-no-method
  57. p. 7, p. 8Segundo a Bíblia, José, filho de Jacó, foi levado como escravo ao Egito e chegou, graças à interpretação de sonhos, ao segundo posto do reino; durante uma fome em Canaã, o pai e os onze irmãos foram viver lá. Seus descendentes, as 12 tribos, prosperaram até que um novo rei os escravizou. Moisés, criado na casa da filha do rei, os libertou com dez pragas, e eles partiram, atravessando o mar Vermelho, que Deus abriu e fechou sobre os egípcios.c1-exodus-story
  58. p. 7A mesma ideologia religiosa racista que operava em Portugal foi estendida ao Brasil, onde cristãos-novos ocupavam posições econômicas relevantes.c9-brazil-racist-ideology
  59. p. 7A acusação de judaísmo pairava sobre os cristãos-novos e servia à repressão religiosa na colônia.c9-brazil-judaism-accusation
  60. p. 8A palavra 'Êxodo' vem do grego, 'saída', usada pelos cristãos como título do livro bíblico que conta essa história.c1-exodus-name
  61. p. 8, p. 8Os autores perguntam o que do Êxodo bíblico pode ser confirmado como evento histórico: se os israelitas foram escravos no Egito, se houve um Moisés que os libertou e se eles atravessaram o deserto do Sinai antes de se fixar em Canaã.c1-exodus-questions
  62. p. 8, p. 8O Egito era real e já mantinha contato com Canaã desde antes da escrita: egípcios iam a Canaã como viajantes, soldados, comerciantes e, quando Canaã estava sob seu domínio, administradores; cananeus iam ao Egito como migrantes, escravos e comerciantes (o próprio nome Canaã talvez derive de 'comerciante'). O hieróglifo e o reinado surgiram ali por volta do quarto milênio a.C.c1-egypt-canaan-traffic
  63. p. 8, p. 8A Mesopotâmia, a planície entre o Tigre e o Eufrates, é onde surgiu a primeira civilização; a mais antiga conhecida ali foi a suméria. A irrigação avançada gerou assentamentos maiores, e cidades como Uruk viraram cidades-Estado com governantes dinásticos. Um deles, Sargão, fundou o primeiro império da história e, segundo a lenda, como Moisés, foi posto num cesto no rio, criado por um jardineiro real ou tirador de água, e chegou a rei.c1-box-mesopotamia
  64. p. 8, p. 8O Nilo, ao contrário do Tigre e do Eufrates, inundava de forma regular e previsível, e o Egito teve menos migrações e invasões, de modo que alcançou mais estabilidade política. Sua história se divide em Antigo, Médio e Novo Reinos, com três 'períodos intermediários'. Israel surgiu no fim da era dominada pelo Novo Reino, no auge sob Ramsés II (1279 a 1212 a.C.), quando este deu lugar ao Terceiro Período Intermediário.c1-box-egypt
  65. p. 8, p. 8No fim do terceiro milênio a.C., os sumérios foram superados pelos acadianos, de Acade (de onde vinha Sargão), que substituíram o sumério por uma língua semítica, o acadiano. Do que restou desse império nasceram duas variantes: a Assíria, no norte, e a Babilônia, no sul. Os impérios neoassírio e neobabilônico aparecem na Bíblia como grandes ameaças a Israel: os assírios exilaram 10 das 12 tribos, e os babilônios destruíram Jerusalém e exilaram a população cujos descendentes seriam os judeus.c1-box-assyria-babylon
  66. p. 9, p. 9A imagem bíblica de israelitas indo e voltando entre Canaã e o Egito, como agentes do governo egípcio ou escravos, é plausível em termos gerais. Mas mostrar que algo é possível não prova que o Êxodo ocorreu, e o silêncio das fontes fora da Bíblia leva alguns a concluir que não ocorreu.c1-exodus-general-plausibility
  67. p. 9, p. 9A estela de Merneptá é a única referência a Israel na literatura egípcia desse período, e o povo a que se refere já vive em Canaã: nada sugere ex-escravos, pragas ou travessia do mar. Nem o período do Êxodo se consegue determinar: uns o põem no século XV a.C., outros no XIII, e a cronologia bíblica não casa de forma clara com outras fontes.c1-merneptah-silence
  68. p. 9, p. 9O episódio em que a mãe de Moisés o põe num cesto no Nilo é suspeitamente parecido com uma lenda de outros líderes do Oriente Próximo, como Sargão I, fundador do primeiro grande império mesopotâmico por volta de 2300 a.C., cuja inscrição conta que a mãe o deixou num cesto de juncos no rio e ele foi achado por um tirador de água, Akki, que o criou.c1-moses-sargon-legend
  69. p. 9, p. 10Assim como o retrato de Davi pode ter sido enriquecido com material ligado a outros heróis, o de Moisés pode refletir uma expansão ficcional parecida. Isso não exclui um Moisés real, mas não está claro onde traçar a linha entre fato e ficção no relato bíblico.c1-moses-real-or-fiction
  70. p. 9, p. 9Os filisteus parecem ter feito parte dos Povos do Mar, saqueadores marítimos de origem egeia que dominaram o Mediterrâneo oriental no fim do segundo milênio a.C. e ameaçaram o Egito na época de Ramsés II e Merneptá. Instalaram-se no litoral sul de Canaã no século XII a.C. e fundaram cinco cidades-Estado: Gaza, Ascalon, Asdode, Ecrom e Gat. De seu nome vem a palavra Palestina, usada por gregos e romanos.c1-box-philistines
  71. p. 9, p. 9Os fenícios também viviam no litoral de Canaã (norte do atual Israel e Líbano), mas, ao contrário dos filisteus, eram um povo cananeu de cultura parecida com a dos israelitas. Urbanos, sediados em cidades como Biblos e Tiro, eram comerciantes e navegantes que fundaram colônias pelo Mediterrâneo, entre elas Cartago, na atual Tunísia.c1-box-phoenicians
  72. p. 9, p. 9Os arameus, da Síria, parecem ter sido seminômades, mas na época da consolidação política de Israel formavam reinos entre a Assíria e os reinos neo-hititas. Eram uma ameaça ocasional a Israel, mas foram subjugados pelos assírios. Sua língua, o aramaico, tornou-se língua internacional do Oriente Próximo, usada na administração por muitos não arameus, inclusive judeus.c1-box-arameans
  73. p. 9, p. 9A leste do Jordão viviam amonitas, moabitas e edomitas, de cultura muito parecida com a israelita e ligados por Gênesis a Israel por laços de parentesco (amonitas e moabitas a Ló, sobrinho de Abraão; edomitas a Esaú, irmão de Jacó), embora também descritos como rivais hostis. Cada povo formou um reino na época em que Israel formava sua monarquia, e os edomitas sobreviveram até o século I a.C., quando seus descendentes eram chamados de idumeus.c1-box-transjordan
  74. p. 9, p. 9Na Bíblia, os cananeus são os habitantes da terra a oeste do Jordão, que segundo os cinco livros de Moisés deveriam ser expulsos e ter o nome apagado; outras fontes bíblicas sugerem que persistiram como escravos sob o domínio de Israel. Entre eles estavam os jebuseus, habitantes de Jerusalém antes de Davi, que podem ter continuado ali como escravos ou classe baixa mesmo depois da conquista.c1-box-canaanites
  75. p. 9, p. 9, p. 3Esses convertidos e conversos medievais e modernos iniciais são judeus (ou descendentes de judeus) ligados à fé cristã, no sentido étnico do eixo. Não formam, porém, uma igreja 'nazarena' contínua desde a Antiguidade: são fenômenos de missão, coerção, polemica e pressão social dentro da Cristandade latina, distintos das seitas patrísticas.cjb-medieval-not-nazarene-line
  76. p. 9, p. 3Afirmar continuidade comunitária ininterrupta entre nazarenos antigos e o judaísmo messiânico contemporâneo é posição frágil. O que a historiografia sustenta com mais segurança é a recorrência, em vários séculos, de judeus que creram em Jesus, sob nomes e condições diferentes.cjb-not-simple-continuity
  77. p. 10, p. 10Os hicsos (do egípcio 'governantes de terras estrangeiras') eram uma linhagem de governantes asiáticos, possivelmente da própria Canaã, que controlaram parte do Egito no século XVII a.C. e foram expulsos pelos egípcios nativos no século XVI a.C.c1-hyksos
  78. p. 10, p. 10, p. 10A expulsão dos hicsos lembra o Êxodo (um novo rei que não se lembra de José e teme os israelitas, seguido da fuga de Israel), e alguns veem o domínio hicso como pano de fundo para a ascensão de José. Já o historiador egípcio Manetão, há mais de 2.000 anos, misturava as duas histórias. Os autores, porém, hesitam em ligar o Êxodo a um evento específico, pois o tráfego entre Canaã e o Egito era constante.c1-hyksos-exodus-link
  79. p. 10, p. 10Textos egípcios de 1500 a 1100 a.C. mencionam também os Shasu, seminômades da região da Palestina, outro candidato a 'proto-israelitas', como o eram os Habiru. Faltam provas para decidir; é possível até que a Bíblia tenha absorvido lembranças de vários desses grupos: amorreus, hicsos e shasu.c1-shasu-habiru-candidates
  80. p. 10, p. 15Um relevo do templo egípcio de Karnak, do século XIV a.C., mostra os Shasu depois de derrotados pelos egípcios; alguns estudiosos os identificam como os primeiros israelitas ou como o povo de que os israelitas descenderam. O livro nota também que, se for uma imagem dos primeiros israelitas, eles seriam indistinguíveis dos outros cananeus.c1-shasu-karnak-relief
  81. p. 10, p. 10Sem poder verificar o relato bíblico, muitos estudiosos recentes defendem outra explicação, divergente da Bíblia: os israelitas não vieram de fora, nem da Mesopotâmia nem do Egito, mas a cultura israelita surgiu dentro de Canaã, como um ramo da cultura indígena local. O esforço bíblico de distinguir Israel dos cananeus seria, nessa hipótese, historicamente enganoso.c1-indigenous-hypothesis
  82. p. 10, p. 10Pelo livro de Josué, Israel se estabeleceu destruindo cidades como Jericó e Ai, mas não há evidência arqueológica clara dessa conquista maciça. Algumas cidades, como Hazor, mostram destruição, sem prova de que os israelitas a causaram; outras, supostamente destruídas, não têm sinais de violência. Ai nem parece ter sido habitada nesse período.c1-no-conquest-evidence
  83. p. 10A identidade cristã-nova no Brasil resultou em grande parte da pressão externa de leis, costumes, propaganda e preconceitos.c9-brazil-identity-pressure
  84. p. 10Novinsky argumenta que costumes e tradições judaicas persistiram na América portuguesa ao longo de séculos.c9-brazil-judaism-persistence
  85. p. 11Quanto à célebre conquista de Jericó, não há evidência de destruição nesse período: a cidade, na época, nem sequer tinha muralhas para desabar.c1-jericho-no-walls
  86. p. 11, p. 11A própria Bíblia é incoerente: segundo Juízes 1:8, a tribo de Judá atacou Jerusalém, matou seus habitantes e a incendiou; alguns versículos adiante (1:21), a tribo de Benjamim não a conquistou e os jebuseus continuam a viver ali com eles. Duas tradições sobre a tomada de Jerusalém, com tribos e resultados diferentes, sem como saber qual crer.c1-jerusalem-two-accounts
  87. p. 11, p. 11O que a arqueologia revelou foi o crescimento rápido de povoados nas terras altas centrais de Canaã na época associada a Josué: antes pouco habitadas, porque eram difíceis de cultivar e tinham pouca água, elas foram ocupadas com terraços nas encostas e cisternas. Os povoados parecem novos e se multiplicam depois de cerca de 1200 a.C.c1-highland-settlements
  88. p. 11, p. 11Não há indício claro de que os habitantes desses povoados fossem imigrantes vindos do Sinai ou do Egito: casas e cerâmica são difíceis de distinguir das da população local. A tese de que seriam ex-nômades também não se sustenta. Sem a história bíblica do Êxodo e da conquista, não haveria razão para supor que não fossem cananeus pressionados por razões econômicas ou sociais a ocupar uma região áspera fora do controle das cidades-Estado.c1-highland-settlers-local
  89. p. 11, p. 11Centenas de textos da antiga cidade-Estado síria de Ugarit, próspera nos séculos XIV e XIII a.C., são das melhores fontes sobre a cultura cananeia anterior a Israel. Os ugaríticos não viviam em Canaã, mas sua cultura, religião e mitologia eram aparentadas às dos cananeus: El, deus criador supremo; Aserá, sua consorte; e Baal, deus guerreiro ligado à fertilidade.c1-ugarit-texts
  90. p. 11, p. 11A literatura ugarítica descreve os deuses de modo paralelo ao Deus da Bíblia, que recebe títulos de El ou Baal (em Gênesis 14:19 é 'El Elyon', El o Altíssimo). Há paralelos também no ritual e na forma literária, como o paralelismo poético, em que as duas metades de um verso se correspondem.c1-ugarit-biblical-parallels
  91. p. 11Uma figura de bronze de divindade masculina, provavelmente o deus cananeu da tempestade Baal, de cerca de 1400 a 1300 a.C., o mostra como guerreiro pronto para lançar uma lança ou um raio, imagem comparável à descrição de Deus no Salmo 18.c1-baal-figurine
  92. p. 11, p. 419Fontes cristãs e judaicas antigas mencionam 'nazarenos' / 'nazorenos' (e termos aparentados) como designação de judeus ligados a Jesus. A reconstrução moderna depende de Irineu, Orígenes, Epifânio, Jerônimo e outros, com lacunas e polemicas; o desaparecimento do nome no século IV não prova o fim de todos os judeus crentes.cjb-nazarenes-name
  93. p. 12, p. 12O hebraico, língua da maior parte da Bíblia, é chamado às vezes de 'yehudit', língua de Judá (os israelitas do norte falavam um dialeto um pouco diferente). Pertence ao ramo ocidental das línguas semíticas, junto com árabe, aramaico e ugarítico, e seus parentes mais próximos são as línguas de Canaã: moabita, amonita, edomita e fenício. Se os ancestrais de Israel viessem da Mesopotâmia ou do Egito, esperar-se-ia outra língua.c1-hebrew-language
  94. p. 12, p. 12Os filisteus chegaram à costa de Canaã no início do século XII a.C., parte de uma migração maior dos 'Povos do Mar', vindos do mundo egeu micênico. A cerâmica filisteia é uma variante da micênica; o urbanismo, o artesanato, a roupa e os hábitos (comiam porco e bebiam vinho misturado com água) apontam para o Egeu, e até a palavra seren, 'governante', provavelmente se relaciona com o grego tyrannos.c1-philistines-aegean
  95. p. 12, p. 12Pode-se demonstrar que os filisteus eram forasteiros porque sua cultura distinta aparece nos registros arqueológico e linguístico e remonta a outra parte do mundo. Com os israelitas não é assim: língua, religião e cultura material os ligam à cultura cananeia anterior, como se fossem um desdobramento dela.c1-philistines-vs-israelites-origins
  96. p. 12Se os israelitas saíram da população nativa de Canaã, como passaram a se ver como diferentes e como forasteiros que haviam deslocado os antigos habitantes? Os autores dizem que é uma pergunta ainda em investigação e que não sabem a resposta.c1-self-image-puzzle
  97. p. 12, p. 12A transição da Idade do Bronze Tardio para o início da Idade do Ferro, nos séculos XIII e XII a.C., foi marcada por convulsão política, descentralização e migrações em grande escala. O Novo Reino egípcio e o reino hitita declinaram, centros como Ugarit foram destruídos, as redes comerciais ruíram, e em Canaã decaíram as cidades, cortaram-se os laços com o Egito, chegaram novos povos como os filisteus e a economia se tornou mais rural.c1-bronze-iron-upheaval
  98. p. 12, p. 12Com a retirada de grandes potências como o Egito, povos menores preencheram o vazio e se uniram em reinos, como os moabitas e edomitas, vizinhos de Israel unidos por uma cultura comum e pela fidelidade a um deus nacional. A emergência de Israel pode ser entendida como parte dessa tendência mais ampla.c1-new-small-kingdoms
  99. p. 12, p. 12, p. 13Cartas descobertas em El-Amarna, no Egito, em 1887, enviadas ao rei egípcio por governantes de cidades-Estado cananeias, como Tiro, Siquém e Jerusalém, mostram que governar Canaã era difícil. Os egípcios tinham um governador em Gaza, mas governavam sobretudo por reis locais, sempre em desavença. As cartas também informam sobre a língua cananeia da qual o hebraico evoluiu.c1-amarna-letters
  100. p. 12Segundo a síntese de Reif sobre Zunz, nomes de ritos tomados de países de origem não implicam uniformidade em todo o território: na Idade Média fronteiras eram fluidas e regiões distantes podiam compartilhar o mesmo rito enquanto vizinhas divergiam.cl-zunz-rite-names-not-uniform
  101. p. 13, p. 13Nas cartas de Amarna aparece um grupo chamado Habiru (ou Hapiru), cujo sentido é incerto: talvez 'fazedor de poeira' ou 'vagabundo'. O termo se aplicava a pessoas em posição instável e marginal, como trabalhadores, mercenários, fugitivos e rebeldes, concentrados fora do controle das cidades-Estado; podiam ser bandoleiros ou foragidos, cananeus vivendo além do alcance de seus reis e dos egípcios.c1-habiru-definition
  102. p. 13, p. 13É difícil datar os eventos da Bíblia, pois sua cronologia é inverossímil (Matusalém teria vivido 969 anos) ou vaga demais. Uma cronologia parcial pode ser montada cruzando a bíblica com fontes externas. Ficam de fora a viagem de Abraão, o Êxodo e a conquista de Canaã, não por se poder provar que não ocorreram, mas por não poderem ser situados com segurança na história conhecida.c1-chronology-box-intro
  103. p. 13, p. 519Várias fontes documentam a chegada dos Povos do Mar à costa sudeste do Mediterrâneo por volta de 1180 a.C., movimento que incluiu os filisteus, que se estabeleceram no litoral sul de Canaã. A presença filisteia é fácil de discernir na arqueologia, e eles se expandiram para Canaã depois da morte do faraó Ramsés III, em 1153 a.C., quando terminou o controle egípcio. Foi presumivelmente então que encontraram os israelitas.c1-sea-peoples-philistine-arrival
  104. p. 13, p. 519Por volta de 925 a.C., o rei Sisaque do Egito invadiu Canaã. A Bíblia (1 Reis 14:26) o situa no quinto ano de Roboão, e sua invasão é o primeiro evento específico da Bíblia confirmado por uma fonte externa, um texto egípcio que descreve a campanha. Se a cronologia bíblica estiver certa, Salomão morreu cinco anos antes, em 930 a.C., o que coloca o surgimento da monarquia em Israel por volta de 1000 a.C.c1-shishak-confirmed
  105. p. 13, p. 13No século IX a.C., os reinos de Israel e Judá já existiam, como atesta uma inscrição de Tel Dan que menciona um rei de Israel e um rei da Casa de Davi. Não há, porém, evidência de que os dois reinos tenham sido unidos sob Davi e Salomão, como diz a Bíblia.c1-tel-dan-inscription
  106. p. 13, p. 519Em 853 a.C., Acabe, rei de Israel, participou de uma batalha contra os assírios, relatada apenas por uma fonte externa: um texto do rei assírio Salmanasar III. Fontes assírias e babilônicas também citam reis posteriores de Israel e Judá, até o início do século VI a.C. (Jeú, Ezequias, Joaquim, o último rei sobrevivente de Judá), e a ordem dos reinados confere com a Bíblia.c1-ahab-shalmaneser
  107. p. 13, p. 519A conquista e destruição do Reino do Norte pela Assíria (2 Reis 17), em 722 a 720 a.C., é confirmada por fontes assírias e babilônicas; inscrições comemorativas fragmentárias, edifícios de estilo assírio e cerâmica assíria importada confirmam o domínio assírio sobre o antigo reino.c1-assyria-conquers-israel
  108. p. 13, p. 519A conquista assíria de grande parte de Judá em 701 a.C. (2 Reis 18 e 19) é confirmada por documentação assíria, inclusive relevos detalhadíssimos de um palácio de Senaqueribe que mostram o cerco de Laquis, cidade judaíta.c1-assyria-conquers-judah-701
  109. p. 13, p. 13, p. 519A captura de Jerusalém pelos babilônios em 598 ou 597 a.C. (2 Reis 24) é confirmada por uma crônica babilônica, segundo a qual o rei da Babilônia marchou para o oeste, cercou a cidade de Judá, tomou-a no dia 2 de adar, prendeu o rei, nomeou outro de sua escolha e levou pesado tributo. Textos babilônicos também atestam judaítas na Babilônia e citam Joaquim, o rei cativo.c1-babylonian-chronicle-598
  110. p. 13Dois selos com o nome Baruque, provavelmente o escriba que redigiu as profecias de Jeremias, foram publicados, mas ao menos um deles é hoje suspeito de ser falsificação.c1-baruch-seals
  111. p. 14, p. 14Os Habiru intrigam os estudiosos pela semelhança do nome com 'hebreu', palavra que na Bíblia sempre se refere a Israel. Há problemas: Habiru parece ser uma classe social, não um grupo étnico, e aparece também fora de Canaã. Mesmo assim, alguns supõem que os israelitas saíram de Habiru refugiados nas montanhas, que se afirmaram quando o controle egípcio e as cidades-Estado entraram em declínio. Nenhuma evidência confirma isso.c1-habiru-hebrew
  112. p. 14, p. 14Tomadas em conjunto, as evidências levantam a possibilidade de que os israelitas tenham se originado de modo completamente diferente do que a Bíblia afirma. Não se deve ver isso como fato certo: depende de hipóteses discutíveis e o consenso, se existe, pode mudar. O certo é que não dá para presumir que se conheça a origem dos antigos israelitas; a Bíblia conta só parte da história.c1-origins-open
  113. p. 14, p. 14Duvidar da Bíblia não a torna inútil como fonte: uma inscrição egípcia comprova um povo chamado Israel em Canaã no século XIII a.C.; a existência de povos citados (egípcios, filisteus, assírios, moabitas, edomitas) é confirmável; e a descrição de terreno, clima e economia combina com a Canaã da Idade do Ferro (de cerca de 1200 ao século VI a.C.).c1-bible-still-valuable
  114. p. 14, p. 14O relato que se segue se concentra em acontecimentos registrados na Bíblia e também corroborados, ao menos em parte, por fontes externas, e deixa de lado os que não se confirmam, como o encontro com Deus no Sinai. Resulta numa imagem que começa a história de Israel não com Abraão ou o Êxodo, mas com eventos em Canaã depois do século XIII a.C., e que coincide em boa medida com o que a Bíblia conta entre cerca de 900 e 500 a.C.c1-method-corroborated-history
  115. p. 14, p. 14Seja qual for a origem dos israelitas, no século IX a.C. eles já haviam formado um Estado, uma entidade política governada de um centro. O rei Ezequias, que governou por volta de 700 a.C. durante o ataque assírio, é citado numa inscrição assíria, e arqueólogos descobriram o túnel que ele mandou construir para dar a Jerusalém uma fonte segura de água.c1-state-by-ninth-century
  116. p. 15, p. 15O fim do controle egípcio sobre Canaã no século XII a.C. foi uma das mudanças decisivas para a emergência de Israel. A Bíblia não lembra que Canaã fora colônia do Egito (guarda a lembrança de antepassados escravos no próprio Egito), mas memória e história concordam em que Israel teve de se libertar do Egito para formar uma sociedade independente. Um conto egípcio sobre o oficial Wenamun, que foi comprar madeira em Biblos e ouviu do governante local que fosse embora, sugere a independência crescente da região.c1-egyptian-control-ends
  117. p. 15, p. 15A Bíblia mostra os filisteus como grande ameaça antes da monarquia, e a arqueologia confirma que eles fixaram posição segura no litoral e começaram a se expandir para o interior de Canaã. A incursão pode ter empurrado moradores locais para o interior, o que explicaria a multiplicação de pequenos povoados nas terras altas centrais.c1-philistine-pressure
  118. p. 15, p. 15Alguns estudiosos acham que o primeiro Estado israelita surgiu como reação ao domínio filisteu. Em cidades como Bete-Semes, povoado de fronteira entre territórios israelita e filisteu escavado desde os anos 1990, achou-se evidência de fortificações elaboradas que exigiriam algum poder centralizado, presumivelmente um Estado israelita defendendo suas fronteiras.c1-beth-shemesh-fortifications
  119. p. 15, p. 15Em Bete-Semes e outros sítios, arqueólogos acharam práticas que distinguiam a população, presumivelmente proto-israelita, dos filisteus vizinhos: quase não há ossos de porco ali, ao passo que são frequentes em sítios filisteus. Os arqueólogos teorizam que o tabu do porco possa ter surgido nesse período como marca de diferença e lealdade, e explicação parecida foi proposta para a circuncisão, que a própria Bíblia ressalta como marca de diferença entre israelitas e filisteus.c1-pork-and-circumcision
  120. p. 15, p. 15Segundo essa teoria, até a chegada dos filisteus os israelitas não se distinguiam ativamente dos vizinhos; só depois, a começar pela região de contato mais estreito, desenvolveram uma consciência coletiva por meio de práticas culturais próprias. Os autores avisam que é só uma teoria e que ela não explica por que os israelitas também se distinguiram de outros cananeus; a identidade israelita, como a de muitos povos, pode ter se cristalizado como reação à ameaça, real ou percebida, de outro povo.c1-identity-as-reaction
  121. p. 15No glossário de Nulman, Amidá significa literalmente 'em pé': as dezoito bênçãos (hoje dezenove) recitadas diariamente em pé; no Shabat e festas dizem-se sete, e no Musaf de Rosh Hashaná nove.cl-amidah-standing-eighteen
  122. p. 16, p. 16Pela Bíblia, antes dos filisteus os israelitas eram uma confederação frouxa de tribos, unidas em tese pela ascendência comum. O livro de Juízes, nomeado pelos líderes temporários que os conduziam à guerra, registra tentativas de liderança hereditária que fracassam; só no conflito com os filisteus se estabelece um poder permanente e centralizado. Saul morre em batalha contra eles, junto com o filho Jonatas, e Davi os substitui e protege o reino da ameaça filisteia.c1-judges-to-kings
  123. p. 16, p. 16Segundo a Bíblia, Davi foi o ponto de virada: fez de Jerusalém a capital e, ao contrário de Saul, passou o poder ao filho Salomão, não sem violento conflito familiar que matou seus irmãos mais velhos Amnon, Absalão e Adonias. Salomão, descrito como governante de sabedoria extraordinária, organizou as tribos numa unidade política, juntou grande fortuna, dominou os reinos vizinhos e ergueu obras, entre elas o Templo de Jerusalém.c1-david-solomon-biblical-portrait
  124. p. 16, p. 16Nos primeiros 50 ou 60 anos do século XX, arqueólogos acreditaram ter achado evidências de Salomão: estábulos em Megido, um porto no mar Vermelho e fortificações em Hazor. A era salomônica parecia a primeira época realmente histórica do passado de Israel, confirmada por vários achados, até que o consenso erudito se fragmentou.c1-solomonic-archaeology-old
  125. p. 16, p. 16Nas últimas décadas, o consenso se rompeu. Alguns arqueólogos veem na descrição bíblica dos reinos de Davi e Salomão algo real, apontando estruturas impressionantes que provariam um Estado israelita no século X a.C.; outros acham que os achados atribuídos a esse período foram mal interpretados e pertencem a outras épocas. Ainda não há evidência clara e incontestável do reinado de Salomão, nem sequer de seu templo.c1-consensus-fractured
  126. p. 16As ruínas impressionantes visíveis hoje no Monte do Templo, em Jerusalém, são do Segundo Templo, e não há vestígio de uma estrutura anterior no local.c1-temple-mount-second-temple
  127. p. 16, p. 16Mesmo segundo a Bíblia, o reino de Davi e Salomão não durou. A monarquia foi controversa desde o início: o profeta Samuel advertira os israelitas dos perigos de um rei, e a política de Salomão de extrair trabalho forçado de seus súditos para suas grandes obras aprofundou as reservas. Quando o filho dele, Roboão, assumiu, Jeroboão liderou 10 das 12 tribos numa rebelião, deixando o reino davídico reduzido ao território da tribo de Judá.c1-monarchy-dissent
  128. p. 16, p. 16Jeroboão fundou no norte o Reino de Israel; os reinos de Judá e de Israel existiram lado a lado por dois séculos, até a Assíria destruir o do norte e exilar seus habitantes, as dez 'tribos perdidas'. O reino do sul, tão ligado ao território de Judá, era também chamado de Reino de Judá.c1-two-kingdoms
  129. p. 16, p. 16A inscrição de Dan, do século IX a.C., e fontes mesopotâmicas posteriores confirmam que os dois reinos existiam. Se houve algum dia um reino de Israel unido, abrangendo Judá e Israel, é questão em aberto: alguns defendem que sempre foram dois, o do norte surgindo primeiro, no século IX, e o de Judá só se consolidando depois da destruição do norte, no fim do século VIII a.C.c1-united-kingdom-open
  130. p. 16, p. 17O Reino de Israel, no norte, tinha laços estreitos com a Fenícia (Acabe casou-se com a fenícia Jezabel) e parece ter se beneficiado de maiores recursos agrícolas e comerciais. Judá, ao sul e mais isolado, era o menor e mais pobre, mas politicamente mais estável: no norte o poder passava de uma família a outra por golpes e assassinatos, enquanto a dinastia de Davi persistiu em Judá quase sem interrupção.c1-israel-vs-judah
  131. p. 16Nulman registra Arvit como nome do serviço noturno (de erev, 'tarde/noite'), usado de modo intercambiável com Maariv.cl-arvit-evening
  132. p. 16, p. 16Flusser afirma que a vida judaica no período do Segundo Templo girava em torno da halakhá, componente natural na Terra de Israel, mas aparentemente menos na diáspora: Filo relata judeus alexandrinos que tratavam as leis como mera alegoria, e alguns que ignoravam quase todos os mandamentos salvo Yom Kipur.c-h502-flusser-halakhah-land-vs-diaspora
  133. p. 16Flusser liga a fórmula nupcial mishnaica dat moshe veyehudit (m. Ketubot 7:6) a um possível esforço de marcar a prática judaica frente ao rito samaritano; depois leitores passaram a lê-la como decretos dos sábios, e yehudit cedeu lugar a dat Israel.c-h502-flusser-dat-moshe-veyehudit
  134. p. 17, p. 17A monarquia tentou criar, em Judá e em Israel, um centro político e religioso para a cultura israelita, concentrando poder, riqueza e símbolos religiosos sob controle real. Em Judá o centro era Jerusalém, onde ficavam o rei e um templo; a cidade, habitada por poucos milhares de pessoas no século X a.C., tinha no século VII a.C. uma população estimada em 25.000 ou mais.c1-monarchy-centralizes
  135. p. 17, p. 17Do ponto de vista histórico, é errado negar a existência do Templo de Salomão: embora nada dele sobreviva, a descrição bíblica não pode ser descartada como fantasia, pois combina em muitos aspectos com a arquitetura de templos de Canaã e da Síria da época. Mas também é certo que a busca por ele desviou muitos estudiosos.c1-temple-box-judgment
  136. p. 17, p. 17A reconstrução do Templo de Salomão baseia-se em 1 Reis 6 e 7, mas não se sabe como ele era, pois não há imagens contemporâneas nem evidência arqueológica. Entre 1909 e 1911, o aventureiro britânico Montagu Parker tentou achar o templo e seus tesouros sob o Monte do Templo, invadindo um local sagrado para os muçulmanos; a tentativa causou tumultos, e nenhum arqueólogo continuou a busca.c1-temple-reconstruction-unknown
  137. p. 17, p. 17Durante um tempo acreditou-se ter uma prova do Templo de Salomão: um ornamento do tamanho de um polegar, em forma de romã, com inscrição hebraica que sugeria ligação com o Templo. Em 2005, uma equipe designada para investigá-lo anunciou que a inscrição provavelmente era falsificação moderna.c1-ivory-pomegranate
  138. p. 17A ausência de evidência arqueológica do Templo de Salomão tornou-se um tema carregado politicamente, envolvido no conflito israelense-palestino sobre quem deve controlar Jerusalém.c1-temple-politicized
  139. p. 17Langer resume que os rabinos estruturaram a liturgia em torno de três núcleos: recitação do Shemá, Amidá e leitura da Escritura, embora muito mais tenha sido acrescentado com o tempo.cl-core-elements-shema-amidah-scripture
  140. p. 17Nulman lista Birkhot Hashahar como as bênçãos matinais que abrem o ciclo matutino no glossário litúrgico tradicional.cl-birkhot-hashahar
  141. p. 18, p. 18Segundo 1 Reis 12, Jeroboão construiu dois santuários nas fronteiras de seu reino, Betel no sul e Dã no norte, cada um com um bezerro de ouro, para dissuadir os israelitas de irem ao Templo de Jerusalém. Os bezerros não foram achados, mas em Dã se desenterrou um santuário imponente, com uma grande plataforma onde poderiam ter sido exibidos. O reino de Israel levou mais tempo para fixar a capital, finalmente em Samaria, onde um enorme palácio foi escavado.c1-jeroboam-sanctuaries
  142. p. 18, p. 18Judá e Israel compartilhavam língua e talvez a reverência ao mesmo deus, mas, segundo a Bíblia, desenvolveram duas formas de culto: Judá em Jerusalém, o norte em Dã e Betel. Surgiram também novas divisões de classe, sobretudo no mais rico reino de Israel, e profetas como Amós, em meados do século VIII a.C., protestam contra o egoísmo dos ricos e a exploração dos pobres.c1-two-cults-and-class
  143. p. 18Uma placa de marfim do palácio real de Samaria, capital do Reino do Norte, do século IX ou VIII a.C., mostra uma esfinge alada. Ela e cerca de 500 outros objetos de marfim achados no complexo do palácio sugerem a riqueza e a prosperidade da classe alta de Israel.c1-samaria-ivories
  144. p. 18, p. 18O redator do relato da monarquia que vai de Josué a 2 Reis, a chamada História Deuteronomista, era um crítico severo da monarquia: culpava a maldade dos reis pelas desgraças do povo e sugeria que Israel jamais devia ter pedido um rei. Quando a monarquia acabou em Israel (século VIII a.C.) e em Judá (século VI a.C.), pode haver súditos felizes com isso.c1-deuteronomistic-critic
  145. p. 18, p. 18Depois da queda da monarquia davídica no Exílio Babilônico, em 586 a.C., ela nunca foi restaurada, mas sua influência persistiu. O messianismo, a expectativa de que Deus enviaria um salvador de linhagem real para libertar Israel e reconstruir o Templo, nasceu da esperança pós-exílica de que Deus restauraria o rei. Deus é chamado de rei nas orações, e Jerusalém continua importante, como mostra a palavra sionismo, de Sião, sinônimo bíblico de Jerusalém.c1-monarchy-legacy
  146. p. 18Nulman define Hallel ('louvor') como o ciclo dos Salmos 113-118 usado na oração matinal em Rosh Hodesh, Hanuká e nas três festas de peregrinação.cl-hallel-psalms-festivals
  147. p. 19, p. 19A maioria dos antigos israelitas vivia em aldeias (uma estimativa fala em 66% da população de Canaã entre 1000 e 500 a.C.); as cidades eram minúsculas para os padrões atuais, e Jerusalém, no século X a.C., tinha provavelmente de 1.000 a 2.000 habitantes. O centro da vida social e econômica não era o palácio ou o templo, mas a casa, provavelmente ocupada pela família nuclear.c1-village-life
  148. p. 19, p. 19A Bíblia descreve todo o povo como uma grande família estendida: 12 tribos descendentes dos 12 filhos de Jacó (Rúben, Simeão, Levi, Judá, Dã, Naftali, Gad, Aser, Issacar, Zabulon, José, subdividida em Efraim e Manassés, e Benjamim). Gênesis conta a origem dos israelitas como a história de uma única família.c1-twelve-tribes
  149. p. 19, p. 19Combinando o testemunho bíblico e a arqueologia, estudiosos reconstroem a vida familiar: a planta mais comum era a da casa de quatro cômodos (provavelmente com mais), difundida em Canaã exatamente na época do povoamento israelita (por volta de 1200 a.C.). O térreo servia sobretudo para guardar mantimentos e abrigar os animais, que protegiam e aqueciam a casa; a família talvez morasse nos cômodos do fundo ou num segundo andar.c1-four-room-house
  150. p. 19, p. 19Casas dividiam pátios com parentes, e as aldeias vizinhas eram provavelmente parentes entre si. Segundo a Bíblia, cabia ao parente mais próximo vingar o assassinato de um membro da família (o que podia gerar ciclos de vingança) e, se um homem casado morria sem herdeiro, gerar um filho com a viúva para preservar a herança, prática chamada casamento levirato.c1-kin-obligations
  151. p. 19Meninos eram preferidos às meninas, e o primogênito aos mais novos, mas, estranhamente, na Bíblia os irmãos mais jovens costumam levar vantagem: Isaac suplanta o meio-irmão Ismael, Jacó leva a melhor sobre Esaú, José eclipsa Rúben, e Davi e Salomão se tornam reis embora tenham irmãos mais velhos com mais direito.c1-younger-siblings
  152. p. 19, p. 20Historiadores modernos chamam Israel de nação, mas isso não capta como os israelitas viam sua identidade: textos como Gênesis indicam que a família era essencial. Cada israelita rastreava sua família por ao menos cinco gerações; quem não se encaixava era considerado forasteiro, embora povos próximos, como os edomitas (descendentes de Esaú), fossem tidos como mais próximos de Israel na árvore genealógica do que os egípcios.c1-identity-as-kinship
  153. p. 19Para Langer, o Shemá reúne três passagens bíblicas (Dt 6:4-9, Dt 11:13-21 e Nm 15:37-41); o nome vem da primeira palavra de Dt 6:4 ('Ouve'/'Listen').cl-shema-three-passages
  154. p. 19Langer observa que os horários da Amidá acompanham as horas sacrificiais do Templo em Jerusalém, como seu substituto mais próximo; o Musaf festivo volta-se explicitamente às ofertas daquele dia.cl-amidah-times-match-sacrifices
  155. p. 20, p. 20A estrutura baseada em parentesco deixava à margem viúvas, órfãos e estrangeiros residentes, em posição muito vulnerável. Na Bíblia, Deus é 'pai dos órfãos e protetor das viúvas' (Salmo 68), e havia forte código de hospitalidade; mesmo assim, alguns israelitas eram desconfiados e às vezes abusivos com estranhos, problema que a Bíblia enfrenta repetidamente ('não oprimirás o estrangeiro', Êxodo 22:21).c1-kinship-and-vulnerable
  156. p. 20Nulman define Kabalat Shabat ('Receber o Shabat') como a abertura do serviço que dá as boas-vindas ao Shabat.cl-kabbalat-shabbat-opening
  157. p. 20Chazan separa 70 EC da 'exílio' demográfico: a derrota não tornou os judeus um povo exílico de imediato; só no séc. III, com a instabilidade na Palestina romana, emigraram em massa para a Mesopotâmia mais estável.c-h502-chazan-exile-third-century
  158. p. 21, p. 21O bem mais precioso de uma família israelita era a terra, fonte de seu sustento. Quando o rei Acabe tentou comprar o vinhedo de Nabote, este recusou, dizendo que Deus o proibia de ceder a herança dos antepassados (1 Reis 21:3). Por isso um dos piores castigos que os autores bíblicos imaginam é o exílio, a separação de Israel de sua terra.c1-land-and-exile
  159. p. 21, p. 21O pai ou avô era a autoridade máxima da casa e a passava a herdeiros homens; a mulher ficava sob controle masculino a vida toda, primeiro do pai e, no casamento (negociado entre o noivo e o pai dela), do marido. A casa era também um centro econômico (armazenamento, criação de animais, cerâmica e tecidos), em que as mulheres provavelmente tinham papel importante, mas seu papel principal era ter e criar filhos.c1-household-authority
  160. p. 21Na sociedade de Gênesis, a maior bênção que Deus dá a Abraão e seus descendentes, além da terra, é a descendência, sobretudo masculina. As mulheres dessa família (Sara, Hagar, Rebeca, Raquel, Lia, Bila e Zilpa) interessam ao narrador apenas na medida em que ajudam a realizar essa bênção.c1-matriarchs-and-offspring
  161. p. 21, p. 22, p. 28, p. 32Paul Phillip Levertoff (nascido Feivel em Orsha, Bielorrússia; m. 31 de julho de 1954) foi, segundo Quiñónez, pioneiro maior do movimento do cristianismo hebraico: judeu crente em Jesus, missionário e depois sacerdote anglicano em Londres, que buscou uma 'Hebrew Christian Church' com liturgia própria.cjb-levertoff-hebrew-christian
  162. p. 22, p. 22A escravidão era instituição aceita no Oriente Próximo, e Israel não fugia à regra. A memória central da fuga da escravidão inspirou abolicionistas modernos, mas a história do Êxodo não implica rejeitar a escravidão como instituição: a Bíblia sugere que os egípcios erraram porque os israelitas não mereciam esse tratamento. A memória do Êxodo gera simpatia por israelitas escravizados por outros israelitas, e a Bíblia limita essa servidão, mas a escravidão estava entranhada na sociedade e nunca ocorreu a quem escreveu a Bíblia aboli-la.c1-slavery-accepted
  163. p. 22, p. 22Os laços familiares foram postos sob grande tensão no Exílio Babilônico e, mais tarde, no domínio grego e romano, quando surgiram alternativas à vida familiar, como comunidades voluntárias (a cristã primitiva e a rabínica), que afastaram alguns homens das responsabilidades da família. Ainda assim, vestígios da estrutura familiar antiga persistiram, como a identificação tribal: os sobreviventes do Exílio ainda se diziam membros de tribos (a maioria de Judá, alguns de Levi e Benjamim), e isso continuou no século I.c1-family-ties-strained
  164. p. 22Hoje 'judeu' (de Judá) não implica identidade tribal em sentido prático, mas ela persiste: alguns judeus se identificam como descendentes dos levitas, a família encarregada na Bíblia de funções do culto, identidade passada de pai para filho e muitas vezes refletida em sobrenomes como Levi ou Levine.c1-levite-trace
  165. p. 22, p. 519A abertura política criada pelo fim do domínio egípcio começou a se fechar nos séculos IX e VIII a.C., quando o Império Assírio se expandiu da Mesopotâmia para a Síria e Canaã. Como fazia com outros reinos, a Assíria obrigou os reis de Israel e de Judá a se submeterem e pagarem tributo.c1-assyria-expands
  166. p. 22, p. 22O Reino do Norte, o maior dos dois, resistiu e foi destruído quando o rei assírio Salmanasar V e seu sucessor Sargão II esmagaram sua rebelião, em 722 a 720 a.C., fato corroborado por fontes assírias. Os assírios exilaram a população para outras partes do império; o que aconteceu às 'dez tribos perdidas' continua um mistério. Os samaritanos afirmam até hoje descender das tribos de Efraim e Manassés.c1-fall-of-samaria
  167. p. 22, p. 22Judá também foi conquistada pela Assíria, algumas décadas depois, sob Senaqueribe, e o relato bíblico (2 Reis 18 e 19) pode ser corroborado em parte. Segundo 2 Reis 18:13 e 14, Senaqueribe tomou todas as cidades fortificadas de Judá; Ezequias, que enviou uma mensagem ao rei assírio em Laquis, foi multado em trezentos talentos de prata e trinta de ouro.c1-sennacherib-bible-account
  168. p. 22, p. 23Os anais do próprio Senaqueribe contam, em termos compatíveis, que Ezequias não se submeteu, que ele sitiou 46 cidades fortificadas e incontáveis aldeias, deportou 200.150 pessoas, com seus animais, e tratou o resto como butim, e que prendeu Ezequias em Jerusalém 'como um pássaro numa gaiola'.c1-sennacherib-annals
  169. p. 22Nulman identifica Minhá como o serviço da tarde; em tempos do Templo o termo também designava a oferta de farinha.cl-minhah-afternoon
  170. p. 23, p. 23Senaqueribe não destruiu Jerusalém, como os assírios fizeram com Samaria, talvez porque Ezequias aceitou pagar uma multa, como diz 2 Reis 18:14. Mas a Bíblia diz que o que salvou a cidade foi a intervenção divina: um anjo matou 185.000 soldados assírios, e Senaqueribe voltou para casa. Nada disso consta na versão assíria, que descreve uma vitória típica. Cada autor tinha razões para dar sua versão: o bíblico destaca o poder de Deus; o assírio, o de Senaqueribe.c1-jerusalem-survival-accounts
  171. p. 23, p. 23O domínio assírio está bem atestado na arqueologia, com camadas de destruição, inscrições e restos de edifícios, e deixou marca profunda na literatura bíblica: grande parte da literatura profética (Isaías, Amós, Miqueias) vem do período assírio e registra medo, confusão e ressentimento. Ela interpreta a conquista como castigo divino, mas também vislumbra Deus vindo em socorro, como em Isaías 10:24 a 27.c1-assyria-prophecy
  172. p. 23Um painel do Obelisco Negro de Salmanasar III, de Nimrud, de cerca de 825 a.C., mostra o tributo do rei Jeú de Israel, de joelhos aos pés do rei assírio.c1-jehu-obelisk
  173. p. 23Para Nulman, Musaf designa originalmente o sacrifício adicional no Templo; na liturgia sinagogal torna-se o serviço adicional correspondente.cl-musaf-additional
  174. p. 23Nulman define Neilá ('fechamento') como o quinto e último serviço de Yom Kipur.cl-neilah-closing-yom-kippur
  175. p. 23No ensaio de Richard S. Levy no Handbook, uma definição clínica ampla de antissemitismo não basta para ligar preconceito ao genocídio: é preciso distinguir o corpo antigo e adaptável de atitudes anti-judaicas da disposição concreta de agir contra judeus.c-h502-hayes-antisemitism-attitude-vs-action
  176. p. 24, p. 24Sexo e sagrado parecem incompatíveis na Bíblia hebraica: antes da revelação no Sinai, Israel devia se abster de atividade sexual (Êxodo 19:15), e os sacerdotes tinham mais restrições. Deus nunca age de modo sexual, e seu culto, até onde se sabe, não envolvia sexo. Isso não significa condenação da expressão sexual em outros contextos: o Cântico dos Cânticos, atribuído a Salomão mas provavelmente escrito por outro, celebra o desejo erótico, que nunca é condenado.c1-box-sex-sacred
  177. p. 24, p. 24A Bíblia hebraica não trata o sexo como pecaminoso em si: Gênesis 1 o apresenta como cumprimento do primeiro mandamento, 'frutificai e multiplicai-vos'. Mas o reconhece como ato potencialmente destrutivo para a comunidade: segundo Levítico 18, a terra expulsou os cananeus em grande parte por sua conduta sexual. Ao mesmo tempo, a Bíblia admite poligamia (de homens) e relações com concubinas, e tolera o estupro de um modo que hoje seria inaceitável.c1-box-sex-community
  178. p. 24, p. 24Na cultura israelita, pais e maridos controlavam a atividade sexual das mulheres, e a sexualidade feminina fora desse controle era vista como vergonhosa e ameaçadora. A lei bíblica regula a vida sexual de homens e mulheres, mas impõe mais restrições às mulheres: o homem podia ter várias parceiras e se divorciar para casar com outra, mas a mulher não podia ter vários maridos, nem relações antes do casamento, nem iniciar o divórcio. A lei nunca proíbe explicitamente o lesbianismo, provavelmente porque o que as mulheres faziam entre si interessava pouco a seus legisladores.c1-box-women-control
  179. p. 24Nulman define Pesukay Dezimrah como 'versículos de canto': salmos que abrem o Shaharit; sefaradis chamam a seção de Zemirot.cl-pesukei-dezimrah-verses-song
  180. p. 25, p. 25Gênesis registra, na família de Jacó, episódios de violência e engano sexual: Diná foi violentada por um homem que depois se ofereceu para casar com ela; Rúben deitou-se com a concubina do pai; Judá teve relações com a nora Tamar, disfarçada, achando que era uma prostituta; e José foi assediado pela mulher de outro homem. Independentemente de terem ocorrido, os autores reconhecem que o comportamento sexual frequentemente envolvia violência e engano, e a lei bíblica buscava proteger os israelitas.c1-box-jacobs-children
  181. p. 25, p. 25Cientistas introduziram recentemente uma terceira fonte além dos textos e da arqueologia: o DNA. Comparando amostras genéticas de judeus com as de não judeus do mesmo lugar ou de judeus de outras partes, a análise mostra que as populações judaicas muitas vezes têm história genética própria: frequentemente se casaram com não judeus, mas também registram o efeito da endogamia. Os perfis de muitos judeus indicam ancestrais do Oriente Próximo.c1-box-genetics-sources
  182. p. 25, p. 25A pesquisa genética é nova e controversa, e alguns críticos questionam como as evidências são interpretadas; os nazistas usaram a biologia para justificar o genocídio, e há quem receie abuso semelhante. Um estudo famoso de 1997 (Skorecki, Hammer e outros, na revista Nature) indicou que os cohanim, homens judeus que se julgam descendentes da casta sacerdotal de Aarão, descendem de uma linhagem paterna comum de 2.000 ou 3.000 anos atrás; pesquisas mais recentes puseram em dúvida aspectos do estudo, e os próprios autores revisaram sua interpretação.c1-box-genetics-controversy
  183. p. 25Até agora, essa pesquisa não mudou de modo dramático a compreensão da história judaica antiga; se alguma coisa, confirmou uma visão bastante tradicional. Mas pode ampliar o conhecimento sobre a história reprodutiva dos judeus, e é especialmente interessante que revele algo sobre as ancestrais femininas, dada a dificuldade de recuperar informação sobre mulheres judias antigas. Os autores recomendam ceticismo, mas também abertura.c1-box-genetics-so-far
  184. p. 25, p. 26Na religião cananeia pré-israelita, ao menos na literatura de Ugarit, a morte era imaginada como uma divindade, Mot, um ser voraz que podia devorar multidões e até vencer os deuses: num mito, derrota o próprio Baal. A literatura bíblica talvez aluda ao mito de Mot, mas a morte não é uma divindade ali: a Bíblia hebraica não tem histórias de combate entre Deus e a morte nem rituais para afastá-la.c1-box-death-mot
  185. p. 25Nulman define Shaharit (de 'alvorada') como o primeiro serviço de oração do dia, pela manhã.cl-shaharit-dawn-service
  186. p. 25Nulman define Selihah/Selihot como oração penitencial de 'perdão': no rito ashkenazi, uma semana ou mais antes de Rosh Hashaná; no sefaradi, desde o primeiro de Elul; também em jejuns do ciclo anual.cl-selihot-forgiveness-elul
  187. p. 26, p. 26Profetas anteriores, como Samuel, Natã e Elias, concentravam-se no rei, mediando sua relação com Deus ou protestando contra seus abusos. Depois da conquista assíria, a profecia assumiu um novo papel: consolar, imaginar um futuro depois da conquista e expressar o desejo de vingança, num momento em que a independência política e a confiança na proteção de Deus estavam abaladas.c1-prophecy-new-role
  188. p. 26O Reino de Judá sobreviveu à conquista assíria porque, por algum motivo, os assírios o deixaram de pé, ainda que reduzido: destruíram muitas cidades e tomaram muito território, mas nunca destruíram a própria Jerusalém.c1-judah-survives-assyria
  189. p. 26, p. 26A conquista babilônica entre 598 e 586 a.C. foi bem mais devastadora. Os neobabilônios vinham do sul e estavam sob domínio assírio até o império assírio se desintegrar nas últimas décadas do século VII a.C.; em seguida, Nabucodonosor II (604 a 562 a.C.) buscou tomar os territórios assírios na Síria e em Canaã, elo com o Egito e o Mediterrâneo.c1-babylonian-threat
  190. p. 26, p. 26A Bíblia hebraica parece pouco interessada no problema da morte, comparada a outras literaturas do Oriente Próximo: a epopeia de Gilgamesh é em boa parte uma busca da imortalidade, e o Egito parece ter sido absorvido pela morte e pela vida após ela. Na Bíblia, os mortos vão para o Sheol, um lugar sombrio onde não falam; casos como Enoque e Elias, poupados da morte, e a ressurreição por Eliseu são raras exceções. Os israelitas acreditavam em fantasmas (1 Samuel 28), mas a Bíblia proíbe consultar os mortos ou lhes fazer oferendas.c1-box-death-sheol
  191. p. 26, p. 26Como outros povos do Oriente Próximo, os israelitas expressavam o luto de modo intenso: rasgavam as roupas, punham pó na cabeça, batiam no peito, raspavam o cabelo e entoavam lamentações; objetos achados em túmulos (joias, possíveis oferendas de comida, figurinhas) mostram a preocupação com os mortos. Mas a Bíblia não revela anseio de imortalidade: o ideal era uma vida longa, próspera e com muitos filhos. A morte de Abraão, velho (175 anos), com muitos descendentes e sepultado com Sara em terra sua, é o modelo da boa morte.c1-box-mourning-and-good-death
  192. p. 26Nulman registra que Shemoneh Esray ('dezoito') permanece o nome popular da Amidá mesmo depois de se acrescentar uma bênção, elevando o total a dezenove.cl-shemoneh-name-retained
  193. p. 26No glossário de Nulman, Tahanun é a oração suplicatória recitada nos serviços diários da manhã e da tarde.cl-tahanun-supplicatory
  194. p. 27, p. 27, p. 519Nabucodonosor conquistou Judá em 598 a.C., exilou seu rei Joaquim e pôs no lugar o tio dele, a quem rebatizou Zedequias. Judá poderia ter sobrevivido como vassalo, mas se mostrou inquieto: Zedequias aderiu a uma rebelião contra os babilônios, e Nabucodonosor voltou e destruiu de fato o Reino de Judá. Em 587 ou 586 a.C., queimou o Templo de Jerusalém e saqueou seu conteúdo, matou Zedequias e seus filhos e exilou na Babilônia uma parte substancial da população. A cronologia do livro registra a destruição do Primeiro Templo nesse ano.c1-destruction-of-judah
  195. p. 27, p. 27O livro de Jeremias, segundo mais longo livro profético depois de Isaías, mostra como os judaítas se adaptaram ao cativeiro. Em Jeremias 29, uma carta que o profeta teria escrito aos exilados não os incentiva a esperar o retorno, mas manda que se estabeleçam nas cidades para onde foram levados: construir casas, plantar jardins, casar-se, ter filhos e buscar o bem da cidade, pois no bem dela estará o bem deles.c1-jeremiah-letter
  196. p. 27, p. 27Diante da devastação completa, Jeremias não propõe restaurar de imediato o que se perdera (a terra de Canaã, a independência de Judá, o Templo): pede que seu público se adapte, aceite por ora o domínio estrangeiro e faça vida no exílio, ao mesmo tempo em que prevê uma 'nova aliança' com Deus que no futuro restituiria o perdido em forma renovada.c1-jeremiah-adaptation
  197. p. 27, p. 27Os documentos babilônicos do arquivo Murashu, de uma família de banqueiros de Nipur, mostram que judaítas viviam na Mesopotâmia no século V a.C. e se instalaram de fato: há muitos nomes identificados como judaítas, de indivíduos aparentemente integrados à vida social e econômica babilônica. Além dos nomes, pouco os distingue dos não judaítas; alguns davam aos filhos nomes babilônicos com nomes de deuses, como Shamash.c1-murashu-archive
  198. p. 27, p. 27Os exilados não perderam a ligação com a vida anterior: o mesmo livro de Jeremias que os aconselha a se fixar também pede esperança de longo prazo na restauração de Israel, com relação renovada com Deus, dinastia davídica revitalizada e até um povo israelita reunificado. Textos como esse são a melhor evidência de como a sociedade judaíta sobreviveu ao impacto, apesar de perder tantas instituições centrais, por meio de um processo de adaptação criativa.c1-exile-hope-and-identity
  199. p. 27, p. 27Aprender a se adaptar foi decisivo para a sobrevivência da cultura judaíta a longo prazo. Depois da era bíblica, seus descendentes, os judeus, seriam governados por outros estrangeiros (persas, gregos, romanos, muçulmanos e outros), e textos como Jeremias foram um recurso importante para lidar com isso, ao endossar a submissão como religiosamente aceitável e ao propor modos de manter a relação com Deus fora de Canaã.c1-adaptation-as-legacy
  200. p. 27, p. 27A Bíblia e as evidências externas mostram que a vida religiosa em Israel e Judá, embora com traços próprios, se parecia com a das culturas vizinhas. No centro da religião do Oriente Próximo estava a relação com os deuses, seres parecidos com os humanos, mas maiores, mais fortes e de vida muito mais longa; o templo era o cenário da interação entre deuses e humanos, e os mitos tentavam entender essa relação. Dois objetivos da prática religiosa eram a adivinhação, para discernir as intenções dos deuses, e a oração e o sacrifício, para obter sua boa vontade.c1-religion-near-east
  201. p. 28, p. 28Há paralelos israelitas para isso. Arqueólogos acharam santuários em Israel e Judá (não o Templo de Jerusalém), como o de Dã, no norte, e um templo em Arade, em Judá, cujo desenho, como o do Templo descrito na Bíblia, tem as características convencionais dos templos da Síria-Palestina. Alguns sacrifícios e rituais bíblicos se parecem com os de Ugarit, e os salmos têm contrapartidas no Oriente Próximo antigo. Deus tem características de divindade típica da região: criador, guerreiro, rei, que convoca conselhos celestes e esmaga seus inimigos.c1-israelite-cult-parallels
  202. p. 28, p. 28Como outras divindades, Deus era servido no santuário por uma classe de sacerdotes que supervisionavam sacrifícios e cultos. A Bíblia condena algumas técnicas de adivinhação vizinhas, mas permite a interpretação de sonhos e o sorteio. A profecia também tem paralelos: uma inscrição de Deir 'Alla, na Jordânia, registra as visões de Balaão, profeta não israelita citado na própria Bíblia (Números 22 a 24); e a Assíria também tem coletâneas de oráculos proféticos.c1-priests-and-prophecy-parallels
  203. p. 28, p. 28A Bíblia se opõe a imagens humanas e animais de Deus, e até hoje não foi achada nenhuma estátua dele; mas há evidência de que os israelitas acreditavam que seu deus residia no santuário, manifesto em símbolos que indicavam sua presença de modo indireto. A Arca da Aliança, uma espécie de estrado ou carro de Deus, servia a esse propósito. O traço talvez não seja exclusivo de Israel, pois outras culturas também usavam símbolos não representativos.c1-aniconism
  204. p. 28, p. 28Inscrições da época dos reinos de Israel e Judá citam deuses cananeus (Baal, Aserá, El), mas a divindade mais mencionada é um deus ausente da literatura de Ugarit e de outras fontes da religião cananeia, cujo nome se escreve YHWH. Fora da Bíblia, YHWH aparece em cartas, orações e bênçãos, e a forma abreviada 'yahu' está em muitos nomes pessoais (Uriyahu, 'YHWH é minha luz'; Netanyahu, 'YHWH deu'). Os nomes teofóricos com Javé sugerem a importância dessa relação para a identidade.c1-yahwistic-names
  205. p. 28Penner argumenta que, no judaísmo do Segundo Templo, não são sobretudo os horários em si que constroem identidade grupal, mas o significado distinto atribuído a certos tempos; em Qumran, práticas diárias mais extensas teriam contribuído para diferenciação.cl-times-group-identity
  206. p. 28No glossário de Nulman, Vidui é a confissão de pecados expressa nas orações de Yom Kipur e também nas orações diárias, além de formas especiais (como no leito de morte).cl-vidui-yom-kippur-glossary
  207. p. 29, p. 29Javé parece uma divindade nova em relação aos demais deuses de Canaã: não aparece na literatura de Ugarit nem em outra fonte cananeia, embora se conheçam alguns nomes de lugares e pessoas semelhantes. O nome Israel, que já existia no século XIII a.C., incorpora 'El', não uma forma de Javé. Javé parece surgir do nada, pela primeira vez num contexto datável com clareza no período da monarquia israelita, e só se podem fazer palpites fundamentados sobre sua origem.c1-yahweh-new-deity
  208. p. 29, p. 29Alguns estudiosos acham que Javé surgiu sob influência do rei egípcio iconoclasta Aquenáton (século XIV a.C.), que desenvolveu uma forma inicial de monoteísmo centrada no deus-sol Aton. Dado que talvez houvesse israelitas no Egito nessa época, alguns não resistem a ver aí influência sobre a ideia de Deus em Israel, entre eles Sigmund Freud, cujo livro Moisés e o monoteísmo popularizou a ideia.c1-akhenaten-theory
  209. p. 29, p. 29Apesar disso, é possível reconhecer continuidades entre Javé e a religião cananeia anterior. O judaísmo atual é monoteísta, mas a Bíblia guarda vislumbres de uma forma anterior de religião israelita muito mais próxima do politeísmo cananeu, que identificava Javé com El ou Baal e admitia deuses menos poderosos ao lado dele. Um vislumbre está no Salmo 89, onde se fala do 'conselho dos santos' e dos 'filhos dos els', expressão que pode significar 'deuses'.c1-early-polytheism-traces
  210. p. 29, p. 29Um desenho numa peça de cerâmica de Kuntillet Ajrud, posto avançado no Negev meridional do século VIII a.C., tem acima da maior figura em pé uma inscrição que menciona YHWH e 'sua Aserá', nome de uma deusa da religião ugarítica e cananeia. Alguns estudiosos identificam essa figura como Javé e a figura sentada como sua companheira Aserá, mas a interpretação é muito debatida, e muitos veem divindades egípcias.c1-kuntillet-figure
  211. p. 29Novinsky concentra-se no cristão-novo que permaneceu em terras portuguesas, mesmo podendo escolher a Holanda ou Recife.c9-bahia-focus-stayers
  212. p. 29Esse grupo, e não o surto sob ocupação neerlandesa, ligava-se aos cerca de duzentos e cinquenta anos de presença cristã-nova no Brasil.c9-bahia-long-persistence
  213. p. 29, p. 30, p. 21Em 1925 Levertoff publicou a liturgia hebraica Meal of the Holy King para cultos em Holy Trinity (Londres). Também ajudou a traduzir o Zohar para o inglês (Soncino). Quiñónez lê isso como ponte entre erudicao judaica e a prática do cristianismo hebraico, sem confundir o movimento com as seitas patrísticas.cjb-levertoff-liturgy-zohar
  214. p. 29Segundo Penner, há pouca evidência na Bíblia Hebraica de oração diária fixa ou de oração fortemente ritualizada em geral: o sacrifício é a forma preeminente de culto nesse corpus.cl-hb-little-fixed-daily
  215. p. 30, p. 30A referência mais antiga a Deus (YHWH) fora da Bíblia está numa inscrição moabita do século IX a.C., a Estela de Mesha, num contexto que o associa a Israel. Se a história dele recua mais, não se sabe; estudiosos tentam extrair sua origem de pistas na própria Bíblia.c1-mesha-yhwh
  216. p. 30, p. 30O sentido de YHWH é desconhecido, e nem se sabe como pronunciá-lo, pois suas vogais foram esquecidas: depois da era bíblica os judeus passaram a evitar pronunciar o nome, e as vogais hoje escritas vêm de Adonay, 'Meu Senhor'. A Bíblia sugere ligação com o verbo 'ser' (Êxodo 3:14, 'Eu sou quem sou'), mas alguns estudiosos acham que o nome vem da forma causativa, 'aquele que faz ser', isto é, o Criador. Outras etimologias foram propostas.c1-yhwh-name-meaning
  217. p. 30, p. 30Se Javé derivava de seu papel de deus criador, isso o ligaria a El, que tem esse papel na mitologia cananeia. Outras conexões apoiam a ideia de que Javé nasceu no panteão cananeu como uma versão de El: a Bíblia lhe dá nomes de El (El Elyon), o nome Israel incorpora El, e Javé é associado a Aserá, consorte de El.c1-el-origin-theory
  218. p. 30, p. 30Outras pistas bíblicas sugerem que Javé veio de fora de Canaã, do deserto do Sinai: alguns textos o descrevem vindo do sul, e inscrições de Kuntillet Ajrud falam de 'Javé do Sul'. Esse território era habitado pelos midianitas, e alguns estudiosos propuseram que Javé teria sido um deus midianita (a hipótese midianita). No Sinai Moisés encontra Javé na sarça ardente e Israel faz a aliança, histórias que podem refletir uma vaga memória dele como deus conhecido ali.c1-midianite-hypothesis
  219. p. 30, p. 30Como conciliar os vínculos cananeus de Javé com sua possível origem midianita? Uma possibilidade é que Israel tenha adotado Javé dos midianitas e depois o integrado a tradições do norte ligadas a El; outra, que tenham existido várias versões de Javé, como havia vários Baais associados a cidades ou regiões (um Javé de Samaria e um do sul), e que o Deus bíblico seja uma fusão delas.c1-yahweh-conflation
  220. p. 30, p. 30O Salmo 89 e outros salmos têm paralelos em Ugarit: os 'santos' se reúnem em assembleias, como aquela em que Baal encontra os deuses antes de enfrentar Yam, o Mar; a vitória de Javé sobre o mar paralela a de Baal; o dragão Lotan, que Baal enfrenta, corresponde ao monstro Raab do salmo e ao Leviatã, variante de Lotan (Salmo 74). O monte Zafon, no norte da Síria, lar de Baal, lembra os montes santos bíblicos e sobretudo Sião, e a Bíblia transfere o nome 'Zafon' a Sião no Salmo 48.c1-ugaritic-divine-battles
  221. p. 30, p. 30Em Kuntillet Ajrud, no Negev, inscrições hebraicas falam de 'Javé de Samaria e sua Aserá' ou 'Javé do Sul e sua Aserá'. Aserá é conhecida em Ugarit como companheira de El. A inscrição pode se referir à própria deusa ou a um objeto ligado a seu culto; o sentido de 'sua Aserá' é debatido, mas pode indicar que, em alguma fase da religião israelita, Javé, como El na mitologia ugarítica, teve uma companheira.c1-kuntillet-inscriptions
  222. p. 31, p. 31Disso resultou a teoria de que a religião israelita antiga não diferia muito da cananeia anterior: Javé seria outro nome de El, com a consorte Aserá, ou uma variante de Baal, derrotando os inimigos de Baal e habitando uma montanha sagrada; deuses menos importantes existiriam, eclipsados pelo poder superior de Javé. Processo parecido ocorreu entre vizinhos no primeiro milênio: Ugarit reconhecia mais de 200 deuses no segundo milênio, mas os Estados cananeus do primeiro têm dez ou menos; Moabe se unia em torno de Camos, Edom em torno de Qaws e Amom em torno de Milcom.c1-early-religion-theory
  223. p. 31, p. 31Como surgiu o monoteísmo, a crença em Javé não só como deus supremo, mas como único? Alguns o rastreiam até Aquenáton, mas a adoração exclusiva de Javé pode ter surgido mais tarde, na época das conquistas assíria e babilônica. A Bíblia tem muitos trechos que louvam Deus como o mais poderoso ou único, mas isso não exclui outros deuses, e afirmações realmente monoteístas são surpreendentemente raras, só em textos do período assírio, babilônico e persa, como Isaías 44:6 a 8.c1-monotheism-late
  224. p. 31, p. 31O catalisador dessa mudança pode ter sido o imperialismo mesopotâmico: assírios e babilônios eram politeístas, mas flertavam com ideias quase monoteístas. Um texto assírio descreve o corpo do deus Ninurta como composto de todos os outros deuses, como se fossem extensões de um único deus supremo, e o monoteísmo de Isaías 44 pode refletir essas ideias. Alternativamente, o monoteísmo pode ter surgido como reação ao domínio mesopotâmico, uma forma de resistir à subordinação de Javé aos deuses do conquistador, negando sua existência. Os autores reconhecem que não sabem como o monoteísmo se enraizou.c1-monotheism-causes
  225. p. 31, p. 31Como em outras culturas do Oriente Próximo, a identidade em Israel e Judá era definida não só por parentesco, local de nascimento e lealdade política, mas também pela relação com uma divindade, expressa em ritual, mito e até no nome pessoal. Javé foi o deus mais popular da Canaã do primeiro milênio, associado a Israel e Judá como Camos aos moabitas e Qaws aos edomitas. A lealdade a ele sobreviveu à conquista assíria e babilônica, assim como a importância do Templo, o sacrifício e a oração, a recusa de imagens divinas, o papel do sacerdote e do profeta e o uso de histórias como as da Bíblia para entender a relação de Deus com os humanos.c1-yahweh-identity-continuities
  226. p. 31A Arca, centro simbólico do culto no Templo, foi perdida de algum modo antes do Exílio Babilônico, mas o Templo e outros elementos do culto sobreviveram na memória.c1-ark-lost
  227. p. 31, p. 31O quadro histórico reconstruído no capítulo difere muito da história de Israel na Bíblia: é um relato sem Abraão, Moisés ou o rei Davi, sem o Êxodo e a conquista de Josué. Enquanto a Bíblia distingue com nitidez israelitas e cananeus, situando a origem dos primeiros fora de Canaã, os autores sugerem que a cultura israelita pode ter nascido como ramo da cananeia e identificam vários precursores possíveis: amorreus, hicsos e Habiru. Também há sinais de que a religião israelita não diferia tanto da dos vizinhos.c1-reconstruction-without-figures
  228. p. 31, p. 32Mesmo questionando a história bíblica, é preciso reconhecer que a Bíblia é a fonte mais valiosa para entender a cultura israelita da qual a judaica evoluiu: ela captura os começos do processo pelo qual a cultura israelita se tornou judaica, com o surgimento de uma variante judaíta da cultura israelita e sua evolução sob a conquista assíria e babilônica.c1-bible-most-valuable-source
  229. p. 32, p. 32As mudanças impostas pelo domínio babilônico (o fim da dinastia davídica, a destruição do Templo e o exílio de Judá) foram decisivas para a passagem da cultura judaíta à judaica, mas, sozinhas, não bastam para explicá-la: a própria Bíblia hebraica teve papel catalisador. Os judaítas leram a Bíblia, ou os textos que viriam a ser a Bíblia, para recuperar a vida perdida, e assim criaram o início de algo novo: uma cultura centrada na interpretação de textos sagrados e gerada por ela. Para entender a ascensão da cultura judaica, é preciso conhecer a própria Bíblia.c1-bible-as-catalyst
  230. p. 32Na Bahia, cristãos-novos passaram de mercadores sem honras a senhores de engenho e proprietários de terras.c9-bahia-social-ascent
  231. p. 33O capítulo parte de uma pergunta: em que momento os israelitas da Bíblia, o povo do Reino de Judá, se tornaram aquilo que hoje chamamos de judeus, e o que justifica trocar o nome pelo qual os designamos.c2-chapter-question
  232. p. 33Responder é difícil porque não há acordo sobre quando surgiu, na história, o povo depois conhecido como judeu. Os autores dizem que é bem mais fácil explicar por que não se pode responder do que de fato responder.c2-no-origin-agreement
  233. p. 33Chama-se de 'judeus' os sobreviventes do Exílio babilônico em parte porque a maioria vinha da tribo de Judá (alguns eram de Levi e Benjamim) ou do antigo Reino de Judá. O termo, porém, sugere algo além disso: uma transformação cultural e religiosa posterior ao Exílio.c2-exiles-from-judah
  234. p. 33A palavra 'judeu' vem do hebraico bíblico 'yehudi', que na Bíblia designa alguém da tribo de Judá, quarto dos doze filhos de Jacó, ou um súdito do reino de Davi, assentado em território dessa tribo. Esse rótulo implica uma identidade diferente da que 'judaico' sugere em épocas posteriores.c2-yehudi-bible
  235. p. 33No século I d.C., o termo (e seus equivalentes em aramaico, grego e latim) ainda tinha ressonância tribal e geográfica, mas também podia designar quem se comprometia com leis e costumes próprios, diferentes dos de outros povos, como os gregos. Ser judeu nesse sentido não exigia descender de Judá nem viver em seu território: exigia crer e agir de certo modo.c2-yehudi-first-century
  236. p. 33Para muitos estudiosos, 'judeu' e 'judaísmo' designam uma identidade religiosa, e não tribal, étnica ou geográfica. Os autores admitem que não se entende por completo como essa mudança ocorreu, nem como distinguir com clareza 'israelita' de 'judeu'.c2-jew-as-religious-identity
  237. p. 33, p. 519Ao longo do século XIX vieram à luz documentos que revelaram uma comunidade judaíta (ou judaica?) do século V a.C. num lugar inesperado: Elefantina, pequena ilha no meio do Nilo, no sul do atual Egito.c2-elephantine-find
  238. p. 33O Egito estava então sob domínio persa, e essas pessoas ali serviam como soldados do império, instaladas com as famílias para ajudar a guardar a fronteira entre o sul do Egito e a Núbia.c2-elephantine-soldiers
  239. p. 33Os Papiros de Elefantina, em aramaico, fornecem cartas pessoais e oficiais, documentos jurídicos e econômicos e um texto literário sobre um sábio funcionário chamado Ahiqar, e são um testemunho notável da comunidade que os produziu.c2-elephantine-papyri
  240. p. 33Essas pessoas se chamavam 'yehudiyin', termo que muitos estudiosos traduzem por 'judeus', e há bons motivos para isso: adoravam Yahweh (Yaho, nos textos de Elefantina), tinham nomes com elemento iavista e celebravam dias santos como o shabat e a Páscoa.c2-elephantine-yahwists
  241. p. 33Mas eles diferem dos judeus conhecidos por outras fontes: não viam Jerusalém como único lugar legítimo de sacrifício (ofereciam sacrifícios a Yaho num templo na própria ilha, destruído em 410 a.C.) e pareciam reconhecer outros deuses ao lado dele.c2-elephantine-differences
  242. p. 33, p. 34Os papiros não trazem textos que citem ou interpretem a Bíblia, muito menos manuscritos bíblicos, e não há indício de que Abraão, Moisés, Josué ou Davi fizessem parte da memória coletiva da comunidade. Talvez tenham aprendido algo da lei bíblica por contatos com autoridades de Jerusalém.c2-elephantine-no-bible
  243. p. 33Agentes da Inquisição associaram o cristão-novo à invasão holandesa, embora documentos mostrem participação ativa na defesa da Bahia.c9-bahia-dutch-myth
  244. p. 33Reif observa que, em vários relatos bíblicos, a oração aparece como comunicação direta e pessoal com Deus, fora do culto institucional.cl-biblical-prayer-personal
  245. p. 34Como a definição de 'judeu' é difusa, os autores não tentam fixar uma data em que a cultura judaíta teria virado judaica. Preferem examinar acontecimentos que, vistos em retrospecto, foram decisivos nessa passagem.c2-no-single-date
  246. p. 34As poucas fontes do período indicam que a continuidade com o passado era um valor central da cultura judaíta/judaica surgida depois do Exílio. Os personagens dos livros tardios de Esdras e Neemias se identificam com os israelitas anteriores ao Exílio e querem preservar suas tradições.c2-continuity-value
  247. p. 34Passar de 'judaíta' a 'judeu' para esse período serve, segundo os autores, para assinalar uma diferença sem apagar a linha de continuidade entre as duas culturas. Só de nossa perspectiva posterior se reconhece algo novo nas fontes.c2-label-shift
  248. p. 34O capítulo trata de dois desenvolvimentos talvez interligados: o início do domínio persa, no século VI a.C., e o surgimento da Bíblia como escritura sagrada. Por isso, boa parte dele é mais uma história da Bíblia do que uma história dos judeus no período persa.c2-two-developments
  249. p. 34O governo persa pôs fim ao Império Neobabilônico, que tanta destruição causara ao Reino de Judá, e moldou o mundo político, social e cultural em que viveram, nos dois séculos seguintes, os antepassados dos judeus.c2-persia-shaped-world
  250. p. 34, p. 34Alguns textos bíblicos foram compostos antes do Exílio, mas boa parte da Bíblia tomou forma na era persa. Foi então que a leitura da Bíblia começou a pesar na identidade judaica, influência que persiste até hoje na medida em que os judeus recorrem a ela para entender suas origens e como viver.c2-bible-took-shape
  251. p. 34Se 'judeu' significar alguém da terra de Judá ou descendente de judaítas, a comunidade de Elefantina pode ser chamada judaica. Seria um erro, porém, imaginá-la igual aos judeus das fontes posteriores; talvez seja menos anacrônico vê-la como outro ramo, separado, da cultura judaíta anterior.c2-elephantine-label
  252. p. 34, p. 34, p. 519Embora estudiosos questionem se a conquista babilônica foi tão desastrosa quanto a Bíblia sugere, a maioria a vê como um divisor de águas. Com o fim da dinastia davídica, Judá perdeu a independência, e o destino de seus habitantes passou a ser moldado por governos estrangeiros.c2-babylon-watershed
  253. p. 34A destruição do Templo de Jerusalém atingiu o núcleo da vida religiosa judaíta e obrigou o povo a buscar novas formas de se relacionar com Deus.c2-temple-loss
  254. p. 34Muitos podem ter ficado em Judá, mas uma parte significativa da população foi exilada para a Babilônia. Parece ter sido esse grupo exilado a fonte dos textos que hoje formam a Bíblia judaica.c2-exiles-source-of-bible
  255. p. 34A conquista teve efeito devastador sobre a cultura judaíta, medido pela destruição arqueológica do período, mas também estimulou muita criatividade, medida pela literatura dessa época preservada na Bíblia.c2-devastation-creativity
  256. p. 34Vários livros bíblicos foram compostos de novo durante o domínio babilônico ou nos séculos seguintes: Jeremias, Ezequiel e outros textos proféticos que respondem à conquista; Lamentações, que chora a destruição de Jerusalém; e as narrativas de Ester, Daniel, Esdras, Neemias e 1 e 2 Crônicas, cerca de 25% dos livros da Bíblia judaica. Rute talvez seja da mesma época, mas isso não se prova.c2-books-composed-after-conquest
  257. p. 34, p. 35Outros livros, embora baseados em fontes antigas, teriam sido revistos e ampliados depois da conquista, entre eles a História Deuteronomista, rótulo erudito para uma obra hipotética que reuniria Deuteronômio, Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel e 1 e 2 Reis. Os dois últimos capítulos de 2 Reis relatam o próprio Exílio, e muitos estudiosos acreditam que o Pentateuco também foi editado e ampliado então.c2-books-revised
  258. p. 35Da criatividade desse período resta apenas o que a Bíblia preservou, e ela reflete a perspectiva dos exilados na Babilônia, não a dos que ficaram na terra de Canaã. Mesmo assim, é claro que a cultura judaíta não só sobreviveu como floresceu, graças a profetas, historiadores, salmistas e editores anônimos.c2-only-bible-survives
  259. p. 35Por esse surto de criatividade religiosa e literária, nascido do impulso de sustentar a cultura israelita diante de um trauma, muitos estudiosos datam o início do judaísmo em 587 ou 586 a.C., ano em que Nabucodonosor destruiu Jerusalém e o Templo.c2-judaism-587
  260. p. 35, p. 519O domínio babilônico foi relativamente breve: terminou em 539 a.C., quando o Império Neobabilônico foi derrotado por Ciro II, fundador da dinastia aquemênida, que dominaria o Oriente Próximo pelos dois séculos seguintes. A cronologia do livro registra o édito de Ciro permitindo que os exilados voltassem a Yehud e reconstruíssem o Templo.c2-babylon-falls-539
  261. p. 35As origens do Império Persa, surgido por volta de 550 a.C., são misteriosas, pois há poucas fontes sobre seus primeiros tempos. Sabe-se que a dinastia reinante vinha do atual Irã e logo formou um império que chegou ao Egito e avançou sobre o mundo grego, o que gerou a guerra registrada por Heródoto.c2-persian-origins
  262. p. 35O mapa 2.1 do livro mostra o Império Persa governado pela dinastia aquemênida (539 a 332 a.C.), com a Babilônia, Judá/Yehud com Jerusalém, o Egito com Elefantina e as capitais Susa, Persépolis e Ecbátana.c2-map-persian-empire
  263. p. 35A Pérsia parece ter afetado Judá bem menos do que os gregos: as fontes bíblicas descrevem o domínio persa como era de paz e restauração, não de conflito e destruição. Mesmo assim, pode ter sido um catalisador de mudanças profundas.c2-persia-peace-in-bible
  264. p. 35Ciro foi um construtor de impérios notavelmente eficaz: consolidou seu poder no Irã, conquistou a Ásia Menor, onde semeou o conflito com os gregos, e em 539 a.C. subjugou a Babilônia, passando a controlar tanto os judaítas na própria cidade quanto os do antigo Reino de Judá.c2-cyrus-builder
  265. p. 35Segundo a Bíblia, toda essa conquista foi o modo de Deus restaurar seu povo: ele deu o império a Ciro para que este devolvesse os judaítas à terra e reconstruísse o templo em Jerusalém. Os gregos lembravam os persas como bárbaros arrogantes; a Bíblia os lembra como protetores benignos.c2-cyrus-in-bible
  266. p. 36Os capítulos 40 a 55 de Isaías, chamados Dêutero-Isaías porque parecem acrescentados por um editor posterior, celebram Ciro como salvador designado por Deus, a quem chamam de 'pastor' e 'ungido', para ajudar a restaurar os judaítas.c2-deutero-isaiah
  267. p. 36Os estudiosos datam essa parte de Isaías no período persa, embora o profeta tenha vivido na época assíria, porque ela cita Ciro explicitamente. Ao chamá-lo 'pastor' e 'ungido', o texto usa linguagem normalmente aplicada aos reis de Judá, comparando-o a Davi, o maior elogio possível a um líder político.c2-deutero-isaiah-dating
  268. p. 36Por ser um retrato tão elogioso do domínio persa, alguns historiadores sugerem que o Dêutero-Isaías é propaganda pró-persa, hipótese não implausível diante do modo como o poder persa se apresentava aos povos que governava.c2-isaiah-propaganda
  269. p. 36, p. 36O Cilindro de Ciro, texto babilônico da mesma época descoberto em 1879 e hoje no Museu Britânico, tem esse formato provavelmente porque servia para imprimir cópias do texto em outras tábuas de argila. Conta que o deus babilônico Marduque designou Ciro para devolver as estátuas dos deuses da Babilônia a seus santuários.c2-cyrus-cylinder
  270. p. 36A imagem de Ciro como restaurador piedoso da tradição, no Cilindro, é paralela à do Dêutero-Isaías, em que Deus o designa para restaurar o Templo. Alguns descrevem as duas composições como propaganda, esforços para legitimar a conquista persa como continuação da tradição local.c2-cylinder-parallel
  271. p. 36Para incorporar povos diversos com mais facilidade, Ciro se alinhava às crenças de cada um e recrutava especialistas locais para apresentá-lo de modo compatível com a religião do lugar: um escriba babilônico compôs o Cilindro, e o autor do Dêutero-Isaías o mostrou como agente de Deus, nos moldes de um rei israelita. Línguas e deuses diferentes, mesma estratégia retórica.c2-cyrus-strategy
  272. p. 36Por que os judaítas se alinharam à Pérsia, apesar de terem resistido a assírios e babilônios? Podem ter lembrado o desfecho desastroso de rebeliões anteriores, já que a revolta contra a Babilônia levara à destruição de Jerusalém.c2-why-ally-persia
  273. p. 36Textos proféticos do período, como o livro de Ageu, sugerem que os judaítas que voltaram tiveram muita dificuldade para cultivar a terra, e a fome e a pobreza podem ter sido um motivo para aceitarem a Pérsia como protetora.c2-haggai-hardship
  274. p. 36Outro motivo pode ter sido a presença de outros habitantes na terra, a quem a Bíblia chama 'o povo da terra', vizinhos que tentaram frustrar a reconstrução de Jerusalém e do Templo. Parecem incluir restos de amonitas, moabitas e povos cananeus, além dos habitantes do antigo Reino de Israel.c2-people-of-the-land
  275. p. 36Segundo a Bíblia, os habitantes do antigo Israel não eram israelitas, e sim estrangeiros instalados no lugar dos israelitas exilados pelos assírios; adotaram alguns costumes israelitas e viam os recém-chegados como rivais. Fontes judaicas posteriores os descrevem como antepassados dos samaritanos, mas os samaritanos não se veem assim.c2-samaritan-forebears
  276. p. 36, p. 37Tanto os exilados que voltaram quanto seus adversários recorreram ao governo persa, e os judaítas prevaleceram em parte por conquistarem esse apoio. Parecem ter aceitado o domínio persa por verem nele uma aliança útil para uma posição muito precária.c2-persian-support-won
  277. p. 36, p. 36, p. 37Na Espanha visigótica do século VII, Skarsaune distingue conversões forçadas (estratégia temporária de sobrevivência) de conversões voluntárias permanentes, que os próprios judeus tratavam como apostasia. Sob o bispo Aurásio de Toledo (603 a 615), converteram-se o rabino Isaac, José, Naftali e outros judeus proeminentes; o chefe da sinagoga, Levi Samuel, reagiu com dureza, e o conde Froga chegou a executar 'justiça' judaica interna contra os convertidos.cjb-visigothic-voluntary-converts
  278. p. 36Flusser argumenta que doutrinas do fim dos tempos nos textos apocalípticos expressavam visões do judaísmo mainstream da época (redenção, messias, reino dos céus), enraizadas no patrimônio bíblico e nas crises políticas e econômicas de Israel.c-h502-flusser-apocalyptic-mainstream
  279. p. 37O templo da comunidade era ameaçado pelos devotos de uma divindade egípcia, Khnum, deus da fonte do Nilo, e foi destruído em 410 a.C. Para restaurá-lo, os judaítas pediram ajuda ao governador persa Bagavahya.c2-elephantine-khnum
  280. p. 37, p. 37Em troca de apoio, a comunidade oferecia orar a Deus pelo governador no templo restaurado. Como os judaítas da Bíblia, buscava preservar-se aliando-se ao poder persa, com lealdade em troca de proteção contra populações locais hostis. A história do grupo mal pode ser seguida além desse esforço, e o templo talvez nunca tenha sido reerguido.c2-elephantine-petition
  281. p. 37, p. 37Os judaítas puderam voltar à terra e reconstruir o Templo, mas não restaurar um Estado independente com rei próprio. O território passou a ser administrado como província chamada Yehud (Yehuda, em aramaico), parte de uma unidade imperial maior, a satrapia 'Além do Rio', que abrangia Canaã e outras terras a oeste do Eufrates.c2-yehud-province
  282. p. 37Nem todos os judaítas devem ter aceitado o domínio persa, e textos bíblicos do período insinuam certa inquietação. Qualquer tentativa de recuperar a independência fracassou, e o controle persa só se apertou com o tempo.c2-restiveness
  283. p. 37, p. 519Cambises, filho de Ciro, conquistou o Egito, o que deu à Pérsia mais interesse na área que ligava o Egito ao resto do império, inclusive Yehud. Morreu antes de chegar em casa, e seu sucessor, Dario I (522 a 486 a.C.), consolidou o império: reorganizou a administração, ampliou estradas e iniciou um canal entre o mar Vermelho e o Mediterrâneo.c2-cambyses-darius
  284. p. 37, p. 519A decisão de Dario de permitir a conclusão do Templo, iniciado por Ciro e interrompido sob Cambises, pode ter feito parte desse esforço: uma forma de ligar Yehud mais de perto ao poder persa patrocinando Jerusalém e seu templo.c2-darius-temple
  285. p. 37O domínio persa trouxe uma mudança linguística. A Bíblia é chamada de hebraica pela língua em que foi escrita, mas isso engana um pouco: trechos de Esdras, Neemias e Daniel estão em aramaico, língua que se difundiu na era persa por servir à administração imperial.c2-aramaic-in-bible
  286. p. 37, p. 37O hebraico não foi abandonado, mas o aramaico teve tanta influência que alterou sua gramática e seu vocabulário e até o modo de escrevê-lo: o alfabeto aramaico substituiu a escrita hebraica pré-exílica, e é nele que o hebraico se escreve até hoje. Algumas palavras persas também entraram, como 'pardes' (jardim), de onde vem 'paraíso'.c2-aramaic-script
  287. p. 37, p. 37A literatura bíblica da era aquemênida costuma retratar os governantes persas de forma favorável. O livro de Ester, provavelmente do século IV a.C., conta uma tentativa de destruir os judeus no reinado de Assuero, mas culpa o conselheiro Hamã, que o engana, e não o rei; Ester, casada com ele, usa sua influência para revogar o decreto.c2-esther-king-not-hostile
  288. p. 37, p. 37O final feliz de Ester é comemorado no Purim, nome derivado do 'pur', o sorteio que Hamã lançou para decidir o dia da destruição dos judeus. No Império Persa de Ester, outros súditos querem prejudicar os judeus, mas o rei não é hostil: o que os salva é a ligação com ele.c2-purim-origin
  289. p. 37Ao preservar a tradição religiosa dessa forma, os judaítas tiveram de abrir mão da aspiração à autonomia política. Aceitar governo estrangeiro significava manter tradições locais em contextos dominados por outros povos, às vezes minimizando ou reinterpretando a cultura para evitar confrontos.c2-autonomy-sacrificed
  290. p. 37, p. 37, p. 38Julião de Toledo (c. 642 a 690), filho de judeus e não convertido ele mesmo, tornou-se o primaz mais poderoso da Igreja visigótica. Skarsaune o trata como o judeu crente de nome mais proeminente nessa Igreja: formado sob Eugênio II, marcou a Espanha como arcebispo independente até março de 690.cjb-julian-of-toledo
  291. p. 38Os judaítas tiveram de aprender as línguas dos governantes e, com os novos contatos comerciais, ficaram expostos a influências culturais. Sua identidade mudou: além de membros de uma família ou reino, eram agora súditos de um vasto império, regido por um soberano distante que, por meio de seus oficiais, moldava a vida política e religiosa de Judá.c2-new-identity
  292. p. 38A era persa é também a época em que os judaítas parecem recorrer pela primeira vez aos textos que viriam a ser a Bíblia para manter viva sua cultura ancestral. Parece um gesto conservador, mas é uma nova fase e talvez o desenvolvimento mais importante do período para entender como a cultura judaíta gerou a judaica.c2-turn-to-texts
  293. p. 38Os historiadores costumam associar essa virada ao escriba Esdras, sacerdote, erudito e líder da comunidade judaíta no período persa, que talvez tenha vivido por volta de 450 a.C.c2-ezra-figure
  294. p. 38A tradição judaica posterior lembrava Esdras como figura semelhante a Moisés, que teria 'revelado de novo' as leis de Moisés na forma conhecida pelos judeus mais tarde; acreditava-se até que ele transcreveu o texto bíblico da escrita paleo-hebraica para o alfabeto aramaico atual. Não é bem o papel que a própria Bíblia lhe dá.c2-ezra-in-tradition
  295. p. 38Na Bíblia, Esdras é nomeado pelo rei persa Artaxerxes para conduzir um grupo de exilados de volta e regular a vida em Judá e Jerusalém 'segundo a lei do teu Deus' (Esdras 7). Não está claro o que isso significa, mas muitos estudiosos creem tratar-se das leis dos Cinco Livros de Moisés, que ele deveria fazer cumprir na província de Yehud.c2-ezra-in-bible
  296. p. 38Alguns estudiosos acreditam que foi durante a administração de Esdras que os Cinco Livros de Moisés foram introduzidos: não compostos, pois provavelmente se baseiam em fontes pré-exílicas, mas compilados, editados e promulgados como lei obrigatória para o povo de Judá.c2-torah-under-ezra
  297. p. 38, p. 39Com outro oficial, Neemias, copeiro judaíta do rei persa também enviado a Yehud para restaurar Jerusalém, Esdras é associado à renovação da cultura judaíta como cultura baseada na escritura, gerada pela leitura e pela interpretação de textos sagrados.c2-nehemiah-mission
  298. p. 38Neemias, que teve papel importante na reconstrução de Jerusalém, parecia preocupado com o casamento de israelitas com mulheres não israelitas, e amaldiçoou e espancou judaítas casados com mulheres de Asdode, Amom e Moab. A proibição parece ter nascido do temor de que tais casamentos levassem à adoração dos deuses cananeus, mas a preocupação de Neemias era outra: que os filhos perdessem a capacidade de falar a língua de Judá.c2-nehemiah-intermarriage
  299. p. 38Outras partes da Bíblia hebraica são menos claramente contrárias. A proibição se concentra nos não israelitas que vivem em Canaã; não há veto geral a casar com estrangeiros, e Isaac, Jacó, José e Moisés casam com arameias, egípcias, midianitas e etíopes, mulheres que não eram cananeias.c2-intermarriage-not-blanket
  300. p. 38A Bíblia chega a retratar casamentos mistos de forma positiva. O caso mais famoso é Rute, livro que muitos estudiosos creem escrito na época de Esdras e Neemias e segundo o qual o próprio Davi descendia do casamento do israelita Boaz com a moabita Rute. O casamento de Ester com Assuero tampouco incomoda o autor de Ester.c2-intermarriage-positive
  301. p. 38Gerber descreve a mudança do bairro judaico de Córdoba: antes da conquista muçulmana ficava a sudoeste junto ao muro; no séc. X foi ampliado ao norte, a ponto de historiadores árabes medievais chamarem o portão de Bab el-Yahud, o Portão dos Judeus.c-h502-gerber-cordoba-bab-el-yahud
  302. p. 38Para Gerber, a segregação residencial no período muçulmano medieval nem sempre era discriminatória: seguia padrões urbanos do Oriente Médio em que grupos (judeus, cristãos, berberes) muitas vezes viviam em bairros próprios.c-h502-gerber-segregation-not-always-bias
  303. p. 39O livro ilustra o capítulo com um relevo do rei Dario, o Grande (figura 2.2).c2-darius-relief
  304. p. 39O que de fato ocorreu provavelmente difere do relato bíblico. Esdras e Neemias são conhecidos por livros com pouca informação, cronologia confusa e outros problemas historiográficos, e não se pode ter certeza de que fossem contemporâneos, como a Bíblia sugere, nem de quem veio primeiro.c2-ezra-nehemiah-caution
  305. p. 39Mesmo assim, o período persa parece ser a era em que o cerne da Bíblia, os Cinco Livros de Moisés e talvez outros livros, alcançou o estatuto de escritura a que judaítas e judeus recorriam para entender suas origens, suas obrigações para com Deus e seu futuro.c2-persian-core-scripture
  306. p. 39Por 'Bíblia' os autores entendem o cânone bíblico judaico, que não nasceu como livro único, mas como coleção de rolos tidos como dotados de autoridade especial, reveladas ou inspiradas por Deus (a palavra vem do grego 'biblia sacra', 'textos sagrados'). O cânone cristão é diferente e surgiu muito depois, após o século I d.C.c2-bible-defined
  307. p. 39Os autores resumem a formação da Bíblia judaica em duas etapas: a composição dos textos e sua adoção como escritura, registro de revelação divina e base da crença e da prática, processo chamado canonização, ato de declarar algo sagrado e com autoridade, que parece se cristalizar no período persa. Na verdade, composição e canonização não se distinguem com nitidez.c2-two-stages
  308. p. 39A escrita foi inventada no Oriente Próximo no quarto milênio a.C., há cerca de 5.000 a 6.000 anos, talvez na Mesopotâmia, e transformou a experiência humana ao permitir guardar informação por mais tempo e comunicar-se a grandes distâncias.c2-writing-invented
  309. p. 40É anacrônico pensar a Bíblia como livro. O livro como objeto, folhas de pergaminho ou papel encadernadas entre capas, só surgiu depois, ganhando uso após a ascensão do cristianismo; antes, os israelitas escreviam em rolos de pele, tábuas de argila, madeira ou cera, cacos de cerâmica e pedras. Os judeus transmitiram os textos bíblicos como rolos separados, e eles só foram publicados em volume único muito depois.c2-bible-not-a-book
  310. p. 40, p. 40A maioria dos judeus da Antiguidade não tinha como possuir ou manusear uma cópia dos Cinco Livros de Moisés: no século I d.C. provavelmente havia só uma cópia em cada aldeia, se tanto, poucos sabiam ler, e a leitura era muitas vezes um evento público, feito diante de uma plateia. Poucos autores assinavam sua obra, e muitos acrescentavam conteúdo anonimamente, em nome do profeta ou sábio antigo cujas palavras ampliavam.c2-ancient-readers
  311. p. 40Muito da Bíblia de hoje vem de mudanças posteriores à Antiguidade. Os textos hebraicos antigos não tinham os títulos Gênesis, Êxodo etc., que vêm das traduções gregas e latinas lidas por cristãos; na tradição judaica, cada livro é nomeado por sua primeira palavra (Bereshit, 'No princípio'). As divisões em capítulos também são medievais.c2-titles-chapters
  312. p. 40A escrita também criou um modo de transpor a barreira entre humanos e deuses, papel que passou a exercer no Oriente Próximo no segundo milênio a.C. Na Mesopotâmia, certos textos eram tidos como vindos da boca dos deuses, por ditado humano, ou registravam experiências de revelação, e a ideia de que a escrita ligava o humano e o divino seria decisiva para a literatura bíblica.c2-writing-and-gods
  313. p. 40Escrever chegou a Canaã bem antes dos israelitas. Foi provavelmente em Canaã ou perto, como no Sinai, que o alfabeto foi inventado entre 2000 e 1500 a.C. Com poucos sinais (22 em hebraico), cada um originalmente uma imagem de uma palavra que começava com o som representado (o 'mem', que virou nosso M, vem do desenho da água, 'mayim'), a palavra 'alfabeto' vem de 'aleph' e 'bet'.c2-alphabet-origin
  314. p. 40Nos anos 1970, o movimento que se chamava 'cristianismo hebraico' passou a autodenominar-se 'judaísmo messiânico'. A inversão (gênero judaísmo, espécie messiânica) e a troca de 'cristão' por 'messiânico' buscavam ênfase na tradição judaica e evitar que 'cristão' fosse ouvido como sinônimo de goy.cjb-messianic-rename
  315. p. 41, p. 41O alfabeto foi amplamente adotado por ser mais fácil de aprender e mais rápido de escrever do que sistemas que exigiam memorizar centenas ou milhares de sinais, o que explica por que se impôs em Canaã e depois chegou à Grécia e a Roma. Por volta de 1050 a.C., o alfabeto cananeu tinha assumido uma forma convencional, da qual saíram escritas locais: fenícia, edomita, moabita e israelita.c2-alphabet-spread
  316. p. 41Ler e escrever eram habilidades raras na Antiguidade. Em Israel e Judá surgiu uma classe de escribas profissionais, que redigiam e liam documentos oficiais para o rei ou o Templo, e Esdras é um exemplo desse tipo de erudito. Raramente trabalhavam por conta própria: governantes e templos geravam a maior parte dos documentos do Oriente Próximo.c2-scribes
  317. p. 41O alfabeto era fácil o bastante para que não só escribas o usassem: há também escritos não oficiais, feitos por indivíduos para si, como grafites piedosos, inscrições em túmulos e até um pedido de ajuda de alguém que tentava recuperar um manto confiscado.c2-informal-writing
  318. p. 41, p. 41Num túmulo em Ketef Hinnom, ao sul de Jerusalém, dois pequenos amuletos de prata trazem bênçãos sacerdotais quase idênticas à de Números 6:24 e 25. Datam do século VII ou VI a.C. e, como o primeiro caso conhecido de passagem bíblica atestada fora da Bíblia, indicam que seu conteúdo já começava a ser posto por escrito.c2-ketef-hinnom
  319. p. 41, p. 41Sem a própria Bíblia hebraica, nada nos registros de inscrições levaria a supor que existisse na antiga Judá uma literatura tão variada e sofisticada. Quem a escreveu, quando e por quê ocupa os estudiosos há cerca de três séculos, com inúmeras hipóteses; os autores destacam alguns pontos básicos de consenso.c2-inscriptions-silent
  320. p. 41, p. 42Um grande feito intelectual do século XIX foi a decifração da escrita cuneiforme, que permitiu ler textos não lidos havia milênios e descobrir semelhanças precisas com a literatura bíblica. Primeiro, a Epopeia de Gilgamesh, anunciada em 1872 por George Smith, traz um dilúvio muito parecido com o de Gênesis 6 a 9.c2-cuneiform-parallels
  321. p. 42, p. 42, p. 42O livro compara passagens: o envio de aves para ver se as águas baixaram (corvo e pomba em Gênesis; pomba, andorinha e corvo em Gilgamesh), os sacrifícios cujo aroma agrada à divindade e o sinal da aliança, o arco em Gênesis e o colar de joias da deusa Ishtar em Gilgamesh, provavelmente um arco-íris. O dilúvio de Gilgamesh é narrado em primeira pessoa pelo sobrevivente, Utnapishtim.c2-flood-parallels
  322. p. 42O dilúvio foi apenas um dos pontos de semelhança entre a literatura bíblica e a babilônica. Fontes descobertas no século XX mostraram que a Bíblia tem muito em comum também com o Egito, os hititas e a cultura cananeia pré-israelita de Ugarit, as Cartas de Amarna e inscrições fenícias, em quase todo gênero registrado: códigos de leis, textos rituais, oráculos, provérbios, salmos e lamentações.c2-parallels-widespread
  323. p. 43, p. 519Segundo a cronologia do livro, o rei babilônico Hamurabi promulgou seu código no século XIX ou XVIII a.C., muito antes de qualquer evidência de Israel, num esforço para estabelecer a justiça em seu reino. Uma cópia gravada numa estela de uns 2,4 m foi descoberta em 1901 e 1902: mostra Hamurabi recebendo os símbolos da justiça do deus Shamash e traz um prólogo que atesta a autorização divina das leis, embora seja o rei quem as grava e faz cumprir.c2-hammurabi-stela
  324. p. 43, p. 43Algumas leis de Hamurabi são muito parecidas com leis dos Cinco Livros de Moisés, como as que tratam de olho ou dente de escravo destruído. As leis babilônicas distinguem classes sociais, que a lei bíblica não distingue, e impõem penas diferentes, mas forma e conteúdo são tão semelhantes que, para os estudiosos, a lei bíblica tem raízes na antiga tradição jurídica do Oriente Próximo.c2-hammurabi-biblical-law
  325. p. 43Fragmentos de um código de leis mesopotâmico parecido com o de Hamurabi foram descobertos há pouco na própria Canaã, na cidade de Hazor, da Idade do Bronze, sinal de que tais códigos eram conhecidos na região e podem ter influenciado o desenvolvimento da lei bíblica.c2-hazor-law-fragments
  326. p. 43Assim, a literatura da Bíblia hebraica não saiu de um vácuo cultural: seus autores usaram técnicas de composição e tradições narrativas, jurídicas e outras compartilhadas com escribas de outras culturas do Oriente Próximo. A distinção da literatura bíblica só aparece contra um pano de fundo de semelhança generalizada.c2-no-cultural-vacuum
  327. p. 43Os estudiosos concluíram que a Bíblia é resultado não de revelação divina ou inspiração profética, mas de autoria humana: não obra de um só autor, e sim de muitos, fruto de um longo processo de composição e compilação. A abordagem comparativa a situa no Oriente Próximo antigo, mas não diz quem a escreveu.c2-human-authorship
  328. p. 43Antes da era moderna, mal ocorria a judeus e cristãos perguntar quem escreveu a Bíblia, pois julgavam saber: acreditavam que era de origem divina, escrita por Moisés e outros profetas que transcreviam as palavras de Deus.c2-traditional-authorship
  329. p. 43Nos séculos XVII e XVIII, numa Europa em que ideias tradicionais e autoridade religiosa eram questionadas, estudiosos passaram a duvidar da explicação tradicional e notaram indícios, nos Cinco Livros, que pareciam contradizer a autoria divina ou mosaica.c2-doubts-17-18
  330. p. 43Os Cinco Livros não descrevem Moisés como autor de toda a narrativa; isso foi inferência de leitores antigos que queriam saber quem escreveu textos anônimos e escolheram Moisés porque ele aparece escrevendo as palavras de Deus. Os textos nunca o dizem autor, falam dele em terceira pessoa e, em Deuteronômio 34, descrevem sua morte e seu enterro, que o Moisés real não poderia ter escrito.c2-moses-not-named
  331. p. 43, p. 44Sinais no texto indicam que o autor viveu muito depois de Moisés. Um exemplo é Gênesis 36:31, que menciona reis que governaram Edom antes de haver rei sobre os israelitas, referência à monarquia israelita que situa o versículo depois de seu estabelecimento por volta de 1000 a.C., e não na época de Moisés.c2-genesis-36-clue
  332. p. 44O que mais distingue a Bíblia hebraica de outros textos do Oriente Próximo é sua história de recepção: ela nunca foi perdida nem esquecida, preservada primeiro pelos judeus e depois também pelos cristãos, e seguiu viva para os leitores. A Epopeia de Gilgamesh, ao contrário, essencialmente morreu e só voltou à vida pela pesquisa moderna.c2-distinct-reception
  333. p. 44Parte da singularidade da Bíblia vem dos pressupostos teológicos de seus autores, a crença em Javé como único deus que importava, mas não só deles: segundo a crítica literária moderna, eles criaram formas próprias de comunicação literária, com novos meios de expressar complexidade psicológica e moral.c2-biblical-artistry
  334. p. 44, p. 44Uma leitura atenta revela características difíceis de explicar se houver um só autor. Em Gênesis 6:19, Deus manda Noé levar dois de cada animal; em 7:2 e 3, dá outra ordem, com sete pares dos animais puros e dois dos impuros, e o texto passa do nome Elohim para Javé. Há também 'doublets', a mesma história contada duas vezes: duas versões da expulsão de Hagar e duas da mudança do nome de Jacó para Israel.c2-doublets-inconsistencies
  335. p. 44, p. 45Para explicar isso, estudiosos propuseram a Hipótese Documentária: os Cinco Livros seriam não obra de um só autor, mas composição de fontes preexistentes, reunidas por um editor numa narrativa coerente, mas longe de uniforme. Teriam quatro fontes: P (sacerdotal), J (provavelmente de Judá, do alemão Jahwist), E (que prefere o nome Elohim) e D (o cerne do Deuteronômio, escrito à parte).c2-documentary-hypothesis
  336. p. 44Quando as fontes se contradiziam, o editor às vezes deixava a contradição, talvez para alcançar públicos com interesse em versões diferentes. O esforço de distinguir e reconstruir essas fontes é a crítica das fontes.c2-editor-left-contradictions
  337. p. 44, p. 44Nulman situa Adon Olam no Shaharit desde o século XV; a maioria atribui a autoria ao poeta-filósofo Salomão ibn Gabirol (1021-1058), enquanto outros apontam Rav Sherirah Gaon, Rav Hai Gaon ou mesmo Rabi Yohanan ben Zakkai.cl-adon-olam-ibn-gabirol
  338. p. 45A Hipótese Documentária continua sendo hipótese: as fontes originais não foram encontradas. Mesmo assim, ninguém propôs explicação mais plausível para o modo peculiar como os Cinco Livros contam sua história, e ela é coerente com a prática literária do Oriente Próximo, onde textos eram muitas vezes composições de material preexistente, como mostra a evolução da Epopeia de Gilgamesh.c2-dh-remains-hypothesis
  339. p. 45A hipótese não se aplica a outros livros, mas a pesquisa chegou a conclusões semelhantes sobre muitos deles. O Dêutero-Isaías foi escrito muito depois do profeta Isaías, do século VIII a.C.: o capítulos 1 a 39 parecem do período assírio, mas os de 40 em diante refletem condições persas e citam Ciro. Jeremias e Ezequiel também parecem ter crescido por longo processo de acréscimos.c2-other-books-composite
  340. p. 45Essa abordagem desafia a visão tradicional e a própria ideia de autoria. Ligar um livro a uma pessoa com nome combina com a noção moderna de autoria individual, mas, segundo a pesquisa, os Cinco Livros, Isaías e outros textos não têm um autor individual: parecem-se mais com a Web, que se desenvolve ao longo do tempo, sem plano, pela contribuição de muitas pessoas.c2-web-like-authorship
  341. p. 45, p. 46Os Manuscritos do Mar Morto, apresentados no capítulo 3, incluem as cópias mais antigas conhecidas de textos bíblicos, de já o século II a.C. Muitos manuscritos diferem da Bíblia hebraica de hoje e preservam formas anteriores de livros como Samuel e Jeremias, e permitem ver como o texto cresceu e mudou ao ser transmitido.c2-dss-earliest-copies
  342. p. 45A composição da literatura bíblica se liga à história do Reino de Judá e reflete um ponto de vista judaíta, não do norte israelita. Duas ou talvez três das fontes dos Cinco Livros (J, P e provavelmente D) são de autores judaítas, e só E talvez venha do norte; Samuel e Reis, centrados na monarquia davídica e no Templo, também vêm de Judá, assim como Isaías, Jeremias e a maioria dos profetas ou ainda de judaítas no exílio, como Ezequiel.c2-judahite-point-of-view
  343. p. 45Esse viés explica perguntas que o texto levanta: por que o Gênesis favorece Judá, o filho de Jacó, em vez dos irmãos mais velhos; por que os melhores reis (Ezequias e Josias) vêm da casa de Davi em Judá e muitos dos piores (Jeroboão, Acab) do Reino do Norte; por que o Templo de Jerusalém é central e os do norte são marginalizados; e por que a Bíblia se interessa mais pelos sobreviventes judaítas da conquista babilônica do que pelos israelitas da assíria.c2-judah-bias-questions
  344. p. 46Um exemplo é 1 Samuel 11: uma versão achada entre os Manuscritos do Mar Morto (4Q Samuel A) traz uma passagem sobre a crueldade do amonita Naás, que não existe no texto hebraico atual. Embora a passagem possa ter sido inserida depois, é mais provável que um escriba a tenha apagado por acidente ao copiar o texto que se tornou a versão lida pelos judeus hoje.c2-1samuel-11
  345. p. 46O esforço de rastrear a transmissão da Bíblia como texto, reconstruindo sua forma mais antiga e como mudou, é a crítica textual, que compara versões diferentes para reconstituir a história da transmissão pelos escribas e a relação entre elas.c2-text-criticism
  346. p. 46, p. 519Quando o Reino de Israel foi destruído, em 722 a 720 a.C., seus habitantes saíram do radar, deportados para outras partes do Império Assírio e provavelmente assimilados. Se parte de sua literatura está na Bíblia, é provavelmente porque alguns israelitas fugiram e passaram suas tradições ao povo de Judá. Judá também foi destruída, mas sua população persistiu, preservando tradições no exílio, e quase certamente foi essa comunidade que conservou os textos da Bíblia judaica.c2-why-judah-preserved
  347. p. 47, p. 47Entre os textos de Elefantina está a história de Ahiqar, sábio assírio, composição aramaica do século V a.C. Não se sabe se foi escrita por um judaíta, mas era conhecida deles. Salvo essa descoberta casual e algumas inscrições, tudo o que resta de Judá antes do século II a.C. sobreviveu por ter entrado no cânone bíblico.c2-ahiqar
  348. p. 47O que saiu do período de conquista babilônica e domínio persa não foi a Bíblia, mas um conjunto de textos, rolos e não livros como os de hoje. Esse conjunto é o cânone bíblico, reunião de escritos a que os judeus atribuem autoridade religiosa especial. Não se sabe por que certos livros entraram e outros não.c2-canon-assortment
  349. p. 47Qualquer texto composto na Judá pré-exílica, no Exílio ou sob os persas que não entrou no cânone não sobreviveu, com a possível exceção de Ahiqar. Fora essa descoberta casual e algumas inscrições, todos os textos de Judá e dos judeus anteriores ao século II a.C. foram transmitidos por seu caráter sagrado.c2-canon-saved-texts
  350. p. 47No Oriente Próximo, escribas faziam catálogos de livros dignos de uma biblioteca ou de um currículo. As primeiras coleções de literatura judaíta podem ter tido motivo parecido, mas a coleção virou algo diferente: os judeus passaram a crer que o elo com o passado e as perspectivas de futuro dependiam desses livros, e sentiram-se obrigados a seguir as leis dos Cinco Livros.c2-canon-beyond-library
  351. p. 47Os textos da Bíblia não foram necessariamente escritos para esses fins. Alguns, como o Gênesis, talvez tenham nascido como histórias que pais contavam aos filhos sobre a origem das coisas; certos salmos podem ter sido feitos para o culto no Templo; há textos proféticos de crítica social, textos educativos de escribas e o Cântico dos Cânticos, tão erótico que se suspeita de um hino nupcial ou algo pior.c2-canon-hodgepodge
  352. p. 47As primeiras etapas do cânone podem ser anteriores ao Exílio. Segundo 2 Reis 22 e 23, no reinado de Josias (640 a 609 a.C.) descobriu-se, durante reparos no Templo, uma Torá de Moisés havia muito perdida, com as ordens que o povo devia seguir para manter a aliança com Deus. Josias percebe que elas vinham sendo violadas e inicia uma grande reforma religiosa, suprimindo práticas idólatras.c2-josiah-scroll
  353. p. 47Se tivessem de resumir em uma frase 300 anos de pesquisa bíblica, os autores diriam que sua maior conquista foi reinterpretar um texto visto como sobrenatural e atemporal como obra de seres humanos de um período histórico determinado. Dá para ligar boa parte de sua composição a experiências históricas demonstráveis, como a conquista assíria, babilônica e persa, e não a acontecimentos incertos como o Êxodo.c2-300-years-summary
  354. p. 47Os estudiosos provavelmente têm razão ao afirmar que o Gênesis combina o trabalho de autores humanos que viveram entre 1000 e 500 a.C., que é basicamente uma variante da literatura do Oriente Próximo antigo e que sua composição sofreu influência de acontecimentos históricos. Isso só aprofunda o mistério de como tal texto passou a ser visto como revelação divina.c2-composition-window
  355. p. 48Esdras-Neemias, tratados como uma só obra nos manuscritos bíblicos e por estudiosos modernos, foi provavelmente composto no século IV a.C. e é uma das principais fontes sobre a comunidade pós-exílica inicial. Fala de 'o livro da lei' ou 'a lei de Moisés', texto que, se não eram os Cinco Livros atuais, antecipa muitas de suas características.c2-ezra-nehemiah-composed
  356. p. 48Esse livro da lei continha ordens divinas que Israel devia obedecer, era identificado como 'ensinamento' ou Torá de Moisés, e a leitura pública de seu conteúdo era uma importante experiência comunitária.c2-law-book-features
  357. p. 48, p. 49Segundo Esdras-Neemias, o retorno e a reconstrução do Templo não bastavam. Ao chegarem a Yehud, Esdras e Neemias encontraram Jerusalém em grande parte por restaurar, o povo queixoso e prestes a se assimilar à população local, casando com estrangeiros e esquecendo a língua nativa. Para a restauração plena, o povo precisava reafirmar o compromisso com a lei de Deus, lendo e estudando o ensinamento de Moisés.c2-return-not-enough
  358. p. 48Estudiosos modernos suspeitam que o rolo era o Deuteronômio e que sua 'redescoberta' foi uma encenação do rei para apresentar uma lei recém-composta como texto mosaico antigo, que o povo se sentiria obrigado a seguir. Se for assim, 2 Reis 22 e 23 descreve como um dos Cinco Livros foi publicado, e o cânone já se formava antes do Exílio.c2-josiah-deuteronomy
  359. p. 48Antes disso, a religião judaíta não parece ter sido centrada na escritura: figuras como Davi consultam profetas para discernir a vontade de Deus e nunca aparecem lendo as leis de Moisés ou tentando interpretá-las. Para além da reforma de Josias, o que empurrou a cultura nessa direção foi a conquista babilônica e a ruptura que causou.c2-pre-exilic-not-scripture
  360. p. 48, p. 48Os judaítas que buscavam salvar sua cultura voltaram-se para os textos a fim de preencher o vazio deixado pela destruição de outras instituições. Acreditava-se que Deus se manifestava no Templo, e sua destruição o tornou inacessível; Nabucodonosor também acabou com a linhagem davídica. Os textos do antigo Judá, como os utensílios do culto deportados para a Babilônia, eram um elo com o passado perdido.c2-texts-fill-vacuum
  361. p. 48Os textos ganhavam valor por preservar, ou parecer preservar, palavras de Deus a Israel: a promessa a Abraão, a revelação no Sinai e as visões e oráculos de profetas como Isaías e Jeremias. Dirigidas a israelitas antigos, algumas mensagens também miravam gerações futuras e pareciam falar justamente das circunstâncias dramáticas dos judaítas depois da conquista.c2-texts-addressed-exiles
  362. p. 48Se, como os textos sugeriam, o exílio era castigo pelo mal feito, ainda havia chance de abrandar a ira de Deus e reparar a relação com ele. Nos Cinco Livros os judeus encontraram um guia sobre o que Deus esperava deles, e a interpretação bíblica, a leitura e a compreensão dos textos, surgiu nesse período como modo de restabelecer o vínculo com Deus.c2-interpretation-emerges
  363. p. 48Flusser observa que a expectativa de reconstruir Jerusalém passou por várias transformações, mas suas origens remontam a destruições anteriores do Templo; após 70 EC difundiu-se a ideia de que a cidade e o Templo seriam reedificados por Deus.c-h502-flusser-jerusalem-rebuild-hope
  364. p. 49O clímax de Esdras-Neemias ocorre em Neemias 8: Esdras convoca o povo a Jerusalém para uma leitura pública da lei, e no dia seguinte começa o estudo e a interpretação. Os levitas explicam a Torá ao povo, que ouve de pé, lendo o rolo, traduzindo e dando o sentido para que todos compreendam.c2-nehemiah-8-reading
  365. p. 49Segundo esse relato, nem a reconstrução do Templo nem a presença de profetas bastavam para restaurar a relação com Deus: só a leitura e a compreensão da Torá ('ensinamento', palavra depois aplicada aos Cinco Livros de Moisés) o fez. Quando Esdras abre o rolo, é como se o próprio Deus se tornasse presente.c2-torah-restores
  366. p. 49Ler a Torá não era fácil: a alfabetização continuava rara, e a literatura bíblica, escrita num hebraico diferente do hebraico pós-exílico saturado de aramaico e cheia de problemas de interpretação, exigia treinamento que poucos peritos tinham. Era isso que tornava figuras como Esdras tão importantes.c2-reading-needs-experts
  367. p. 49Os autores veem na leitura de Esdras o sinal de uma mudança importante na passagem da cultura israelita à judaica: o surgimento de um texto sagrado, a Torá de Moisés, como fonte última das normas comunitárias e religiosas, e da leitura como ato que liga os judaítas a Deus. A Torá citada era provavelmente uma forma anterior da atual.c2-ezra-shift
  368. p. 49Esse desenvolvimento pode ter sido estimulado pelos persas, que tinham interesse na organização das comunidades sob seu domínio. Segundo a Bíblia, Esdras e Neemias foram incumbidos pelo próprio rei persa de governar Judá segundo a lei de Deus, e pode haver algo de verdade nisso.c2-persians-encouraged
  369. p. 49Para consolidar o império, Dario I aparentemente tentou codificar as leis locais das comunidades sob seu domínio. Um documento do Egito indica que ordenou a seu sátrapa que reunisse uma comissão de sábios egípcios para registrar por escrito todas as leis antigas do Egito, em direito público, de templo e privado.c2-darius-egyptian-laws
  370. p. 49Esforço semelhante pode estar refletido no livro de Esdras, em que o Império Persa não só reconhece a lei de Deus como a respalda com sua autoridade, ordenando que seja ensinada a quem não a conhece e dando a Esdras poder para punir quem a violar.c2-ezra-persian-law
  371. p. 49, p. 50Um documento de Elefantina é uma carta de um certo Hananias à comunidade, datada de 418 a.C., instruindo-a sobre como guardar a Páscoa. É fragmentária e muito de seu conteúdo precisa ser reconstruído, mas parece ter sido encomendada pelo governo persa: 'foi enviada palavra do rei'.c2-hananiah-letter
  372. p. 49, p. 50Na reconstrução dos estudiosos, a carta manda contar catorze dias do mês de nisan e observar a Páscoa, celebrar o pão sem fermento do dia 15 ao dia 21, manter-se ritualmente puro, não trabalhar em certos dias, não beber cerveja nem comer nada fermentado e guardar selado qualquer fermento entre essas datas (muito do conteúdo original é fragmentário).c2-hananiah-instructions
  373. p. 49, p. 50Hananias não cita a Torá como fonte dessas leis, mas algumas de suas instruções parecem vir dela, embora nem todas. A comunidade de Elefantina não parecia conhecer as leis de Moisés, que nunca cita em seus documentos; a carta pode ser um esforço para apresentá-las ou impô-las.c2-hananiah-torah-link
  374. p. 50Lida junto com Esdras, a carta aponta uma resposta possível a como as leis ligadas a Moisés se tornaram autoridade na cultura judaíta: respeitando a tradição local e reconhecendo as leis da Torá como codificação dessa tradição para o povo de Judá, a Pérsia pode ter recrutado oficiais como Esdras, ou como o Hananias da carta, para ensiná-las e impô-las como código local.c2-persia-recruited-officials
  375. p. 50Cerca de 120 anos depois da carta de Hananias, um viajante grego chamado Hecateu, contemporâneo de Alexandre, o Grande, descreveu Judá como uma sociedade que parecia regida pelas leis de Moisés, que teria chefiado a colônia e estabelecido o templo, o culto e as leis.c2-hecataeus
  376. p. 50Aceito esse testemunho como autêntico, Judá no fim do período persa, no século IV a.C., era uma sociedade regida pelas leis de Moisés; segundo fontes judaicas do século I a.C. em diante, governantes estrangeiros reconheceram o direito dos judeus de segui-las. Não se pode preencher em detalhe o intervalo entre os papiros de Elefantina e Hecateu, mas a Torá parece ter-se firmado como carta religiosa e social no período persa, talvez com o incentivo do governo persa.c2-torah-charter
  377. p. 50Os autores ressalvam que não sugerem que o domínio persa criou os Cinco Livros ou que estes foram canonizados para servir aos interesses persas. Os livros faziam parte da herança cultural que os judeus receberam de Israel, e eles os liam para saber de onde vinham e como sustentar a relação com seu deus.c2-not-persian-invention
  378. p. 50Os livros podem ter existido antes do período persa, mas há pouca evidência de que tivessem a autoridade e a influência de depois: não há sinal deles nos textos recuperados da comunidade persa de Elefantina. A situação parece diferente nos séculos seguintes, e a política persa de promover a difusão e o cumprimento da tradição jurídica local ajuda a entender essa transformação.c2-torah-authority-new
  379. p. 50O cânone judaico tem três partes: a Torá (os Cinco Livros de Moisés), os Profetas (as narrativas de Josué a Reis, os profetas 'maiores' Isaías, Jeremias e Ezequiel e doze profetas 'menores') e os Escritos (Salmos, Provérbios, Jó, Crônicas, Esdras-Neemias e outros). Dessa estrutura vem uma das palavras usadas até hoje para a Bíblia: Tanakh, sigla de Torá, Nevi'im e Ketuvim.c2-canon-three-parts
  380. p. 50Não se sabe quando e como os livros dos Profetas e dos Escritos entraram na Bíblia, mas o pouco que se infere sugere que sua canonização foi influenciada pela da Torá, e esses livros seriam uma espécie de complemento ou extensão dela.c2-prophets-after-torah
  381. p. 50Os últimos livros da seção dos Profetas, profetas 'menores' como Ageu e Zacarias, foram compostos no período persa, e é razoável supor que a seção tenha se fixado então. Ela registra palavras e feitos dos profetas que sucederam Moisés, mantendo uma cadeia de revelação durante a monarquia e o exílio. Moisés era considerado profeta único, com acesso mais direto a Deus.c2-prophets-settled-persian
  382. p. 50José Gonçalves Salvador distingue o judeu observante, o cristão-novo (e descendentes) forçado ao batismo, e o cripto-judeu que praticava o cristianismo só por conveniência.c9-salvador-new-christian-definition
  383. p. 50Chazan mostra que cristãos medievais também projetavam história judaica tripartite (passado feliz, ruptura, futuro esplêndido), mas o futuro 'redentor' implicava apagar o judaísmo e absorver os judeus na fé cristã.c-h502-chazan-christian-tripartite-future
  384. p. 50No Companion, a teoria de Lieberman inverte a intuição comum: em vez de a escrita fixar e autorizar, a fixidez teria sido oral e a autoridade caberia à versão performada de viva voz, restaurando a oralidade da Mishná (ainda que deixe aberta a emergência dos manuscritos).c-h502-fonrobert-lieberman-oral-fixity
  385. p. 50Flusser situa a esperança pela reconstrução de Jerusalém e a conclusão 'construtor de Jerusalém' da bênção na Amidá no período do Segundo Templo, ligando-a ao Salmo 147:2.c-h502-flusser-jerusalem-benediction
  386. p. 50Gerber destaca as cartas hebraicas de Hasdai ibn Shaprut ao soberano cazar José, guardadas e retransmitidas por séculos na Espanha judaica como espelho de suas qualidades pessoais.c-h502-gerber-hasdai-khazar-letter
  387. p. 51Para os autores, o surgimento da Bíblia e da interpretação bíblica marca o início da história judaica, em oposição à israelita. Não é um fato a situar num ano ou século, mas uma mudança de orientação cultural e religiosa que se deu ao longo de um período extenso.c2-jewish-begins-with-bible
  388. p. 51Esses judeus se viam como descendentes diretos dos israelitas, e a cultura que formaram aproximava-se do Israel descrito na Bíblia: devota de YHWH, centrada em Jerusalém. O que a distingue da religião israelita anterior é ter sido gerada pela leitura da própria Bíblia.c2-reconstituted-culture
  389. p. 51Os profetas raramente acrescentam leis, mas registram outras mensagens divinas que reforçam a autoridade da Torá: exortações à lealdade a Deus, a não adorar outros deuses e a promover justiça social, e avisos de castigo para a desobediência. Os versículos finais do último livro, Malaquias, pedem que Israel lembre o ensinamento de Moisés, sinal de que a seção era vista como suplemento da Torá.c2-prophets-reinforce-torah
  390. p. 51A terceira seção, os Escritos, reúne hinos a Deus, textos didáticos e narrativas, e é mais difícil de generalizar. Foi provavelmente a última a se fixar e parece ter permanecido algo fluida bem depois do período persa, embora possa ter começado a tomar forma nessa época. Não se sabe como livros como Jó ou Ester entraram nela.c2-writings-last
  391. p. 51Vários livros dos Escritos se ligam a Davi e Salomão: muitos salmos são atribuídos a Davi, Rute conta a história de sua bisavó, Crônicas trata em boa parte do reinado dele, e Provérbios, Eclesiastes e Cântico dos Cânticos registrariam palavras de Salomão. Em Samuel e Reis eles são reis grandes, mas pecadores; nos Escritos, figuras piedosas, quase como Moisés, o que talvez explique a inclusão.c2-david-solomon-in-writings
  392. p. 51Os estudiosos têm confiança de que a canonização começou no período persa, mas não está claro quando terminou. Séculos depois, ainda se discutia se livros como Eclesiastes deviam entrar no cânone, e outros livros talvez tenham sido tidos como canônicos por alguns judeus e rejeitados por outros. Mesmo assim, ao fim do período do Segundo Templo, a maioria dos judeus parece ter chegado a consenso sobre o conteúdo, semelhante ao da Bíblia atual.c2-canon-never-sharp
  393. p. 51Como não havia meio de autenticar uma obra como genuinamente bíblica, autores tentaram passar certos textos por bíblicos imitando o estilo do Gênesis e atribuindo a autoria a figuras como Moisés e Salomão, gerando os escritos hoje chamados Pseudepigrafia, do grego 'falsa escrita'. Há muitos, escritos nos séculos seguintes ao período persa, atribuídos a Enoque, Moisés e outros, mas não entraram no cânone judaico atual.c2-pseudepigrapha-defined
  394. p. 51Algumas dessas obras bíblicas parecidas hoje integram certos cânones cristãos, como a Sabedoria de Salomão, entre os livros chamados deuterocanônicos pelos católicos e apócrifos pelos protestantes, que os excluem. Em geral, porém, foram compostas tarde demais para ser aceitas pela corrente principal judaica.c2-apocrypha-christian
  395. p. 52, p. 52A maior parte das pseudepígrafas era conhecida muito antes dos Manuscritos do Mar Morto, por traduções em grego, latim, siríaco, etíope e armênio preservadas por comunidades cristãs. Foram compostas por judeus entre 200 a.C. e 200 d.C. (várias foram reelaboradas por cristãos). Escritas séculos depois da época que descrevem, não esclarecem o tempo de Abraão e Moisés, mas ajudam a entender como a Bíblia era interpretada no judaísmo antigo.c2-pseudepigrapha-origin
  396. p. 52, p. 52Exemplos: 1 Enoque e outras obras atribuídas a Enoque, de quem o Gênesis diz que 'andou com Deus', descrevem o que ele teria visto e aprendido no céu, inclusive segredos da natureza e do futuro, e surgem nos séculos III e II a.C. Jubileus, escrito em meados do século II a.C., relata uma revelação alternativa a Moisés no Sinai, por um anjo, e segue um calendário solar de 364 dias, diferente do lunar do calendário judaico.c2-enoch-jubilees
  397. p. 52A Sabedoria de Salomão, provavelmente do século I a.C. ou d.C., descreve o julgamento divino depois da morte, o castigo dos maus e a imortalidade dos justos, e faz parte da Bíblia grega e de certas Igrejas cristãs. O Testamento de Salomão, talvez do século V ou VI d.C., conta como o rei recrutou demônios para ajudar a construir o Templo.c2-solomon-pseudepigrapha
  398. p. 52Há também livros escritos para imitar a Bíblia, com histórias ambientadas em tempos bíblicos. Do Apócrifo vêm Tobias, sobre um justo entre os israelitas deportados à Assíria, e Judite, sobre uma viúva piedosa que sozinha salvou seu povo de Nabucodonosor; da Pseudepigrafia, José e Asenate, sobre a esposa egípcia de José, aqui convertida.c2-biblical-like-books
  399. p. 52Nulman situa Ahavah Rabbah ('Com amor abundante') como a segunda bênção antes do Shemá no Shaharit ashkenazi; o Talmude registra a disputa entre 'amor abundante' e 'amor eterno', e Tosafot fixa Ahavah Rabbah de manhã e Ahavat Olam à noite. A bênção abria a oração sacerdotal no Templo.cl-ahavah-rabbah-ashkenaz-morning
  400. p. 53Os protestantes adotaram um cânone sem os livros deuterocanônicos ou apócrifos e procuraram voltar ao texto hebraico em traduções e comentários, mas sua Bíblia, como toda Bíblia cristã, inclui o Novo Testamento, que não faz parte da Bíblia judaica. Os muçulmanos veem Abraão, Moisés e Davi como parte da história sagrada do islã, mas seu cânone é o Alcorão, registro das revelações a Maomé.c2-other-canons
  401. p. 53Há, em tese, tantas concepções da Bíblia quanto comunidades religiosas que a veneram. O foco do livro é a Bíblia como os judeus a definem e entendem, hoje dividida em três seções: Torá, Profetas e Escritos.c2-many-bibles
  402. p. 53, p. 53O núcleo da Bíblia judaica são os Cinco Livros de Moisés (Bereshit, Shemot, Vayikra, Bamidbar e Devarim, isto é, Gênesis a Deuteronômio), seção ligada à 'Torá de Moisés' de Esdras-Neemias. Torá pode significar 'lei', como a Septuaginta a traduziu com o grego 'nomos', ou 'ensinamento'; os primeiros judeus a leram das duas maneiras, como lei divina e como fonte de sabedoria e guia de vida.c2-torah-law-or-teaching
  403. p. 53, p. 53A seção dos Profetas tem dois tipos de material: os 'Profetas Anteriores' (Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis), que contam a história desde a conquista de Canaã até o Exílio e eram tidos como obra de profetas como Samuel; e os 'Profetas Posteriores', com as palavras dos profetas dos períodos assírio, babilônico e persa, dos quais Isaías, Jeremias e Ezequiel são os 'maiores' pela extensão e os outros 12 os 'menores' pela brevidade.c2-prophets-section
  404. p. 53Os Escritos incluem Salmos, Provérbios, Cântico dos Cânticos, Daniel, Esdras-Neemias e outras obras variadas, também tidas como proféticas, mas, ao contrário da Torá e dos Profetas, que guardam os esforços de Deus para se comunicar com Israel, vários desses livros registram o lado humano da interação, palavras dirigidas a Deus (Salmos) e observações sobre como Ele age (Provérbios e Eclesiastes).c2-writings-human-side
  405. p. 53, p. 53A Bíblia judaica em uso hoje é a Bíblia Massorética, nome dos massoretas, os escribas que copiaram essa versão do texto e atuaram entre os séculos VI e X d.C. Além de copiá-la, criaram recursos para ajudar a leitura, pois a Bíblia hebraica original registra basicamente as consoantes, quase sem vogais, e carece de pontuação.c2-masoretic-bible
  406. p. 53O Códice de Aleppo, de cerca de 930 d.C., é o manuscrito mais antigo conhecido da Bíblia hebraica completa. Foi danificado em tumultos na Síria em 1947 (o canto inferior direito da página reproduzida no livro foi queimado), mas boa parte sobreviveu.c2-aleppo-codex
  407. p. 54, p. 54Sem esses auxílios, o texto bíblico seria confuso e ambíguo, difícil até de pronunciar. Para facilitar a interpretação, os massoretas criaram sinais de vogais, um sistema de acentos, divisões do texto que orientavam a leitura em voz alta na sinagoga e notas marginais para a compreensão de certas palavras.c2-masoretic-aids
  408. p. 54A Septuaginta, termo que originalmente designava a tradução grega da Torá e aqui é usado para a tradução grega de toda a Bíblia judaica, preserva uma forma do cânone muito anterior à Bíblia Massorética: não só é anterior à ação dos escribas massoretas, como traduz uma forma diferente do texto bíblico.c2-septuagint-earlier
  409. p. 54, p. 54A versão grega da história de Davi e Golias, por exemplo, tem cerca de 50 versículos a menos que a massorética. A Septuaginta também se organiza de outro modo, em vez de Torá, Profetas e Escritos, e inclui livros ausentes da versão massorética, como os deuterocanônicos Tobias e Judite; ela pode refletir uma versão alternativa da Bíblia antes de seu texto e sua ordem serem fixados.c2-septuagint-differences
  410. p. 54, p. 54A maioria das diferenças entre manuscritos do texto hebraico foi eliminada por volta do século II d.C., quando autoridades religiosas judaicas fixaram a versão que viria a ser a Bíblia Massorética. Talvez porque outras formas tivessem se perdido (o Templo pode ter guardado manuscritos, e sua destruição em 70 d.C. pode tê-los levado), ou porque, em tempos de divisões sectárias e de uma comunidade cristã nascente, os líderes quisessem reduzir conflitos interpretativos.c2-text-standardized
  411. p. 54A Bíblia Massorética tornou-se a versão autorizada para os judeus e foi transmitida com poucas variações pela Idade Média; a imprensa, inventada por volta de 1440 por Johannes Gutenberg, padronizou ainda mais sua forma e seu conteúdo.c2-masoretic-transmission-print
  412. p. 54Comparando a Bíblia Massorética com manuscritos bíblicos entre os Manuscritos do Mar Morto, vê-se que a Bíblia judaica de hoje coincide em muito com os textos lidos pelos primeiros judeus, mas é também significativamente diferente do que eles liam.c2-bible-today-differs
  413. p. 54, p. 54A Bíblia começa com Deus como criador de todos os povos, mas logo se concentra em sua relação com Israel, povo favorecido como 'propriedade especial' (Êxodo 19:5), com bênçãos e proteção, mas também responsabilidades que o distinguem dos outros. Por que Deus escolhe os israelitas nunca fica claro.c2-god-creator-israel-chosen
  414. p. 54Os autores bíblicos veem com suspeita os outros povos, em especial os cananeus, associados a idolatria e a ofensas sexuais, mas os ancestrais dos israelitas também não são modelos de conduta: Jacó recorre a truques para obter a bênção do pai, os irmãos de José o vendem como escravo, e os israelitas que fogem do Egito se mostram rebeldes e infiéis.c2-flawed-ancestors
  415. p. 54Mesmo assim, Deus os separa para tratamento especial: promete a Abraão muitos descendentes e a terra de Canaã, intervém para resgatá-los da escravidão no Egito, protege-os no deserto de fome e inimigos, leva-os ao Monte Sinai, onde se revela por meio de Moisés e ensina a construir um santuário portátil em que possa residir entre eles e, depois de 40 anos de peregrinação, permite que entrem em Canaã, 'terra de leite e mel'.c2-divine-acts-narrative
  416. p. 54, p. 54O problema central da Bíblia hebraica é como manter a relação especial com Deus estabelecida no Sinai, que os Cinco Livros descrevem como aliança, um pacto voluntário que liga Deus e Israel em obrigação mútua. A história dessa relação vem de Noé e Abraão, que firmam alianças com Deus, mas a maior parte da Torá trata da aliança do Sinai, mediada por Moisés, cujas estipulações são as leis de Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio.c2-covenant-central-problem
  417. p. 54, p. 55A aliança do Sinai é de importância inestimável para a vida e o pensamento religiosos judaicos: suas obrigações definiram as regras da sociedade israelita em Canaã (relações com vizinhos, escravos, inimigos, criminosos e os que viviam entre eles) e, não menos, o quadro da relação contínua com Deus, isto é, como interagir com Ele e sustentar seu apoio com sacrifícios.c2-sinai-framework
  418. p. 54Padrões de horários de oração nos salmos de lamento, para Penner, funcionam retoricamente para intensificar a piedade em situações ominosas e não refletem um costume geral de orar de manhã e à noite.cl-psalms-not-daily-custom
  419. p. 54Segundo Nulman, Ahavat Olam ('Amor eterno') é a fórmula da segunda bênção antes do Shemá à noite no Ashkenaz (e manhã e noite em ritos sefaradi, hasídico e italiano); a decisão de compromisso talmúdica separou as duas aberturas para evitar confusão.cl-ahavat-olam-evening-formula
  420. p. 55Os mandamentos cobrem desde instruções para construir o Tabernáculo, o santuário em que se acreditava que Deus tinha presença, até regras sobre o sábado e outros dias sagrados, proibições alimentares e sexuais, leis sobre a administração da justiça e o tratamento dos pobres. Segui-los era essencial para manter o vínculo com Deus, dava direito à terra de Canaã e garantia ou restaurava a proteção divina.c2-commandments-range
  421. p. 55Até hoje, a revelação do Sinai e a aliança com Deus ali estabelecida são os momentos definidores da relação dos judeus com Deus, comparáveis em importância, para os judeus, ao papel da crucificação para os cristãos.c2-sinai-like-crucifixion
  422. p. 55, p. 55A segunda ideia essencial: a relação de Israel com Deus depende de intermediários, que muitas vezes se mostram falhos. Como é impossível ver Deus (alguns textos sugerem que Ele talvez tenha corpo, mas, salvo Moisés e poucos mortais excepcionais, vê-Lo é letal) e até ouvir sua voz era avassalador, Deuteronômio conta que no Sinai os israelitas não suportaram ouvi-la e recorreram a Moisés.c2-intermediaries-needed
  423. p. 55, p. 55Os israelitas usavam objetos para simbolizar ou transmitir a presença divina. O mais famoso é a Arca da Aliança, uma arca de madeira que continha as tábuas da aliança do Sinai e servia de trono ou escabelo de Deus, ladeada por duas estátuas de querubins; era tão perigosa de olhar ou de se aproximar que ficava escondida numa tenda, o Tabernáculo. Davi a levou para Jerusalém e logo ela foi depositada no Templo de Salomão.c2-ark-tabernacle
  424. p. 55O próprio Templo também se tornou símbolo da presença de Deus, que se acreditava residir em seu recinto mais interno, o Santo dos Santos; nas festas de Sucot, Pessach e Shavuot, ao visitá-lo, os israelitas sentiam estar fisicamente perto de Deus.c2-temple-god-presence
  425. p. 55A segunda via de interação com Deus era por pessoas especiais, autorizadas a falar ou agir em seu nome: o profeta, o rei e o sacerdote, cuja autoridade vinha de sua condição de representante ou servo de Deus. Muitos textos bíblicos são atribuídos a profetas, outros aos fundadores da monarquia, Davi e Salomão, e os sacerdotes deixaram a legislação ritual dos Cinco Livros.c2-human-intermediaries
  426. p. 55O profeta era uma espécie de porta-voz de Deus, capaz de ouvi-Lo e responder: alguns tinham visões ou sonhos, outros ouviam a voz, outros decifravam sinais. Parte da profecia bíblica prediz o futuro, ora de castigo, ora de paz e reconciliação, mas ao menos em alguns casos os israelitas podiam mudá-lo mudando de conduta. Os profetas também eram críticos sociais, que denunciavam ricos e poderosos, e consoladores, e às vezes intercediam junto a Deus.c2-prophet-roles
  427. p. 55Moisés é o modelo do intermediário profético: transmite as palavras de Deus, demonstra seu poder com feitos e prodígios e intercede quando Deus se irrita com o povo. Segundo um texto bíblico (Números 12:6 a 8), os profetas posteriores tinham acesso menos direto a Deus, que viam em visões e sonhos, enquanto Moisés falava com Ele 'face a face'.c2-moses-model-prophet
  428. p. 55O grupo original de judeus crentes em Jesus afirmava que Jesus de Nazaré era o Messias régio esperado de Israel, com base na crença de que Deus o ressuscitara e o exaltara. Entendiam-se como núcleo de um Israel renovado, e a experiência do Espírito como entrada na vida nova anunciada pelos profetas.cjb-jerusalem-community
  429. p. 55, p. 116Na comunidade de Jerusalém, Tiago, irmão de Jesus, exerceu liderança reconhecida; a tradição e as fontes posteriores situam ali o centro do movimento judaico crente no século I, antes e depois da morte de Tiago.cjb-james-leadership
  430. p. 56Os primeiros profetas da monarquia (Samuel e Natã no tempo de Davi, Elias e Eliseu no Reino do Norte) não parecem ter escrito nada, embora a tradição judaica atribua 1 e 2 Samuel a Samuel. A partir da conquista assíria, alguns profetas ou seguidores passaram a registrar por escrito as palavras da profecia, dando origem aos textos dos Profetas Maiores e Menores.c2-prophets-begin-writing
  431. p. 56, p. 56Para os pensadores judeus modernos que se sentem comprometidos com a aliança do Sinai mas aceitam a pesquisa moderna, a revelação do Sinai é um desafio: como entender uma experiência em desacordo com a compreensão científica da realidade? No centro dela há um ser sobrenatural e, mesmo seus aspectos historicamente mais plausíveis, como a existência de um monte Sinai ou de um profeta Moisés, não podem ser verificados. Alguns estudiosos dizem que todo o relato do Sinai é ficção, acrescentada depois à Torá.c2-sinai-modern-challenge
  432. p. 56, p. 56Além dos problemas históricos, o relato é contradito por experiências e valores modernos. O Holocausto, em que morreram milhões de judeus, seculares e religiosos, questionou o compromisso que Deus assumira com Israel no Sinai. Judeus feministas lutam com a Torá por outros motivos: suas narrativas marginalizam as mulheres, e suas leis e rituais as excluem e podem até ser citados como justificativa para abusar delas.c2-sinai-holocaust-feminist
  433. p. 56, p. 56Uma saída foi minimizar a revelação do Sinai como evento histórico e enfatizar seu efeito sobre a mente, como o Sinai é vivido, sentido e lembrado. Para o teólogo judeu alemão Franz Rosenzweig (1886 a 1929), a Bíblia registra algo genuíno, mas pouco importava se os israelitas cruzaram mesmo o Mar Vermelho como diz a narrativa, pois o evento talvez se devesse a um fenômeno climático raro; o crucial eram as percepções psicológico-espirituais, como sentir o nascimento como dádiva vinda de fora de si (o cerne da Criação) ou sentir-se comandado (a raiz da narrativa do Sinai).c2-rosenzweig-sinai
  434. p. 56Rosenzweig não reduzia a experiência religiosa a mera projeção da mente: via na Bíblia uma revelação genuína de Deus. Mas, para ele, a experiência da revelação não tinha conteúdo verbal e todas as palavras da Torá foram produzidas por seres humanos, o que mostra a influência da pesquisa bíblica moderna. Pouco lhe importava que ela desafiasse a veracidade histórica do relato, pois via o próprio ato de ler a Torá como experiência religiosa, que leva o intérprete a um encontro com Deus.c2-rosenzweig-no-verbal-revelation
  435. p. 56, p. 56Outros recorreram a técnicas tradicionais de interpretação, como o midrash, que encontra sentido nos silêncios do texto bíblico. O filósofo pós-Holocausto Emil Fackenheim (1916 a 2003), refugiado dos nazistas, tratou provocativamente o Holocausto como uma segunda revelação, que ameaçava destruir a fé dos judeus em Deus mas ao mesmo tempo impunha o imperativo de permanecer fiel à aliança do Sinai, negando a Hitler uma vitória póstuma. A teóloga feminista Judith Plaskow reimagina o Sinai afastando a descrição masculina de Deus e incluindo as mulheres como parceiras plenas da revelação.c2-fackenheim-plaskow
  436. p. 56Para muitos judeus esses esforços são irrelevantes: alguns judeus religiosos não reconhecem os desafios da pesquisa moderna ou não os conhecem, e judeus seculares podem não ver sentido em salvar uma história que tomam por mito. Mas muitos ficam entre o compromisso com a tradição e uma orientação secularizada, e as interpretações descritas nascem da luta para integrar essas perspectivas conflitantes.c2-sinai-many-responses
  437. p. 57O status de sacerdote era questão de genealogia, descendência de Arão, irmão de Moisés; a tribo maior de Levi, de que Arão veio, tinha papel de apoio no santuário, uma espécie de baixo clero que ajudava a guardá-lo e a manter o culto (os levitas). O sacerdote apresentava as ofertas de Israel, protegia a santidade do santuário e transmitia mensagens de Deus pelo Urim e Tumim, objetos misteriosos usados pelos sacerdotes.c2-priests-levites
  438. p. 57Os sacerdotes eram, literalmente, servos de Deus, que mantinham seu Templo e supervisionavam as dádivas a Ele, mas também especialistas religiosos, com o saber para construir e manter o santuário, protegê-lo da impureza que o ameaçava constantemente e torná-lo inabitável para Deus, e supervisionar sacrifícios e rituais.c2-priests-experts
  439. p. 57O papel do rei também se definia pela genealogia: os únicos reis legítimos para a Bíblia são os descendentes de Davi. O rei conduzia Israel à guerra em nome de Deus, administrava a justiça e ajudava a manter Deus acessível construindo e sustentando o Templo. Deus chama Davi e seus sucessores de 'filhos' e, numa espécie de aliança com Davi, promete estabelecer seu reino para sempre.c2-king-role
  440. p. 57A condição de rei era conferida por um profeta, que o autorizava como representante de Deus pelo ritual de unção, o derramamento de óleo sobre a cabeça ou o corpo. Por causa desse rito o rei era chamado de 'ungido', mashiach, de onde vem a palavra messias em português.c2-anointing-messiah
  441. p. 57, p. 57A Bíblia descreve os intermediários como falhos. Os reis de Israel e Judá decepcionam sistematicamente: muitos abandonam Deus por outros deuses, e até Davi e Salomão pecam gravemente (Davi comete adultério com Bate-Seba e manda matar o marido dela; Salomão, depois de uma vida de governo sábio, se volta aos deuses estrangeiros de suas mulheres). Os sacerdotes se corrompem, e em Ezequiel Deus se enfurece tanto com o que ocorre no Templo que ele mesmo inicia a sua destruição; até a profecia muitas vezes não convence.c2-intermediaries-fail
  442. p. 57A terceira ideia essencial: embora haja crises na relação de Israel com Deus, elas podem ser superadas. A Bíblia estabelece o que é preciso para sustentar a relação, mas também dramatiza como ela se desfaz com facilidade, pois Israel, desencaminhado pelos líderes, viola com frequência suas obrigações. Os profetas deviam funcionar como sistema de alerta, e até Moisés teve dificuldade de fazer os volúveis israelitas ouvi-lo.c2-crisis-overcome
  443. p. 57, p. 57Segundo a Bíblia, os israelitas por fim não cumprem sua parte da aliança e afastam tanto Deus que Ele permite que inimigos destruam os reinos de Israel e Judá e os mandem ao exílio. Boa parte da Bíblia se ocupa da desgraça de Israel e de por que um Deus justo permitiria tanto sofrimento. Jó sugere que mortais não podem entender por que Deus age como age; Jó, um justo que não é israelita, vira símbolo de todo crente que sofre sem entender; outros textos dizem que Deus pune os pecados do povo ou de seus ancestrais.c2-covenant-failure-exile
  444. p. 57, p. 57Mesmo após o desastre, a literatura bíblica prevê um futuro em que Judá e todo Israel serão restaurados: os livros proféticos, ao lado das condenações, imaginam uma reconciliação futura em que Deus livra Israel dos inimigos, devolve o que perdeu e renova a aliança. Essas descrições estão na base do que judeus e cristãos depois entenderam como a era escatológica, mas a restauração não está predeterminada, pois os profetas pedem ao povo que mude de conduta, como se seu destino estivesse em suas mãos.c2-restoration-hope
  445. p. 57Nulman atribui Akdamut Milin (poema aramaico antes da Torá no primeiro dia de Shavuot, rito ashkenazi) ao hazan Meir, chamado Nehorai, filho de Isaac de Orleans (séc. XI).cl-akdamut-meir-orleans
  446. p. 58, p. 58Os judeus posteriores passaram a crer que o que mantém aberta a possibilidade de autocorreção é a própria Torá, da qual os israelitas podiam aprender o que Deus espera deles e como se arrepender dos pecados. Isso ajuda a explicar por que a Bíblia foi tão valiosa para os judeus após a conquista babilônica e persa: lendo-a, viam o que haviam perdido por causa dos pecados dos ancestrais, mas também encontravam esperança e orientação para o futuro.c2-torah-keeps-repentance
  447. p. 58Os judeus que buscavam orientação na Bíblia esbarravam numa dificuldade: nem sempre era fácil entender seus textos, escritos numa língua arcaica, incompletos, nem sempre coerentes e feitos para uma época diferente da deles. O livro de A. J. Jacobs, A Year of Living Biblically, em que ele tenta seguir à letra todas as leis bíblicas, mostra o problema moderno: muitas são impraticáveis ou conflitam com valores americanos atuais.c2-interpretation-difficulties
  448. p. 58O mandamento do sábado ilustra o problema. Há muito em jogo: Deus promete punir os que desobedecem e seus descendentes e mostrar bondade 'até a milésima geração' aos que obedecem (Êxodo 20:5 e 6). Mas guardar o sábado exige saber o que o texto não diz: proíbe trabalhar no sétimo dia, mas o que é trabalho? Preparar uma refeição? Cuidar de uma criança ou de um doente? E se alguém morresse por causa de guardar o sábado, isso não violaria o mandamento contra matar?c2-sabbath-gaps
  449. p. 58Outro problema era aplicar textos antigos à realidade contemporânea. Em 2 Samuel 7, Deus promete a Davi que seus descendentes governarão para sempre, mas o que isso significava num mundo sem dinastia davídica e com judeus sob potências estrangeiras? As profecias de Isaías falam dos assírios, mas o que significavam quando os judeus enfrentavam gregos e romanos? A interpretação antiga partia da ideia de que a Bíblia é perpetuamente relevante, o que ficava em tensão com o fato de boa parte dela estar defasada.c2-davidic-promise-outdated
  450. p. 58Os primeiros leitores judeus resolveram esses problemas de modo que muitas vezes viola nosso senso do sentido literal: viam significado em detalhes minúsculos, derivaram de uma lei seca, como a do sábado, inúmeras restrições e rituais sem base aparente no texto, liam profecias do passado como previsões de seu futuro e preenchiam lacunas com histórias fantasiosas e leis novas. Havia lógica nisso: supunham que Deus pusera as inconsistências e lacunas no texto por algum motivo, como sinais de uma mensagem cifrada que se revelaria ao resolvê-las.c2-early-interpretation-method
  451. p. 58A Bíblia traz duas versões dos Dez Mandamentos, em Êxodo 20 e em Deuteronômio 5, quase idênticas, mas com pequenas diferenças, inclusive na formulação do sábado: Êxodo manda 'lembrar' o dia do sábado, Deuteronômio manda 'guardar' ou 'observar'. Para os estudiosos modernos, as duas versões são mais um 'doublet' da Torá, indício de que o texto combina material de fontes diferentes.c2-ten-commandments-two-versions
  452. p. 58, p. 58Em Córdova, nos anos 850, o leigo Paulo Álvaro apoiou o movimento dos mártires moçárabes. Numa carta, insiste em ancestrais judeus que encontraram Jesus e o reconheceram como Messias; Skarsaune o inclui, com cautela, entre judeus crentes do período muçulmano. Não havia incentivo social óbvio para converter-se do judaísmo ao cristianismo sob o Califado, o que torna a autoapresentação de Álvaro historicamente significativa.cjb-paulus-alvarus
  453. p. 59O contato com a Bíblia, o esforço de entendê-la e de relacioná-la ao presente, é um dos poucos fios que atravessam toda a história judaica, ligando comunidades muito diferentes. Mesmo depois de a pesquisa moderna questionar a autoria divina e de muitos judeus se secularizarem, ela segue central.c2-bible-constant
  454. p. 59Pode-se argumentar que a cultura judaica antecede a Bíblia (Elefantina mostra uma comunidade judaíta sem sinal de Bíblia) ou que a Bíblia antecede os judeus (ela começou a se formar na antiga Judá antes do Exílio e da missão de Esdras e Neemias). Os autores não resolvem o dilema do ovo e da galinha: afirmam só que judeus e Bíblia se desenvolveram inseparavelmente.c2-chicken-egg
  455. p. 59, p. 59Para os intérpretes judeus antigos, a diferença não era contradição, e sim sinal de que Deus enviava duas mensagens distintas. A Mekhilta de Rabi Ismael diz que 'lembrar' e 'guardar' foram ditos por Deus como uma só palavra, citando o Salmo 62:12: 'Deus falou uma coisa, duas ouvi'. Deus teria dito uma coisa e os humanos ouvido duas, numa façanha de comunicação impossível a mortais; para esses intérpretes, toda a Torá excede os limites da comunicação humana e deve ser lida de modo profundo e criativo.c2-remember-keep-mekhilta
  456. p. 59Alguns judeus antigos, como a comunidade dos Manuscritos do Mar Morto, concluíram que 'guardar' o sábado em Deuteronômio 5 era um mandamento distinto, revelado ao mesmo tempo: a obrigação não era só observar o dia, mas protegê-lo parando o trabalho antes, para não perder sua hora de início. Embora o sábado começasse na sexta ao pôr do sol, no século I d.C. muitos judeus já paravam de trabalhar mais cedo, por volta das 15h, e o que os levou a isso foi sua interpretação do mandamento de 'guardar' o sábado.c2-dss-sabbath-guard
  457. p. 59Essa leitura tinha razão de ser: a Torá não indica quando o sábado realmente começa, ambiguidade que põe o fiel em risco de violá-lo, e fixar o início cedo o bastante evitava qualquer possibilidade de não descansar. Aos nossos olhos tal interpretação estica uma pequena discrepância além do sentido pretendido, mas os primeiros judeus não seguiam nossos padrões de plausibilidade: detalhes que nos parecem triviais tinham consequências religiosas e existenciais sérias para quem precisava entender o texto para sustentar a aliança com Deus.c2-sabbath-start-ambiguity
  458. p. 59Zunz (ed. Reif) afirma que as orações estatutárias centrais herdadas via Talmude e geonim costumam alinhar-se ao Sidur de Amram nos vários ritos, embora detalhes e colocações variem (romano, alemão, espanhol).cl-zunz-amram-base-across-rites
  459. p. 60, p. 60'Antigo Testamento' é um termo especificamente cristão, que vem da profecia de Jeremias sobre uma 'nova aliança' que os cristãos viram realizada em Jesus. Quando surgiu um cânone cristão próprio, nos séculos III e IV d.C., a parte sobre Jesus (Evangelhos etc.) foi chamada de Novo Testamento, por ser tida como expressão dessa nova aliança, e o resto, a aliança do Sinai, de Antigo Testamento. Os cristãos acreditavam que a aliança do Sinai, restrita a Israel, fora substituída pela de Jesus, estendida a todos os povos.c2-old-testament-term
  460. p. 60O Antigo Testamento difere da Bíblia judaica também de outras maneiras: ordena os livros de outro modo, e a maioria dos cristãos o conhecia numa tradução grega, latina ou de outra língua, não no hebraico original. A principal razão pela qual os judeus não usam o termo é que ele define o conteúdo da Bíblia hebraica à luz do Novo Testamento, que eles não aceitam como parte de sua Bíblia.c2-old-testament-differences
  461. p. 60, p. 60Os judeus não aceitam o Novo Testamento porque não aceitam Jesus como messias ou filho de Deus. No tempo de Jesus havia judeus que esperavam um messias, um salvador da linhagem de Davi, mas Jesus não correspondia às expectativas de muitos, pois morreu sem libertar os judeus dos opressores. Além disso, o cristianismo primitivo passou a ensinar que, à luz de Jesus, os judeus não precisavam mais seguir as leis de Moisés, o que contradizia o que os judeus tinham por obrigação fundamental da aliança, e havia judeus dispostos a morrer em vez de violá-las.c2-why-no-new-testament
  462. p. 60Os autores observam que, nessa época, alguns judeus talvez já esperassem não um, mas dois messias, o primeiro sofrendo ou morrendo antes do surgimento do segundo, e que o sofrimento e a morte de Jesus poderiam ter se encaixado nessa expectativa.c2-two-messiahs-possible
  463. p. 60O rótulo 'povo do Livro' nasceu como descrição muçulmana dos judeus, mas não só deles: também se aplicava aos cristãos e aos sabeus, grupo definido por seu compromisso com uma escritura. Para os judeus, 'o Livro' é a Torá, que descreve pessoas e eventos que os muçulmanos veem como parte de sua história sagrada, mas num texto que acreditavam ter sido corrompido pelos judeus que o transmitiram.c2-people-of-the-book-origin
  464. p. 60, p. 61Os judeus e outros assim descritos eram considerados não muçulmanos sujeitos a conversão e, se recusassem, a um status subordinado que incluía um imposto especial, a jizya; se aceitassem os termos, seriam protegidos, e ser 'povo do Livro' era um status melhor do que ser pagão, relativamente falando. Em tempos modernos, os judeus passaram a usar o rótulo para si, esquecendo a conotação negativa que tinha no islã, e hoje o termo às vezes indica o compromisso judaico com os livros em geral, e não com a Torá em particular.c2-people-of-the-book-status
  465. p. 60Zunz descreve o rito castelhano (espanhol) como a forma mais pura entre os ritos do mundo islâmico: simples, coerente e relativamente independente dos poetas prolíficos.cl-zunz-castilian-rite-islamic
  466. p. 60, p. 60Gerber narra a decisão de Judá Halevi na primavera de 1140 de renunciar à corte e à fama andaluza no auge da carreira para voltar à Terra de Israel, para assombro de contemporâneos.c-h502-gerber-halevi-leaves-spain
  467. p. 61, p. 61À pergunta sobre por que os judeus de hoje não aplicam a pena de morte bíblica, por exemplo, por juntar lenha no sábado, os autores respondem que o sentido da lei bíblica na cultura judaica foi moldado pelas ideias e interpretações dos rabinos, que surgem nos séculos após a destruição do Segundo Templo. Os rabinos viam os judeus de seu tempo como herdeiros da aliança do Sinai e entendiam que a lei bíblica continuava a obrigá-los, inclusive nos casos de pena de morte, mas entendiam que a revelação do Sinai incluía a Torá Oral, não registrada nos Cinco Livros e transmitida oralmente de Moisés a Josué, aos profetas e aos rabinos.c2-death-penalty-sabbath
  468. p. 61, p. 61A Torá Oral elabora a lei bíblica, define detalhes que a Bíblia não trata, introduz ressalvas e abre exceções. Rabinos de hoje não impõem a pena de morte pela violação do sábado porque creem que nenhum tribunal religioso atual tem autoridade para isso e, mesmo se existisse, parece duvidoso que os rabinos a aplicassem por ofensa tão leve. Interpretaram a Bíblia de modo a excluir na prática essa pena, exigindo um limiar altíssimo para provar a culpa (que o acusado tivesse sido advertido especificamente) ou sugerindo que a pena valia só para os dias da peregrinação no deserto.c2-oral-torah-details
  469. p. 61A Arca da Aliança é descrita nos Cinco Livros como uma espécie de arca em que ficavam as tábuas da aliança; era perigosa de olhar ou tocar, e a Bíblia conta que Deus feriu os que a maltrataram. Davi a leva para Jerusalém e Salomão a coloca no Templo, mas o que acontece com ela depois é incerto: quando os babilônios destroem o Templo, a Bíblia não a menciona entre os objetos levados à Babilônia, nem registra que tenha sido retirada ou destruída antes.c2-ark-what-happened
  470. p. 61Ninguém sabe o que foi feito da arca. Algumas fontes dizem que foi escondida sob o local do Templo ou numa caverna; outras, que foi levada pelos romanos após a destruição do Segundo Templo; a tradição etíope afirma que foi levada às escondidas à Etiópia, onde estaria até hoje. São todas tradições posteriores, e seu paradeiro real é desconhecido.c2-ark-later-traditions
  471. p. 61, p. 61Na cultura judaica, a arca persiste em forma metafórica: na sinagoga, os rolos da Torá ficam num armário ou nicho chamado de 'arca sagrada', aron ha-kodesh, em memória da arca original do Santo dos Santos. Essa 'arca' lembra o Templo, mas sua função principal é proteger a santidade do rolo da Torá, a principal manifestação da presença de Deus entre seu povo. Assim, o destino da arca espelha a evolução do judaísmo, de religião centrada no Templo a religião que busca acesso a Deus na Torá.c2-holy-ark-synagogue
  472. p. 61, p. 65Penner vê dificuldades substantivas na tese de que m. Tamid 5.1 descreve com precisão uma liturgia sacerdotal do Segundo Templo (incluindo a Amidá/Shemá completa com Nm 15 e bênçãos).cl-tamid-shema-difficulties
  473. p. 62, p. 62Entre os séculos III e I a.C., um judeu chamado Ezequiel recontou o Êxodo em grego na forma de uma tragédia, a Exagogé, da qual sobrevivem apenas 269 versos. Ele provavelmente tomou recursos de Eurípides e Ésquilo.c3-exagoge
  474. p. 62, p. 63Ezequiel provavelmente viveu em Alexandria ou em outra cidade helenizada, onde sua formação incluiu tanto a Bíblia quanto a literatura grega.c3-ezekiel-alexandria
  475. p. 62, p. 519Alexandre nasceu na Macedônia em 356 a.C. e, antes dos 30 anos, conquistou o Império Persa, derrotando Dario III em 331 a.C. Morreu em 323 a.C.c3-alexander-conquest
  476. p. 62As conquistas de Alexandre inauguraram a chamada era helenística, que durou até a conquista romana do Oriente Próximo e do Mediterrâneo no século I a.C. O grego coiné se difundiu amplamente.c3-hellenistic-age
  477. p. 62Cidades de tipo grego, com uma noção grega de cidadania, foram fundadas ou reorganizadas em todo o Oriente Próximo. A mais famosa foi Alexandria, fundada pelo próprio Alexandre. Jerusalém também foi reorganizada desse modo.c3-hellenistic-cities
  478. p. 63O livro dos Jubileus, escrito no século II a.C., reconta o Pentateuco sem sinais de influência grega. Foi composto em hebraico (há fragmentos hebraicos entre os Manuscritos do Mar Morto) e sobrevive inteiro apenas em traduções etíope e latina. Seu autor parece se opor a qualquer influência estrangeira.c3-jubilees
  479. p. 63Imitar ou não os gregos dependia não só da geografia, mas também da condição econômica (provavelmente só os privilegiados tinham acesso às escolas onde se aprendia grego) e da proximidade de cidades com instituições gregas.c3-hellenization-factors
  480. p. 63Na era helenística, a identidade grega não dependia em princípio de nascimento: qualquer pessoa disposta a adotar a língua e os costumes gregos podia acessá-la. Isso oferecia ascensão social, mas também era visto por muitos judeus como ameaça às tradições ancestrais e associado à perda de independência e à exploração econômica.c3-greek-identity-open
  481. p. 63, p. 64Nulman situa Al Hanisim (milagres de Hanucá e Purim na bênção de ação de graças) com versão curta em Soferim e texto atual tomado do Sidur de Rav Amram Gaon e do Sidur de Rav Saadia Gaon.cl-al-hanisim-amram-saadia
  482. p. 64Em 333 a.C., em Isso, Alexandre enfrentou o rei persa Dario III. Dario sobreviveu, mas a derrota marcou o começo do fim do poder aquemênida. A batalha foi representada num mosaico do século I a.C. encontrado em Pompeia.c3-issus
  483. p. 64Clearco, discípulo de Aristóteles, contou que o mestre teria conhecido um judeu de alma grega. A história provavelmente não é verdadeira: o próprio Aristóteles nunca menciona o encontro, e o primeiro contato entre judeus e gregos é desconhecido.c3-clearchus
  484. p. 64Contatos comerciais entre a Palestina e o mundo grego remontam ao período persa ou antes, e uma presença militar grega é detectável no litoral da Palestina já no século VII a.C.c3-first-contacts
  485. p. 64Ao conquistar a Judeia, Alexandre provavelmente manteve a prática administrativa persa, permitindo que os judeus vivessem segundo suas leis ancestrais. Os macedônios provavelmente substituíram o aramaico pelo grego como língua de governo.c3-alexander-judea-admin
  486. p. 64Relatos afirmam que os ancestrais dos samaritanos se rebelaram contra os gregos. Numa caverna em Wadi ed-Daliyeh foram encontrados cerca de 200 esqueletos, talvez de refugiados caçados pelas forças de Alexandre; papiros aramaicos datados entre 365 e 335 a.C. situam esses ocupantes na época da conquista.c3-wadi-daliyeh
  487. p. 64Josefo sugere que os judeus relutaram em aceitar o domínio grego, mantendo lealdade à Pérsia, mas não há evidência de rebelião na Judeia nessa época. Josefo pode estar certo ao dizer que o povo logo se submeteu a Alexandre por vontade própria.c3-josephus-submission
  488. p. 64, p. 65Após a morte de Alexandre em 323 a.C., seus generais, os diádocos, lutaram pelo controle de seu império. A Judeia, situada entre o Egito e a Mesopotâmia, ficou no meio do conflito. Depois de décadas de guerra, o império foi dividido em reinos separados.c3-diadochi
  489. p. 65, p. 519Ptolomeu, general de Alexandre, assegurou o Egito e fundou uma dinastia que durou até a conquista romana em 30 a.C. O reino ptolomaico governou a Judeia até 200 a.C. A cronologia do livro registra que, com a morte de Alexandre, Egito e Judeia passaram ao controle ptolomaico.c3-ptolemaic-rule
  490. p. 65O reino fundado por Seleuco I, com base na Síria, governou a Judeia de 200 a.C. até as primeiras décadas do século I a.C., quando a região passou ao controle romano.c3-seleucid-kingdom
  491. p. 65Os governantes desses reinos eram gregos, mas da Macedônia, e não da Atenas clássica. Suas cidades de tipo grego não eram cidades-Estado independentes: recebiam seu estatuto de reis que esperavam lealdade, tributos e apoio militar.c3-macedonians
  492. p. 65O termo helenístico passou a designar uma fusão entre cultura grega e cultura do Oriente Próximo: não um processo de mão única, mas uma adaptação mútua. Cleópatra VII (69 a 30 a.C.), de ascendência macedônia, apresentava-se como rainha egípcia.c3-two-way
  493. p. 65, p. 66Os papiros de Zenon, funcionário a serviço de um ministro das finanças de Ptolomeu II que percorreu a Palestina em 259 e 258 a.C., foram descobertos no Egito em 1915. Revelam uma Palestina monitorada, controlada e explorada economicamente pelo rei ptolomaico, com administração baseada em Ptolemaida (atual Akko) e presente até o nível das aldeias.c3-zenon
  494. p. 65O mapa 3.1 do livro representa os reinos selêucida e ptolomaico antes da conquista selêucida da Judeia por volta de 200 a.C., com Antioquia no reino selêucida e Alexandria e Leontópolis no ptolomaico.c3-zones-map
  495. p. 66Os Ptolomeus se apoiavam em aristocratas locais, como um certo Tobias, cuja família ficaria notória por seu papel na coleta de impostos. Os papiros sugerem ainda urbanização crescente e talvez o aprendizado do grego por alguns habitantes.c3-tobiads
  496. p. 66Moedas cunhadas pelas autoridades de Jerusalém entre 300 e 250 a.C. trazem a efígie de Ptolomeu I e de sua esposa Berenice, sinal de que a própria Jerusalém estava estreitamente ligada ao governo ptolomaico.c3-jerusalem-coins
  497. p. 66Há pouca evidência sobre a reação judaica ao domínio ptolomaico; os séculos IV e III a.C. continuam sendo uma espécie de idade obscura na compreensão da história da Judeia.c3-dark-age
  498. p. 66A datação do Eclesiastes é debatida: alguns o situam no início da era helenística por paralelos com a filosofia grega, mas ele foi escrito em hebraico e os paralelos não provam influência. Por conter empréstimos persas, deve ser do período persa ou posterior.c3-ecclesiastes
  499. p. 66Só no século II a.C. a sociedade da Judeia começa a mostrar sinais de impacto significativo da cultura helenística, e mesmo assim os estudiosos discordam sobre a profundidade desse efeito.c3-hellenization-depth
  500. p. 66Comunidades judaicas existiam havia muito fora de Judá, na Mesopotâmia e no Egito: algumas, como a da Babilônia, nasceram do exílio; outras, como a de Elefantina, de outras formas. O domínio helenístico aumentou seu tamanho e sua dispersão, por razões econômicas e políticas, incluindo carreiras militares a serviço dos Ptolomeus.c3-diaspora-growth
  501. p. 66A Carta de Aristeias afirma que Ptolomeu I levou ao Egito 100 mil cativos da Judeia e instalou 30 mil deles em fortes. Os números provavelmente são exagerados, mas indicam um dos processos que fizeram crescer a comunidade judaica do Egito.c3-aristeas-captives
  502. p. 66Segundo Josefo, muitos judeus foram ao Egito por vontade própria. Ele pode projetar sua época no passado, mas papiros e inscrições confirmam que judeus do Egito possuíam terras, trabalhavam como arrendatários e serviam ao governo como policiais e coletores de impostos. Para eles o Egito não era exílio, e sim um lugar de oportunidades.c3-egypt-opportunities
  503. p. 66Nulman define Al Hayt como confissão longa dita em toda Amidá de Yom Kipur e na repetição (exceto Neilá), na Minhá da véspera, e pelo noivo e noiva; Ashamnu permanece a forma curta do Vidui.cl-al-het-yom-kippur-confession
  504. p. 67, p. 67Os estudiosos já acreditaram que os judeus da diáspora eram mais suscetíveis à helenização que os da Judeia. Muitos hoje rejeitam o contraste como simplista: mesmo dentro de Jerusalém, ou de uma só família, as reações variavam. Ainda assim, os judeus de Alexandria provavelmente enfrentaram a helenização um pouco antes, enquanto a Judeia do século III a.C. era uma região periférica, talvez com uma elite helenizada em Jerusalém, mas com população ainda majoritariamente rural.c3-diaspora-contrast
  505. p. 67Na época de Ptolomeu II, a biblioteca de Alexandria já funcionava e seu acervo, que o livro estima em 200 mil volumes, atraía os melhores estudiosos.c3-library
  506. p. 67Restou apenas uma pequena parte da produção literária judaica de Alexandria, preservada sobretudo em citações de autores cristãos posteriores. Ela inclui histórias, epopeias e filosofia em grego. O primeiro autor judeu conhecido a escrever em grego é o historiador Demétrio, provavelmente do fim do século III a.C.c3-jewish-greek-literature
  507. p. 67Um judeu chamado Fílon (não o famoso Fílon de Alexandria, do século I d.C.) escreveu um poema épico sobre Jerusalém.c3-philo-epic
  508. p. 67, p. 67Aristóbulo, o primeiro filósofo judeu conhecido, viveu em Alexandria no século II a.C. Sua obra contém os exemplos mais antigos de interpretação alegórica da Bíblia, técnica tomada de estudiosos gregos que liam Homero e Hesíodo: a 'mão' de Deus, por exemplo, significaria o poder divino.c3-aristobulus
  509. p. 68Aristóbulo reconhecia o valor de Platão, mas argumentava que Moisés era o melhor filósofo e que Platão havia imitado a legislação judaica. Imitar a cultura grega não significava abandonar a identidade judaica.c3-aristobulus-plato
  510. p. 68O termo hebraico galut ('exílio') supõe que viver fora da terra é uma punição imposta. Muitos judeus, porém, se mudaram voluntariamente; Fílon de Alexandria descreve as comunidades fora da Palestina como colônias, e não exílios. Por isso muitos estudiosos preferem diáspora, do grego 'dispersão'. O termo adequado depende da história de cada comunidade.c3-galut-diaspora
  511. p. 68, p. 68, p. 68A tradução da Torá para o grego, a Septuaginta, foi a tentativa mais duradoura de aproximar as culturas judaica e grega. Muitos judeus do Egito ptolomaico provavelmente tinham o grego como primeira língua. Mesmo o erudito Fílon de Alexandria parece ter sabido pouco hebraico. Na tradução percebem-se influências da filosofia, do direito e até da mitologia gregos.c3-septuagint
  512. p. 68Segundo a Carta de Aristeias, composta em Alexandria no século II ou I a.C., Ptolomeu II encomendou a tradução das leis judaicas para sua biblioteca e pediu ao sumo sacerdote de Jerusalém seis tradutores de cada uma das 12 tribos. Desses 72 tradutores viria o nome Septuaginta, do latim 'setenta'.c3-aristeas-account
  513. p. 68, p. 519Não está nada claro que a Carta de Aristeias descreva com precisão a origem da Septuaginta; é possível que a tradução tenha surgido dentro da própria comunidade judaica, talvez com apoio do rei. A cronologia do livro associa a Septuaginta ao reinado de Ptolomeu II (283 a 246 a.C.).c3-aristeas-reliability
  514. p. 69Os judeus de Alexandria celebravam anualmente uma festa em honra da Septuaginta na ilha do farol da cidade; Fílon descreve a ilha como o lugar de onde a 'luz' dessa versão da Bíblia irradiou para o mundo.c3-septuagint-festival
  515. p. 69No século I d.C., dois dos cinco bairros de Alexandria eram predominantemente judaicos; a comunidade tinha tribunais próprios e um líder semiautônomo, chamado (ao menos na época romana) de etnarca. Não eram guetos: os judeus não estavam confinados a eles.c3-alexandria-quarters
  516. p. 69O templo judaico de Elefantina foi destruído no fim do século V a.C., e os judeus de lá aparentemente não conseguiram reconstruí-lo.c3-elephantine-temple
  517. p. 69, p. 70No século II a.C., um sumo sacerdote chamado Onias (Onias III ou Onias IV: Josefo, a única fonte, parece confundir os dois) fugiu da Judeia e, com permissão do rei ptolomaico (provavelmente Ptolomeu VI), construiu em Leontópolis um templo inspirado no de Jerusalém, em escala menor. Onias via nele o cumprimento de Isaías 19:19. O templo funcionou até ser fechado pelos romanos em 74 d.C.c3-leontopolis
  518. p. 69Para Goodman, edifícios do período do Templo identificados como sinagogas (Masada, Heródio, Gamala, etc.) eram sobretudo espaços comunitários, não templos alternativos: em Tiberíades a 'casa de oração' também serviu a reuniões políticas (Josefo, 67 EC).c-h502-goodman-synagogue-communal
  519. p. 69Goodman observa que atribuir santidade ao edifício da sinagoga enquanto o Templo ainda estava de pé parece mais comum na diáspora do que na Terra de Israel (ex.: Filo; 'lugares santos chamados sinagogas').c-h502-goodman-synagogue-sanctity-diaspora
  520. p. 70, p. 70A evidência mais antiga da instituição depois chamada sinagoga vem do Egito ptolomaico, no século III a.C. As inscrições a chamam de proseuche, 'casa de oração', termo usado até cerca do século II d.C. Isso não prova que ela tenha surgido no Egito; sua origem é debatida.c3-proseuche
  521. p. 70Uma sinagoga de Alexandria era tão imponente que os judeus se lembravam dela séculos depois de sua destruição, durante a guerra contra os romanos de 115 a 117 d.C.c3-alexandria-synagogue
  522. p. 70Os judeus do Egito cultivavam uma relação próxima com os Ptolomeus como patronos: inscrições de sinagogas homenageiam o rei e a rainha. Judeus e Ptolomeus tinham em comum serem estrangeiros no Egito, num padrão herdado dos persas (serviço militar em troca de apoio às instituições comunitárias).c3-ptolemaic-patronage
  523. p. 70Penner sugere que o Templo não foi o centro de tentativas formais de promover ou prescrever oração diária fixa; ir ao Templo para orar aparece como piedade pessoal, não como obrigação comunitária.cl-temple-not-fixed-daily-center
  524. p. 70Segundo Goodman, para a maioria dos judeus nada na sinagoga rivalizava o culto sacrificial do Templo; a oração comunitária era valorizada, sobretudo longe de Jerusalém, mas ninguém ainda pensava que ela pudesse substituir o sacrifício, pois a Torá de Moisés não a decretava de modo claro.c-h502-goodman-prayer-not-yet-sacrifice-substitute
  525. p. 71Os exemplos mais antigos de literatura antijudaica vêm do Egito ptolomaico. Mâneton, sacerdote egípcio helenizado, escreveu uma espécie de anti-Êxodo em que Moisés é um sacerdote renegado e seus seguidores são associados aos hicsos ou a leprosos.c3-manetho
  526. p. 71Esse tipo de acusação ameaçava os judeus de duas formas: podia incitar violência (como em Alexandria no século I d.C.) e envenenar suas relações com os Ptolomeus. No fim do século III a.C., os egípcios nativos ganharam mais espaço no governo, e a situação dos judeus do Egito tornou-se mais precária.c3-egyptian-pressure
  527. p. 71Parte da literatura judaica da época responde a essa pressão. No relato de Artápano, Abraão ensina astronomia ao rei do Egito, José organiza a agricultura egípcia e Moisés é honrado como um deus pelos sacerdotes: os judeus aparecem como benfeitores, não como estrangeiros misantropos.c3-artapanus
  528. p. 71A helenização não deve ser entendida apenas como assimilação: no Egito ela também serviu para preservar a cultura judaica, permitindo manter identidade e comunidade num ambiente em que os judeus eram ressentidos pela população nativa e dependiam de seus governantes gregos.c3-hellenization-preservation
  529. p. 71, p. 72, p. 519A Sabedoria de Ben Sira, escrita por um sábio chamado Jesus ben Sira por volta de 200 a.C., sobreviveu em grego nos livros apócrifos (o Eclesiástico). No fim do século XIX, grandes fragmentos do original hebraico foram encontrados na Guenizá do Cairo. Não há consenso sobre o quanto a obra reflete a helenização.c3-ben-sira
  530. p. 72, p. 519Entre 202 e 200 a.C., a Judeia foi tomada do reino ptolomaico pelo reino selêucida de Antíoco III, que parece ter confirmado o direito dos judeus de viver segundo seus costumes ancestrais, política mantida por seu sucessor Seleuco IV.c3-antiochus-iii
  531. p. 72Seleuco IV, que reinou de 187 a 175 a.C., teria tentado pilhar o Templo de Jerusalém. Seu oficial Heliodoro fracassou (segundo o relato judaico, seres angélicos o derrubaram do cavalo). Após o assassinato de Seleuco, atribuído a Heliodoro, subiu ao trono seu irmão Antíoco IV.c3-heliodorus
  532. p. 72A revolta dos macabeus é lembrada hoje no Chanucá, festa de oito dias em que se acende um candelabro de nove braços; ela celebra a rededicação do Templo profanado por Antíoco IV e cai no dia 25 do mês de Kislev.c3-hanukkah-memory
  533. p. 73, p. 75Os acontecimentos são conhecidos sobretudo por 1 Macabeus e 2 Macabeus, preservados nos apócrifos. Nenhum dos dois é totalmente confiável: contradizem-se em pontos-chave, foram escritos muito depois dos fatos e narram milagres. Podem ter exagerado as impiedades de Antíoco para desacreditá-lo, como fez o Cilindro de Ciro com o rei babilônio Nabonido.c3-maccabees-sources
  534. p. 73O cargo mais poderoso da sociedade da Judeia era o de sumo sacerdote, que parece ter sido restrito à família dos oníadas. Um sacerdote chamado Jasão deslocou Onias III subornando Antíoco; anos depois, Menelau ofereceu seu próprio suborno, pago com o tesouro do Templo, o que indignou a população de Jerusalém.c3-high-priesthood
  535. p. 73, p. 73Jasão fundou em Jerusalém um ginásio, instituição grega de treino físico e intelectual dos jovens. Segundo 2 Macabeus, os jovens passaram a usar chapéus gregos. Que treinassem nus é uma inferência dos historiadores, pois as fontes não o dizem; 1 Macabeus menciona o epispasmo, técnica para ocultar a circuncisão.c3-gymnasium
  536. p. 73Jasão queria transformar Jerusalém numa pólis, com todos os privilégios que esse estatuto trazia (direitos para os habitantes do sexo masculino, cunhagem de moedas), e chegou a querer rebatizá-la de Antioquia em honra de Antíoco.c3-polis-antioch
  537. p. 73Menelau foi além: roubou vasos de ouro do Templo para subornar um oficial grego e vendê-los a outras cidades, e mandou assassinar Onias, antigo sumo sacerdote que o criticava.c3-menelaus
  538. p. 74, p. 74As lutas entre Jasão e Menelau foram vistas por Antíoco como revolta. Ele saqueou o Templo, teria erguido nele algum objeto sacrílego (um ídolo ou um altar) para rededicá-lo a Zeus e instalou em Jerusalém uma cidadela guarnecida por soldados não judeus.c3-antiochus-intervention
  539. p. 74, p. 519Antíoco promulgou um édito que proibia a prática religiosa judaica: a circuncisão, o sábado e a Torá. Cópias da Torá foram destruídas e quem seguia suas leis foi executado; há relatos de judeus forçados a comer carne de porco. A cronologia do livro data de 167 a.C. a rededicação do Templo a Zeus e essas proibições.c3-persecution-edict
  540. p. 75Os relatos mais antigos de pessoas que escolhem morrer por sua religião aparecem no relato de 2 Macabeus sobre a perseguição de Antíoco. A Bíblia não contém relatos desse tipo, o que leva estudiosos a situar a origem do martírio nesse período.c3-martyrdom
  541. p. 75Em 62 d.C., Tiago, irmão de Jesus, foi executado em Jerusalém junto com outros, sob o sumo sacerdote (Josefo, Ant. 20.199-203). Bauckham, no volume de Skarsaune, situa esse episódio como o terceiro grande momento de violência contra a igreja de Jerusalém no século I, depois de Estêvão e da morte de Tiago filho de Zebedeu sob Agripa I (c. 42).cjb-james-death-62
  542. p. 75Para a comunidade de Jerusalém reconstruída por Bauckham, a obediência judaica à Torá era dada como óbvia; o que danificou a reputação de Paulo ali não foi, em princípio, a política para gentios convertidos, e sim o rumor de que ele encorajava judeus a abandonar a observância completa da Torá (Atos 21,21).cjb-jerusalem-torah-taken-for-granted
  543. p. 75, p. 81A Carta de Aristeas (paragrafos 158 a 160), provavelmente alexandrina (meados/finais do século II a.C.), é para Penner um dos primeiros testemunhos potenciais do uso de Dt 6:7 como prova de um costume de voltar-se a Deus duas vezes ao dia, ao deitar e ao levantar, em ambiente doméstico.cl-aristeas-deut-twice-daily
  544. p. 76A adoção de instituições gregas por Jasão e Menelau talvez não fosse um abandono da tradição, como dizem 1 e 2 Macabeus, nem uma reforma religiosa militante, como pensava Bickerman, mas um esforço pragmático para melhorar o estatuto de Jerusalém no mundo helenizado.c3-jason-menelaus-pragmatism
  545. p. 76, p. 78É nesse período que aparece pela primeira vez o termo judaísmo, palavra grega para um modo de vida definido pelas leis de Moisés e por práticas como a circuncisão, o sábado e o culto no Templo. 2 Macabeus é a primeira obra conhecida a usar os termos judaísmo e helenismo.c3-judaism-term
  546. p. 76Não há evidência de que os judeus resistissem ao domínio selêucida enquanto podiam praticar seu modo de vida. A intervenção de Antíoco os obrigou a escolher entre a lei e a adoção de um modo de vida grego; alguns fugiram para o deserto, outros aceitaram morrer, e muitos se rebelaram.c3-no-resistance-before
  547. p. 76, p. 519Segundo 1 Macabeus, oficiais de Antíoco foram a Modiin para obrigar os judeus a sacrificar. O sacerdote Matatias recusou-se, matou um judeu que se apresentou para sacrificar e um oficial selêucida, e fugiu com os cinco filhos para as colinas, iniciando uma guerra de guerrilha.c3-modiin
  548. p. 76Outro grupo, os hassidim ('os piedosos'), parece ter atuado na revolta ainda antes, mas seus líderes foram eclipsados por Matatias e sua família.c3-hasidim
  549. p. 76Com a morte de Matatias, seu filho Judas assumiu o comando. Do apelido de Judas, 'o Macabeu' ou 'o Martelo', vêm os nomes macabeus e revolta dos macabeus.c3-maccabee-name
  550. p. 76No início, como propôs Bickerman, a revolta pode ter sido mais uma guerra civil entre judeus do que uma rebelião contra o domínio estrangeiro, com os macabeus visando primeiro os colaboradores judeus.c3-civil-war
  551. p. 76, p. 520Judas, hábil comandante de guerrilha, retomou Jerusalém e restaurou o culto do Templo, acontecimento comemorado no Chanucá. Ajudaram-no a distração de Antíoco com o leste de seu reino e o apoio dos romanos. A cronologia do livro data de 164 a.C. a purificação e rededicação do Templo.c3-judah-victories
  552. p. 76Em 161 a.C., Judas derrotou Nicanor, general selêucida que ameaçara destruir o Templo; é aqui que 2 Macabeus termina sua narrativa.c3-nicanor
  553. p. 76Judas morreu em batalha; a luta continuou sob seus irmãos, primeiro Jônatas e, após a morte deste, Simão.c3-brothers
  554. p. 76Chazan nota que pensadores nacionalistas/sionistas também projetaram o 'período médio' judaico como vale de lágrimas e saga ininterrupta de perseguição; sionistas religiosos/culturais equilibravam o sofrimento com a criatividade judaica notável da época.c-h502-chazan-zionist-vale-of-tears
  555. p. 77Não está claro quando datar o fim da revolta: em 161 a.C., onde 2 Macabeus encerra a história, ou no fim da década de 140 a.C., quando Simão obteve de Demétrio II Nicátor a isenção de tributo e a confirmação como sumo sacerdote.c3-revolt-end
  556. p. 77, p. 520Por volta de 140 a.C., segundo 1 Macabeus, os macabeus haviam consolidado o controle da Judeia. Simão foi proclamado sumo sacerdote e governante dos judeus 'para sempre', o que fez da família uma dinastia: os hasmoneus, nome talvez inspirado no lugar de origem da família.c3-simon-hasmoneans
  557. p. 77, p. 520Os hasmoneus controlaram a Judeia até ela passar ao domínio romano em 63 a.C., quando Pompeu interveio a favor de Hircano II, prendeu Aristóbulo II e conquistou Jerusalém.c3-roman-control-63
  558. p. 77Mesmo depois que os selêucidas restauraram o direito dos judeus a suas leis, a campanha hasmoneia continuou: Simão capturou Gezer, expulsou seus habitantes não judeus e a repovoou com judeus.c3-gezer
  559. p. 77João Hircano, filho de Simão, governou de 134 a 104 a.C. Submeteu os idumeus, descendentes dos edomitas, e deu-lhes a escolha de permanecer na terra se se tornassem judeus: uma conversão forçada que imitava o esforço de Antíoco para forçar os judeus a mudar de vida.c3-hyrcanus-idumeans
  560. p. 77Seu filho Aristóbulo I ofereceu a mesma escolha aos itureus, povo instalado no atual Líbano.c3-aristobulus-itureans
  561. p. 77, p. 78O poder hasmoneu atingiu o auge com Alexandre Janeu, que reinou de 103 a 76 a.C.: conquistador eficaz, cruel e ressentido por muitos súditos, tomou as cidades gregas do litoral e converteu à força seus habitantes. Josefo afirma, de modo implausível, que ele matou 50 mil judeus.c3-jannaeus
  562. p. 77, p. 77Há evidência literária e material de um esforço para restaurar o modo de vida tradicional: 1 Macabeus imita o estilo de Josué e Samuel; o Chanucá parece ter se baseado em modelos bíblicos ao ser introduzido pelos macabeus (Sucot e a dedicação do Primeiro Templo); as moedas hasmoneias usam a antiga escrita hebraica; e a cerâmica sugere um boicote a vinho e produtos estrangeiros.c3-re-judaization
  563. p. 77Os hasmoneus não reverteram a helenização. Mantiveram relações com espartanos, romanos e, sob João Hircano, com os próprios selêucidas; adotaram nomes gregos (Alexandre, Alexandra), construíram palácios e túmulos de modelo helenístico e cunharam moedas com legendas gregas. Um deles foi apelidado Fileleno, 'amigo dos gregos'.c3-hasmonean-hellenization
  564. p. 78Os hasmoneus tornaram-se impopulares, mas não necessariamente por adotar costumes gregos: pesavam sua reivindicação questionável ao sumo sacerdócio, os impostos e o recrutamento para as guerras, a crueldade e o mau uso de fundos comunitários (João Hircano tirou dinheiro do túmulo de Davi para pagar mercenários).c3-hasmonean-unpopularity
  565. p. 78Mulheres também tiveram papel na revolta. 2 Macabeus conta a história de uma mãe anônima que exorta os sete filhos a morrer resistindo a Antíoco antes de morrer ela mesma (a tradição posterior a chamará de Miriam ou Ana). O livro de Judite, ambientado na época bíblica, pode refletir os acontecimentos da revolta.c3-women-revolt
  566. p. 78, p. 79A história de Judite, viúva que defende Israel enquanto os homens assistem impotentes, tem paralelos com Judas Macabeu: nomes semelhantes e a decapitação de um general inimigo (Holofernes num caso, Nicanor no outro). Na tradição judaica posterior, Judite às vezes é feita irmã dos macabeus e sua história é lida no Chanucá.c3-judith-parallels
  567. p. 78, p. 520Salomé Alexandra (Shelamzion, em hebraico) governou a sociedade judaica entre 76 e 67 a.C. Não foi sumo sacerdote, mas nomeava quem ocupava o cargo. Sua morte em 67 a.C. desencadeou a disputa sucessória entre seus filhos Aristóbulo II e Hircano II.c3-salome-alexandra
  568. p. 78, p. 792 Macabeus é o resumo de uma obra em cinco volumes, hoje perdida, de um certo Jasão de Cirene. Embora oponha judaísmo e helenismo, foi escrito em grego e imita a literatura grega: o problema, nas palavras de 2 Macabeus 4:13, era 'um extremo de helenização', isto é, práticas gregas contrárias às leis de Moisés.c3-2macc-jason-cyrene
  569. p. 79Nesse período, ser judeu passa a significar também um compromisso com um modo de vida, e não só origem ou lugar de nascimento. Alguns estudiosos veem aí a passagem de Israel para os judeus. A evidência mais forte são as primeiras histórias de conversão: os idumeus e outros não judeus sob os hasmoneus, Aquior no livro de Judite e o próprio Antíoco em 2 Macabeus.c3-identity-shift
  570. p. 79Algumas fontes judaicas descrevem esse modo de vida com o termo grego politeia, 'cidadania'. Josefo diz que Moisés convidou para a comunidade todos os que quisessem viver sob as mesmas leis, pois não são só os laços de família que fazem alguém membro (Contra Apião 2.210).c3-politeia
  571. p. 79, p. 79Nulman lista tradições rivais sobre o Aleinu (Alaynu): atribuído a Josué na conquista de Jericó; ao amora Rav (séc. III), por editar o Musaf de Rosh Hashaná que o incorpora; ou aos Homens da Grande Assembleia no Segundo Templo.cl-aleinu-competing-authorships
  572. p. 79Para Nulman, o Aleinu pertencia essencialmente ao Musaf dos Dias Temerosos (seção Malkhuyot); sua transferência para o recitativo diário ocorreu por volta de 1300, passando a fechar os serviços com o parágrafo Al Kayn Nekaveh.cl-aleinu-daily-about-1300
  573. p. 80Com judeus espalhados por vários continentes, divididos por línguas e contextos políticos, o que parece unir sua cultura é a fidelidade à tradição: as leis de Moisés, os costumes dos antepassados e o Templo. Essa mesma importância gerou divisões sobre como interpretar e manter a tradição.c3-tradition-unity
  574. p. 80Os samaritanos, descendentes das tribos do norte, se viam como herdeiros de Israel sob a lei de Moisés, mas situavam o culto no monte Gerizim, perto da atual Nablus, e veneravam apenas os cinco livros de Moisés. O conflito com os judeus parece remontar ao período persa; escavações indicam que um culto foi estabelecido no Gerizim nessa época. A comunidade sobrevive até hoje, com algumas centenas de pessoas.c3-samaritans
  575. p. 80, p. 81Durante séculos, o sumo sacerdote vinha da linhagem de Zadoque. A família perdeu o cargo na perseguição de Antíoco, e sua posterior ocupação pelos macabeus pareceu ilegítima a muitos judeus. As dúvidas sobre o Templo e seu sacerdócio parecem ter alimentado grupos dissidentes.c3-zadokites
  576. p. 80Flusser descreve a postura essênia perante o poder como pacifismo condicional ('derrotismo militante'): nenhum governante sobe sem vontade divina; na prática, o comportamento não diferia muito da facção pró-paz nos círculos rabínicos.c-h502-flusser-essene-conditional-pacifism
  577. p. 81Ganharam influência novos tipos de autoridade religiosa: mestres carismáticos e profetas cuja autoridade vinha da interpretação do texto bíblico ou do conhecimento de tradições orais. Os sacerdotes não perderam sua influência, mas passaram a disputá-la.c3-new-authorities
  578. p. 81, p. 82Conhecemos três grupos pelo nome: fariseus, saduceus e essênios. São descritos sobretudo por Josefo, no século I d.C., mas surgiram no século II a.C. Os essênios provavelmente se encaixam na definição de seita; os saduceus talvez fossem mais uma classe social de sacerdotes ricos; os fariseus, populares e politicamente influentes, parecem às vezes mais uma facção política. Josefo os chama de haireseis, 'escolas de pensamento'.c3-three-groups
  579. p. 82, p. 82Segundo Josefo, os fariseus acreditavam no destino, mas deixavam espaço à decisão humana, e na sobrevivência da alma; os saduceus negavam a imortalidade da alma e o governo do destino; os essênios criam na imortalidade e na providência, sem a mesma margem para a vontade humana. Os fariseus seguiam também a 'tradição dos pais', leis não escritas na Escritura.c3-group-beliefs
  580. p. 82Qual grupo produziu parte dos Manuscritos do Mar Morto é uma controvérsia recente. Plínio situa um assentamento essênio entre Jericó e En-Guedi, e a comunidade dos manuscritos se parece com os essênios em muitos aspectos. A maioria dos estudiosos a identifica como essênia, mas há quem defenda que fosse um ramo dos saduceus.c3-dss-identification
  581. p. 82, p. 82, p. 520Na primeira metade do século II a.C., provavelmente depois da perseguição de Antíoco, a seita se formou em torno de um líder chamado Mestre da Justiça, em conflito com um 'Sacerdote Ímpio', talvez o sumo sacerdote da época (já identificado com Jônatas ou Simão, mas sua identidade é um mistério). Por volta de 150 a.C., o Mestre e seus seguidores retiraram-se para o deserto da Judeia, onde, segundo muitos estudiosos, fundaram o assentamento de Qumran.c3-teacher-withdrawal
  582. p. 82Muitos dos manuscritos não foram escritos por essa comunidade: obras como 1 Enoque e Tobias já eram conhecidas por traduções antes da descoberta, que revelou seus originais hebraicos ou aramaicos.c3-dss-not-all-sectarian
  583. p. 83Textos como a Regra da Comunidade e o Documento de Damasco mostram uma comunidade organizada, disciplinada e hierárquica, com ritos de iniciação e expulsão. Ao contrário do que se pensava, seus membros talvez não praticassem o celibato; no cemitério de Qumran, os homens estão na área principal e as mulheres em extensões.c3-dss-community
  584. p. 83Em Ant. 4.212, lido com o Êxodo em Josefo, Penner argumenta que Josefo situa a origem da oração diária na história sagrada de Israel, apresentando Moisés como exemplar e origem da tradição de testemunhar a Deus de manhã e ao dormir.cl-josephus-moses-exemplar
  585. p. 84A comunidade parece ter se incomodado com o uso de um calendário lunar de 354 dias em vez de um calendário solar de 364 dias; para o livro dos Jubileus, isso significava que sacrifícios e festas do Templo eram celebrados nos dias errados.c3-calendar
  586. p. 84, p. 84Os manuscritos estavam escondidos em cavernas perto da margem noroeste do Mar Morto e foram encontrados sobretudo entre 1947 e 1956, a partir do achado de sete rolos por um pastor beduíno. Em 1896, Solomon Schechter já havia encontrado na Guenizá do Cairo duas cópias do Documento de Damasco. O sítio de Qumran foi escavado na década de 1950; sua ligação com os manuscritos é debatida até hoje.c3-dss-discovery
  587. p. 84Os Manuscritos do Mar Morto somam cerca de 900 textos, dos quais aproximadamente 115 composições são atribuídas à seita. A Guenizá do Cairo rendeu mais de 200 mil fragmentos e, segundo os autores, supera os manuscritos no que revela da história judaica.c3-dss-numbers
  588. p. 84, p. 84Os manuscritos oferecem a evidência mais antiga do texto bíblico, uma visão de dentro de uma seita judaica antiga e o pano de fundo judaico de onde surgiu o cristianismo, embora não mencionem Jesus. Segundo os autores, porém, não mudaram fundamentalmente a compreensão do período, que ainda depende de 1 e 2 Macabeus e de Josefo.c3-dss-significance
  589. p. 85A demora na publicação dos manuscritos, até os anos 1980 e 1990, deveu-se a uma equipe pequena, falta de verbas e outros fatores. Segundo os autores, não há razão para pensar numa conspiração para suprimi-los.c3-dss-no-coverup
  590. p. 85Os escribas da seita preferiam o hebraico, num dialeto próprio que evitava empréstimos gregos e usava códigos como 'Sacerdote Ímpio'. Um estudioso o descreveu como uma 'antilinguagem'.c3-dss-hebrew
  591. p. 85Grande parte dos cristãos-novos na Bahia entre 1624 e 1654 havia chegado depois do Perdão Geral de 1605.c9-bahia-after-pardon-1605
  592. p. 86O capítulo trata do período entre o século IV e o século I a.C., mas a helenização da cultura judaica continuou muito além dessas datas.c3-period-frame
  593. p. 86A seita acreditava viver no início do fim dos tempos. O Rolo da Guerra descreve uma batalha de 40 anos entre os 'filhos da luz', Deus com seus anjos e os israelitas justos, e os 'filhos das trevas'.c3-war-scroll
  594. p. 86Nem a comunidade dos manuscritos escapou da helenização: unida por crenças e rituais, e não por parentesco, era uma associação voluntária semelhante às escolas filosóficas, clubes e cultos de mistério do mundo helenístico.c3-voluntary-association
  595. p. 86, p. 87O seder de Pessach, estruturado pela Hagadá com mudanças rastreáveis ao século III d.C., tem muitos traços do simpósio grego: reclinar-se, beber vinho, cantar louvores, fazer perguntas sobre a comida. A palavra afikoman vem do grego. Isso não significa que a Hagadá tenha sido moldada conscientemente no simpósio.c3-seder-symposium
  596. p. 86Mais do que outros grupos, o cristão-novo tinha razões imperativas para permanecer na colônia, apesar de atrações de Holanda ou Recife.c9-bahia-reasons-to-stay
  597. p. 87No auge, a comunidade judaica de Alexandria provavelmente somava centenas de milhares de pessoas e produziu Fílon de Alexandria, filósofo do século I d.C. Declinou na Antiguidade tardia, e sua literatura só chegou até nós porque foi preservada por cristãos.c3-alexandria-size
  598. p. 89Os macabeus não contaram só com Deus contra os selêucidas: também buscaram Roma, cultivando com ela uma 'amizade', palavra que na época significava aliança política. Como os selêucidas já tinham perdido para os romanos antes, o temor de uma intervenção romana talvez explique em parte por que aceitaram a paz com os judeus.c4-roman-friendship
  599. p. 89A ironia, para os autores, é que o perigo maior veio dos aliados e não dos inimigos. Um século depois, o apoio romano virou pretexto para a anexação da Judeia, e o domínio de Roma abalou o modo de vida judaico tradicional mais do que tudo o que ocorrera sob os selêucidas.c4-roman-danger
  600. p. 89, p. 520Tudo começou com a morte de Salomé Alexandra, em 67 a.C.: seus filhos Aristóbulo II e Hircano II brigaram pela sucessão. Pompeu, que já dominava as terras do antigo reino selêucida, aproveitou a disputa para entrar na política judaica posando de mediador neutro.c4-hasmonean-feud
  601. p. 89, p. 520Pompeu ouviu as duas partes e não decidiu de imediato. Aristóbulo, porém, não se deixou controlar; em 63 a.C. o general romano o prendeu e avançou contra Jerusalém para acabar com seus últimos apoiadores. Na cronologia do livro, a intervenção aparece como favorável a Hircano II.c4-pompey-63
  602. p. 89A entrada de Pompeu no Templo, onde só sacerdotes podiam pisar, chocou os judeus. Fora isso, diz Josefo, ele tratou a tradição com respeito: deixou intactos os tesouros do santuário e determinou que o culto sacrificial recomeçasse.c4-pompey-temple
  603. p. 89, p. 89Hircano recebeu o governo da Judeia, mas o poder real passou a Roma: grande parte das terras dos hasmoneus ficou com um governador romano, e a Judeia passou a pagar tributo como dependente. A anexação completa demorou, mas Josefo situa nesse momento o início da sujeição judaica a Roma.c4-hyrcanus-ruler
  604. p. 89As revoltas dos séculos I e II d.C. esvaziaram a Judeia de boa parte de seus judeus. Ao longo do domínio romano, o eixo da vida comunitária saiu de Jerusalém e passou a uma região mais ao norte e a centros da diáspora, como a Babilônia e Roma.c4-population-shift
  605. p. 89Com o Templo destruído em 70 d.C., o culto judaico passou a dispensar sacrifícios e edifício, por exemplo na oração da sinagoga. No século II já não existiam hasmoneus, fariseus, saduceus nem a seita do Mar Morto; ganhavam força movimentos sem centro no Templo: o cristianismo, nascido dentro do judaísmo, e o judaísmo rabínico.c4-religious-diffusion
  606. p. 89Os autores repartem o período romano em dois capítulos. Este cobre a primeira fase, da conquista de Pompeu em 63 a.C. às revoltas que terminam em 135 d.C.; o seguinte segue a cultura judaica até o século VII.c4-chapter-scope
  607. p. 89Reif observa que, embora o núcleo do Shemá e da Amidá esteja se formando nas fontes talmúdicas, a comunidade rabínica ampliada ainda carece de um Sidur compartilhado e não mostra abordagem uniforme nos detalhes entre agrupamentos.cl-talmudic-no-fixed-siddur
  608. p. 90Romanos e judeus tinham traços em comum: sociedades agrárias, patriarcais e apegadas à tradição, com veneração pelos deuses ou por Deus e pelos costumes herdados, ambas marcadas pelo contato com a cultura grega. A diferença decisiva, já no século II a.C., era de poder: Roma agia no mundo helenístico como potência muito superior.c4-romans-like-jews
  609. p. 90Roma dominava a Itália desde o século IV a.C. A oeste, só Cartago lhe fazia frente; depois de três Guerras Púnicas, foi vencida de vez no século II a.C., e a Hispânia e o norte da África passaram ao controle romano. A leste, selêucidas e ptolomeus também acabaram cedendo.c4-rome-rise
  610. p. 90, p. 520Cleópatra VII, última governante ptolomaica, esperava revigorar seu reino ao lado de Marco Antônio, seu amante romano. Em 31 a.C., Otaviano, adotado postumamente por Júlio César, derrotou os dois e somou o título de faraó a seus poderes. A cronologia do livro registra em 30 a.C. a conquista do Egito e o fim dos ptolomeus.c4-actium
  611. p. 90, p. 91, p. 520A república romana era uma oligarquia em torno do Senado, conselho de anciãos que aconselhava e preenchia cargos. Otaviano se apresentou como restaurador dessa ordem, mas afastou senadores incômodos e pôs aliados no lugar; o Senado dócil lhe concedeu títulos (Imperator, Augusto) e o comando de todas as legiões e governadores. A república sobreviveu só na fachada.c4-republic-to-empire
  612. p. 90, p. 90No tempo de Otaviano, o território romano já se estendia da Península Ibérica até o rio Eufrates. O mapa 4.1 do livro traz as fronteiras do Império nos séculos II e III d.C. e marca as regiões em disputa com a Pártia.c4-roman-map
  613. p. 91A expansão romana pôs sob o mesmo governo a maior parte dos judeus do mundo, da Judeia e do Egito ao norte da África, à Ásia Menor, à Grécia e à própria capital. No século I d.C., fora do Império só restava uma comunidade judaica de peso: a do reino parta, que tomara dos selêucidas as terras a leste do Eufrates e rivalizava com Roma.c4-jews-under-rome
  614. p. 91Dos judeus da Pártia quase nada se sabe: a fonte principal, o Talmud babilônico, só ganhou forma nos séculos VI e VII d.C. Por isso, de 63 a.C. até a época talmúdica, a história judaica que se pode escrever é, na prática, a dos judeus do Império Romano.c4-parthian-sources
  615. p. 91, p. 520Para o início do domínio romano, nenhuma fonte pesa tanto quanto Flávio Josefo. Nascido em 37 d.C., de linhagem sacerdotal e hasmoneia, ele comandou tropas judaicas na revolta de 66 d.C. e, mais tarde, passou para o lado romano.c4-josephus-bio
  616. p. 91, p. 91Em 67 d.C., em Yodefat (Jotapata), Josefo e seus soldados ficaram presos numa caverna. Os homens exigiram um suicídio coletivo; Josefo concordou e sugeriu decidir por sorteio a ordem das mortes. Ele acabou entre os dois últimos e, junto com o outro sobrevivente, entregou-se aos romanos. Josefo dá a entender que Deus o salvou; os historiadores desconfiam de trapaça no sorteio.c4-yodefat
  617. p. 91, p. 520Durante o cerco de Jerusalém, Josefo trabalhou para os romanos como intérprete e intermediário. Depois de 70 d.C. instalou-se em Roma e escreveu a história da revolta, as Antiguidades judaicas (das origens bíblicas até pouco antes da guerra), Contra Apião e uma autobiografia. Os textos mais tardios parecem dos anos 90, daí a suposição de que tenha morrido por volta de 100 d.C.c4-josephus-works
  618. p. 91Josefo não está sozinho: há Fílon de Alexandria, os Manuscritos do Mar Morto, os pseudepígrafos, menções em autores gregos e latinos e o Novo Testamento, além de ruínas como as do Templo, de Cesareia e de Massada, inscrições e moedas. Ainda assim, só ele narra em detalhe os cerca de 150 primeiros anos de domínio romano, e sem ele seria difícil articular esse material.c4-other-sources
  619. p. 91Em parte, Josefo foi confirmado por outras evidências. O que ele conta dos essênios bate em vários pontos com a seita dos Manuscritos do Mar Morto; as escavações no ângulo sudoeste do Monte do Templo sustentam parte de sua descrição arquitetônica; e os achados de Massada confirmaram muito de seu relato do cerco.c4-josephus-corroborated
  620. p. 91Os critérios de Josefo eram os da historiografia greco-romana, não os atuais. Ele reproduzia fontes mais antigas sem checá-las, aceitava explicações hoje vistas como simplistas e inventava falas e detalhes para dar vida ao texto ou reforçar um argumento.c4-josephus-methods
  621. p. 91, p. 92A credibilidade de Josefo sofre também com seus interesses. Ele precisava rebater a acusação de traidor e agradar a Vespasiano, Tito e Domiciano, uma dinastia que se legitimava pela vitória sobre os judeus; daí o nome Flávio, tirado da família imperial, e a alegação, talvez exagerada, de que Tito aprovou seu relato. O resultado exalta Roma e põe a culpa pela perda do Templo nos rebeldes, não nos imperadores.c4-josephus-propaganda
  622. p. 91Em 23 de maio de 1536, uma bula de Paulo III instituiu em Portugal o Tribunal do Santo Ofício.c8-pt-inquisition-1536
  623. p. 91A criação do tribunal português resultou de um jogo entre interesses da Igreja e do Estado.c8-pt-inquisition-church-state
  624. p. 91D. João III enfrentou longa resistência da Cúria Romana antes de obter a bula definitiva da Inquisição.c8-joao-iii-curia
  625. p. 91Num empréstimo da Câmara da Bahia, Novinsky identificou 27 cristãos-novos (15% dos contribuintes) com 16% do valor arrecadado.c9-bahia-camara-loan-share
  626. p. 91Em coleta de 1639 anotada nas atas, 23 de 104 contribuintes (22%) eram cristãos-novos.c9-bahia-camara-1639
  627. p. 92, p. 92Para os autores, o viés pró-romano de Josefo também ensina algo: mostra um dos caminhos que os judeus seguiram diante da conquista, o da submissão voluntária de quem não podia vencer e não queria morrer. Em sua história da guerra, Josefo enumera povos que já tinham se curvado, como os atenienses, e conclui que um poder tão invencível só podia contar com o favor divino.c4-josephus-submission
  628. p. 92Josefo não foi exceção: na Palestina (como os romanos chamavam a faixa entre o Mediterrâneo e o Jordão) e em Alexandria, muitos judeus não só aceitaram Roma como serviram a ela. Na família de Fílon, o sobrinho Tibério Júlio Alexandre chegou a governador-geral e foi o número dois de Tito no cerco de 70 d.C. O próprio Fílon via em imperadores como Augusto um reflexo das virtudes divinas.c4-philo-family
  629. p. 92Hoje esses elogios soam servis, mas seguem uma tática de sobrevivência antiga, já visível no Dêutero-Isaías, que trata o persa Ciro como instrumento de Deus. E havia motivos práticos: Roma oferecia estradas e obras, paz relativa, um direito desenvolvido e garantias à religião e aos direitos dos judeus, enquanto desafiá-la era arriscadíssimo.c4-survival-strategy
  630. p. 92Para cristãos-novos acusados de judaísmo, a sentença mais comum era cárcere e hábito penitencial perpétuo.c8-pt-sentence-habit
  631. p. 92No Brasil, cristãos-novos acusados de judaísmo puderam receber sentença de morte na fogueira.c8-pt-brazil-stake
  632. p. 93Talvez, no íntimo, judeus como Fílon e Josefo detestassem o domínio romano; ainda assim concluíram que a submissão aparente era o caminho mais seguro, e podem ter acreditado sinceramente que o poder romano vinha de Deus, que o usava para seus fins como antes usara os persas.c4-secret-resentment
  633. p. 93, p. 520Roma, como impérios anteriores, gostava de governar através das elites locais. Os hasmoneus deram trabalho demais e foram trocados por alguém mais obediente: Herodes, de família idumeia convertida à força no tempo dos hasmoneus, rei da Judeia de 37 a.C. até morrer em 4 a.C. A cronologia do livro diz que ele conquistou Jerusalém com ajuda romana, tirando-a de uma dinastia hasmoneia restaurada por pouco tempo.c4-herod-rise
  634. p. 93Herodes investiu na amizade romana: fundou Cesareia e outras cidades em homenagem a Augusto e esteve com ele em várias ocasiões. Em troca da paz que garantia, com tropas que reuniam romanos, gauleses e germanos, ganhou terras e prestígio. Também mantinha sob rédea curta o sacerdócio, pondo um amigo como sumo sacerdote, e o Sinédrio de Jerusalém.c4-herod-rome
  635. p. 93O nome Sinédrio vem do grego e quer dizer 'reunião' ou 'assembleia'. Funcionava, ao que parece, como tribunal superior ou conselho com peso em questões religiosas e civis de Jerusalém. Ficou famoso pelo julgamento de Jesus, mas pouco se sabe com clareza de sua história e de seu funcionamento.c4-sanhedrin
  636. p. 93, p. 520Herodes construiu sem parar: Cesareia, a fortaleza de Massada, palácios, teatros, obras até na Grécia. Nada se compara ao Templo, cuja reforma começou em 20 a.C.: o edifício antigo veio abaixo e o novo subiu sobre uma enorme plataforma com pátios, portões, pórticos e a fortaleza Antônia. Foram 10 mil operários e anos de obra (o livro cita João), e as escavações dos muros de arrimo confirmaram o tamanho do conjunto.c4-herod-builder
  637. p. 93Poucos monumentos da época impressionavam tanto. Josefo conta que, por isso mesmo, Tito relutou em destruir o Templo, que via como um 'ornamento' do Império.c4-temple-ornament
  638. p. 93O apoio de Roma não bastava para tornar Herodes legítimo. Pela tradição, não tinha direito ao trono nem ao sumo sacerdócio, pois não vinha de Davi nem de Aarão; até sua condição de judeu era posta em dúvida, já que o avô idumeu se convertera à força. Casou-se em segundas núpcias com Mariamne, princesa hasmoneia, para ganhar prestígio, mas o casamento terminou com a execução dela.c4-herod-legitimacy
  639. p. 93Jogos atléticos e arenas de estilo grego em Jerusalém irritaram os súditos de Herodes. A suspeita chegou a ponto de se acreditar que seu teatro tinha figuras humanas; o rei teve de mostrar o prédio aos críticos para provar o contrário. Vista assim, a obra do Templo servia para limpar sua imagem, como herdeiro da piedade de Salomão, e para empregar artesãos e operários durante décadas.c4-herod-hellenizing
  640. p. 93Mateus 2,1 a 18 conta que Herodes, sabendo do nascimento em Belém de um 'rei dos judeus' que não conseguia localizar, mandou matar as crianças da cidade. Só esse evangelho traz o episódio, talvez criado para ecoar o faraó do Êxodo; não é necessariamente história, mas reflete bem a dureza de Herodes com possíveis rivais.c4-massacre-bethlehem
  641. p. 93, p. 94Herodes eliminava quem lhe parecesse perigoso. Matou a esposa, três filhos e a sogra, entre muitos outros, uma violência que chamava atenção até para os romanos. Séculos depois, contava-se que Augusto teria dito que era melhor ser porco de Herodes do que filho dele.c4-herod-ruthless
  642. p. 93O relatório do vigário Temudo, marcado por preconceito, afirma que a maior parte dos habitantes da terra eram judeus.c9-bahia-temudo-report
  643. p. 94, p. 520Os temores de Herodes tinham fundamento: sobravam rivais, entre eles hasmoneus remanescentes, e houve atentados contra ele. Ele se antecipava aos inimigos, ergueu fortalezas como Massada e montou uma grande rede de espiões. Assim, com propaganda bem feita, informação e violência, manteve o trono por mais de trinta anos.c4-herod-survival
  644. p. 94, p. 94Morto Herodes, três filhos repartiram o reino. Arquelau recebeu Judeia, Samaria e Idumeia e governou de 4 a.C. a 6 d.C.; Herodes Antipas ficou com a Galileia e a Pereia, ao norte, de 4 a.C. a 39 d.C.; Herodes Filipe, com o Golã, no extremo norte, de 4 a.C. a 33 ou 34 d.C. Arquelau governou tão mal que Augusto o exilou na Gália; os irmãos tiveram mais sorte.c4-herod-sons
  645. p. 94, p. 520Em 37 d.C. a dinastia teve um breve renascimento com Agripa I, neto de Herodes, popular na Judeia por seu zelo religioso; ele morreu já em 44 d.C. Agripa II, seu sucessor, e a irmã Berenice perderam o controle de Jerusalém, que se rebelou em 66. Depois da guerra de 66 a 70 d.C. e da queda do Templo, o poder herodiano praticamente deixou de existir.c4-agrippa
  646. p. 94O apoio romano explica por que os herodianos duraram mais de cem anos, mas talvez também explique por que tantos súditos os rejeitavam. Além disso, cada fracasso, como o de Arquelau, obrigava Roma a assumir o controle mais de perto, o que piorava a tensão.c4-herodian-legitimacy
  647. p. 94, p. 520Afastado Arquelau, Roma mandou seus próprios administradores para a Judeia, funcionários de baixo escalão com o título de prefeito e, mais tarde, de procurador. Cruéis, corruptos e desdenhosos da tradição judaica, eles agravaram o atrito. A cronologia do livro data de 6 d.C. o início desse governo direto.c4-direct-rule
  648. p. 94, p. 95, p. 520Pôncio Pilatos foi o mais famoso e o mais detestado desses governadores. Ocupou a prefeitura de 26 a 37 d.C., ou de 19 a 37 segundo uma proposta recente. Fílon o acusa de subornos, insultos, saques e execuções sumárias. Suas afrontas à tradição judaica geraram vários choques, mas o que lhe custou o posto foi a forma como tratou os samaritanos.c4-pilate
  649. p. 95Havia exceções: Fílon elogia Petrônio, governador que ajudou a evitar uma guerra sob Calígula. Em geral, porém, Pilatos parece representar bem os procuradores das décadas antes da revolta: violentos quando se tratava de manter a ordem, com poucas tropas, possivelmente corruptos e sem compreender os costumes dos judeus.c4-procurators-typical
  650. p. 95, p. 95Um quadro do livro reúne opiniões de autores romanos sobre os judeus, da simpatia à aversão. Varrão (116 a 27 a.C.) achava que o Deus judeu era Júpiter sob outro nome, e o nome não importava. Cícero (106 a 43 a.C.) considerava os ritos judaicos incompatíveis com o prestígio de Roma e com os costumes romanos antigos.c4-roman-eyes-range
  651. p. 95, p. 95Sêneca, que se matou em 65 d.C., reclamava que os costumes judaicos se espalhavam a ponto de os vencidos ditarem regras aos vencedores. Tácito (56 a 117 d.C.) é o mais hostil: retrata os judeus como solidários entre si e hostis a todos os outros povos, e diz que os convertidos aprendiam a desprezar deuses, pátria e parentes.c4-roman-eyes-hostile
  652. p. 95, p. 95Não se pode generalizar a partir de Josefo. Roma conquistou a elite judaica (herodianos, sumos sacerdotes, aristocratas como Fílon) para servir de ponte com o povo; mas, fora desse círculo e até dentro dele, muitos odiavam os romanos pela crueldade, pelo descaso com a tradição e pelos impostos. Os levantes após a morte de Herodes mostram que a fórmula romana falhava.c4-elite-vs-many
  653. p. 95A relação com Roma variava conforme a região: os galileus parecem ter aceitado o domínio romano com um pouco mais de facilidade que os judeus da Judeia. Ainda assim, os conflitos na Judeia afetavam judeus em todo o Império.c4-galilee-different
  654. p. 95, p. 96Para Fílon, Augusto foi o soberano exemplar: trouxe a paz, uniu o mundo, civilizou os bárbaros e acabou com a pirataria; Calígula, ao contrário, foi péssimo, mas a seu ver a maioria dos sucessores agiu com benevolência para com os judeus. A arqueologia mostra o que inspirava esse juízo: aquedutos em Jerusalém e Cesareia, estradas, ruas e portos melhores.c4-philo-augustus
  655. p. 95, p. 96, p. 95Pedro Afonso (antes Moisés), judeu de cultura árabe de al-Andalus, batizou-se em Huesca em 1106. Seu Diálogo entre o eu judeu 'Moisés' e o eu cristão 'Pedro' é, para Skarsaune, melhor informado sobre fé e práxis judaicas do que a tradição adversus iudaeos anterior; ele também traduziu do árabe ao latim e mediou entre os três mundos da convivência ibérica.cjb-petrus-alfonsi
  656. p. 96Se Roma trazia benefícios, por que tanta rejeição? O Império sabia controlar populações não só pela força, mas também pelo patronato: distribuía favores para ganhar lealdade. Com os judeus fez o mesmo: privilégios às comunidades, doações ao Templo e laços com líderes como Herodes.c4-patronage
  657. p. 96Parte da resistência vinha da fé: para alguns judeus, obedecer a um soberano humano era incompatível com Deus. Num levante em 6 d.C., o mestre Judas pregou que só Deus reinava e que nenhum judeu devia se submeter a um homem. Judas parece ter morrido logo no início, mas a ideia sobreviveu na chamada Quarta Filosofia, como Josefo a nomeia, que chegou viva à grande revolta e moveu grupos como sicários e zelotes.c4-judas-fourth-philosophy
  658. p. 96, p. 520A maioria dos judeus provavelmente não via contradição entre ser fiel a Deus e viver sob Roma; a recusa de princípio era minoritária. Com o tempo, porém, ameaças concretas surgiram. A pior veio de Calígula, que, duvidando da lealdade judaica, mandou pôr no Templo uma estátua sua como Júpiter (Zeus, segundo a cronologia do livro). O governador Petrônio adiou a ordem, e o assassinato do imperador encerrou a crise antes de uma revolta.c4-caligula-statue
  659. p. 96Um imperador ameaçar o Templo era raro; afrontas locais, por descuido ou de propósito, eram frequentes, e qualquer faísca bastava. Josefo relata um tumulto enorme provocado por um único soldado romano, que deu as costas a uma multidão de judeus e soltou um ruído indecoroso na direção dela.c4-local-offenses
  660. p. 96, p. 96Havia também a pobreza. A economia mediterrânea sob Roma enriqueceu alguns judeus, mas empobreceu muitos: a Judeia do século I conheceu fomes e desemprego. Roma tomava terras e cobrava impostos e taxas (cerca de 30% da renda de um agricultor, segundo uma estimativa); somaram-se a fome dos anos 40, o desemprego após o fim das obras do Templo e a concentração de terras em mãos de Herodes e dos ricos. Endividados ou sem terra, alguns se vendiam como escravos, ou vendiam os filhos; outros viravam bandidos.c4-economic-hardship
  661. p. 96A revolta não foi um movimento camponês: havia rebeldes da elite, como o próprio Josefo. Mas razões econômicas parecem ter pesado, já que a guerra permitia livrar-se dos impostos, saquear os palácios dos ricos e pôr as mãos no tesouro do Templo.c4-not-peasant-revolt
  662. p. 96O ressentimento crescia porque muitos judeus sonhavam com outra realidade. Herdeiros do apocalipticismo surgido no período helenístico, esperavam que Deus derrotasse os romanos. Vários apocalipses são da época romana, como o Rolo da Guerra, com sua batalha final entre os filhos da luz, talvez a própria seita, e os filhos das trevas, entre os quais talvez estivessem os romanos.c4-apocalyptic-hope
  663. p. 96, p. 97Para muitos estudiosos, esses textos eram resistência passiva: um sonho que mandava esperar por Deus. Os autores lembram outra leitura possível, a de incentivo à ação. A certeza de que o fim estava chegando, com Deus e seus anjos entrando na luta, pode ter impulsionado levantes, talvez até a grande revolta, e o Rolo da Guerra pode ter funcionado como um manual de treino.c4-apocalyptic-function
  664. p. 96João III reforçou a lei que proibia cristãos-novos de sair de Portugal, mesmo sob pressão papal.c8-pt-exit-ban
  665. p. 96Novinsky argumenta que investigações recentes acrescentam a origem judaica dos bandeirantes paulistas à compreensão do conflito com as reduções jesuíticas.c9-bandeirantes-jewish-origin
  666. p. 97Por que, então, arriscar uma revolta contra um poder praticamente invencível? Roma punia com ferocidade, e a crucificação era sua arma de intimidação mais conhecida, 'a mais miserável das mortes' nas palavras de Josefo: destinada a escravos, soldados amotinados e estrangeiros considerados inimigos, era feita à beira das estradas mais movimentadas para que todos vissem.c4-crucifixion
  667. p. 97Indícios materiais da crucificação são raríssimos. Um deles saiu de um túmulo nos arredores de Jerusalém, em 1968: um osso de calcanhar ainda atravessado por um prego, de um homem de vinte e poucos anos; a inscrição hebraica diz 'Yehohanan, filho de HGQWL'. Uma hipótese para a raridade: os pregos eram tirados dos corpos porque se acreditava que tinham poder curativo como amuletos.c4-yehohanan
  668. p. 97, p. 520Ainda assim, em 66 d.C. muitos judeus, longe de serem todos, acharam que a revolta era necessária e possível. O gesto que a anunciou foi público: os sacrifícios oferecidos no Templo pelo imperador e pelo povo romano foram interrompidos. Assim começou o que hoje se chama Primeira Revolta Judaica, que logo passou da Judeia ao resto da Palestina e é talvez a rebelião provincial mais bem documentada do Império.c4-revolt-66
  669. p. 97A faísca foi um confronto entre judeus e gregos em Cesareia, agravado pela resposta desproporcional do procurador Floro. O combustível, porém, eram ressentimentos religiosos, econômicos e sociais acumulados desde que Pompeu invadira a Judeia, em 63 a.C.c4-revolt-trigger
  670. p. 97Na diáspora quase ninguém se envolveu, mas na Palestina a adesão foi ampla: no sul e no norte (Judeia, Galileia, Golã), entre pobres e ricos, sacerdotes e leigos. Livres de Roma por um tempo, os rebeldes montaram um governo, um exército de defesa e até cunharam moeda, até que Roma enviou forças suficientes para esmagá-los.c4-revolt-support
  671. p. 97, p. 98O retrato de rebeldes insensatos vem de Josefo, que escreveu depois do desastre e com simpatia por Roma. Na época, havia motivos para otimismo: Céstio Galo, governador da Síria mandado por Nero, foi batido de surpresa; com a morte de Nero em 68, três imperadores se sucederam num ano até Vespasiano tomar o poder; os judeus superavam em muito as poucas tropas romanas na região, conheciam o território e tinham Jerusalém, com três muralhas, e fortalezas como Massada.c4-rebel-confidence
  672. p. 98Os rebeldes também apostavam na Pártia, o grande rival de Roma no Oriente, com base no atual Irã; os partas já tinham ocupado Jerusalém por pouco tempo em 40 a.C. A ponte seria a numerosa comunidade judaica da Mesopotâmia, fora das fronteiras romanas.c4-parthian-hope
  673. p. 98E contavam com Deus. Antes da guerra, Roma esmagara pequenos movimentos de líderes proféticos que prometiam prodígios: Teudas anunciava que abriria o Jordão como Moisés ou Josué; um profeta egípcio, cujo nome não ficou registrado, arrastou milhares numa marcha frustrada contra Jerusalém. Os líderes morreram, mas não a esperança de uma intervenção divina contra Roma.c4-sign-prophets
  674. p. 98Às vésperas da guerra, multiplicaram-se os sinais. Sábios leram na Torá o anúncio de que um homem da Judeia dominaria o mundo; viram-se uma estrela com forma de espada sobre a cidade, um clarão no santuário durante a Páscoa e tropas armadas cruzando o céu. Mesmo cercados no Monte do Templo, no fim da guerra, os rebeldes ainda esperavam a proteção de Deus.c4-omens
  675. p. 98, p. 98A palavra 'zelote', hoje sinônimo de fanático, vem de um grupo da revolta. Na Bíblia, zelo é a defesa ciumenta de Deus e do povo, às vezes violenta, como quando o sacerdote Fineias mata um israelita e uma midianita. Há estudiosos que chamam de zelotes todos os rebeldes da época; nos textos de Josefo, porém, os Zelotes formam uma facção própria, nascida no fim da guerra, ao lado dos sicários (cujo nome vem de um punhal) e dos homens de Simão, filho de Giora.c4-zealots-box
  676. p. 98Na reta final, instalados no Templo, os Zelotes lutaram contra facções rivais e contra o governo provisório da cidade, que optara pela rendição; mataram o sumo sacerdote e outros acusados de traição. Uma facção rival expulsou parte deles do Templo; os demais morreram combatendo Roma.c4-zealots-temple
  677. p. 98, p. 98, p. 520Quando Vespasiano voltou a Roma para ser imperador, a campanha parou; seu filho Tito a retomou com um exército enorme e venceu em menos de um ano. As facções rebeldes se atacavam umas às outras pelo domínio do Monte do Templo, e a cidade estava lotada de refugiados e peregrinos da Páscoa. Uns seis meses depois do início do cerco, as muralhas cederam; em agosto de 70 d.C. o Templo foi destruído.c4-siege-jerusalem
  678. p. 98, p. 99Josefo isenta Tito: o incêndio teria partido de um soldado, sem ordem, e contra o desejo do general. Para alguns estudiosos, é mais uma tentativa de Josefo de proteger seus patronos imperiais; Tito, sustentam eles, deu a ordem de queimar o Templo.c4-temple-fire
  679. p. 98Sob o governador Antonio Teles da Silva realizou-se na Bahia a Grande Inquirição de 1646.c9-bahia-grande-inquiricao-1646
  680. p. 98Antonio Teles da Silva, governador até 1647, era familiar do Santo Ofício e apoiou a perseguição inquisitorial.c9-bahia-teles-familiar
  681. p. 98Depois de 1628, ataques de bandeirantes como Antonio Raposo Tavares e Pedro Vaz de Barros (ambos conversos, segundo Novinsky) intensificaram a destruição de reduções jesuíticas.c9-bandeirantes-jesuit-conflict
  682. p. 99, p. 109A queda do Templo nunca saiu da memória judaica: ainda hoje é chorada em Tishá be-Av, o jejum do dia 9 do mês de Av. Nesse dia, os judeus passaram a fazer ritos de luto e a visitar o lugar do Templo, e muitos rezavam por sua reconstrução.c4-tisha-bav
  683. p. 99Josefo fala em um milhão de mortos no cerco de Jerusalém. O número é exagerado, mas dá a medida da catástrofe que a revolta representou para a Judeia.c4-million-dead
  684. p. 99, p. 520A resistência não acabou em 70. Em Massada, uns 960 rebeldes, que eram sicários e não zelotes, aguentaram o cerco romano até 73 d.C.; quando a queda ficou iminente, mataram-se para não virar escravos.c4-masada-73
  685. p. 99, p. 99Roma tomou medidas para que os judeus não voltassem a se rebelar. Os líderes rebeldes desfilaram por Roma e foram executados; os objetos do Templo foram parar na capital, e a reconstrução foi proibida; um imposto especial passou a desviar para um templo de Júpiter, em Roma, o dinheiro antes enviado ao Templo; uma legião inteira ficou em Jerusalém; e o templo de Leontópolis foi fechado para não virar foco de rebelião.c4-aftermath-70
  686. p. 99, p. 520Nas cidades mistas do norte da África, judeus conviviam com grandes populações de fala grega e nativas, e o convívio virava violência com frequência. Alexandria é o caso mais bem conhecido. Gregos e egípcios se ressentiam dos judeus, Roma atiçava a rivalidade ora tomando partido, ora jogando um grupo contra o outro, e os judeus, em posição insegura, temiam os vizinhos e às vezes os atacavam. Em 38 d.C. houve um tumulto antijudaico com muitas mortes e sinagogas destruídas; em 41, com a morte de Calígula, veio o revide judaico; em 66, nova luta terminou com um massacre de judeus pelos romanos.c4-alexandria-conflict
  687. p. 99Josefo conta que, vencida a guerra na Judeia, rebeldes sobreviventes tentaram levar a revolta ao Egito e a Cirene, na atual Líbia. Foram denunciados aos romanos por judeus que não queriam confusão. A intuição deles, porém, não era absurda: essas comunidades acabariam se revoltando, só que décadas mais tarde.c4-rebels-to-cyrene
  688. p. 99A Primeira Revolta abriu uma série de levantes, na diáspora e na própria Judeia. Os seguintes são menos conhecidos porque nenhum historiador como Josefo os narrou em ordem, mas é possível que tenham ameaçado Roma ainda mais e provocado represálias ainda piores.c4-series-of-revolts
  689. p. 99, p. 520No reinado de Trajano, entre 115 e 117 d.C., houve a chamada Revolta da Diáspora: vários levantes judaicos que acabaram se interligando. Tudo parece ter começado na Líbia, como mais um choque entre judeus e gregos semelhante aos de Alexandria; desta vez, porém, Roma não conteve a violência, que chegou ao Egito, a Chipre e talvez à Mesopotâmia.c4-diaspora-revolt
  690. p. 99Cássio Dio, historiador romano, atribui aos judeus atrocidades nessa guerra, inclusive canibalismo. A acusação deve ser inventada: décadas antes, autores greco-egípcios como Apião já diziam que os judeus raptavam gregos para sacrificá-los e devorá-los. Mesmo assim, ela revela o pânico que a revolta despertou entre os não judeus.c4-cassius-dio-charge
  691. p. 99, p. 99A dureza da repressão dá a medida do perigo. Na Mesopotâmia, milhares foram mortos; em Chipre, os judeus foram proibidos de permanecer; no Egito, a comunidade de Alexandria foi arrasada. Ainda houve judeus na cidade, mas a comunidade que dera ao mundo a Septuaginta e Fílon, na prática, desapareceu.c4-diaspora-backlash
  692. p. 99, p. 520Nem esse desastre acabou com a esperança de se livrar de Roma. Uns quinze anos depois, em 132 d.C., a Judeia se levantou outra vez, na Revolta de Bar Kochba. Como para a Revolta da Diáspora, as fontes bastam para mostrar sua importância, mas não para reconstituí-la com nitidez.c4-bar-kochba-outbreak
  693. p. 100O cerco de Massada é um dos trechos mais lembrados de Josefo, que talvez o tenha tomado de outra fonte. Ali, Eleazar ben Yair, chefe dos sicários, faz um discurso apaixonado, mas racional, a favor do suicídio como única saída honrosa e livre; segue-se a cena terrível em que os homens matam as famílias e depois uns aos outros, cabendo a dez sorteados executar os demais.c4-masada-account
  694. p. 100, p. 100Há bons motivos para crer no episódio. Em Massada apareceram restos de homens, mulheres e crianças, talvez os defensores e as famílias que mataram, e onze cacos de cerâmica com nomes ou apelidos masculinos, quem sabe os lotes do sorteio (Josefo menciona dez). Recentemente, alguns estudiosos passaram a duvidar do relato: certos detalhes podem ter sido criados, por Josefo ou por sua fonte, para cativar leitores gregos e romanos, e o discurso de Eleazar lembra as últimas palavras de Sócrates.c4-masada-evidence
  695. p. 100, p. 101Seja qual for a verdade, o episódio toca num tema caro a Josefo: quando é lícito escolher a morte. Os judeus honravam quem morria para não trair Deus ou a Lei, e os romanos admiravam o suicídio que poupava a honra e a humilhação da derrota; Massada é exemplar nos dois sentidos. Mas Josefo também tem reservas: na caverna de Yodefat, ele mesmo defendeu o contrário, e não se sabe se considerava acertada a escolha de Massada.c4-voluntary-death
  696. p. 100, p. 100Não se sabe ao certo por que a revolta estourou, e talvez nunca se saiba. As poucas fontes (menções tardias em textos romanos, cristãos e rabínicos) sugerem duas causas. A primeira seria uma proibição imperial da circuncisão, ou da castração, confundida com ela; mas quase não há prova dessa lei, e é difícil entender por que Roma atingiria tantos súditos, judeus e não judeus, que circuncidavam. Por isso muitos estudiosos preferem a segunda: a reação ao projeto de Adriano de refazer Jerusalém como cidade pagã, Aelia Capitolina.c4-bk-causes
  697. p. 100, p. 101'Aelia' remetia à família de Adriano; 'Capitolina', a Júpiter Capitolino. É possível até que um templo de Júpiter tenha sido erguido onde estivera o Templo. Uma cidade assim feriria os judeus, que perderiam a esperança de reconstruir o santuário e veriam apagada a identidade judaica de Jerusalém. Só que essa hipótese também tem problemas: há sinais de que a refundação pagã veio depois da revolta, como castigo, e não antes, como causa. Para os autores, a verdade é que não sabemos o que provocou o levante.c4-aelia-capitolina
  698. p. 100Para Novinsky, uma vez reconhecida a origem judaica dos bandeirantes, a Inquisição (incluindo o tribunal de Lima) entra no conflito das missões ao lado das explicações econômicas tradicionais.c9-bandeirantes-inquisition-lima
  699. p. 100Nulman atribui An'im Zemirot (Shir Hakavod) a Rabi Yehudah he-Hasid de Regensburg (m. 1217); o poema foi adaptado em vários ritos como hino diário ou de Shabat.cl-anim-zemirot-yehudah-hasid
  700. p. 100Chazan descreve a remoção dos judeus do ocidente europeu culminando nas expulsões ibéricas dos anos 1490, reforçada por novos deslocamentos forçados da Itália à Alemanha, empurrando judeus do sul ao Império Otomano e do norte para o leste europeu.c-h502-chazan-expulsions-eastward
  701. p. 100Fraade (no Companion) pede modéstia ao catalogar variedades do judaísmo do Segundo Templo e suas práticas textuais: muito do que fica entre a Bíblia hebraica e a interpretação rabínica precoce pode simplesmente não ter sobrevivido.c-h502-fonrobert-fraade-modesty-varieties
  702. p. 101, p. 101Pouco se sabe também da liderança. A literatura rabínica diz que o rabino Akiba viu em Simão bar Kosiba, a quem os seguidores chamavam Bar Kochba, o messias anunciado pelas Escrituras; o apelido, 'Filho da Estrela', alude a Números 24,17. Talvez, então, a meta fosse abrir a era messiânica. Nos documentos dos próprios rebeldes, porém, Bar Kochba é um comandante devoto, que nunca se atribui papel messiânico ou sobrenatural.c4-bk-messiah
  703. p. 101, p. 103Sabe-se que Bar Kochba tinha uma administração própria, capaz de emitir moeda: na verdade, moedas romanas regravadas, com as efígies imperiais apagadas e seu nome no lugar. Por elas se sabe que usava o título de nasi, traduzido como 'príncipe', 'patriarca' ou 'presidente', termo que Ezequiel aplica a uma figura quase real. Algumas trazem o nome de um sacerdote, Eleazar, e a fachada do Templo, indício de que talvez quisessem restaurá-lo; mas, dizem os autores, isso é só um palpite bem fundamentado.c4-bk-coins
  704. p. 101, p. 211Um terceiro padrão, distinto do sacrifício e da prova escritural doméstica, liga a oração diária aos ciclos das luminárias; Penner nota que a afiliação entre culto e luminárias, sobretudo ao nascer do sol, é amplamente discutida para o Segundo Templo.cl-luminary-pattern
  705. p. 102Uma moeda dos rebeldes de Bar Kochba mostra num lado o que parece a fachada do Templo, talvez com a Arca da Aliança perdida dentro; no outro, um lulav e um etrog, símbolos da festa de Sucot, ligada à inauguração do Templo. Essas imagens permitem supor que restaurar o Templo estava entre os objetivos da revolta.c4-bk-coin-imagery
  706. p. 102Durante muito tempo, Bar Kochba foi mais lenda que história. Autores gregos e romanos dizem pouco; os textos cristãos e rabínicos, escritos bem depois e já cientes do fim trágico, fazem dele um bandido e um falso messias, com muito de lendário. Nem o nome era certo: 'Filho da Estrela' (Bar Kochba), como nas fontes cristãs, ou 'Filho do Mentiroso' (Bar Kozeba), como nas rabínicas?c4-bk-name-sources
  707. p. 102, p. 102Documentos da revolta começaram a aparecer nos anos 1950, e em 1961 e 1962 veio o maior achado: quinze cartas entre Bar Kochba e seus homens, numa caverna do deserto da Judeia onde alguns deles se esconderam. O arqueólogo Yigael Yadin a batizou de 'Caverna das Cartas'. As cartas revelam o nome verdadeiro do líder, Shimon Bar Kosiba; os outros dois eram apelidos, e Bar Kozeba, uma zombaria. Na caverna havia ainda ossadas, uma delas de criança, tecidos entre os mais antigos da época romana e os papéis de uma mulher chamada Babatha.c4-cave-of-letters
  708. p. 102, p. 102Em duas cartas, Bar Kochba luta para manter seus homens na linha: acusa os de En-Guedi de viverem confortavelmente dos bens da 'Casa de Israel' sem se importar com os irmãos e ameaça acorrentar os pés de outros. Há quem leia nelas uma guerra em declínio, mas sem data não dá para ordená-las. Os 'galileus' citados numa delas intrigam: talvez cristãos, mas ninguém sabe ao certo.c4-letters-content
  709. p. 103, p. 103Do curso da guerra só se tem um esboço. Ao que parece começou no verão de 132 d.C. e tomou boa parte da Judeia; discute-se se atingiu a Galileia e se os rebeldes chegaram a ocupar Jerusalém. Moedas com a inscrição 'pela liberdade de Jerusalém' não esclarecem se isso foi conquista ou só desejo. Pelas inscrições, Roma pode ter mobilizado 11 ou 12 legiões, mais de 50 mil soldados segundo uma estimativa; um arco triunfal de 10 metros, cujos restos estão perto de Bet Shean, sugere o quanto os romanos valorizaram a vitória.c4-bk-course
  710. p. 103, p. 520O desfecho veio em 135 d.C., em Betar, perto de Jerusalém, a sudoeste: na última grande batalha, Bar Kochba morreu.c4-bethar
  711. p. 103, p. 103Nas fontes rabínicas, os anos seguintes aparecem como tempo de perseguição feroz: Roma teria vetado a circuncisão e o estudo da Torá, entre outras práticas, e executado com crueldade quem as cumprisse em público. O martírio de Akiba e de outros nove sábios ganhou estatuto de lenda, como exemplo de kidush ha-Shem, a 'santificação do Nome'. Estudiosos, porém, põem em dúvida que tal perseguição tenha existido.c4-hadrianic-persecution
  712. p. 103, p. 103Com ou sem perseguição, a Judeia saiu arrasada e perdeu grande parte de seus judeus. Cássio Dio fala de 985 aldeias destruídas, 580 mil mortos e tantos cativos que o preço dos escravos despencou no Império. Entrar em Jerusalém passou a ser crime punido com a morte, salvo no 9 de Av, quando se permitia chorar o Templo. A cultura judaica seguiu viva na Galileia e na diáspora, como na Babilônia e em Roma, mas na Judeia foi em grande parte arrasada.c4-bk-devastation
  713. p. 103Para cortar o laço entre a terra e o povo judeu, os romanos rebatizaram a região de Palestina, nome tirado dos filisteus, antigos habitantes do litoral.c4-palestina
  714. p. 103Josefo já concluíra que revoltar-se contra Roma era loucura; depois de Bar Kochba, pensadores judeus parecem ter chegado a conclusão parecida. A literatura rabínica, principal fonte literária judaica de 200 a 650 d.C., guarda opiniões diversas: há sábios que louvam Roma e colaboram com ela (de Judá, o Patriarca, conta-se que era íntimo do imperador) e outros que denunciam sua opressão. No conjunto, porém, ela se afasta do confronto aberto, toma distância de Bar Kochba e limita bastante os casos em que o martírio se justifica.c4-rabbinic-attitudes
  715. p. 103Uma história rabínica, provavelmente lendária mas reveladora, faz da cultura rabínica herdeira de Yohanan ben Zakai. Contrário à revolta, ele teria saído de Jerusalém dentro de um caixão e se posto nas mãos dos romanos, com sua tradição, em vez de morrer ao lado dos rebeldes.c4-yohanan-coffin
  716. p. 103, p. 104Entre aceitar e enfrentar Roma havia um meio-termo: a ambiguidade calculada. Um exemplo talvez seja a resposta de Jesus sobre o imposto a Roma. Um sim o faria parecer colaborador aos olhos de um povo revoltado com a tributação; um não seria rejeitar o Império e atrair a repressão. Ele respondeu: 'dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus'. Na superfície, é um conselho de pagar; mas, se Deus é o único rei, nada de fato pertence a César. O romano ouviria obediência; o judeu hostil a Roma, algo subversivo. Os autores não discutem se a cena é histórica, mas a julgam plausível, com paralelos na literatura rabínica.c4-render-unto-caesar
  717. p. 103Documentação jesuítica citada por Novinsky resume o quadro paulista: 'Os portugueses de São Paulo, uns são judeus outros são hereges'.c9-jesuit-label-paulistas-jews
  718. p. 104Os apocalipses também eram uma forma de resistir sem enfrentar. 2 Baruc e 4 Esdras, escritos provavelmente no fim do século I ou começo do II d.C., põem na boca de personagens da época da queda do Primeiro Templo reflexões sobre a queda do Segundo. Explicam a destruição como castigo pelo pecado de Israel, mas anunciam a ruína dos inimigos de Deus e a restauração do povo, e garantem que o essencial do Templo sobrevive, seja na Arca escondida sob a terra, seja num santuário celeste. Fantasia do autor, sim, mas talvez sinal de uma cultura clandestina que alimentava sonhos de vingança disfarçados de histórias bíblicas.c4-2baruch-4ezra
  719. p. 104Emigrar também era uma saída. Depois de Bar Kochba, e com a crise econômica da Palestina no século III, até sábios rabínicos parecem ter partido para a Síria, a Ásia Menor e a Babilônia, esta especialmente atraente por ficar fora do Império. Os sábios que ficaram tentaram conter essa evasão, limitando a emigração e exaltando a vida na Terra Santa, sem sucesso. Um deles chegou a ler o exílio babilônico como um modo de Deus proteger os judeus dos decretos romanos.c4-emigration
  720. p. 104A resistência a Roma provavelmente continuou depois do século I, mas muitos judeus passaram a fugir do confronto direto. Os autores veem nisso uma chave de sobrevivência: cristianismo e judaísmo rabínico, os movimentos mais bem-sucedidos nascidos depois de Bar Kochba, adotaram ambos uma postura não confrontacional, e as comunidades mais duradouras sob Roma foram, ao que parece, as que se acomodaram a seu poder ou as que saíram de seu alcance.c4-nonconfrontation
  721. p. 104Não havia uma única maneira de ser judeu antes de 70 d.C.: tudo dependia de ser fariseu ou essênio, sacerdote ou leigo, homem ou mulher, morador de Jerusalém ou de uma aldeia galileia. Quase toda essa variedade se perdeu. As fontes escritas são obra de intelectuais ou então inscrições, papiros e moedas que registram sobretudo negócios, atos públicos e questões jurídicas.c4-diversity
  722. p. 105Os evangelhos mostram uma Palestina do século I cheia de pobres, famintos e doentes, às vezes reduzidos à mendicância, à prostituição ou ao roubo. Jesus e, depois, os rabinos se preocuparam com eles e estimularam a caridade, embora desconfiassem de quem a praticasse para se exibir. Os próprios pobres, porém, não deixaram nenhum texto; quem tinha dinheiro o ostentava em casas e túmulos decorados, e eles não tinham como deixar monumentos.c4-poor
  723. p. 105, p. 105Quanto à escravidão, os judeus pensavam como os demais habitantes do Império e a tinham por normal, com exceções como os essênios, que não possuíam escravos. Muitos judeus livres viviam de trabalho pesado, por necessidade: lavouras de grandes propriedades, pedreiras que abasteciam Jerusalém, extração de sal no Mar Morto, pesca no Mar da Galileia, como alguns discípulos de Jesus. Nem escravos nem trabalhadores deixaram relatos próprios.c4-slaves-laborers
  724. p. 105A maior lacuna é a voz das mulheres, que aparecem pouco nas fontes e quase nunca falam por si. Em certos lugares talvez se esperasse que ficassem fora da vida pública: Fílon, referindo-se a Alexandria, diz que a casa é o lugar da mulher. Nada garante que fosse assim em toda parte, e nos evangelhos muitas mulheres abordam Jesus sem embaraço; esperava-se delas, porém, que cobrissem a cabeça com um manto.c4-women
  725. p. 105, p. 102Uma rara exceção surgiu em 1961, na mesma caverna das cartas de Bar Kochba: o arquivo de Babatha, jovem viúva judia do século II d.C., descoberto por Yigael Yadin. Os documentos, datados de 93 a 132 d.C., tratam de seus casamentos, da briga pelo sustento do filho e de seus negócios. Guardados numa fenda de uma caverna isolada, lembram como é escasso o que sobrou sobre mulheres judias na Antiguidade.c4-babatha
  726. p. 105O que separava os judeus de gregos e romanos era motivo de orgulho para Fílon e Josefo, que afirmam que os judeus morreriam antes de abandonar os costumes dos antepassados; o direito de segui-los esteve sempre em jogo diante de Roma. As disputas entre seitas continuaram, mas a fidelidade comum às leis de Moisés e à tradição dos pais unia muitos judeus e dava à sua cultura um perfil próprio.c4-ancestral-customs
  727. p. 105O Templo era o coração dessa tradição. Nas três festas de peregrinação, Pessach, Shavuot e Sucot, os judeus deviam ir a Jerusalém; não se sabe se iam todo ano, mas sob Roma as multidões chegavam a dezenas de milhares, e o complexo do Templo teve de crescer para recebê-las. Já havia sinagogas, mas o culto a Deus parecia impensável sem o Templo; mesmo a comunidade do Mar Morto, crítica de sua administração, se inspirava nele e esperava vê-lo restaurado no fim dos tempos.c4-pilgrimage
  728. p. 106Sem reis davídicos, os sacerdotes, sobretudo as famílias do topo, viraram a elite da Judeia, religiosa e também política. Daí o empenho de Herodes e dos romanos em controlar o sumo sacerdócio: interferiam nas nomeações e chegaram a guardar consigo as vestes do sumo sacerdote. O sacerdócio como um todo, porém, manteve prestígio: Josefo exibe sua origem sacerdotal como prova de nobreza, e os títulos de sacerdote e sacerdotisa (este dado a esposas e filhas) continuaram a conferir status séculos depois de 70.c4-priests
  729. p. 106Fora do Templo, muitos judeus compartilhavam hábitos próprios, como o sábado e a sinagoga, defendidos tanto na Palestina quanto na diáspora. Por motivos ainda obscuros, a pureza ritual ganhou peso, ao menos em Jerusalém e na Palestina. A impureza era pensada como um contágio, vindo de fluidos do corpo, de cadáveres ou de não judeus contaminados pela idolatria; não era doença, mas precisava ser eliminada para chegar perto do sagrado. Para isso usavam-se vasilhas de pedra, material tido como imune à impureza, e o banho ritual no micvê.c4-purity
  730. p. 106Cada grupo tinha seu jeito de lidar com a impureza. Os fariseus insistiam na lavagem das mãos antes de comer. Os essênios rejeitavam o óleo, que outros judeus usavam no banho, e faziam suas necessidades longe dos olhos alheios, enterrando os dejetos, ao passo que outros judeus, sem ver nisso impureza, não tinham essa preocupação.c4-purity-groups
  731. p. 106Num palácio hasmoneu de Jericó está o micvê mais antigo com data conhecida, em uso entre 150 e 100 a.C., segundo se acredita. Os hasmoneus eram sacerdotes, e outros micvês antigos aparecem em ambientes sacerdotais; por isso se supõe que foram os sacerdotes que adotaram o banho ritual, para entrar no Templo em estado de pureza. Após 70, a imersão continuou importante por outras razões, como a purificação feminina depois da menstruação e a conversão, uso que leva a pensar que o batismo cristão venha daí.c4-jericho-mikveh
  732. p. 106, p. 107Os judeus também se distinguiam por recusar estátuas e imagens de culto. Pensou-se que rejeitassem toda e qualquer imagem: o mandamento contra ídolos foi às vezes entendido como proibição de representar Deus ou pessoas. Mas essa leitura não é obrigatória, e nas sinagogas dos séculos III e IV há figuras humanas. No fim do Segundo Templo, contudo, a arte judaica que sobrou, de pinturas a moedas, prefere padrões geométricos, plantas, aves, peixes e símbolos como a menorá, e não mostra nem pessoas nem Deus.c4-images
  733. p. 107Em Roma, o Arco de Tito celebra a vitória sobre os judeus na Primeira Revolta. Num dos relevos, uma procissão leva a menorá e outros despojos de Jerusalém. Os objetos foram guardados num templo romano e mais tarde roubados ou destruídos; a menorá, no entanto, continuou a ser símbolo judaico, presente em sinagogas de todas as épocas e no emblema do Estado de Israel.c4-arch-of-titus
  734. p. 107, p. 108Fílon descreve multidões de inúmeras cidades, vindas por terra e por mar de todos os pontos cardeais, que nas festas faziam amizades e se sentiam unidas. Era o ideal; na prática, havia superlotação, desordem e até motins. Quem não podia viajar contribuía com o meio siclo anual, que pagava o sacrifício diário. Para os autores, não é exagero dizer que a lealdade ao Templo era o que mantinha unidos judeus espalhados e separados por geografia, política e economia.c4-temple-unity
  735. p. 107Em Jerusalém não havia imagens de deuses, mas em Alexandria ou em Roma os judeus conviviam com estátuas cultuadas pelos vizinhos. Toleravam sua presença; o que não aceitavam era venerá-las. Era aí que se separavam de gregos, egípcios e outros povos, para quem incluir o culto à estátua do imperador em suas práticas não representava problema.c4-images-diaspora
  736. p. 107, p. 1164Q503 (Daily Prayers) contém bênçãos comunitárias a recitar à tarde/noite e ao nascer do sol para cada dia de um mês; o rolo está muito danificado (cerca de 225 fragmentos), e a reconstrução permanece parcial.cl-4q503-evening-sunrise
  737. p. 107Nulman descreve Ashamnu como acróstico de vinte e quatro expressões: Vidui breve frente a Al Hayt, usado em Yom Kipur, Selihot, Tahanun e outros momentos penitenciais.cl-ashamnu-short-vidui
  738. p. 108Pouco se escreveu no século seguinte à destruição, mas o pouco transmite desolação; o autor de 2 Baruc mal concebe a vida sem o Templo. A perda era concreta: sem sacrifícios, não havia como cumprir o que a Torá mandava para expiar pecados ou agradecer a Deus. O sacerdócio, elite do século I, ficou sem função, e o fim das peregrinações ameaçou o laço entre diáspora e terra natal. Para alguns, deve ter parecido o fim de tudo.c4-loss-of-temple
  739. p. 108, p. 108Mesmo assim, a vida religiosa judaica sobreviveu. Muitos ainda esperavam a volta do Templo, mas foram surgindo formas de devoção sem sacrifício. Algumas já existiam e nunca dependeram do Templo, como a circuncisão, o sábado e as regras alimentares. A sinagoga, firme na Palestina e na diáspora, abrigou a leitura pública da Torá, a oração e as doações. Os dois séculos seguintes são mal documentados, mas tudo indica que foi então que se firmaram alternativas duradouras, praticáveis em qualquer lugar.c4-continuity
  740. p. 108Como explicar essa capacidade de adaptação? Os autores não têm certeza, mas apontam mudanças anteriores a 70. Alguns judeus já haviam se afastado do Templo e de seus sacerdotes, como a comunidade do Mar Morto, que, rompida com Jerusalém, passou a rezar no lugar de sacrificar. Talvez não pretendessem substituir o culto, mas criaram opções que muitos outros adotariam depois da destruição.c4-pre70-changes
  741. p. 108, p. 109A perseguição de Antíoco e a revolta dos macabeus já tinham levado alguns judeus a questionar se os sacerdotes eram legítimos, e as intromissões de Herodes e de Roma nas nomeações pioraram as coisas. Enquanto isso apareciam outros líderes, como taumaturgos, profetas e sábios, que não deviam sua autoridade à linhagem nem ao Templo, mas a dons sobrenaturais ou à interpretação. O Mestre da Justiça foi um deles, ainda no período helenístico; Jesus, outro, já sob Roma. Quando o Templo caiu, havia quem pudesse liderar sem ele.c4-new-leaders
  742. p. 108, p. 108Goodman adverte que ler Josefo com o olhar pós-70 distorce: judeus viveram longos períodos em paz no mundo romano, e comunidades da diáspora (Ásia Menor, Síria, Egito, Roma) puderam observar costumes como o sábado em razão de sua antiguidade.c-h502-goodman-roman-diaspora-privileges
  743. p. 109Talvez a virada decisiva não tenha sido só 70, mas 70 somado a Bar Kochba. Provavelmente foi a segunda guerra, ao transformar Jerusalém em cidade pagã, que fechou a porta a uma reconstrução como a que se seguira à perda do Primeiro Templo. Com tão poucas fontes, os autores admitem que estão 'mais ou menos adivinhando'.c4-bk-turning-point
  744. p. 109, p. 109O que aconteceu com os judeus antecipou uma tendência de todo o mundo romano: o recuo da religião de templos. Nos séculos II e III, pensadores pagãos como Luciano de Samósata e Porfírio já tratavam o sacrifício como devoção ignorante; no fim do século IV, o Império cristão aboliu os sacrifícios públicos. Templos foram abandonados, destruídos ou convertidos em igrejas e, mais tarde, em mesquitas. A autoridade passou dos sacerdotes ao filósofo, ao monge e ao mestre espiritual, e ler textos sagrados tornou-se modo central de buscar Deus.c4-broader-trend
  745. p. 109Os autores admitem não entender bem as causas. O cristianismo foi o motor mais evidente, mas não o único. O códice, antepassado do livro, mais barato e portátil que o rolo, pode ter dado peso novo às escrituras, não só entre cristãos, mas também entre os maniqueus, seguidores do profeta Mani. E a própria religião mudou, com mais ênfase na transformação interior, no cuidado com o próximo e em comunidades unidas pela fé, não pelo sangue ou pela cidade natal.c4-codex
  746. p. 109Aos judeus, a perda do Templo impôs essas mudanças antes que a outros povos, e contra a vontade deles. Em retrospecto, porém, ela os preparou para o mundo sem templos que estava nascendo: o estudo das escrituras tomou o lugar do sacrifício como ato religioso central, e outras autoridades ofuscaram o sacerdote.c4-forced-earlier
  747. p. 110Daí surgiu o rabino, figura nova: nem sacerdote nem profeta, mas mestre, com autoridade baseada no domínio da Torá e na piedade. Talvez herdeiros dos fariseus ou de outros grupos do Segundo Templo, esses sábios formaram uma rede de mestres e discípulos. Estudavam o Templo e seus ritos com minúcia, mas sua marca era tratar o estudo, e não o culto, como o principal meio de se relacionar com Deus.c4-rabbi
  748. p. 110O judaísmo rabínico não foi o único movimento sem Templo a crescer depois de 70: houve também o cristianismo, que nasceu como expressão da cultura judaica pouco antes e pouco depois da destruição. No começo, a separação não era nítida, pois Jesus, os doze discípulos e Paulo eram judeus e se viam na linha de Abraão e Moisés. As origens cristãs, portanto, também são história judaica.c4-christianity-jewish
  749. p. 110Na raiz do cristianismo está um judeu que ensinava e fazia prodígios de lugar em lugar e que foi executado em Jerusalém quando Pôncio Pilatos governava. Seu nome hebraico seria Yehoshua ou Yeshua; ficou conhecido pela forma grega, Jesus. 'Cristo' é um título, e não um nome: christos verte para o grego o hebraico 'ungido', e seus seguidores o usaram para apresentá-lo como rei da linhagem de Davi.c4-jesus-name
  750. p. 110O judeu mais célebre do século I é, para o historiador, quase um desconhecido. Não escreveu nada, nenhum contemporâneo o menciona, e as fontes disponíveis, as cartas de Paulo e os quatro evangelhos, vieram de 30 a 60 anos depois. Muitos cristãos as tomam como exatas; a pesquisa moderna desconfia, porque são difíceis de confirmar, se contradizem e refletem as crenças e propósitos de quem as escreveu.c4-jesus-sources
  751. p. 110, p. 520Algumas coisas são relativamente seguras. A data tradicional de 1 d.C. para o nascimento é duvidosa: ele pode ter nascido em qualquer ano entre 4 a.C. e 6 d.C., e os evangelhos confundem a questão. Diz-se que veio de Belém, terra de Davi, mas o chamavam de Jesus de Nazaré, cidade galileia de seus pais.c4-jesus-birth
  752. p. 110, p. 520Segundo os evangelhos, Jesus esteve ligado no início a João Batista, profeta popular que o batizou, imergindo-o na água para o perdão dos pecados. Fora do Novo Testamento esse vínculo não se confirma, mas Josefo, de forma independente, atesta que João existiu, defendia o batismo e foi executado por Herodes. O batismo parece vir do uso judaico da imersão como purificação. Na cronologia do livro, a execução é de 28 ou 29 d.C.c4-john-baptist
  753. p. 110, p. 110, p. 520Outras personagens dos evangelhos têm existência comprovada: Herodes, Pôncio Pilatos e até Caifás, sumo sacerdote quando Jesus morreu. Que Jesus foi crucificado, os estudiosos não duvidam; era o suplício cruel que Roma aplicava a bandidos e escravos para intimidar quem ousasse desafiar a ordem. Mas cada evangelho narra a execução a seu modo, e eles divergem até sobre o momento. A cronologia do livro data a morte em 30 d.C.c4-corroborated-figures
  754. p. 111As correntes que o livro descreve no capítulo 3, fariseus, saduceus e essênios, seguiam ativas no século I. Os fariseus parecem ter sido os mais influentes junto ao povo, mas nenhuma corrente era 'o' judaísmo. O cristianismo começou como mais uma delas: fundado por um judeu, com seguidores judeus. Lembrava os fariseus por ser popular, girar em torno de mestres e esperar a ressurreição dos mortos, e os essênios por propor uma vida à parte, voltada para Deus. Pelo Novo Testamento, pareceria só mais uma seita judaica da época.c4-jesus-movement-sect
  755. p. 111Para muitos judeus do fim do Segundo Templo, o sofrimento presente era passageiro e logo viria uma era melhor. Todos esperavam o socorro divino, mas imaginavam o fim de modos distintos: em certos apocalipses Deus age pessoalmente ou por anjos; em outros, por meio de um messias, seja um rei descendente de Davi, seja um sacerdote descendente de Aarão. A comunidade do Mar Morto parece ter esperado os dois, agindo em etapas. Por trás disso estava a ideia de um roteiro fixado de antemão, mantido em segredo e revelado por Deus a poucos.c4-eschatology
  756. p. 111A seita do Mar Morto se julgava perto do fim, ou já em seu início: não ainda no juízo e na redenção messiânica, mas numa fase prévia de provação. O Rolo da Guerra parece servir de preparação para o combate derradeiro entre os filhos da luz, com Deus e os anjos a seu lado, e os filhos das trevas, um exército comandado por inimigos estrangeiros chamados kittim, talvez os romanos.c4-war-scroll-kittim
  757. p. 111O primeiro movimento de Jesus se via no mesmo ponto da história. Como o Mestre da Justiça, o Jesus dos evangelhos conhece o plano dos últimos tempos e o revela aos discípulos, mas vai além: é o próprio libertador, o messias. O Novo Testamento mistura nele várias imagens judaicas: rei davídico (daí a importância de Belém), Filho do Homem e messias sacerdotal, este na Carta aos Hebreus. Original é a ideia de que ele cumpriria sua missão em duas vindas, a segunda no fim dos tempos; mesmo ela tem um precedente parcial nos dois messias esperados no Mar Morto.c4-jesus-messiah
  758. p. 111, p. 113O livro do Apocalipse, de durante ou logo depois da Primeira Revolta, mostra cristãos que imaginavam o fim como guerra entre as forças de Deus e as do Diabo, quadro muito próximo ao do Rolo da Guerra; também o juízo final e a ressurreição têm raiz judaica. Nem tudo, porém: a crença em Jesus como ser divino, filho de Deus, não tem antecedente judaico claro e parece vir da noção grega do 'homem divino', meio deus, meio mortal. Ainda assim, os Manuscritos do Mar Morto mostraram que boa parte da escatologia cristã nasceu de crenças judaicas.c4-revelation
  759. p. 112, p. 112Paulo, nos anos 50, é quem primeiro fala de Jesus, mas só o conheceu depois da morte dele e quase nada diz de sua vida. Os evangelhos são a base de qualquer biografia, porém mais tardios, sem confirmação externa e às vezes contraditórios. Em Marcos, Jesus é crucificado às 9 horas, na manhã seguinte à ceia pascal; em João, depois do meio-dia, na véspera dela. Como João chama Jesus de 'cordeiro de Deus', talvez tenha escolhido essa data para que ele morresse na mesma hora em que se sacrificava o cordeiro da Páscoa.c4-hj-paul-gospels
  760. p. 112, p. 112Há uma breve passagem sobre Jesus nas Antiguidades judaicas (18,63 e 64): um sábio que fazia prodígios, condenado à cruz por Pilatos, e que ali é chamado de messias. Desde o século IV, historiadores cristãos a invocam como prova; desde o século XVI, porém, estudiosos suspeitam de falsificação ou retoque cristão, porque chamar Jesus de messias faria de Josefo um cristão, o que contradiz o que ele diz de si, e porque a frase falta numa antiga versão árabe. E, mesmo que seja dele, foi escrita nos anos 80 ou 90, longe dos fatos.c4-hj-josephus-passage
  761. p. 112Os supostos vestígios arqueológicos de Jesus também falharam. Em 2002 foi divulgado um ossuário com a inscrição aramaica 'Tiago, filho de José, irmão de Jesus'. Durante cerca de um ano, estudiosos discutiram se o Jesus citado seria o dos evangelhos, sem resultado: a caixa é provavelmente autêntica, mas ficou provado que a inscrição é falsa.c4-hj-james-ossuary
  762. p. 112, p. 113Os evangelhos não canônicos, como o atribuído a Judas Iscariotes, são posteriores e menos confiáveis; só o de Tomé, conforme sua datação, pode ser anterior a alguns canônicos, mas reúne ditos e não conta uma vida. Em defesa dos evangelhos, seus autores conhecem bem a Judeia de Herodes a Pilatos, o que impede descartá-los como se faz com Gênesis e Êxodo. Sem outras fontes para compará-los, porém, eles revelam mais sobre a fé dos primeiros cristãos do que sobre o Jesus real.c4-hj-assessment
  763. p. 112Falbel observa que cristãos-novos chegaram ao Brasil desde os primeiros anos da colonização, mas a Capitania de São Vicente e o litoral paulista permaneceram pouco estudados em comparação com outras regiões.c9-sao-vicente-presence
  764. p. 112A frota de Cabral já incluía o judeu convertido Gaspar da Gama, marco citado por Falbel para a presença de convertidos desde a descoberta.c9-gaspar-da-gama
  765. p. 113Existe um ossuário, caixa usada para guardar os ossos dos mortos, com o nome Caifás gravado; o sumo sacerdote de Jerusalém no tempo do julgamento de Jesus tinha esse nome.c4-caiaphas-ossuary
  766. p. 113, p. 114A última ceia aconteceu na Páscoa judaica ou perto dela, e dois evangelhos a chamam de refeição pascal. Por isso há estudiosos que a interpretam como um seder e comparam seus gestos aos costumes pascais das fontes rabínicas e dos manuscritos: a explicação dada ao pão e ao vinho, o hino no final. Além disso, as alusões de Jesus ao fim dos tempos lembram o banquete descrito na Regra da Congregação, em que o messias, ou os dois messias, comeria pão e beberia vinho diante dos chefes de Israel. A discussão segue aberta.c4-last-supper
  767. p. 114Movimentos podiam sobreviver ao fundador. Judas, o Galileu, some das fontes depois de sua revolta frustrada contra Roma em 6 d.C., mas sua influência continuava durante a guerra, décadas depois, e Atos 5,37, escrito por volta de 80 ou 90 d.C., ainda o menciona.c4-judas-legacy
  768. p. 114Sob Roma, muitos judeus viam o mundo povoado de seres sobrenaturais além de Deus. Os anjos, que já aparecem na Bíblia hebraica, tinham agora nomes, personalidade e tarefas definidas; os demônios levavam a culpa por males do corpo e da mente. A julgar pelos evangelhos, quem sabia expulsar demônios era muito procurado na Palestina do século I, e os Manuscritos do Mar Morto e Josefo registram técnicas de exorcismo.c4-angels-demons
  769. p. 114, p. 114Entre os maus espíritos, o mais poderoso passou a ser Satanás, ou figuras parecidas como Mastema, Belial e Asmodeu; 'diabo' vem do grego diabolos, 'caluniador', usado na Bíblia grega para Satanás. Na Bíblia hebraica, o termo (que significa 'adversário') é raro e mal funciona como nome próprio; no século I, Satanás já é um anjo caído, inimigo que domina pessoas e que Deus vencerá no fim. Chifres, cor vermelha e tridente vieram depois. O dualismo persa é uma das explicações propostas para essa evolução, não a única; curiosamente, Satanás às vezes se parece com o imperador romano.c4-satan
  770. p. 115, p. 115Muitos líderes carismáticos da época acabaram mortos, mas seus movimentos nem sempre morriam com eles. O de Jesus continuou não só por lealdade: seus seguidores leram a execução à luz de ideias judaicas. Muitos apocalipses previam que os justos sofreriam e morreriam numa tribulação antes da salvação final, e essa morte podia até apressá-la: no Testamento de Moisés, texto do século I, o levita Taxo se recolhe a uma caverna disposto a morrer para forçar a intervenção de Deus. Os primeiros cristãos viram na morte de Jesus um sacrifício pelos outros e o início da era final.c4-death-understood
  771. p. 115, p. 115Os autores destacam os paralelos com a literatura apocalíptica, mas admitem que outras aproximações são possíveis. Há estudiosos que preferem ligar Jesus à sabedoria judaica, ao mestre de parábolas, e comparam-no a Hillel, que também formulou uma 'regra de ouro'. Outros enxergam em seus atos e palavras sinais de oposição a Roma; Judas Iscariotes, cujo nome lembra 'sicários', alimentou até a ideia de laços com esse grupo, o que, para os autores, já excede a evidência.c4-jesus-contexts
  772. p. 115, p. 520Hillel, mestre célebre que atuou no século I a.C., teve grande peso na cultura rabínica posterior. A cronologia do livro situa nesse século a atuação de Hillel e de Shamai.c4-hillel
  773. p. 115Se o cristianismo é tão judaico na origem, por que os cristãos não são judeus? Para os estudiosos, a 'separação dos caminhos', que fez das duas tradições comunidades distintas e muitas vezes rivais, foi lenta e complexa, estendendo-se por séculos. Suas sementes, porém, estão nos primeiros tempos: se não no próprio Jesus, sem dúvida em Paulo, seu intérprete mais antigo e influente.c4-parting-ways
  774. p. 115, p. 520Antes de se converter, Paulo era um judeu próximo dos fariseus. Sua experiência de Jesus o levou, e ao cristianismo, por um rumo diferente do de outros seguidores judeus. Nas cartas que escreveu entre 50 e 60 d.C. (nem todas as que levam seu nome são dele), organizou comunidades na Ásia Menor, na Grécia e em Roma e expôs sua teologia: a aliança do Sinai valera por um tempo, mas, com a morte e a ressurreição de Cristo, a Lei, como um professor que cumpriu seu papel, deixava de ser necessária, e os não judeus podiam entrar numa 'nova aliança' pela fé.c4-paul
  775. p. 115Receber gentios, por si só, não rompia com o judaísmo: muitas comunidades judaicas acolhiam prosélitos e também 'tementes a Deus', não judeus que cultuavam o Deus de Israel e seguiam sua lei sem se converter. A novidade de Paulo foi dispensar o judaísmo e a Lei como caminho até Deus. Ele não propunha um judaísmo aberto a todos, e sim uma relação nova em que 'não há judeu nem grego' (Gálatas 3,28).c4-god-fearers
  776. p. 115Debates sobre a formação da etnia paulista incluíram a tese do 'sangue hebreu' em Piratininga; Falbel situa essa discussão na historiografia sobre São Vicente e o planalto.c9-paulista-ethnicity-debate
  777. p. 115, p. 3A missão a gentios sem exigir a Torá de Moisés criou tensão dentro do próprio conjunto de judeus crentes: a questão não era só teológica, mas comunitária, sobre quem pertencia a Israel renovado e sob que condições.cjb-gentile-mission-tension
  778. p. 116Ao que parece, Paulo nunca deixou de se considerar judeu, e por algum tempo houve judeus cristãos. Mas sua teologia oferecia uma razão forte para aceitar gentios sem fazê-los judeus. Na época da redação dos evangelhos canônicos, entre 70 e 100 d.C., muitos cristãos já não se viam como judeus; no século II, Inácio, que morreria mártir, condenava os cristãos que judaizavam por misturar duas comunidades que ele julgava inteiramente diferentes.c4-jewish-christians
  779. p. 116, p. 116Jesus e os discípulos guardavam o sábado. Ele admitia práticas discutíveis, como deixar os discípulos famintos colherem espigas, mas o que era permitido no sábado era debatido entre os judeus em geral, e Jesus jamais sugere mudar o dia de culto. A troca pelo domingo, dia da ressurreição, veio depois de Paulo, entre cristãos de origem gentia que não se sentiam presos à 'Antiga Aliança'; um marco foi a adoção oficial do domingo como dia de descanso no século IV. A mudança afirmava um recomeço e a distância dos judeus, mas, ao levar para o domingo traços do sábado, os cristãos admitiam também um vínculo com o judaísmo.c4-sabbath-sunday
  780. p. 116Mesmo se afastando da cultura judaica, o cristianismo reivindicou a Bíblia e se apresentou como o verdadeiro herdeiro de Abraão e Moisés. Nisso lembra os samaritanos, que não eram judeus (não moravam na Judeia, não iam ao Templo de Jerusalém e tinham outro cânone), mas honravam os Cinco Livros de Moisés, diziam descender de Efraim e Manassés e tinham no monte Gerizim o culto que julgavam instituído por Moisés. A hostilidade entre judeus e samaritanos vinha das diferenças, mas também de se verem ambos como o Israel bíblico; os cristãos seriam um rival do mesmo tipo.c4-samaritan-analogy
  781. p. 116, p. 117Dessa rivalidade brotou um antijudaísmo cristão feroz, já presente nos evangelhos e bem marcado no século II. Ele herdou desconfianças da judeofobia pagã, mas não a repetiu: os cristãos não podiam zombar dos judeus por rejeitarem estátuas ou adorarem um Deus estrangeiro, pois faziam o mesmo. O ataque passou a ser teológico e moral: os judeus seriam culpados pela morte de Jesus e por negar que ele fosse messias e filho de Deus. E, ao contrário do pagão, esse antijudaísmo se apoiava na leitura da própria Bíblia.c4-christian-anti-judaism
  782. p. 116, p. 117Um texto do século IV atribuído, talvez sem razão, a Gregório de Nissa reúne as principais acusações: os judeus teriam recusado Jesus como messias e filho de Deus; teriam matado Deus ao tramar a morte de Jesus, ideia que deixa de lado que foram os romanos que o executaram; e seriam 'confederados do diabo', escondendo pecados sob aparência de devoção.c4-gregory-themes
  783. p. 116Mott afirma que a Inquisição em São Paulo foi mais frequente do que a historiografia costuma admitir e localizou 47 episódios envolvendo moradores da capitania.c9-inquisition-sao-paulo
  784. p. 116Dos brasileiros queimados em autos de fé em Lisboa, Mott destaca ao menos dois residentes dos planaltos de Piratininga: Teotônio da Costa (1686) e Miguel de Mendonça Valhadolid (1731), acusados de praticar a Lei de Moisés.c9-piratininga-burned
  785. p. 116No século II, Inácio condenava cristãos que 'judaizavam', tratando judaísmo e cristianismo como comunidades que não deviam misturar-se. Esse tipo de fronteira retórica é evidência de contato e disputa, não de isolamento completo.cjb-ignatius-boundary
  786. p. 116Para Nulman, Asher Yatzar (bênção do corpo no Shaharit preliminar e após funções corporais) é citada no Talmude em nome de Abaye; a fórmula final é atribuída a R. Papa, e o texto apoia-se em Ex 15:26 e Jz 13:19.cl-asher-yatzar-talmud-abaye
  787. p. 117, p. 117Uma das acusações cristãs foi a de deicídio, estendida a todo o povo judeu, de então e de sempre, como se os judeus de hoje tivessem participado do julgamento. A versão mais antiga conhecida está em Melitão, bispo de Sardes, que morreu por volta de 190 d.C. A ideia ainda circula: em 2011, Bento XVI sentiu necessidade de publicar uma obra mostrando por que os judeus não são responsáveis pela morte de Jesus.c4-deicide
  788. p. 117, p. 117Quem executou Jesus foram os romanos, mas alguns evangelhos se esforçam por jogar a culpa sobre os judeus como povo, que chegam a assumi-la (Mateus 27,25). Estudiosos explicam: escrevendo entre 70 e 100 d.C., os autores talvez quisessem se desvincular dos judeus, rebeldes contra Roma ou punidos por isso, e não indispor o público gentio, sobretudo romano, que tentavam converter. Leitores religiosos podem resistir a essa leitura, mas a Igreja Católica, ao reexaminar o Novo Testamento, não viu nele motivo para culpar os judeus coletivamente.c4-gospel-blame
  789. p. 117, p. 117Que alguns judeus tenham denunciado Jesus ou apoiado sua morte é possível. O próprio Josefo é exemplo de judeu que se aliou a Roma contra compatriotas, seja por autoproteção, seja por rivalidade, seja por convicção sincera; nada impede, historicamente, que Judas Iscariotes ou outros o tenham entregado. Daí à culpa coletiva, porém, o salto é enorme: quase todos os judeus do Império nem sabiam quem era Jesus. Seria como culpar todos os italianos de hoje por haver romanos na execução. E a acusação de deicídio serviu por séculos de justificativa para o preconceito.c4-informers
  790. p. 117Nos dois ou três primeiros séculos, a hostilidade cristã talvez não ameaçasse os judeus mais do que a dos samaritanos. Mesmo depois das punições que se seguiram às revoltas, a situação jurídica do judaísmo pouco mudou: Roma o tratava como religião legítima e protegida, ao passo que o cristianismo passou por várias ondas de perseguição oficial.c4-legal-status
  791. p. 117Nulman liga a recitação tripla diária de Ashrei (Sl 145 com versículos prefixados) à ênfase talmúdica de que quem recita o salmo três vezes ao dia tem assegurada a parte no mundo vindouro; por isso os dois versículos iniciais repetem a palavra Ashrei três vezes.cl-ashrei-thrice-world-to-come
  792. p. 118, p. 520Os samaritanos, hoje, são poucas centenas; os cristãos, ao contrário, cresceram depressa, e seu antijudaísmo pesou mais à medida que ganhavam influência. No século I já estavam na Síria, na Ásia Menor, na Grécia e em Roma (onde a agitação causada pela pregação cristã levou a mais uma expulsão dos judeus da cidade, nos anos 40) e conquistavam africanos; no século II estavam por todo o Império e além. Ainda perseguidos no início do século IV, ganharam então o próprio imperador: em 312, antes de uma batalha, Constantino I teve uma visão e mandou suas tropas porem um sinal de Cristo no equipamento. Desde então, quase todos os imperadores protegeram a Igreja.c4-christian-growth
  793. p. 118, p. 520O Império cristão nunca pôs o judaísmo fora da lei, mas os judeus ficaram expostos como antes não estavam. Turbas cristãs atacavam sinagogas, como faziam com templos pagãos, e convertiam algumas em igrejas; podiam também expulsar judeus de suas cidades, como em Alexandria em 414. As autoridades nem sempre aprovavam e às vezes intervinham, mas nem o imperador conseguia tudo: em 388, depois que queimaram a sinagoga de Calínico, na Mesopotâmia, Teodósio quis mandar reconstruí-la e recuou diante de santo Ambrósio. A Igreja não queria eliminar os judeus, que eram preservados como o Antigo Testamento era preservado, mas eles se tornaram uma minoria à margem, numa sociedade que partia de suas supostas falhas teológicas.c4-christianized-empire
  794. p. 118, p. 118Nas primeiras décadas, com Jesus, os discípulos e talvez ainda Paulo, os cristãos eram difíceis de distinguir dos judeus: uma das várias maneiras de entender Deus, a Torá e o futuro. Só porque sabemos o que veio depois é que hesitamos em chamá-los de judeus, mas eles eram, e seus textos iluminam a vida judaica na Galileia ou o modo como um grupo lidou com a morte precoce de seu mestre. O que tornou o cristianismo diferente não foi misturar o judaico e o não judaico, coisa que Fílon e Josefo também faziam, mas o sucesso em atrair gentios e o empenho em se separar da tradição anterior.c4-early-christians-jews
  795. p. 118Os conflitos com Roma, de Pompeu a Bar Kochba, transformaram a cultura judaica. Com o Templo destruído, foi preciso substituir sacrifício e sacerdócio; a reação romana à Revolta da Diáspora acelerou a queda de grandes comunidades como a de Alexandria; e, depois de Bar Kochba, a desjudaização de Jerusalém e da Judeia sepultou o sonho de reerguer o Templo e levou o centro da vida judaica na Palestina para a Galileia. O resultado foi uma cultura muito diferente da de 100 a.C.c4-transition-summary
  796. p. 119Nem tudo, porém, se explica pelo conflito. O próprio mundo romano mudava: dividiu-se em duas metades no século III, ganhou no Oriente uma nova capital, Constantinopla, enfrentou migrações, invasões e crises econômicas e se cristianizou aos poucos. Por isso os historiadores costumam chamar de 'Antiguidade tardia' o período que vai do século III às conquistas islâmicas dos séculos VII e VIII, uma transição entre o Império pagão e as culturas medievais, marcada pela força crescente do monoteísmo.c4-late-antiquity
  797. p. 119O capítulo seguinte trata do judaísmo rabínico. Embora seja comum apresentá-lo como resposta à queda do Segundo Templo, os autores observam que ele só se desenvolveu séculos mais tarde, provavelmente quando muitos judeus já tinham aprendido a viver sem o Templo.c4-rabbinic-later
  798. p. 120, p. 120, p. 120Depois que o Segundo Templo caiu, formou-se ao longo de séculos um grupo de sábios a quem hoje damos o título de rabino. Eles mudaram o judaísmo de modo duradouro: repensaram o que era a Torá e como estudá-la, encontraram caminhos até Deus que dispensavam o Templo e produziram obras novas (Mishná, midrash, Talmude) que passariam a guiar a vida judaica com peso comparável ao da Bíblia hebraica. Quanto pesaram em seu próprio tempo é difícil dizer, mas o efeito sobre a cultura judaica posterior foi tão grande que o judaísmo atual é, na prática, um judaísmo rabínico, moldado por ideias e práticas da Antiguidade tardia.c5-rabbis-transformative
  799. p. 120Os rabinos não deixaram um relato histórico de si mesmos, como os autores bíblicos fizeram para o antigo Israel ou Josefo para o período do Segundo Templo.c5-no-rabbinic-history
  800. p. 120, p. 120Pirkei Avot, os 'Capítulos dos Pais', é uma antologia de ditos de sábios rabínicos incluída na Mishná. Seu primeiro capítulo traça uma genealogia intelectual que leva a Torá de Moisés a Josué, aos profetas e anciãos, e deles a Yohanan ben Zakai e seus discípulos: os rabinos se viam como sucessores de Moisés, numa tradição que remontava ao Sinai.c5-pirkei-avot
  801. p. 120Enquanto o Templo existiu, quem encarnava a autoridade religiosa era o sacerdote, e sua tarefa essencial era executar os ritos do santuário. Depois da destruição, a figura central passou a ser o rabino: um mestre e estudioso que devia sua posição ao saber, e não à família de onde vinha, e cuja autoridade nascia de estudar e interpretar a Torá.c5-priest-to-rabbi
  802. p. 120, p. 121Na Antiguidade judaica, 'rabi' ('meu mestre') era um tratamento respeitoso que discípulos davam a sábios, juízes e professores, Jesus entre eles. Neste capítulo o termo tem sentido mais estreito: designa os membros de uma rede de sábios formada depois da destruição do Segundo Templo, a que aparece na Mishná, no Talmude e em textos aparentados.c5-rabbi-title
  803. p. 120, p. 120No ensaio de Steinweis no Handbook, a retórica da SS antecipava a barbárie antissemita da guerra: na véspera da Kristallnacht, Himmler prometeu expulsar judeus com 'implacabilidade sem precedentes'; depois o Schwarze Korps falou da 'dura necessidade' de exterminar o 'submundo judaico' a ferro e fogo.c-h502-hayes-steinweis-ss-kristallnacht
  804. p. 121Esses sábios deram início à transformação, mas a cultura judaica como um todo só se tornou amplamente 'rabinizada' muito tempo depois de eles morrerem.c5-rabbinization-later
  805. p. 121Quase tudo o que se sabe sobre os rabinos vem de textos difíceis de contextualizar. Fontes cristãs e restos arqueológicos de sinagogas, túmulos e inscrições ajudam, mas não bastam para um quadro completo da vida judaica fora do que a literatura rabínica representa.c5-sources-problem
  806. p. 121Houve dois berços para a cultura rabínica: a Palestina, sob domínio romano, e a Babilônia, sob a dinastia sassânida.c5-two-settings
  807. p. 121Depois da revolta de Bar Kochba, muitos judeus provavelmente se viam como continuadores das tradições ancestrais. Não havia mais Templo, mas ele continuava importante, ao menos como memória e símbolo do que se perdera e talvez se recuperasse.c5-temple-memory
  808. p. 121, p. 121, p. 520Juliano, imperador que as fontes cristãs apelidaram de 'o Apóstata', lançou em 362 d.C. a reconstrução do Templo. O projeto fazia parte de sua tentativa de fazer o império voltar atrás na cristianização e talvez também servisse para atrair os judeus para seu lado na guerra com a Pérsia.c5-julian-plan
  809. p. 121, p. 121No Muro das Lamentações, o que sobrou da muralha do complexo do Templo herodiano, há uma inscrição que retoma um versículo de Isaías 66: ver aquilo alegraria o coração e faria os ossos florescerem como a relva. Estudiosos acreditam que talvez date daquele momento, como reação à tentativa de restaurar o Templo.c5-isaiah-inscription
  810. p. 121Juliano morreu antes de concluir o projeto: assassinado por um cristão ou morto em batalha, conforme a fonte que se prefira.c5-julian-death
  811. p. 121Os judeus criaram costumes que mantinham viva a memória da perda do Templo, como o jejum de Tishá BeAv e a quebra de um copo nos casamentos, e continuaram a pedir em orações sua restauração, esperando-a do messias, não de governantes estrangeiros.c5-temple-mourning
  812. p. 121A esperança na restauração não impediu a adaptação a um mundo sem Templo. O fracasso de Juliano parece não ter feito muita diferença: as fontes rabínicas nunca o mencionam, sinal de que a presença ou ausência do Templo já pesava pouco na vida religiosa judaica.c5-adapting-without-temple
  813. p. 121, p. 122Os judeus participavam da cultura romana ao redor: economia, vestuário (túnicas e mantos) e lazer muitas vezes não se distinguem dos de seus vizinhos. Os banhos públicos, lugares de higiene, convívio, tratamento médico e prazer, tornaram-se parte importante da vida social judaica, apesar de estátuas e da nudez pública.c5-participation
  814. p. 122Ao mesmo tempo, marcavam sua identidade: podiam evitar misturar linho e lã, conforme a lei bíblica, e alguns homens acrescentavam franjas (tzitzit) aos mantos. O manto franjado, o talit, é hoje parte do vestuário de judeus observantes.c5-distinct-clothing
  815. p. 122, p. 122A sinagoga já existia no século III a.C. e ganhou novo desenvolvimento depois que o Segundo Templo foi destruído. No século I havia sinagogas, ou instituições equivalentes com outros nomes, por todo o Mediterrâneo oriental: na Palestina, no Egito, na Ásia Menor, na Grécia e talvez na Itália. Só em Roma há sinais de ao menos 11. Pela quantidade, pela difusão e pelo investimento que receberam, eram centrais na vida das comunidades.c5-synagogue-spread
  816. p. 122, p. 122Ali se faziam justiça, negócios e alforrias de escravos, como num centro comunitário; mas a função essencial da sinagoga era pôr os judeus em contato com a Bíblia, pois guardava os rolos da Torá e era onde a Torá se lia em público. Algumas talvez tivessem uma 'cadeira de Moisés', assento de honra onde talvez se sentasse o líder ou um ancião respeitado, embora sua finalidade seja debatida.c5-synagogue-functions
  817. p. 122Como já existia antes de 70, a sinagoga não nasceu para ocupar o lugar do Templo. Com o tempo, porém, passou a ser entendida como uma espécie de Templo substituto, reproduzindo elementos dele: o nicho dos rolos recebeu o nome de arca sagrada (aron hakodesh), como o cofre do Templo de Salomão.c5-virtual-temple
  818. p. 122A arquitetura e a decoração das sinagogas imitavam prédios públicos não judaicos. Algumas tinham pisos de mosaico com o zodíaco greco-romano, as estações personificadas e o deus Sol, Hélio: quem as frequentava aparentemente não via nisso uma violação da proibição bíblica de imagens divinas.c5-synagogue-adaptation
  819. p. 122Outros elementos vieram das igrejas, como a divisória que escondia o rolo da Torá: evocava o Santo dos Santos do Templo, mas imitava também as divisórias que separavam o clero dos leigos nas igrejas. Algumas divisórias de sinagogas e igrejas saíam das mesmas oficinas.c5-synagogue-screens
  820. p. 122Os levantes dos séculos I e II arrasaram certas comunidades do mundo romano, mas outras floresceram, e surgiram comunidades novas até em regiões remotas como a Germânia e a Gália.c5-new-communities
  821. p. 122, p. 123Há também sinais de declínio político e cultural, sobretudo a partir do século IV d.C. Alguns historiadores defendem uma forte queda demográfica: estimativas falam de 10 a 12 milhões de judeus no século I e de cerca de 2 milhões mil anos depois. Os autores pedem bastante ceticismo, porque quase não há dados populacionais para época tão antiga.c5-decline
  822. p. 123, p. 123Com o fim dos herodianos apareceu na Palestina, no século II ou III d.C., uma liderança de alcance nacional: o patriarca, nasi em hebraico, que tinha alguma autoridade legal e era reconhecido por Roma. Dizia descender de Davi, o que lhe dava ares quase reais; era rico, respeitado e influente na Palestina e na diáspora. Seus poderes, porém, parecem ter sido estreitos, restritos a questões internas, judiciais e religiosas, como fixar o calendário.c5-patriarch
  823. p. 123, p. 137A natureza da autoridade do patriarca, sua posição aos olhos do governo romano e o momento em que ganhou importância são debatidos pelos historiadores; parece claro, porém, que o cargo era importante no século III d.C.c5-patriarch-debate
  824. p. 123, p. 521Por volta de 429 d.C. o cargo de patriarca já tinha sido extinto. Talvez conselhos judaicos locais tenham assumido seu papel, mas nenhuma liderança posterior teve a estabilidade e a visibilidade da dinastia herodiana, do sumo sacerdócio ou do próprio patriarcado.c5-patriarchate-abolished
  825. p. 123, p. 123Em Bet Alfa, perto de Bet Shean, o chão de mosaico de uma sinagoga do século VI traz um zodíaco greco-romano: Hélio, o deus Sol, ocupa o centro, e à sua volta estão os 12 signos clássicos, cada um com nome hebraico. Talvez servissem, como entre não judeus, para acompanhar o ciclo do ano; com o tempo, o zodíaco virou um motivo decorativo judaico por direito próprio.c5-beth-alpha-zodiac
  826. p. 123Outro possível reflexo do declínio são as formas de fuga: fantasias apocalípticas ou messiânicas e, para muitos, talvez a conversão ao cristianismo.c5-messianic-escape
  827. p. 123, p. 123Por volta de 450 d.C. um certo Moisés de Creta liderou um movimento messiânico; diz-se que afirmava ser o próprio Moisés, de volta para salvar os israelitas. Quando o mar não se abriu diante de seus seguidores, o desfecho foi trágico.c5-moses-of-crete
  828. p. 123O Livro de Zorobabel, do século VII, mostra que o messianismo judaico durou até o fim da Antiguidade: nele, Zorobabel encontra em Roma o messias disfarçado de mendigo, que um dia se revelará como novo imperador, derrubará Roma e restaurará o reino de Israel.c5-zerubbabel
  829. p. 123, p. 123, p. 520No século III d.C., o reino sassânida, sucessor dos partos no Irã e na Mesopotâmia, tornou mais viável sair do domínio romano. Sob Shapur I (c. 240 a 270) os sassânidas venceram os romanos, capturaram o próprio imperador e tomaram território habitado por muitos judeus. Shapur e seus sucessores pareciam acolhedores; a literatura rabínica faz dele amigo próximo do sábio Samuel.c5-sasanian-refuge
  830. p. 123Não houve revoltas comparáveis às dos séculos I e II, apenas levantes ocasionais, como o de 351/352 sob Galo. Talvez as consequências das rebeliões anteriores desencorajassem novas, mas a situação dos judeus também pode ter melhorado poucas décadas depois de Bar Kochba.c5-no-revolts
  831. p. 123, p. 124, p. 124Em 193 Septímio Severo tornou-se imperador, iniciando uma dinastia que durou até 235. Algumas medidas sugerem hostilidade (talvez uma proibição da conversão ao judaísmo e ao cristianismo), mas a evidência é escassa; por outro lado, ele permitiu que judeus ocupassem altos cargos sem deveres contrários à sua fé e apoiou o patriarca como intermediário com Roma.c5-severans
  832. p. 124Um relevo achado no Irã celebra o triunfo de Shapur I sobre Valeriano, imperador de Roma.c5-shapur-relief
  833. p. 124Com Alexandre Severo (222 a 235), último imperador da dinastia, parece ter tido relação boa o bastante para que uma sinagoga romana recebesse seu nome. As relações parecem ter melhorado sob os Severos.c5-alexander-severus
  834. p. 124, p. 124O fim dos Severos em 235 abriu cinquenta anos de turbulência: a moeda se desvalorizou e entrou em colapso, houve invasões, assassinatos políticos, guerras civis e epidemias. Pesquisas recentes duvidam que a crise tenha atingido o império inteiro, mas não negam que o período trouxe mudanças profundas e perturbadoras.c5-third-century-crisis
  835. p. 124, p. 124, p. 520Em 285 d.C. Diocleciano julgou necessário dividir o governo com um coimperador, o que separou o império em metades ocidental e oriental; depois que Teodósio I morreu, em 395, essa separação ficou definitiva.c5-diocletian-split
  836. p. 124, p. 124, p. 521A maioria dos judeus vivia no Oriente, que não decaiu tão bruscamente quanto o Ocidente. Roma sofreu o saque de 410, e no fim do século V o Império do Ocidente já tinha caído, ao passo que o do Oriente, mais tarde chamado bizantino, sobreviveu até o século XV. Em parte, o enfraquecimento da vida judaica sob Roma acompanha o enfraquecimento do próprio império.c5-west-east
  837. p. 124A cristianização do Império Romano tornou a vida dos judeus extremamente difícil. Nascido do judaísmo, o cristianismo desenvolveu uma leitura concorrente da Bíblia que podia demonizar os judeus. Até o fim do século III, porém, os próprios cristãos eram uma minoria perseguida, sobretudo sob Diocleciano.c5-christianization
  838. p. 124, p. 124, p. 520A grande virada veio com Constantino, o Grande (324 a 337), fundador de Constantinopla. Depois de uma visão divina na véspera de uma batalha, ele e quase todos os seus sucessores usaram a legislação e o Estado para apoiar o cristianismo e reduzir a influência dos judeus. Com a exceção de Juliano (361 a 363), o cristianismo teria apoio imperial a partir do século IV.c5-constantine
  839. p. 124, p. 124Mesmo cristianizado, o império não quis extinguir o judaísmo, que seguiu reconhecido pela lei. Havia cristãos simpáticos aos judeus, que iam às sinagogas e às festas judaicas, e em certas cidades sinagogas foram erguidas ao lado de igrejas, sinal de convívio estreito.c5-judaism-legal
  840. p. 125, p. 125, p. 520Agostinho de Hipona (354 a 430) divergia fortemente dos judeus: julgava que liam mal a Bíblia e que sua dispersão e seu sofrimento eram castigo por terem rejeitado Cristo. Ainda assim, ao contrário de outros pensadores cristãos, não pregava violência: os judeus deviam continuar existindo, mesmo humilhados, para servir de prova viva da fé cristã. Essa visão provavelmente pesou muito para que os judeus sobrevivessem sob governos cristãos até o fim da Idade Média.c5-augustine
  841. p. 125Houve líderes cristãos empenhados em converter os judeus, às vezes à força, ameaçando-os de expulsão ou morte. Mas, no geral, foi a linha de Agostinho que se impôs, e as comunidades judaicas continuaram a existir, ainda que enfraquecidas.c5-forced-conversion
  842. p. 125, p. 125Constantino não mudou muito o status legal dos judeus; chegou a suspender a proibição de visitarem Jerusalém e de chorarem a perda do Templo. Mas sua legislação tinha um tom hostil e chamava o judaísmo de 'seita nefasta'.c5-constantine-law
  843. p. 125Imperadores e concílios posteriores legislaram para impedir o convívio próximo entre judeus e cristãos: cristãos foram proibidos de frequentar sinagogas, e judeus, de casar com cristãos, possuir escravos cristãos e ocupar certos altos cargos.c5-anti-jewish-laws
  844. p. 125Os Evangelhos situam a morte e a ressurreição de Jesus na Páscoa judaica, e por isso as duas festas costumavam ser celebradas juntas, com os cristãos dependendo do calendário judaico. No século IV, incomodados com essa dependência, os cristãos adotaram outro método de cálculo que desvinculou a Páscoa cristã da judaica: um sinal de que as duas comunidades se afastavam.c5-easter
  845. p. 125A partir do século IV o cristianismo deixou de ser minoria e passou a governar. Suas leis não só continham os judeus como rivais, mas os rebaixavam a cidadãos de segunda classe, apartados dos cristãos, privados de garantias que tinham sob o império pagão e dependentes de um governo hostil à sua fé.c5-second-class
  846. p. 125Juridicamente enfraquecidos, os judeus ficaram expostos às investidas de comunidades cristãs locais lideradas pelos bispos, cujo poder crescia desde o século IV. A sinagoga era um alvo frequente. A lei romana a protegia formalmente contra destruição e confisco, mas a própria necessidade de o governo intervir revela quanta violência havia.c5-bishops-violence
  847. p. 125, p. 125Um caso célebre: em 388 d.C., em Calínico, na atual Síria, a sinagoga foi destruída por uma multidão incitada pelo bispo da cidade. Teodósio, o Grande, queria que fosse reconstruída, mas Ambrósio, o poderoso bispo de Milão, convenceu-o a desistir.c5-callinicum
  848. p. 125Não há uma regra geral para a conduta romano-cristã com os judeus: às vezes o governo agia contra eles, às vezes os defendia. Com a fragmentação do império a partir do século V, o quadro ficou ainda mais variado, e no Ocidente, sem um poder imperial central, os bispos ganharam ainda mais peso.c5-mixed-treatment
  849. p. 125, p. 125No século VI, em Clermont (na França de hoje), o bispo Avito, que desejava ver os judeus locais batizados, atiçou um conflito entre judeus e cristãos. O resultado foi a sinagoga destruída e a comunidade obrigada a se converter, sob ameaça de ser expulsa.c5-clermont
  850. p. 125, p. 125, p. 521Nem todos agiam assim. Gregório Magno, papa a partir de 590, também queria que os judeus se convertessem, mas mandou os bispos ressarcirem os judeus pelas sinagogas confiscadas e condenou a conversão à força.c5-gregory
  851. p. 126O cristianismo herdou do judaísmo a veneração pela Terra Santa, mas lhe deu outro sentido. Os primeiros cristãos pensavam nela de forma metafórica ou na Jerusalém celeste; com o tempo, porém, a geografia ganhou importância. No século III, Cesareia, no litoral palestino, já concentrava atividade cristã, e antes mesmo do século IV muitos cristãos peregrinavam a Jerusalém, onde situavam a crucificação e a ressurreição.c5-holy-land-meaning
  852. p. 126, p. 126O século IV foi o ponto de virada. Depois que sua mãe, Helena, viajou a Jerusalém e descobriu relíquias tidas como da cruz de Jesus, Constantino iniciou no local a construção da igreja que ficou conhecida como do Santo Sepulcro. No século V havia igrejas em outros pontos de Jerusalém e em lugares ligados a Jesus, como a Galileia, atraindo mais peregrinos e imigrantes.c5-helena
  853. p. 126, p. 126Os judeus não deixaram a região e talvez até tenham prosperado: construíram ou reformaram sinagogas imponentes em mais de cem lugares, e a chegada de peregrinos e imigrantes cristãos pode ter favorecido sua economia, ainda que os tenha superado em número. O cristianismo, no entanto, passou a dominar: havia igrejas por toda parte, mosteiros até no deserto da Judeia, e os judeus viraram minoria. Os cristãos continuariam dominantes até o século VII, quando a região foi conquistada primeiro pelos sassânidas e depois pelos muçulmanos.c5-holy-land-jews
  854. p. 126O chamado mapa de Madaba integrava o piso de mosaico de uma igreja bizantina em Madaba, na Jordânia, e veio à luz no século XIX. Feito no século VI, representa a Terra Santa já cristianizada, com Jerusalém no centro, e nele se reconhecem santuários cristãos como a igreja do Santo Sepulcro, perpendicular ao Cardo, a avenida ladeada de colunas.c5-madaba-map
  855. p. 126, p. 127O judaísmo não teve monges propriamente ditos, mas não deve ser por acaso que o rabino da Antiguidade tardia tem tantos traços em comum com eles. Nos dois casos havia laços fortes entre mestre e discípulos, e ambos mediavam entre as pessoas e Deus e entre as próprias pessoas, arbitrando disputas. Os rabinos não eram celibatários, mas viam no estudo uma alternativa à vida sexual. É difícil traçar influências diretas; ainda assim, ao difundir uma figura religiosa cujo prestígio vinha da disciplina pessoal, o monaquismo preparou o terreno para o rabino.c5-monks-rabbis
  856. p. 127Sob Roma cristã, os judeus enfrentaram estereótipos difundidos por teólogos, pressão para se converter e agressões, numa situação em que o Estado os protegia menos, as leis os cercavam e eles podiam ser apanhados entre facções cristãs ou nas guerras de Roma contra os sassânidas e, depois, contra os muçulmanos. Ficaram em situação melhor que a dos pagãos, que praticamente sumiram, mas sua condição piorou, sobretudo em comparação com a dos judeus da Babilônia.c5-threats
  857. p. 127A comunidade judaica babilônica já era numerosa antes de o Segundo Templo cair, mas sua história nesse intervalo quase não se deixa acompanhar: restam algumas menções em Josefo, pouca arqueologia e fontes rabínicas bem posteriores. A partir do século III ela 'ganha voz' e se transforma num grande polo, que com o tempo eclipsou a cultura judaica do mundo cristão e fez a cultura rabínica passar de subcultura de poucos estudiosos a uma cultura judaica de alcance quase mundial.c5-babylonian-jewry-voice
  858. p. 127, p. 127Por muito tempo, quem governava a Judeia governava também os judeus da Babilônia: babilônios, persas, selêucidas. No século I a.C., porém, a Babilônia passou à confederação parta, sediada no Irã, e os caminhos se separaram. Com a queda dos partos no século III d.C., o poder ficou com os sassânidas, outro império multiétnico persa, ligados ao zoroastrismo, a fé que remonta ao profeta Zaratustra e fala do deus supremo Ahura Mazda e de sua guerra contra o espírito mau Angra Mainyu.c5-parthians-sasanians
  859. p. 127, p. 127Sacerdotes zoroastrianos zelosos e seus aliados reais às vezes proibiram práticas judaicas e perseguiram judeus, e os judeus precisavam esconder as velas de Chanucá para não ofender a sacralidade do fogo. Mas, no conjunto, a relação foi muito mais cordial que sob Roma cristã: as intervenções eram esporádicas, e os zoroastrianos nunca acusaram os judeus de matar Deus nem tentaram convertê-los.c5-zoroastrian-relations
  860. p. 127, p. 127Central nessa relação era o exilarca, liderança que remontava ao Exílio babilônico, mas que surgiu de fato no século III d.C. Como o patriarca, era um representante semirreal de descendência davídica, controlava tribunais e mediava com o governo estrangeiro; mas era mais poderoso e mais duradouro, sobrevivendo de uma forma ou de outra no período muçulmano até o século XV.c5-exilarch
  861. p. 128, p. 128, p. 128O exilarca tinha também poder econômico: nomeava quem fiscalizava o mercado. Entre 512 e 520, o exilarca Mar Zutra II sentiu-se forte o bastante para se revoltar contra os sassânidas e manteve por sete anos um Estado independente, prova de que nem sempre as relações eram cordiais. Na maior parte do tempo, porém, o exilarca servia de ponte com o Estado; uma fonte persa chega a dizer que Yazdegerd I, rei no início do século V, desposou uma filha de um exilarca.c5-mar-zutra
  862. p. 128Os sassânidas também tinham interesse em boas relações: a Mesopotâmia era zona de fronteira com Roma, os cristãos do reino eram suspeitos de simpatizar com os correligionários romanos, e os judeus tinham um histórico de boas relações com os persas e de más relações com Roma.c5-sasanian-interest
  863. p. 128, p. 128Os judeus da Babilônia estavam bem inseridos no ambiente. Em Mahoza, junto a um canal que ligava o Eufrates ao Tigre, conviviam todos os dias com vizinhos não judeus, e falavam o aramaico corrente, não o hebraico nem o persa da elite sassânida. Não se dissolveram, porém: observou-se que os textos rabínicos babilônicos absorveram muito menos palavras persas do que os palestinos absorveram do grego.c5-mahoza
  864. p. 128, p. 128, p. 128Fontes rabínicas da Palestina mostram ambivalência quanto ao casamento, em tensão com o estudo da Torá; as da Babilônia preferem que o sábio se case cedo: Rav Hisda, casado aos 16, lamentava não ter casado aos 14. Na Palestina tende-se à monogamia; na Babilônia aceita-se a poligamia e até a 'esposa por um dia'. As diferenças podem refletir a filosofia greco-romana e o monaquismo, de um lado, e a cultura zoroastriana, que valorizava a geração de filhos, do outro.c5-marriage-difference
  865. p. 128, p. 128, p. 128A Bíblia proíbe a magia, mas judeus recorriam a práticas que hoje chamaríamos mágicas: consultavam os astros, defendiam-se de demônios, usavam encantamentos e amuletos. O Sefer HaRazim ('Livro dos segredos'), coletânea palestina de receitas mágicas dos séculos IV ou V, é em hebraico mas invoca Hélio em grego grafado com letras hebraicas. Na Babilônia, o testemunho vem sobretudo de centenas de tigelas mágicas da Mesopotâmia e do Irã, marcadas pela cultura local: certos demônios, como Lilit, têm nomes mesopotâmicos ou persas.c5-magic
  866. p. 128, p. 130Ao que parece, as tigelas serviam para prender espíritos malignos dentro delas; muitas apareceram emborcadas, como armadilhas. A legenda de uma delas, com inscrição mágica em aramaico, a descreve como proteção contra esses espíritos.c5-bowls-purpose
  867. p. 128, p. 128Chazan distingue um nicho econômico judaico 'desenvolvimental' (líderes cristãos recrutando judeus urbanos competentes) de um nicho mais sistêmico e durável aberto pela campanha da Igreja contra a usura cristã, no qual o empréstimo se tornou especialidade judaica em partes da Europa.c-h502-chazan-niche-moneylending
  868. p. 128Chazan insiste que a especialização judaica no comércio e depois no empréstimo não significa que todo judeu da cristandade medieval fosse comerciante ou prestamista.c-h502-chazan-not-every-jew-lender
  869. p. 128Para Chazan, o equilíbrio do nicho econômico judaico na Península Ibérica quebrou em 1391, quando animosidade popular e eclesiástica produziu violência ruinosa.c-h502-chazan-1391-equilibrium-break
  870. p. 129, p. 129A sinagoga de Dura-Europos, no Eufrates, foi encontrada em 1932. A cidade, fundada no período selêucida, passou de mão entre partos e romanos e depois entre romanos e sassânidas. Por volta de 256 d.C., na defesa final da cidade, os moradores arrancaram o teto da sinagoga, junto à muralha, e a encheram de areia para reforçar o muro, preservando assim suas pinturas.c5-dura-synagogue
  871. p. 129, p. 129Os murais de cenas bíblicas mostram que os judeus da época não entendiam necessariamente o mandamento contra imagens divinas como proibição da arte figurativa: há muitas figuras humanas, inclusive uma filha do faraó nua no Nilo. Algumas personagens vestem trajes romanos e outras, persas, reflexo da posição fronteiriça da cidade.c5-dura-murals
  872. p. 129Uma cena das pinturas da sinagoga de Dura-Europos mostra Mardoqueu e Hamã, do livro de Ester, em trajes persas.c5-dura-mordecai
  873. p. 129, p. 129Os murais sofreram violência: os olhos de algumas figuras foram arrancados. Os autores talvez fossem judeus piedosos ofendidos pelas imagens humanas, mas isso é especulação; notando que várias figuras mutiladas vestem trajes persas, um estudioso sugeriu que fossem soldados romanos atacando simbolicamente inimigos persas.c5-dura-eyes
  874. p. 129, p. 129A sinagoga terminou destruída numa batalha entre romanos e sassânidas; segundo descobertas arqueológicas recentes, o combate talvez tenha envolvido gás tóxico contra os defensores romanos. Já os judeus do sul da Mesopotâmia, a Babilônia propriamente dita, viviam perto do coração do poder sassânida e puderam formar uma comunidade mais estável e protegida.c5-dura-end
  875. p. 129, p. 129Havia rotas comerciais e muito trânsito entre os dois impérios: soldados, diplomatas, mercadores e intelectuais, como os filósofos atenienses que se refugiaram na corte sassânida depois do fechamento de sua academia em 529. Os judeus eram intermediários importantes, e sua circulação entre a Palestina e a Babilônia foi crucial para a transferência da cultura rabínica.c5-connections
  876. p. 130, p. 521, p. 521No século VII, a conquista islâmica tirou do Império Bizantino grande parte de seu território e pôs fim ao reino sassânida em meados do século. É o fim da história contada no capítulo, mas não da cultura judaica formada na Babilônia sassânida, cuja influência cresceu com a expansão islâmica.c5-islamic-conquest
  877. p. 130Fora dos textos rabínicos, os rabinos raramente aparecem; as tigelas mágicas, por exemplo, às vezes citam Yehoshua bar Perahya, um rabino que essa literatura conhece. Mas na arqueologia e nas inscrições da Palestina e de outros lugares quase não há sinal dos grandes nomes da Mishná e do Talmude.c5-rabbis-invisible
  878. p. 130, p. 147Ao lado da cidade de Bet Shearim, na Galileia, há um vasto cemitério de cerca de 30 catacumbas, usadas entre os séculos II e IV. Ali apareceram sepulturas de vários rabinos, três deles sucessores de Judá, o Patriarca. A tradição conta que, quando Judá morreu, judeus de todo o mundo romano quiseram ser sepultados perto dele.c5-beth-shearim
  879. p. 131, p. 131No norte de Israel, uma inscrição provavelmente do século IV indicava que o edifício era a casa de estudo de Rabi Eliezer ha-Qappar, outro nome conhecido da literatura rabínica. Testemunhos como esse confirmam que havia rabinos na Palestina, mas dizem pouco de sua atividade e influência: faziam parte da sociedade judaica, sem ocupar ainda o lugar central que teriam na Idade Média e na era moderna.c5-eliezer-haqappar
  880. p. 131Isso gera um enigma que ocupa os estudiosos: em retrospecto, sabemos que os rabinos, ou ao menos sua literatura, acabaram redefinindo a identidade judaica em grande parte do mundo. Como um punhado de sábios, quase sem efeito visível fora de seus círculos de estudo, conseguiu tal coisa?c5-mystery
  881. p. 131A literatura rabínica é vasta (o Talmude é chamado de 'mar'), técnica e opaca, mas é uma fonte histórica traiçoeira: suas histórias aparecem em textos posteriores, misturam lenda e memória e muitas vezes dizem mais sobre os editores anônimos do que sobre as pessoas descritas.c5-rabbinic-lit-tricky
  882. p. 131, p. 131Uma história famosa conta como Yohanan ben Zakai foi de Jerusalém a Yavne. Durante a Revolta Judaica, os rebeldes vigiavam a cidade para que ninguém desertasse para os romanos, e Yohanan só saiu escondido num caixão carregado por seus discípulos. Levado a Vespasiano, anunciou que o general chegaria ao poder, e logo um mensageiro vindo de Roma trouxe a notícia de que Vespasiano era imperador. Agradecido, o general deixou o sábio fazer um pedido; numa das versões, Yohanan pede para se instalar em Yavne com os discípulos, que assim teria se tornado a primeira sede de estudo e de autoridade judicial rabínica depois da destruição do Templo.c5-yohanan-story
  883. p. 131, p. 131A história é muito posterior a Yohanan e sobrevive em várias versões divergentes. A profecia sobre Vespasiano se parece suspeitamente com uma história que Josefo conta sobre si mesmo, e fugas em caixões aparecem em Josefo e em autores clássicos. Não é possível saber que detalhes pertenciam à versão original, nem se algum reflete o que de fato aconteceu.c5-yohanan-story-doubts
  884. p. 131, p. 134, p. 131Yavne, chamada Jâmnia nas fontes gregas da época romana, era uma cidade litorânea; a atual Tel Aviv fica ao norte dela. Judeus religiosos veneram ali um túmulo atribuído a Gamliel II, sucessor de Yohanan; o túmulo, na verdade, só surgiu muito depois, no período islâmico, e nenhuma escavação revelou atividade rabínica tão antiga em Yavne ou em outro sítio.c5-yavneh-place
  885. p. 132O recorte do capítulo vai da destruição do Templo, em 70 d.C., até a chegada da era islâmica.c5-period-frame
  886. p. 132, p. 132Para organizar a história, o capítulo escolhe três momentos: o aparecimento dos rabinos após a destruição do Templo, a conquista de autoridade sobre a comunidade judaica nos séculos seguintes e a mudança da cultura rabínica para a Babilônia, de onde se espalhou pelo mundo judaico. Os autores reconhecem que essa narrativa simplifica: as reconstruções variam muito, as fontes não permitem nem uma cronologia nítida, e Yohanan ou Judá, o Patriarca, como pessoas de carne e osso, nos escapam quase por completo.c5-three-moments
  887. p. 132Como os rabinos surgiram, entre o fim do Segundo Templo e o ano 200, só pode ser especulado: não há literatura rabínica desse período, apenas tradições registradas séculos depois, de exatidão discutível. Juntando-as a Josefo e a outras fontes do Segundo Templo, porém, dá para arriscar conjecturas razoáveis.c5-emergence-speculation
  888. p. 132, p. 132, p. 520, p. 132Pirkei Avot faz a linhagem rabínica remontar a sábios do Segundo Templo, entre eles Hillel e Shamai, ambos provavelmente ativos no século I a.C. Hillel ocupa lugar especial na memória rabínica: teria nascido na Babilônia, foi contemporâneo de Herodes, e a ele se ligam a primeira lista de regras para interpretar a Torá e ditos famosos, como o que pergunta quem será por mim se eu não for por mim mesmo. Os dois aparecem como fundadores de escolas, mais círculos de discípulos que instituições, e seus debates ocupam muito espaço na lembrança rabínica do Segundo Templo. Hillel é também apontado como ancestral da família de sábios que ocuparia o patriarcado.c5-hillel-shammai
  889. p. 132, p. 132Será que Hillel, Shamai e os outros sábios de Pirkei Avot fizeram e disseram o que a literatura rabínica lhes atribui? Não há como saber. Já se tentou ver nos mestres de Hillel, Avtalion e Shemaya, dois sábios mencionados por Josefo, o fariseu Polião e seu discípulo Sameas, mas a hipótese é frágil, e do próprio Hillel não existe nenhum testemunho anterior aos rabinos.c5-hillel-historicity
  890. p. 132O título rabino ('meu mestre') parece vir do período do Segundo Templo, quando discípulos o usavam para se dirigir a mestres respeitados; no Novo Testamento, é assim que se fala com Jesus. Os rabinos deram-lhe um uso próprio, decidindo quem o merecia e reservando-o a sábios posteriores à destruição do Templo; Hillel, por exemplo, não recebe esse título.c5-rabbi-title-continuity
  891. p. 132, p. 132Neto de Hillel, Gamliel I, o Velho, tem peso na literatura rabínica: é-lhe atribuída, por exemplo, a regra de que uma viúva podia casar outra vez com base num único testemunho da morte do marido, e dele descendem Gamliel II e Judá ha-Nasi. Também aparece no Novo Testamento: no capítulo 5 dos Atos é um fariseu respeitado como mestre da lei, e no capítulo 22 é o professor de Paulo.c5-gamliel-elder
  892. p. 132Para Reif, é no contexto litúrgico geônico emergente que o livro de orações judaico faz sua primeira aparição, com diretrizes dos geonim sobre bênçãos e orações regulares.cl-geonic-first-prayer-book
  893. p. 132Reif situa os primeiros piyyutim (poemas litúrgicos) na Palestina do fim da era talmúdica; depois de superar animosidade babilônica, foram encaixados em seções da liturgia com as quais podiam ligar-se.cl-piyyut-holy-land-origin
  894. p. 133, p. 133Os rabinos se parecem com os fariseus em várias ideias: o respeito por uma tradição extrabíblica transmitida de mestre a discípulo, a tomada de partido dos fariseus contra os saduceus e posições paralelas, como a visão, atribuída aos fariseus por Josefo, entre destino e livre-arbítrio, que ecoa um ensinamento de Akiva em Pirkei Avot. Esses paralelos sustentam a tese de que o judaísmo rabínico é um desdobramento pós-Templo do judaísmo farisaico.c5-pharisee-parallels
  895. p. 133, p. 133, p. 133Mas os rabinos nunca se identificaram como fariseus nem com qualquer outra seita. Já se argumentou que se opunham ao sectarismo e que o movimento absorveu gente de várias filiações: fariseus, sacerdotes, zelotes, escribas e talvez até seguidores de Jesus (suspeita levantada sobre Eliezer ben Hircano, que teria contado a Akiva um ensinamento ouvido de 'Yeshua filho de Pantera').c5-not-pharisees
  896. p. 133Avot de Rabi Natan conta que Josué, o principal discípulo de Yohanan, chorou ao ver o Templo arrasado, pois ali Israel expiava seus pecados. Yohanan o consolou: havia uma expiação tão eficaz quanto aquela, os atos de bondade (gemilut hasadim). Como outras histórias sobre ele, esta tem mais de lenda que de história; mesmo assim, é possível que o Yohanan real tenha de fato ajustado a tradição à perda do Templo.c5-gemilut-hasadim
  897. p. 133Antes de 70, o shofar só podia ser tocado em Rosh Hashaná no Templo; Yohanan teria decretado que, depois da destruição, poderia ser tocado em qualquer lugar. Esses decretos atribuídos a ele permitiram continuar práticas que dependiam do Templo.c5-shofar
  898. p. 133, p. 133, p. 520, p. 520A revolta de Bar Kochba (132 a 135, segundo a cronologia do livro) também marcou o judaísmo rabínico. Houve rabinos a favor e rabinos contra. Diz-se que o próprio Akiva viu em Bar Kochba o messias; o apelido, 'filho da estrela', remetia à profecia de Números 24,17 sobre a estrela que sairia de Jacó, e essa aura talvez tenha encorajado judeus a enfrentar um inimigo muito mais forte. O fim foi catastrófico: os rebeldes perderam, Bar Kochba ao que tudo indica morreu lutando, e Akiva e outros sábios foram executados.c5-bar-kochba-messiah
  899. p. 133, p. 133Os textos rabínicos, redigidos depois da revolta, registram a revisão: um rabino teria lido em Números a predição de um mentiroso, kozav, jogo de palavras com o verdadeiro nome do líder, Bar Koseba. Para muitos estudiosos, os rabinos passaram então a frear o messianismo, desaconselhando cálculos sobre a vinda do messias, empurrando a era messiânica para um futuro indefinido ou reduzindo o que ela mudaria.c5-kozav
  900. p. 134, p. 134É possível que os rabinos tenham também se afastado do martírio, ideal que animara os judeus desde a revolta dos macabeus e nas guerras contra Roma. Uma posição rabínica só exigia morrer para não cometer os pecados mais graves (assassinato, idolatria e incesto); fora disso, era permitido transgredir a lei para salvar a vida. Isso contrasta com Fílon e Josefo, para quem os judeus prefeririam a morte a desobedecer ao menor detalhe da lei.c5-martyrdom
  901. p. 134A fuga de Jerusalém para Yavne faz de Yohanan ben Zakai o modelo de um judaísmo que troca a revolta e a morte heroica pela aceitação do domínio romano e pela dedicação ao estudo.c5-yohanan-submission
  902. p. 134Além de anedotas tardias, não há evidência sobre Yohanan e outros rabinos dos dois primeiros séculos. Nem é certo que já houvesse um 'movimento rabínico': talvez atuassem individualmente ou em pequenos círculos, e uma rede coerente de estudiosos, com estilo de vida, crenças, modos de interpretar e instituições comuns, talvez só se cristalize depois de Yohanan e Akiva.c5-no-evidence-early
  903. p. 134, p. 134Por que os rabinos prosperaram e outros grupos não? Uma conjectura: o poder herodiano dependia do apoio romano, que se perdeu; a autoridade dos sacerdotes dependia do Templo, que também era sua fonte de renda. Já a dos fariseus e rabinos vinha da competência na lei e nas Escrituras, da reputação e do carisma de cada sábio, não de uma instituição central. Por isso o movimento sobrevivia à execução de mestres como Akiva: os discípulos transmitiam os ensinamentos.c5-why-success
  904. p. 134Alguns sábios eram respeitados também por poderes sobrenaturais e de cura, como Rabi Meir, discípulo de Akiva no século II, conhecido como fazedor de prodígios.c5-meir
  905. p. 134A tradição rabínica leva Yohanan de Jerusalém a Yavne. Depois de Bar Kochba, o eixo da atividade rabínica deslocou-se para o norte: primeiro para Usha, depois para outros pontos da Galileia, região mais tranquila e mais rica do que uma Judeia devastada pela guerra.c5-galilee-shift
  906. p. 134, p. 135Provavelmente também foi crucial que os rabinos aceitassem viver sob Roma. Alguns, talvez Akiva, apoiaram Bar Kochba, mas depois do desastre o movimento evitou a rebelião aberta; sua literatura pode ser muito crítica de Roma, mas recomenda submissão. Essa postura pode tê-lo poupado do destino dos zelotes e dos rebeldes de Bar Kochba, que não sobreviveram às revoltas.c5-roman-accommodation
  907. p. 134No ensaio de Browning no Handbook, um funcionário nazista (Palfinger) afirma que a morte rápida dos judeus lhe era indiferente, se não desejável, ilustrando a brutalidade burocrática da política de ocupação.c-h502-hayes-browning-dying-out-indifference
  908. p. 135No Segundo Templo, o sacerdócio esteve no auge: até a ascensão dos herodianos o sumo sacerdote era, na prática, o governante da Judeia, e mesmo depois a alta hierarquia sacerdotal seguiu no topo da elite, rica e influente. A destruição do Templo tirou-lhe a principal razão de ser, oferecer sacrifícios e guardar a santidade do santuário. Ainda assim, os sacerdotes não sumiram nem perderam o prestígio, e na Palestina da Antiguidade tardia talvez tenham voltado a ter algum peso como elite cultural.c5-priests-after
  909. p. 135, p. 135Um indício desse retorno são os piyyutim, poemas sinagogais elaborados e cheios de alusões, em geral em hebraico, feitos para acompanhar a leitura da Torá no sábado, nas festas e em outras ocasiões. Parte deles foi escrita por sacerdotes da Galileia, como um certo Yohanan, o Sacerdote, ou por gente próxima das famílias sacerdotais que se fixaram ali depois da destruição. Os poemas falam do Templo, desejam sua reconstrução, citam os 24 turnos de sacerdotes e glorificam o sacrifício de Yom Kipur; sobre eles se apoia uma liturgia de Yom Kipur ainda hoje em uso.c5-piyyutim-priests
  910. p. 135Sacerdotes talvez também tenham produzido a literatura dos Hekhalot, derivada da apocalíptica, cujas descrições dos céus e do culto angélico se modelam no culto do Templo ('hekhalot' são as câmaras desse Templo celeste).c5-hekhalot-priests
  911. p. 135Os sacerdotes nunca restauraram o culto nem recuperaram plenamente seu poder; quando esses gêneros eram compostos, talvez já tivessem sido absorvidos pelo movimento rabínico. Até hoje, os privilégios dos sacerdotes no culto (ser chamado primeiro à Torá, recitar a bênção sacerdotal) são definidos pela lei rabínica, sinal de sua subordinação à autoridade dos rabinos.c5-priests-absorbed
  912. p. 135, p. 135Segundo a literatura rabínica, Yohanan levou o Sinédrio para Yavne, e esse tribunal teria decidido as questões de toda a comunidade judaica. Há historiadores, porém, que duvidam que o Sinédrio tenha sequer existido; e, se havia tribunais judaicos na Palestina depois da revolta, nada mostra de fato que Yohanan os comandasse. Em vida, ele pode ter tido pouca influência.c5-sanhedrin
  913. p. 135, p. 135, p. 135Paulo e outros missionários cristãos influenciavam porque iam atrás das pessoas: percorriam as grandes cidades do mundo romano e escreviam em grego, língua de muitos judeus da diáspora. Os primeiros rabinos não agiam assim. Escreviam num hebraico e num aramaico eruditos, pouco acessíveis aos judeus de fora da Palestina, e mesmo ali circulavam sobretudo em aldeias e pequenas cidades, longe dos centros urbanos onde seriam mais visíveis. Nenhuma inscrição ou vestígio arqueológico da época mostra sua influência.c5-paul-vs-rabbis
  914. p. 135No capítulo 'Path to Expulsion', Gerber registra que a pesquisa ainda debate por que e até que ponto cada protagonista ibérico responde pela expulsão.c-h502-gerber-path-to-expulsion-disagreement
  915. p. 136, p. 136Nenhum texto é mais fundamental para o judaísmo rabínico do que a Mishná, que até hoje ocupa na vida religiosa judaica um posto de quase escritura, logo abaixo da Bíblia. Não contém profecia nem narrativa histórica; reúne tradições que circularam oralmente, atribuídas a sábios desde o fim do Segundo Templo até o início do século III, quando a obra foi composta. Com ela, os rabinos aparecem pela primeira vez como um grupo definido, ainda que cheio de divergências internas.c5-mishnah-status
  916. p. 136, p. 136O nome vem de uma palavra hebraica para 'repetir' ou 'estudar'. A obra reúne sobretudo decisões e opiniões legais, anônimas ou atribuídas, além de anedotas, interpretação bíblica e ditos. Divide-se em seis ordens: Zeraim (Sementes, produtos agrícolas da Terra de Israel), Moed (Tempo sagrado), Nashim (Mulheres, casamento e divórcio), Neziqin (Danos, tribunais e direito civil e penal), Qodashim (Coisas sagradas, o culto do Templo) e Toharot (Purezas). São 63 tratados ao todo.c5-mishnah-structure
  917. p. 136, p. 136, p. 136A Mishná parece um código legal, mas é difícil imaginá-la funcionando como tal: a ordem sobre o Templo não tinha aplicação num mundo sem Templo, e a obra registra com frequência opiniões divergentes. Logo no início do tratado Berachot, sobre até quando se recita o Shemá à noite, apresenta três opiniões (Rabi Eliezer, os sábios, Rabi Gamliel) sem decidir. Seu propósito, portanto, não era só fixar a lei, mas preservar as opiniões de vários sábios.c5-mishnah-not-code
  918. p. 136, p. 136, p. 520A explicação mais antiga que se conhece para a origem da Mishná é a de Sherira Gaon, que no século X chefiou uma importante academia rabínica na Babilônia. Para ele, quem organizou a obra foi Rabi Judá ha-Nasi, ativo por volta do ano 200, mas trabalhando sobre ensinamentos e arranjos de rabinos anteriores. A destruição do Templo, outras crises e o crescimento da tradição oral, que se tornava cada vez mais variada ao passar de geração em geração, teriam levado Judá a temer que parte dela se perdesse, e por isso ele a fixou e ordenou.c5-sherira
  919. p. 136, p. 137Sherira escrevia uns sete séculos depois e provavelmente projetava sobre a Mishná o papel que ela tinha em sua própria cultura acadêmica. A Mishná parece usar fontes orais anteriores, mas não diz quem a compilou nem por quê; Judá aparece muito nela, mas não é identificado como editor, identificação que só fontes posteriores fazem e cuja exatidão não é clara.c5-sherira-critique
  920. p. 137, p. 137Da mesma época é a Tosefta (o nome quer dizer 'acréscimo'), que segue em grande parte a organização e o conteúdo da Mishná, mas diverge dela em muitos pontos; não é atribuída a Judá, e sim a Hiyya e a seu discípulo Oshaya. Seria um complemento, uma versão revista, uma ferramenta de estudo, ou a versão rival de outro grupo de rabinos? Para alguns estudiosos, ao menos partes dela antecedem a Mishná; para outros, é posterior; para outros ainda, as duas se formaram ao mesmo tempo. Tantas hipóteses mostram como entendemos pouco a formação de qualquer das duas obras.c5-tosefta
  921. p. 137, p. 137O fato de a memória ligar a Mishná a Judá ha-Nasi sugere uma relação com o patriarcado: nasi parece ser o termo hebraico para 'patriarca', e talvez tenha sido o respaldo dessa instituição o que deu autoridade inicial ao texto. Por volta de 240 d.C., uma carta do estudioso cristão Orígenes fala de um líder judeu chamado etnarca, muito possivelmente o patriarca, que agia quase como um rei.c5-mishnah-patriarchate
  922. p. 137, p. 137, p. 137, p. 520Judá pode ter sido o patriarca de maior influência e, ao que parece, o primeiro a agir fora dos círculos rabínicos, mandando rabinos para as comunidades como juízes e escribas. Ao levar a sede do patriarcado para Séforis, grande cidade galileia, ajudou o movimento a se urbanizar e a alcançar mais gente; talvez tenha ainda criado cargos pagos para alguns sábios e um dízimo em favor de discípulos pobres. Cultivou também relações com o poder romano que estendiam a autoridade do cargo a comunidades judaicas de outras partes do império.c5-judah-outreach
  923. p. 137A literatura rabínica lembra Judá como amigo pessoal do governante romano 'Antonino', talvez o imperador severo Caracala. É provavelmente um exagero, mas ele pode ter tido relação próxima com o governo romano local.c5-antoninus
  924. p. 137, p. 137A compilação, feita por Judá ou por discípulos leais, pode ser vista como extensão da influência do patriarca: não impõe as opiniões de Judá, mas exerce uma autoridade sutil ao decidir o que valia a pena transmitir. A Tosefta e fontes posteriores mostram que a Mishná preserva só parte de um corpo de ensinamentos muito maior. Talvez quisesse determinar o que constituía a tradição; mas talvez seja enganoso procurar um projeto geral, pois não sabemos a que propósito ela devia servir.c5-mishnah-authority
  925. p. 137, p. 137Para os rabinos posteriores, a Mishná marcou uma divisão: os sábios nela citados ficaram conhecidos como Tanaim (do aramaico tanna, 'repetidor'); os que viveram depois de Judá até cerca de 500 d.C., como Amoraim (de amora, 'falante', o porta-voz que repetia em voz alta as palavras do mestre). A distinção, feita a posteriori, é artificial, mas a autoridade subordinada dos Amoraim mostra a importância da Mishná.c5-tannaim-amoraim
  926. p. 138, p. 138, p. 138Palestinos e babilônios responderam cada um à sua maneira à Mishná. A resposta palestina é o Talmude da Terra de Israel, também dito palestino ou de Jerusalém, concluído no século IV ou no começo do V; apesar do nome, provavelmente não em Jerusalém, mas em Tiberíades, na Galileia, que acabou se tornando a sede da atividade rabínica na Palestina. A resposta babilônica é o Talmude babilônico, terminado nos séculos VI ou VII.c5-palestinian-talmud
  927. p. 138, p. 138, p. 138, p. 138O Talmude palestino mistura hebraico com o aramaico falado na Galileia e está cheio de palavras tomadas ao grego e ao latim, sinal de uma Palestina helenizada e romana; os estudiosos percebem nele, além disso, uma hostilidade a Roma bem maior do que a do Talmude babilônico em relação aos sassânidas. Comenta pouco mais da metade dos tratados da Mishná e mistura interpretação bíblica, histórias e outros materiais pouco ligados ao trecho em foco, o que lhe dá um ar de obra inacabada. Julgá-lo pelo padrão do Talmude babilônico, porém, é anacrônico; o que importa é que ele mostra a Mishná já tratada como uma quase escritura, que se explica, se harmoniza e da qual se tiram conclusões legais.c5-yerushalmi-character
  928. p. 138No período tanaítico, na Palestina, compuseram-se também obras de interpretação das partes legais da Torá: a Mekhilta de Rabi Ishmael (Êxodo), o Sifra (Levítico), o Sifre Bemidbar (Números) e o Sifre Devarim (Deuteronômio).c5-halakhic-midrashim
  929. p. 138, p. 138Muitas leis da Mishná eram, como ela própria diz, 'montanhas penduradas por um fio de cabelo', com pouco apoio no texto da Torá. Alguns sábios antigos procuraram suas origens bíblicas por meio do midrash; outros sustentaram que essa tradição era uma herança independente da Torá.c5-mountains-hair
  930. p. 138, p. 138A Mishná sobreviveu ao patriarcado. Os rabinos mantiveram certa independência e, com o tempo, assumiram poderes do patriarca, como regular o calendário e ordenar rabinos. E a própria Mishná, nova escritura que autorizava leis além da Torá, deu aos seus especialistas uma autoridade que não dependia de cargo nem de centro geográfico.c5-mishnah-outlives
  931. p. 139Apesar de a Palestina se cristianizar, a cultura judaica, rabínica inclusive, floresceu ali em certos lugares. Além do Talmude palestino e de muitas obras de interpretação bíblica, saíram desse ambiente traduções da Bíblia para o aramaico (targum) que acrescentavam bastante ao texto, poemas litúrgicos (piyyut, do grego 'poesia'), textos de magia e a literatura dos Hekhalot, os mais antigos textos místicos judaicos.c5-palestine-flourish
  932. p. 139, p. 139, p. 139, p. 139No início da Antiguidade tardia a maioria dos judeus do Oriente Próximo falava aramaico, língua semítica próxima do hebraico. Já no período persa o aramaico mudou o próprio hebraico: a escrita cananeia foi substituída pela escrita quadrada aramaica. A necessidade de traduções aramaicas da Bíblia (targumim) aparece já nos Manuscritos do Mar Morto; o targum mais importante, o de Onkelos, é babilônico. Hoje o aramaico sobrevive entre judeus curdos e em textos como o Zohar, a ketubá e o Kadish.c5-aramaic
  933. p. 139, p. 139, p. 139Do século VII em diante atuaram os massoretas, escribas sediados de início em Tiberíades, que quiseram fixar a forma correta do texto hebraico da Bíblia e garantir sua pronúncia e seu canto na sinagoga. Criaram para isso dezenas de sinais de vogais e pontuação, postos acima e abaixo das consoantes: só na primeira palavra, bereshit, acrescentaram 14, e dedicaram o mesmo esforço a cada uma das cerca de meio milhão de palavras da Bíblia. Não se sabe ao certo se eram judeus rabínicos (alguns talvez se opusessem aos rabinos), mas vinham do mesmo meio, e sua obra revela uma vida intelectual vigorosa num ambiente dominado pelo cristianismo.c5-masoretes
  934. p. 140, p. 140, p. 140, p. 140Uma inscrição da sinagoga de Rehov, no vale de Bet Shean, dos séculos VI ou VII, cita leis sobre dízimos e agricultura paralelas à Tosefta e ao Talmude palestino, e menciona 'Rabi', talvez Judá ha-Nasi. É evidência de que a literatura rabínica já influenciava a vida sinagogal de algumas comunidades.c5-rehov
  935. p. 140Mas é pouca evidência, e tardia. Quando os rabinos passaram a influenciar a comunidade em geral, os tribunais, as sinagogas, as orações de quem não era rabino? Apesar de muita pesquisa, as respostas continuam incertas.c5-rehov-limits
  936. p. 140Os rabinos da Palestina estavam em desvantagem sob um império cristianizado que pressionava pela conversão e impunha discriminação, confisco de sinagogas e surtos de violência. Os judeus da Babilônia viviam num ambiente mais receptivo, com uma estrutura comunitária mais estável sob o exilarca, e foi lá que a cultura rabínica tomou a forma que, no fim da Antiguidade, orientaria a vida judaica.c5-babylon-receptive
  937. p. 141Os judeus estavam na Babilônia desde o Exílio de 586 a.C., mas pouco se sabe de sua história nos séculos seguintes. Depois do século III d.C. a região começou a despontar como grande centro rabínico.c5-babylonia-origins
  938. p. 141, p. 141, p. 520, p. 147A virada aparece na trajetória de Rav Abba, conhecido simplesmente como Rav. Segundo as fontes rabínicas, nasceu na Babilônia, foi estudar na Palestina, como outros sábios babilônios, e lá teria sido ordenado por Judá ha-Nasi. Por volta de 219 regressou e abriu em Sura, cidade de comércio às margens do Eufrates, uma casa de estudo (bet midrash) que viria a ser uma das grandes academias da Babilônia. Os sábios babilônios posteriores viram nesse retorno o momento em que passaram a se considerar iguais à Terra de Israel (Bava Kama 80a).c5-rav
  939. p. 141Como no caso de Yohanan e Judá, o retrato de Rav pode não ser exato, mas mostra como os sábios babilônios se viam: sem romper com a Palestina, cujas figuras respeitavam, atribuíam-se autoridade comparável e desenvolviam uma cultura rabínica própria.c5-rav-portrayal
  940. p. 141, p. 141Muitos outros sábios emigraram para a Babilônia, provavelmente porque a vida na Palestina ficava cada vez mais difícil: sábios martirizados na revolta de Bar Kochba, uma Judeia 'desjudaizada', a crise econômica do século III e a cristianização, que levou a uma maioria cristã no século V.c5-emigration
  941. p. 141, p. 141A independência babilônica já se percebe no século II, quando o sábio Hananias, emigrado depois da revolta de Bar Kochba, tentou regular o calendário a partir da Babilônia, desafio direto à supremacia palestina. A ameaça de excomunhão bastou para detê-lo, mas o episódio anunciava a autoconfiança dos sábios babilônios.c5-hananiah
  942. p. 141Os sábios babilônios não podiam negar o lugar central da Palestina, mas reivindicavam um status quase igual. Gabavam-se de raízes bíblicas mais antigas: a Babilônia teria abrigado o Jardim do Éden e sido a terra de origem de Abraão, ou seja, talvez o lugar onde a história judaica começou. Era também terra de exílio, mas, segundo eles, os judeus dali tinham guardado zelosamente a pureza da linhagem, sem casamentos mistos; os de origem duvidosa teriam voltado à Palestina com Esdras (Qiddushin 69b). Alguns talvez se julgassem até mais autênticos que os colegas palestinos.c5-babylonian-pedigree
  943. p. 141, p. 141O Talmude babilônico, resposta babilônica à Mishná, parte da tradição palestina mas a adapta e acrescenta a voz dos Amoraim babilônios, citados ao lado dos palestinos. Seus sucessores anônimos, os Saboraim ('explicadores') ou, em termo moderno, Stamaim ('anônimos'), finalizaram o Talmude entre 500 e 700 d.C. O resultado, com argumentação cuidadosamente estruturada, dialética e narrativas, tem cerca de 2,5 milhões de palavras.c5-bavli-composition
  944. p. 141O Talmude babilônico mistura tradições palestinas e babilônicas como se todos os sábios participassem de uma só conversa, mas, comparando as literaturas, os estudiosos conseguem distinguir as duas variantes da cultura rabínica.c5-bavli-mix
  945. p. 142, p. 142O Talmude, ou Guemará, é um comentário à Mishná que busca suas razões, levanta dúvidas e resolve contradições. Sua unidade básica não é o capítulo, mas a sugya, uma análise lançada por uma questão da Mishná que avança num vaivém de afirmações e objeções (shakla ve-tarya, em aramaico), cheio de digressões.c5-sugya
  946. p. 142, p. 143Veja-se Qiddushin 39b. Rabi Jacó afirma que, sempre que a Torá anuncia a recompensa ao lado de um mandamento, como no caso de honrar pai e mãe ou de deixar ir a mãe-pássaro ao tirar filhotes do ninho, a recompensa está no mundo vindouro. O Talmude conta então que um filho, a pedido do pai, subiu para pegar filhotes, espantou a mãe-pássaro, desceu e morreu na queda: se nem cumprindo os dois mandamentos ele viveu muito, a 'vida longa' prometida só pode estar no outro mundo. Alguns rabinos diziam que um episódio parecido fez o avô de Jacó, Elisha ben Abuya, abandonar a fé; por isso os rabinos nem pronunciam seu nome e o chamam de Aher, 'o Outro'.c5-qiddushin-39b
  947. p. 142Nulman diz que a autoria de Av Harahamim é desconhecida; foi composto em memória das comunidades do Reno aniquiladas após as primeiras Cruzadas (1096), e Baer data a linguagem dos 'dias maus' dos decretos de 1096 e 1146.cl-av-harahamim-crusades-1096
  948. p. 143, p. 144O Talmude então desafia e defende a posição de Jacó em sucessivas objeções e respostas, exemplo clássico de sua dialética. Por trás do que parece argumentação pela argumentação estão questões graves: por que coisas ruins acontecem a quem cumpre os mandamentos? Por que Deus faz promessas que parece não cumprir?c5-talmud-dialectic
  949. p. 144, p. 144Quando o Talmude babilônico recebeu sua forma final, nos séculos VI e VII, os sábios da Babilônia já tinham uma cultura intelectual própria. Estudavam em grandes academias, mais organizadas, hierárquicas, fechadas, elitistas e duradouras do que os círculos e casas de estudo palestinos. Com o ensino centralizado, os alunos iam mais longe e passavam mais tempo fora de casa. A lenda babilônica da mulher de Akiva, que o esperou 24 anos, é exagerada, mas tem um fundo de verdade: provavelmente reflete não a vida do casal, e sim a experiência de sábios babilônios separados das esposas por longos períodos.c5-babylonian-academies
  950. p. 144, p. 144O estudo babilônico seguia um ethos de argumentação temperado pela etiqueta: debatia-se pelo prazer do debate e pelo respeito conquistado com a agudeza, sem necessariamente chegar a uma conclusão. Depois da morte de Resh Lakish, Rabi Yohanan recebeu um novo parceiro que sempre lhe dava razão; em vez de se consolar, lamentava o antigo, que lhe opunha 24 objeções a cada afirmação (Bava Metsia 84a).c5-debate-ethos
  951. p. 144Foi a forma de cultura rabínica refletida no Talmude babilônico a que mais influenciou a cultura judaica posterior: quando se diz 'o Talmude' hoje, fala-se do babilônico, e sua maneira de entender a Mishná e a interpretação das Escrituras tornou-se a referência.c5-bavli-authoritative
  952. p. 145Depois do Talmude surgiram na Babilônia os Gueonim (singular: Gaon), chefes das duas principais academias, Sura e Pumbedita. Eles mantiveram sua influência depois da derrota dos sassânidas pelos muçulmanos, e por meio deles a cultura rabínica babilônica alcançou as comunidades judaicas de todo o mundo islâmico.c5-geonim
  953. p. 145Os rabinos da Babilônia tinham vantagens: um ambiente mais seguro que o da Palestina romana e cristã e, enquanto os palestinos perderam o apoio institucional com o fim do patriarcado, a associação com o exilarcado, que durou mais que o próprio reino sassânida.c5-babylonian-advantages
  954. p. 145, p. 145Em meados do século VII os muçulmanos derrotaram os sassânidas, e a conquista islâmica pôs sob um só poder a maior parte das terras habitadas por judeus, religando os da Babilônia aos da Palestina, do Egito, do Norte da África e até da distante Espanha. Para alcançar as comunidades mais afastadas, os Gueonim parecem ter se servido dos judeus de Qayrawan, na atual Tunísia, como ponto de retransmissão. Tinham ainda um modelo nos estudiosos muçulmanos, que construíam um sistema jurídico-religioso para a mesma vastidão de território.c5-islamic-unification
  955. p. 145, p. 145, p. 145No século VIII chegou ao Oriente Médio a técnica de fazer papel. As academias de Sura e Pumbedita tinham se mudado para Bagdá, a nova capital fundada pelos muçulmanos no Iraque, e lá passou a funcionar em 794 um moinho de papel, que multiplicou a circulação de livros. Os Gueonim, sem abandonar o ensino oral, aproveitaram o recurso: respondiam por escrito às perguntas de comunidades distantes (os responsa) e, no século VIII, autorizaram registrar por escrito o Talmude, embora como Torá Oral ele devesse ser transmitido de boca. A escrita reduziu um pouco sua autoridade, pois outros judeus passaram a tirar conclusões próprias do texto, mas espalhou o judaísmo rabínico babilônico pelas terras do Islã.c5-paper
  956. p. 145, p. 145No século IX, os líderes rabínicos babilônios já se apresentavam como a última instância jurídica do mundo judaico, isto é, dos judeus sob o Islã, que na Idade Média seriam cerca de 90% de todos os judeus. Foi então que Pirkoi ben Baboi, erudito gaônico, escreveu aos judeus do Norte da África dizendo que a tradição pura tinha sido conservada pelos sábios babilônios, e não pelos palestinos: sob uma Roma hostil, estes teriam deixado a Torá se corromper, ao passo que as academias babilônicas a mantiveram intacta e por isso deviam ter a palavra final.c5-pirkoi
  957. p. 145Na década de 920, uma nova disputa entre rabinos palestinos e babilônios sobre quem fixaria o calendário, prerrogativa tradicional da Palestina, terminou com a vitória do cálculo babilônico, confirmando a ascendência da cultura rabínica da Babilônia.c5-calendar-920s
  958. p. 145, p. 146Muitos judeus rejeitaram a autoridade dos rabinos e de suas fontes, sobretudo os caraítas; mas a força dessa reação já é indício do alcance que a cultura rabínica tinha atingido no fim da Antiguidade. Na transição para a Idade Média, a cultura judaica se repartia em dois lados: o judaísmo rabínico e um judaísmo contrário aos rabinos, nascido como reação ao judaísmo dos sábios babilônios.c5-karaites
  959. p. 146, p. 146, p. 146Numa disputa legal, Rabi Eliezer invoca milagres: uma alfarrobeira se desloca, a água de um canal corre para trás e uma voz celeste lhe dá razão. Os sábios respondem que a Torá, dada no Sinai, manda seguir a maioria. E Deus, rindo, admite: 'Meus filhos me venceram' (Bava Metsia 59b). Nessa teologia babilônica, Deus é um colega de estudo, que pode ser contestado com respeito e bons argumentos e até perder o debate.c5-arguing-with-god
  960. p. 146Para descrever o impacto rabínico, os autores se baseiam no Talmude babilônico tal como mediado pelos Gueonim. Seria anacrônico aplicá-lo aos rabinos da Palestina ou da Babilônia antes do século VI, mas foi essa a visão que mais influenciou a cultura judaica posterior.c5-talmud-defines
  961. p. 146, p. 147A mudança de fundo, talvez a raiz de todas as outras, foi fazer do rabino o intérprete autorizado da tradição judaica. A Bíblia conhece três mediadores entre Deus e Israel: o sacerdote com seu Templo, o rei e o profeta. A literatura rabínica alinha o rabino aos três e, ao mesmo tempo, o põe no lugar deles. Sem contestar os privilégios dos sacerdotes, os rabinos tomaram sua função ao transformar o estudo da Torá em substituto do sacrifício; sem se dizer reis, reimaginaram Davi como um sábio dedicado à Torá, e o patriarca alegava descender dele; sem pretender profetizar, apresentaram-se como herdeiros da Torá dada a Moisés. Numa história do Talmude, Moisés assiste a uma aula de Akiva, não entende nada e se espanta de Deus ter escolhido a ele, e não a tal sábio (Menahot 29b).c5-rabbi-intermediary
  962. p. 146Nulman situa Avinu Malkaynu em dias talmúdicos: após oração e jejum sem chuva, Rabi Akiva teria dito perante a arca 'Nosso Pai, nosso Rei…' e a chuva teria caído; versos posteriores se multiplicaram por desastres e perseguições (rituais sefaradi, ashkenazi e polonês diferem no número).cl-avinu-akiba-rain-talmud
  963. p. 147Discípulo de Yohanan e contemporâneo de Gamliel II, Eliezer ben Hircano é lembrado por uma disputa em que os outros sábios votaram contra ele mesmo depois que uma voz celeste o apoiou, e também por ter sido acusado de heresia e excomungado.c5-eliezer-heresy
  964. p. 147, p. 147Akiva ben Josef viveu no século II, veio de família humilde e é venerado pela modéstia e por ter morrido como mártir na revolta de Bar Kochba. A memória rabínica atribui-lhe a sistematização da tradição legal e novos princípios de leitura que davam importância a cada detalhe do texto bíblico. Entre seus colegas e alunos contam-se Ishmael ben Elisha, Shimon ben Azai, Meir e Shimon bar Yohai, que a tradição posterior tomou por autor do Zohar.c5-akiba-profile
  965. p. 147, p. 147Órfão, Rabi Yohanan bar Napaha chegou a mestre da Torá e, no século III, dirigiu a academia de Tiberíades, na Palestina. É lembrado pelos debates com Resh Lakish, outro sábio palestino que, segundo a tradição, tinha sido bandido e gladiador antes de se dedicar ao estudo.c5-yohanan-nappaha
  966. p. 147, p. 147No século III, Samuel dirigia a academia de Neardeia, na Babilônia, e era amigo do rei persa Shapur I; suas controvérsias com Rav são centrais no Talmude babilônico. A ele se deve um princípio político de longa vida na tradição judaica: 'a lei do país é a lei', isto é, as leis da sociedade em que os judeus vivem os obrigam e às vezes prevalecem até sobre a lei judaica.c5-samuel
  967. p. 147, p. 147Rav Ashi, chefe da academia de Sura no início do século V, cultivou boas relações com o governo persa. Seguindo os Gueonim posteriores, credita-se a ele, com Ravina, boa parte do trabalho que levou ao Talmude babilônico, concluído por gerações seguintes.c5-rav-ashi
  968. p. 147, p. 147Um grupo ficou quase inteiramente fora dos círculos rabínicos: as mulheres. A literatura rabínica admite o saber de umas poucas, como Beruria, esposa de Meir, mas em geral os rabinos não aceitavam mulheres como mestras ou alunas. Só no século XIX se colocou a questão de mulheres rabinas, e as primeiras ordenações de rabinas, no século XX, vieram dos movimentos reformista, reconstrucionista e conservador.c5-women
  969. p. 148A atividade central do rabino era o estudo da Torá, compromisso de toda a vida; alguns sábios diziam que Deus criara a humanidade para isso (Sanhedrin 99b). Não era como ser monge, pois os rabinos casavam e trabalhavam, mas o estudo exigia adiar outras ocupações e convivia em tensão com elas.c5-torah-study
  970. p. 148, p. 148Os rabinos criaram um modo próprio de interpretar a Bíblia, o midrash (de uma raiz que significa 'buscar', 'investigar'). As coleções midráshicas vêm da Palestina; na Babilônia, o midrash foi incorporado ao Talmude. O midrash se prende a pequenas lacunas e redundâncias: até um desvio na grafia de uma palavra sugere uma mensagem a ser extraída.c5-midrash
  971. p. 148Distinguem-se o midrash haláchico e o agádico. A Halachá (da raiz 'andar') é o estudo da lei e do costume; a Agadá (da raiz 'contar') abrange histórias, sabedoria e ensinamentos não legais. Ambos usam a mesma criatividade para encontrar no texto orientações legais e lições morais e cosmológicas que ele não explicita.c5-halakhah-aggadah
  972. p. 148O midrash pode parecer fantasioso ao leitor moderno: transforma Adão, Jacó e Davi em sábios rabínicos e às vezes inverte o sentido literal. O versículo usado na história de Eliezer para justificar a regra da maioria (Êxodo 23,2) diz na verdade: 'não sigas a maioria para fazer o mal'. Ainda assim, o midrash tinha regras que davam liberdade, mas também limites.c5-midrash-method
  973. p. 148, p. 148Não existe 'a' leitura midráshica: a literatura rabínica dá a um versículo sentidos diferentes e até contraditórios, lado a lado. Como o martelo que tira muitas faíscas da rocha, um versículo tem muitos sentidos (Sanhedrin 34a). Isso espelha uma cultura que celebrava a discordância, a 'guerra da Torá'.c5-many-meanings
  974. p. 148, p. 149Mesmo quando decide, a literatura rabínica não desacredita a opinião vencida. Depois de três anos de disputa entre as escolas de Shamai e de Hillel, uma voz divina declarou que ambas eram 'palavras do Deus vivo', mas que a lei seguia Hillel (Eruvin 13b), porque seus discípulos eram gentis e modestos e ensinavam também as palavras da escola rival.c5-both-living-god
  975. p. 149, p. 149Quando o Talmude babilônico foi composto, os sábios já entendiam que a revelação a Moisés tinha vindo em duas formas: a Torá Escrita, isto é, a Bíblia, e a Torá Oral, guardada pelos sábios. Esta última só foi registrada por escrito tardiamente, na Mishná e no comentário talmúdico; antes, passava de mestre a discípulo em ensino direto. Pode ser um desdobramento da tradição não escrita que os fariseus veneravam, mas para os rabinos não era só herança dos antepassados: era a própria Torá, entregue no Sinai, como ensina um midrash sobre Êxodo 24,12 (Berakhot 5a).c5-oral-torah
  976. p. 149, p. 149A Torá Oral era paradoxal: crescia com as decisões, os debates e as interpretações dos rabinos e incluía opiniões contraditórias, mas tudo isso, até as perguntas dos alunos, já teria sido revelado a Moisés no Sinai, embora ele não o soubesse. Na história de Shabat 31a, Hillel ensina o alfabeto a um candidato à conversão que só aceita a Torá Escrita, numa ordem num dia e na inversa no outro, para mostrar que sem mestre e Torá Oral não se entende a Escrita.c5-oral-torah-paradox
  977. p. 150, p. 150A Torá Escrita era insuficiente por si só: um mandamento como guardar o sábado é vago demais para ser praticado sem complementos. A Torá Oral preenchia as lacunas e permitiu aos rabinos criar uma revelação contínua. Conservadora, porque reverenciava a herança bíblica, e criativa, porque valorizava a inovação, a cultura rabínica resolvia a tensão entendendo sua criatividade como parte da tradição.c5-oral-torah-creative
  978. p. 150Um midrash do Gênesis Rabá pergunta por que a Torá começa com bet, a segunda letra, e não com alef. Respostas: como o bet é fechado atrás e aberto à frente, não se deve indagar o que há acima e abaixo; bet vale dois, indicando dois mundos; bet abre a palavra 'bênção', e alef, a palavra 'maldição'.c5-bet
  979. p. 150, p. 150Os próprios rabinos discordavam sobre as regras de leitura. A Ishmael, sábio do século II, liga-se a máxima de que a Torá fala como falam os seres humanos; por isso ele recusava o empenho de Akiva, seu contemporâneo, em achar sentido divino em palavras repetidas e até em letras isoladas. A tradição atribui a Hillel uma lista de 7 regras (middot) e a Ishmael uma de 13, embora o midrash não se limite a elas. Uma técnica conhecida é a guematria, que calcula o valor numérico das letras.c5-ishmael-akiba
  980. p. 150Para Chazan, a imagem medieval de servidão judaica concretizou-se sobretudo no poder das autoridades de banir judeus, fenômeno que se espalhou do noroeste avançado dos séculos XIII e XIV para outras regiões no XV.c-h502-chazan-banishment-servitude
  981. p. 150Hezser (no Companion) nota que textos rabínicos tratam sábado, festas, pureza, circuncisão e imersão sem equivalente nos códigos civis romanos, e ainda misturam material não jurídico (anedotas, exegese, notas históricas).c-h502-fonrobert-hezser-roman-law-gap
  982. p. 151Na Antiguidade tardia, essa concepção da Torá ficou restrita a um pequeno grupo de intelectuais, com pouca evidência de efeito sobre a comunidade em geral. Isso começou a mudar no fim do período e sobretudo na era islâmica, por influência dos Gueonim.c5-small-group
  983. p. 151É difícil reconstruir como o culto judaico se rabinizou. Os Manuscritos do Mar Morto têm orações que iluminam a pré-história, mas há um grande vazio até a evidência rabínica de 200 d.C. em diante. A obrigação de recitar o Shemá duas vezes por dia, pressuposta pela Mishná, há algum indício de que não foi inventada pelos rabinos, mas não se sabe quando começou.c5-shema-origins
  984. p. 151, p. 151Depois da derrota de Bar Kochba e do fracasso de Juliano, não havia perspectiva de reconstruir o Templo, mas ele seguiu modelo de culto para os rabinos: ligaram os horários das três orações diárias aos sacrifícios, adotaram o 'Amém' do Templo, respeitaram sacerdotes e levitas e mandaram rezar voltado para o Templo. Não há evidência, porém, de que tentassem reconstruí-lo: sua vida religiosa pressupunha sua ausência.c5-temple-model
  985. p. 151Sem o Templo, a sinagoga tornou-se, com a aceitação dos rabinos, o principal lugar da oração coletiva, mas a casa também ganhou papel, como mostra a reformulação de Pessach. No Segundo Templo, a festa exigia peregrinação ao Templo e um sacrifício especial. Sob a influência rabínica, passou a se concentrar numa refeição doméstica que tomou costumes do simpósio greco-romano e fez da narração do Êxodo uma espécie de sessão de estudo.c5-passover-home
  986. p. 151, p. 151O sábado rabínico é exemplo clássico: os rabinos identificaram 39 categorias de trabalho na proibição bíblica, como escrever duas letras, e regularam o que se podia carregar, como preparar a comida e até que sandálias usar (proibidas as de pregos salientes). Muitas regras não derivam de versículos, mas da Torá Oral.c5-sabbath-39
  987. p. 151Quando a Mishná e o Talmude debatem essas questões, a discussão parece sobretudo teórica: tratava de lei, mas não necessariamente da lei praticada, a ponto de a Mishná regular o culto de um Templo que não existia mais. E, a julgar pela arte das sinagogas e por outros indícios da prática religiosa, os rabinos pouco influíram na comunidade em sua época; a própria literatura rabínica reconhece que muitos não seguiam suas prescrições.c5-academic-law
  988. p. 151, p. 151Segundo Langer, a estrutura original da oração em dias úteis era uma série de dezoito bênçãos (rito da Terra de Israel); o rito babilônico, que se tornou normativo sob os geonim, separou dois temas e chegou a dezenove bênçãos.cl-amidah-eighteen-vs-babylonian-nineteen
  989. p. 152, p. 152, p. 152Depois da destruição do Templo, rezar passou a ser uma atividade coletiva e organizada. Os textos dessa oração foram elaborados pelos sábios da Mishná e dos dois Talmudes, e os Gueonim os fixaram num livro de orações usado até hoje. Desde a Mishná, reza-se em comunidade três vezes ao dia, embora se discutisse ali se a oração da noite era obrigatória. O roteiro tem dois pilares: o Shemá com suas bênçãos e a Amidá, ou Tefilá, uma sequência de bênçãos que misturam louvor e pedidos. Para a oração comunitária os rabinos exigiam dez homens adultos, o minian; só no século XX algumas comunidades começaram a contar as mulheres.c5-prayer
  990. p. 152, p. 152Ao canonizar a Mishná e o Talmude, o período gaônico canonizou também as práticas que eles desenvolviam. Com base na tradição rabínica anterior, os Gueonim produziram e difundiram o primeiro livro de orações, que fixou o texto e a sequência do culto: o primeiro sidur nasceu da ordem de orações que Amram Gaon expôs no século IX numa resposta escrita, provavelmente dirigida aos judeus da Espanha. A Hagadá, texto que organiza o seder de Pessach, também foi canonizada então; embora use material da Mishná, é obra gaônica, codificada por Amram em seu sidur, e suas versões mais antigas são dessa época.c5-amram-siddur
  991. p. 152Os Gueonim merecem o crédito por transformar os ensinamentos rabínicos em prática religiosa fora das academias: padronizaram o conteúdo, puseram-no por escrito e usaram autoridade, prestígio e contatos internacionais para difundi-lo no mundo islâmico.c5-geonim-institutionalized
  992. p. 152, p. 152Não se deve projetar sobre a Antiguidade tardia práticas posteriores: a quipá, o bar mitzvá e o Kadish pelos mortos surgiram só na Idade Média ou no início da era moderna. Mas o culto judaico continua profundamente rabinizado, como mostra a Hagadá, o texto judaico mais difundido depois da Bíblia.c5-later-practices
  993. p. 153Langer descreve a Amidá modelada na oração de Ana (1 Sm 1:13): recitação silenciosa com lábios em movimento; com minian, o precentor a repete em voz alta e acrescenta a Kedushá na terceira bênção.cl-amidah-silent-then-repetition
  994. p. 154, p. 154A expressão 'Idade Média' foi criada por escritores cristãos do século XV como um rótulo depreciativo para o intervalo entre a Antiguidade e o Renascimento. Os historiadores hoje a consideram problemática, por ser eurocêntrica e por descartar mil anos como mero interlúdio; os autores a mantêm por convenção, mas sem ver nesse período nada de inferior ou sombrio na história judaica.c6-middle-ages-term
  995. p. 154, p. 154Diocleciano dividiu o Império Romano em uma parte ocidental e outra oriental em 286 d.C. O Ocidente, pressionado por invasões germânicas e outras, durou até 476, quando o último imperador foi deposto. Para a história judaica isso teve importância secundária, pois a maioria dos judeus vivia no Império Bizantino e no Império Persa.c6-diocletian-476
  996. p. 154O Império Bizantino, com capital em Constantinopla, sobreviveu séculos ao seu equivalente ocidental, ainda que nos últimos séculos fosse só uma sombra do que fora, até a conquista pelos turcos otomanos em 1453, no fim do período medieval.c6-byzantine-1453
  997. p. 154, p. 154Poucas décadas depois da morte de Maomé, em 632, seus sucessores tinham criado um império que ia muito além da Península Arábica, onde a nova religião nasceu. Os autores veem na ascensão do Islã no século VII o início de uma era inteiramente nova, também para os judeus.c6-muhammad-empire
  998. p. 154, p. 154, p. 521, p. 521Em 636 as forças árabes muçulmanas derrotaram os romanos na batalha de Yarmuk e em 641 controlavam a Síria e a Palestina; derrotaram os persas em 637, em Qadisiyya, e avançaram sobre o Iraque e a Pérsia. Seguiram-se o Egito e o Norte da África, e no início do século VIII o império ia da Espanha ao Afeganistão. A cronologia do livro registra a conquista da Palestina em 634 e a do Iraque em 642.c6-conquests
  999. p. 154, p. 154O novo império passou a abrigar a imensa maioria dos judeus do mundo. Palestina e Babilônia, os dois grandes centros, antes separadas pela fronteira entre os impérios romano e persa, ficaram unidas pela primeira vez desde Alexandre Magno; mas, ao contrário do império de Alexandre, o califado durou séculos, e quase todas as terras então conquistadas, com a exceção da Espanha, continuam no mundo muçulmano.c6-one-empire
  1000. p. 154Estima-se que cerca de 90% de todos os judeus vivessem sob governo islâmico no início da Idade Média, pelo menos até por volta de 1200.c6-ninety-percent
  1001. p. 155O equilíbrio mudou lentamente, em parte por causa da emigração para a Europa cristã, mas sobretudo pelo avanço das forças cristãs na Península Ibérica, que retomaram territórios conquistados pelos muçulmanos no século VIII e trouxeram cada vez mais judeus ibéricos para a cristandade.c6-balance-shift
  1002. p. 155, p. 155Reunir a maioria dos judeus sob o domínio islâmico basta, para os autores, para justificar a convenção de situar o início da Idade Média judaica na ascensão do Islã. O período coincide com outras grandes mudanças sociais e culturais, como o peso agora central da literatura rabínica: a Mishná e o Talmude viraram fonte de autoridade jurídica e religiosa.c6-islam-starts-middle-ages
  1003. p. 155, p. 155Durante boa parte do início da Idade Média, líderes judeus da Palestina e de Bagdá disputaram influência e autoridade sobre a diáspora dispersa. Ao fim desse processo, que não foi nada inevitável, o Talmude babilônico se firmou como principal obra de referência da cultura rabínica medieval e posterior.c6-competing-centers
  1004. p. 155, p. 155Para os autores, o fim do século XV, em especial a expulsão dos judeus da Espanha em 1492, marca a transição para a era moderna inicial. A Idade Média judaica é, portanto, longa, mais de oito séculos em cenários geográficos e culturais muito diversos, e o livro só pode oferecer algumas de suas condições básicas.c6-end-1492
  1005. p. 155, p. 155Os judeus de todo o mundo medieval compartilhavam uma tradição textual (a Bíblia, a Mishná e o Talmude) e um sentimento de destino comum, mas suas experiências foram moldadas pelos ambientes muçulmano e cristão. Este capítulo trata dos judeus do mundo islâmico, a grande maioria no início do período; o seguinte, da cristandade.c6-chapter-scope
  1006. p. 155, p. 155No início da Idade Média, as comunidades do Mediterrâneo e do Oriente Médio se orientavam por um de dois centros espirituais, a Palestina ou a Babilônia. Cidades como o Cairo ou Ramla abrigavam sinagogas palestina, babilônica e caraíta. Cada grupo mandava consultas sobre a lei religiosa, enviava contribuições às academias de Tiberíades (depois Jerusalém) e Bagdá e recebia títulos honoríficos de seus líderes.c6-oriented-centers
  1007. p. 155, p. 155A partir do século X o mundo islâmico se fragmentou em unidades políticas menores, e cada vez mais judeus se mudaram para o oeste. No fim do século X e começo do XI surgiram centros judaicos independentes, no Egito, na Tunísia e na Espanha, que se emanciparam da hegemonia dos centros orientais. Daí vieram subculturas judaicas definidas por território, em contato entre si mas cada uma com identidade própria.c6-fragmentation-10th
  1008. p. 155, p. 521Maomé nasceu em 570 d.C. e teria recebido a primeira revelação aos 40 anos, em 610. As revelações continuaram ao longo de sua vida e, reunidas depois da morte, em 632, formam o livro sagrado do Islã, o Alcorão.c6-muhammad-birth
  1009. p. 156, p. 156, p. 521A mensagem monoteísta radical de Maomé não agradou em Meca, centro de peregrinação pagã e de comércio. Diante da hostilidade crescente, ele partiu com seus seguidores para o oásis de Yatrib, depois Medina, a uns 400 km ao norte. Essa migração, a hégira, marca o início do calendário islâmico. Em Medina fundou a primeira comunidade de crentes (umma), como profeta e líder político, e ali encontrou muitos judeus.c6-hijra
  1010. p. 156, p. 156O Alcorão está cheio de personagens e histórias conhecidas da Bíblia hebraica e do Novo Testamento. Abraão aparece como ancestral espiritual e primeiro monoteísta; Moisés, Davi, Salomão e Jesus são reconhecidos como verdadeiros profetas. Maomé seria o 'selo da profecia', encarregado de restabelecer a revelação pura que, segundo a teologia islâmica, judeus e cristãos haviam corrompido.c6-quran-figures
  1011. p. 156, p. 156Os elementos judaicos e cristãos no Islã se devem ao contato de Maomé com membros dessas religiões na Arábia, primeiro em Meca e depois em Medina. A influência aparece no Alcorão e na prática inicial: os muçulmanos veneram Jerusalém, de onde Maomé teria subido ao céu, e nos primeiros tempos rezavam voltados para ela, até que outra revelação mudou a direção da oração (qibla) para Meca.c6-jewish-influence-islam
  1012. p. 156, p. 156Os judeus de Medina não aceitaram Maomé como profeta nem aderiram à nova religião. De início, a convivência foi garantida por uma norma do próprio Maomé para Medina, segundo a qual os judeus tinham sua religião e os muçulmanos a deles, com uma advertência sinistra contra quem agisse mal.c6-jews-reject
  1013. p. 156, p. 156O confronto entre Maomé e os judeus de Medina já foi descrito como a primeira perseguição antijudaica da história islâmica, mas os autores o entendem melhor como choque de interesses políticos e econômicos. Ao consolidar sua autoridade e conquistar Meca, em 630, Maomé enfrentou também detratores judeus que não aceitavam sua missão e foram acusados, com ou sem razão, de deslealdade e de ameaçar seu governo.c6-medina-conflict-political
  1014. p. 156, p. 156Em consequência desse confronto, em grande parte político, dois dos principais clãs judeus foram obrigados a deixar Medina em 624 e 625, e suas terras foram distribuídas entre os aliados de Maomé.c6-clans-expelled
  1015. p. 156, p. 156Em 627, os membros de um terceiro clã judeu, os Banu Qurayza, foram acusados de conspirar com as forças de Meca que sitiavam Medina. Maomé decidiu dar-lhes um castigo exemplar, e diz-se que várias centenas foram mortos.c6-qurayza
  1016. p. 156, p. 156, p. 521No ano seguinte, Maomé atacou o oásis de Khaybar, para onde haviam ido alguns judeus expulsos de Medina. A batalha terminou com a capitulação dos judeus, que aceitaram as condições impostas e entregaram metade de sua produção em troca da paz. Isso criou um precedente importante para o tratamento de judeus e cristãos nos lugares conquistados por Maomé e depois por seus sucessores.c6-khaybar
  1017. p. 156, p. 156Judeus e cristãos, o 'povo do Livro', receberam paz e proteção em troca de um tributo, a jizya, que mais tarde virou um imposto per capita regular. A base é um versículo do Alcorão (9:29), que manda combater os que receberam as Escrituras até que paguem o tributo.c6-jizya
  1018. p. 156A comunidade muçulmana devia guerrear contra quem não aceitasse o Islã, mas, ao contrário dos pagãos, que em teoria só podiam se converter ou morrer, judeus e cristãos seriam deixados em paz se reconhecessem a supremacia política dos muçulmanos, pagassem o tributo e aceitassem um status inferior e humilhado na ordem social islâmica.c6-jihad-dhimma
  1019. p. 156, p. 156O primeiro encontro entre Maomé e os judeus foi de conflito e guerra, mas seu desfecho lançou as bases de um modus vivendi notavelmente estável, que permitiu a judeus e cristãos viver, e muitas vezes prosperar, sob o domínio muçulmano durante toda a Idade Média. As declarações do Alcorão e dos hadith sobre eles refletem uma atitude ambivalente, nascida dos confrontos iniciais, mas também o potencial de tolerância.c6-modus-vivendi
  1020. p. 157, p. 157, p. 521Os quatro primeiros califas governaram de Medina. Depois Mu'awiya fundou a primeira dinastia califal, a omíada, e transferiu a capital para Damasco; ela durou até 750 e, nessa data, o império ia do Atlântico ao delta do Indo. A expansão na Europa cristã foi detida pela derrota em Tours (732) e pelo fracasso do cerco a Constantinopla (717 a 718).c6-umayyad-dynasty
  1021. p. 157Os muçulmanos permaneceram por muito tempo minoria em seu vasto império, pois a islamização ficou atrás do controle político-militar. Estima-se que no século X a maioria da população do Egito ainda fosse de cristãos coptas, e no norte da Síria os cristãos foram maioria até o século XII.c6-muslim-minority
  1022. p. 157, p. 157Como seria impossível impor a nova religião à força em território tão vasto, e como o Alcorão declara que não há coação em matéria de religião, a lei islâmica (xaria) reconheceu a existência de comunidades judaicas e cristãs. Tratados como dhimmis, 'povos protegidos', judeus e cristãos tinham proteção da vida e liberdade religiosa em troca de um imposto especial, a jizya.c6-dhimmi-status
  1023. p. 157, p. 157, p. 521As condições da coexistência entre dhimmis e muçulmanos estavam registradas no chamado Pacto de Umar, tradicionalmente atribuído ao segundo califa, Umar ibn al-Khattab (634 a 644). A versão mais antiga que se conhece do texto, porém, é do século X.c6-pact-origin
  1024. p. 157, p. 157Nessas circunstâncias, a passagem ao domínio islâmico provavelmente não foi traumática e, para muitas populações não muçulmanas, talvez até bem-vinda. Os judeus estavam habituados a ser minoria religiosa, e seu status legal sob o Islã se revelou semelhante ao que tinham no direito romano e bizantino; também para os cristãos do Oriente Médio, na maioria monofisitas que ressentiam o governo ortodoxo bizantino, a mudança pode ter sido menor do que se imagina.c6-transition-mild
  1025. p. 157, p. 157Mais notável do que as cláusulas do Pacto de Umar é sua forma: foi redigido como tratado, que obrigava os dois lados. Judeus e cristãos se submetiam às restrições, e o Estado muçulmano reconhecia um lugar específico para suas comunidades. A proteção legal, assim, não dependia do capricho de cada governante, mas estava inscrita como princípio básico da lei islâmica.c6-pact-treaty-form
  1026. p. 157Várias cláusulas refletiam as condições dos primeiros anos da conquista: os dhimmis não podiam abrigar espiões nem portar armas, regras que serviam mais à segurança do jovem império do que a razões teológicas.c6-pact-security
  1027. p. 157, p. 157Outra cláusula proibia construir novos locais de culto ou restaurar os arruinados, provavelmente herdada de restrição semelhante do direito bizantino às sinagogas. Com o tempo houve exceções e meios de contornar a proibição: as sinagogas e igrejas de cidades fundadas por muçulmanos, como o (novo) Cairo, Cufa e Bagdá, são testemunho disso.c6-pact-worship
  1028. p. 157, p. 157, p. 157Outras condições serviam para impor simbolicamente uma hierarquia social em que os dhimmis ocupavam posição inferior, embora legalmente garantida: levantar-se diante dos muçulmanos, não montar em selas, não construir casas mais altas que as deles. Restringia-se também a exibição pública das religiões dhimmi, a princípio talvez para evitar sua influência sobre a jovem comunidade muçulmana e depois para marcar a hierarquia, e vetava-se vender vinho a muçulmanos.c6-pact-hierarchy
  1029. p. 158, p. 158O Alcorão não foi revelado de uma só vez, mas em porções ao longo da vida do profeta, de cerca de 611 até 632. Seus capítulos (suras) foram ordenados por extensão, da mais longa à mais curta, e as passagens sobre judeus e cristãos devem ser lidas como resposta ao encontro de Maomé com os judeus da Arábia.c6-quran-revealed
  1030. p. 158, p. 158Em 628 os muçulmanos de Medina derrotaram os judeus de Khaybar, que se renderam e receberam proteção da vida e dos bens em troca de um tributo anual. O precedente foi confirmado por uma revelação posterior, o versículo 9:29, prova clássica na lei islâmica para a relação com o 'povo do Livro'. O Alcorão ordenava a expansão política do Estado, mas proibia usar a força para difundir a religião (2:256).c6-quran-khaybar-tribute
  1031. p. 158, p. 158Algumas passagens do Alcorão mostram atitude favorável a judeus e cristãos e parecem exprimir a expectativa inicial de que os judeus de Medina fossem atraídos pela nova religião. Uma delas pede que os filhos de Israel guardem sua aliança; outra garante recompensa a crentes, judeus, cristãos e sabeus que creiam em Deus e no Último Dia e façam o bem.c6-quran-positive
  1032. p. 158, p. 158Logo ficou claro que os judeus rejeitavam as pretensões proféticas de Maomé, e as relações em Medina se deterioraram depressa. Outras passagens refletem a tensão, como a que desaconselha tomar judeus e cristãos por amigos, e outra que destaca os judeus, sem dúvida pela rivalidade política com os primeiros muçulmanos e pela acusação de conspirar com os pagãos de Meca.c6-quran-negative
  1033. p. 158, p. 158As atitudes do Alcorão diante de judeus e cristãos são, portanto, ambíguas: suas tradições são reconhecidas como religiões legítimas, baseadas em revelações anteriores, mas eles também são acusados de ter adulterado a palavra de Deus, e as tensões políticas geraram declarações claramente hostis, sobretudo contra os judeus. No conjunto, foi o mandato de tolerar o 'povo do Livro' em troca da jizya e de um status social inferior que moldou as relações entre muçulmanos e judeus por toda a Idade Média.c6-quran-ambiguous
  1034. p. 159, p. 159Nem todas as condições do Pacto foram aplicadas. Apesar da recomendação de não falar como os muçulmanos, o árabe se tornou rapidamente a língua vernácula de todas as religiões, inclusive os judeus, em todo o mundo islâmico a oeste do Irã. Também no vestuário os dhimmis se assimilaram aos costumes muçulmanos.c6-arabic-vernacular
  1035. p. 159Em 850, o califa al-Mutawakkil, em Bagdá, sentiu necessidade de prescrever a judeus e cristãos um tipo especial de roupa, para que fossem facilmente distinguidos dos muçulmanos.c6-mutawakkil-850
  1036. p. 159, p. 159As condições básicas do Pacto de Umar (manter as fronteiras e a hierarquia sociais, não erguer novas sinagogas e igrejas) foram, na maioria das vezes, mais violadas que cumpridas. Muitos governantes muçulmanos empregaram dhimmis em cargos públicos, até com autoridade sobre muçulmanos, e as queixas sobre judeus ou cristãos que violavam seu status eram frequentes.c6-pact-breach
  1037. p. 159, p. 159Por volta do início do século XII, um jurista islâmico de Tânger recebeu uma queixa contra um médico judeu de Fez, que andava vestido como um notável muçulmano e sem os sinais distintivos exigidos. O jurista repetiu as condições do Pacto de Umar e cobrou das autoridades de Fez sua aplicação, lembrando antes um dito de Maomé sobre os dhimmis: humilhá-los, mas não oprimi-los. O que estava em jogo era a aplicação da lei, não uma repressão arbitrária.c6-tangier-fez-doctor
  1038. p. 159Na maior parte do período medieval, só quando havia outros interesses em jogo, como rivalidade política ou tensão econômica, as autoridades muçulmanas eram levadas a impor com rigor as regras mais restritivas do Pacto.c6-enforcement-conditional
  1039. p. 159A diferença mais marcante entre a situação legal dos judeus no Islã e na cristandade medievais não estava em mais ou menos discriminação ou tolerância, mas na notável estabilidade do status que a lei islâmica lhes dava.c6-legal-stability
  1040. p. 159, p. 159O Pacto de Umar não limitava a liberdade econômica nem a de residência e de viagem, o que o distinguia da situação de muitas partes da Europa cristã, onde os judeus eram excluídos de várias profissões e não podiam se fixar onde quisessem. No Islã, bastava ao judeu (ou cristão) o recibo do imposto anual para circular livremente por todo o território.c6-economic-freedom
  1041. p. 159, p. 159Os judeus do Islã medieval atuavam num leque amplo de atividades: comércio, metalurgia, tecelagem, curtume, produção de açúcar, seda, e também a propriedade de terras agrícolas, vinhedos e pomares. A elite da comunidade era muitas vezes formada por médicos, alguns a serviço de governantes muçulmanos, por famílias de comércio internacional em larga escala e por líderes religiosos.c6-economic-activities
  1042. p. 159, p. 159, p. 521, p. 521Em 750 os omíadas caíram diante dos abássidas, dinastia rival que quase exterminou o clã omíada. Os novos governantes transferiram o califado de Damasco para Bagdá, fundada em 762, e com isso redesenharam a geografia política do Oriente Médio.c6-abbasids-750
  1043. p. 159, p. 159, p. 159Com a mudança, os Gueonim, chefes das academias rabínicas babilônicas de Sura e Pumbedita, passaram a estar no centro político do império islâmico. No século IX as duas yeshivot se transferiram para Bagdá, onde seus líderes disputavam poder e influência com o exilarca, chefe nominal da comunidade judaica babilônica.c6-geonim-political-center
  1044. p. 160O exilarca (rosh ha-golah) se dizia descendente da dinastia davídica bíblica e representava a comunidade perante as autoridades do califado.c6-exilarch
  1045. p. 160Sob os abássidas, Bagdá se tornou a maior cidade do mundo islâmico e, ao que se estima, a maior do mundo fora da China. Era sede do califado e polo de comércio, atraindo imigrantes de todo o império e de além dele.c6-baghdad-city
  1046. p. 160, p. 160Os abássidas abandonaram a política omíada de favorecer as velhas elites árabes, pois os muçulmanos não árabes do Oriente islâmico haviam impulsionado a rebelião contra os omíadas. A confluência de etnias e culturas fez de Bagdá um centro cosmopolita e criativo. O califa al-Mansur (754 a 775) patrocinou a tradução para o árabe de textos persas e da filosofia e ciência gregas.c6-abbasid-cosmopolitan
  1047. p. 160O Mapa 6.1 do livro mostra a expansão do Islã de Maomé até o início do califado abássida, em 750.c6-map-expansion
  1048. p. 160, p. 160Os judeus, com suas duas yeshivot e o exilarca, eram parte do caldo cultural de Bagdá e entraram nas discussões teológico-filosóficas nascidas do encontro entre a filosofia grega e o monoteísmo. Muçulmanos, judeus, cristãos e zoroastrianos participavam do kalam árabe, a teologia racional da época. Um visitante muçulmano da Espanha ficou chocado ao ver um debate em que ninguém podia citar livros sagrados, pois os adversários os negavam, e todos deviam usar só argumentos racionais.c6-kalam-jews
  1049. p. 160, p. 161, p. 521Saadia ben Yosef (882 ou 892 a 942) foi o maior representante da cultura judaica de Bagdá. Presidiu como Gaon a academia de Sura de 928 até a morte e foi o primeiro de fora a chefiar uma das duas yeshivot babilônicas. Nascido no Egito, traduziu quase toda a Bíblia para o árabe e contribuiu para a filologia hebraica, compondo o primeiro dicionário hebraico conhecido, a liturgia e a lei rabínica.c6-saadya-bio
  1050. p. 161, p. 161Saadia escreveu em árabe, estimulado pelo kalam e pelo clima intelectual do início do califado abássida, o Livro das Crenças e Opiniões. Começa pela epistemologia e segue provando que o mundo foi criado, definindo Deus e seus atributos, explicando as razões da lei divina e conciliando livre-arbítrio e providência, tudo para fundar em bases racionais a Torá escrita e oral.c6-saadya-beliefs-opinions
  1051. p. 161, p. 161Para Saadia, a revelação transmite a verdade a quem não é capaz de investigação racional e orienta quem se dedica à especulação filosófica; razão e revelação sempre levam à mesma verdade, e não pode haver contradição entre filosofia e a Torá revelada. Ele dizia, por exemplo, que não cremos em Moisés só pelos milagres: pedimos prodígios depois de ouvir a mensagem e achá-la correta.c6-saadya-reason-revelation
  1052. p. 161Saadia, além de pensador à vontade com a teologia racional dos eruditos muçulmanos, foi um campeão da liderança rabínica babilônica contra a palestina.c6-saadya-babylonian-champion
  1053. p. 161, p. 161O problema do calendário israelita e do judaico posterior é conciliar os meses lunares da Torá com o ciclo solar agrícola: doze meses lunares somam cerca de onze dias a menos que o ano solar. Sem ajustes, a Páscoa, que a Bíblia manda celebrar na primavera, percorreria as estações; por isso os rabinos intercalavam um mês extra em 7 de cada 19 anos.c6-calendar-problem
  1054. p. 161, p. 161Declarar o início do mês lunar e os anos bissextos era prerrogativa da liderança judaica da Terra de Israel. Ao avistar a lua nova, o tribunal rabínico da Palestina declarava o mês e avisava as comunidades por um sistema de fogueiras. Até a controvérsia dos anos 920, qualquer divergência entre as tabelas das outras comunidades e a observação na Palestina se resolvia a favor desta.c6-calendar-prerogative
  1055. p. 161, p. 161Em 921, Meir Gaon de Tiberíades anunciou o calendário e os anos bissextos dos três anos seguintes, e ele diferia do cálculo matemático dos babilônios. Em vez de se curvar à autoridade da Terra de Israel, Saadia viu nisso a chance de afirmar a independência e a primazia das academias babilônicas. No outono de 922 as comunidades celebraram o Ano-Novo em dias diferentes, conforme seguissem as autoridades palestinas ou babilônicas.c6-calendar-921
  1056. p. 161, p. 161No fim, ao que parece, prevaleceu o cômputo babilônico, que o calendário judaico atual ainda segue, embora o conflito tenha reaparecido algumas vezes e certas comunidades tenham continuado a resistir ao predomínio dos rabinos babilônios.c6-calendar-outcome
  1057. p. 161, p. 161No coração da cultura rabínica babilônica estavam as academias de Sura e Pumbedita, que serviam também de suprema corte. Competiam, como na controvérsia do calendário, pela lealdade das comunidades do mundo todo com a yeshivá de Tiberíades, que passou a Jerusalém no século X.c6-academies-function
  1058. p. 161, p. 161Duas vezes por ano, no fim do inverno e no fim do verão, as academias babilônicas promoviam as kallot ('assembleias'), a que acorriam estudiosos de todos os lados com doações de suas comunidades, na esperança de receber dos Gueonim títulos honoríficos.c6-kallot
  1059. p. 161, p. 162A prática gaônica das responsa (singular: responsum) talvez fosse o melhor meio de um Gaon exercer autoridade em grandes distâncias: uma 'justiça por correspondência', em que ele redigia um parecer jurídico em resposta a uma consulta específica e assim criava um precedente. A responsum é desde então um componente importante da lei judaica, tratando de ordem das orações, leis alimentares, casamento e divórcio, danos pessoais e responsabilidade comercial.c6-responsa
  1060. p. 161Entre os acusados de Minas, 64% eram mercadores e 23% mineiros, em geral da classe média.c9-minas-merchants-miners
  1061. p. 161No conjunto dos 57 processos de Minas estudados por Novinsky, nenhum acusado aparecia envolvido no tráfico negreiro.c9-minas-no-slave-trade-sample
  1062. p. 161Os marranos de Minas representaram 42% dos brasileiros condenados à morte pela Inquisição, segundo Novinsky.c9-minas-death-share
  1063. p. 161Ser marrano em Minas era, para Novinsky, mais um sentimento e uma visão de mundo do que uma prática religiosa estável.c9-minas-marranism-worldview
  1064. p. 161Goodman recomenda, para o movimento rabínico antes de 70, privilegiar a Mishná e outras fontes tannaitas do séc. III: esses textos indicam grupos de estudo de sábios já estabelecidos pelo menos um século antes da destruição do Templo.c-h502-goodman-tannaitic-study-groups-pre-70
  1065. p. 161Para Goodman, a tradição oral rabínica importa sobretudo como percepção: os sábios creram nela e nela viram autoridade vinda de Moisés, mesmo quando Bíblia e Josefo não registram tais cadeias.c-h502-goodman-oral-torah-perception
  1066. p. 162, p. 162Com o prestígio dos Gueonim, as responsa ligavam as comunidades mais remotas, que podiam usar seus argumentos para decidir sobre orações, negócios, divórcios, dotes e heranças. Manter essa correspondência a longas distâncias devia muito ao império islâmico, que uniu a imensa maioria dos judeus medievais sob um sistema jurídico comum e uma cultura de língua árabe compartilhada.c6-responsa-connection
  1067. p. 162, p. 162A influência dos Gueonim babilônios sobre a diáspora foi enorme. Sinal de seu sucesso: Isaac ben Jacob Alfasi (1013 a 1103), erudito rabínico do Norte da África, decidiu que, em caso de divergência entre o Talmude palestino e o babilônico, o segundo teria precedência. O palestino seguiu sendo fonte autorizada, mas hoje 'o Talmude' quer dizer o babilônico.c6-alfasi-bavli
  1068. p. 162, p. 162Os historiadores costumam ligar o predomínio da tradição babilônica à dinâmica política: os Gueonim estavam no centro do império depois que os abássidas fixaram ali sua capital. Não há evidência de que a proximidade física dos califas ampliasse seu poder político, mas estar no núcleo político, cultural e comercial só podia ampliar seu alcance, ao passo que a Palestina era uma província periférica.c6-why-bavli-dominant
  1069. p. 162Em parte, porém, a difusão e o predomínio da escola babilônica ligaram-se, ironicamente, ao declínio do poder abássida e das próprias academias babilônicas.c6-abbasid-decline-spread
  1070. p. 162A legenda da Figura 6.1 informa que a Cúpula da Rocha, em Jerusalém, foi construída sob o califa omíada Abd al-Malik (685 a 705) no local do Templo, e que Jerusalém ganhou significado religioso no Islã e se tornou um grande destino de peregrinação para muçulmanos, tanto quanto para judeus e cristãos.c6-dome-of-rock
  1071. p. 162No século XVIII, Minas Gerais atraiu cristãos-novos portugueses em busca do ouro e de novas oportunidades.c9-minas-attraction
  1072. p. 162Novinsky baseou-se em 57 processos inéditos de cristãos-novos presos em Minas; onze já tinham nascido no Brasil.c9-minas-57-trials
  1073. p. 162Nulman situa Ayl Malay Rahamim (memória pelos falecidos) como surgindo em comunidades ocidentais e orientais para mártires das Cruzadas e dos massacres de Chmielnicki; Davidson lista dezenas de versões medievais.cl-el-malei-crusades-chmielnicki
  1074. p. 163, p. 163A ideia de oração como obrigação contínua, repetida várias vezes ao dia numa sequência fixa de bênçãos, parece ter se formado ao longo do Segundo Templo e do período rabínico. O primeiro livro de orações, o sidur ('ordenação'), só surgiu no período gaônico: a primeira ordenação sistemática foi compilada no século IX por Amram, a partir do Talmude e de fontes gaônicas anteriores; Saadia produziu outro cerca de um século depois.c6-siddur-origin
  1075. p. 163, p. 163O livro de orações dos Gueonim foi muito ampliado ao longo dos séculos com piyyutim (poemas litúrgicos), e a poesia hebraica da Espanha medieval e a cabalá também deixaram marca. Surgiram variantes regionais (asquenazita, sefardita, italiana, iemenita), mas a estrutura básica do serviço e a própria existência do livro de orações mostram a influência dos esforços gaônicos.c6-siddur-legacy
  1076. p. 163, p. 163A oração comunitária exige três momentos diários, em correspondência com os sacrifícios do Templo, e um quórum (minyan) de ao menos dez homens adultos. Organiza-se em torno do Shemá e da Amidá, com 19 bênçãos de súplica ditas em pé; o Kaddish, em grande parte aramaico, encerra as partes do serviço, e a versão dos enlutados parece ter entrado no luto judaico na Idade Média. Há leitura pública da Torá às segundas, quintas e no sábado.c6-prayer-structure
  1077. p. 163, p. 163No fim do século IX e no X houve uma migração considerável de judeus das terras islâmicas orientais (Pérsia e Iraque) para o oeste, para o Egito, o Norte da África e a Espanha muçulmana, em paralelo ao deslocamento do poder político para centros emergentes como o Cairo, Qayrawan e Córdoba. Os babilônios levaram consigo suas tradições e ajudaram a difundir o judaísmo rabínico babilônico.c6-east-west-migration
  1078. p. 163O geógrafo muçulmano al-Maqdisi (m. por volta de 990) observou que Fustat, a velha Cairo, havia 'superado' Bagdá e se tornado a maior glória dos muçulmanos.c6-maqdisi-fustat
  1079. p. 163Quando as academias babilônicas se extinguiram, por volta de 1040, a tradição rabínica babilônica já dominava a cultura judaica medieval até o Norte da África e a Espanha.c6-academies-fold
  1080. p. 163, p. 163, p. 163A tradição palestina continuou dominante na fixação do texto autorizado da Bíblia. Os massoretas de Tiberíades, ativos nos séculos VIII e IX, estabeleceram a leitura correta do texto bíblico e acrescentaram vogais e sinais para a cantilação. O manuscrito medieval mais antigo da Bíblia hebraica que chegou até nós é o Códice de Aleppo, produzido pelo massoreta tiberiano Aharon ben Asher e concluído por volta de 900.c6-masoretes-aleppo
  1081. p. 163, p. 163, p. 521, p. 521Em 909, os governantes fatímidas da Ifríquia, na atual Tunísia, criaram um contracalifado em desafio ao califa abássida de Bagdá. Sessenta anos depois conquistaram o Egito e logo a Palestina. No século X o império islâmico, antes unido, começou a se fragmentar; o califado abássida existiu nominalmente até 1258, quando os mongóis saquearam Bagdá, mas o poder passou a dinastias rivais, sobretudo no Ocidente.c6-fatimids-909
  1082. p. 164, p. 164Os califas fatímidas, xiitas num meio predominantemente sunita, eram eles próprios uma espécie de minoria religiosa, e isso, somado à grande proporção de não muçulmanos no Egito, talvez explique a atitude tida como tolerante com os dhimmis. Cortesãos não muçulmanos ou recém-convertidos eram tão proeminentes que os fatímidas foram criticados; um autor do século XI ironizou que os judeus haviam alcançado o auge de seus desejos. Ya'qub Ibn Killis, judeu babilônio convertido ao Islã, chegou a ministro-chefe.c6-fatimid-tolerance
  1083. p. 164, p. 164Muitos judeus empregados na corte fatímida eram caraítas. O nome vem da raiz hebraica qara', 'ler': os caraítas rejeitavam a autoridade da Mishná e do Talmude e sustentavam que a lei devia ser extraída da interpretação crítica do texto bíblico, sem a mediação de uma 'tradição oral'.c6-karaite-doctrine
  1084. p. 164, p. 164Os caraítas diferiam dos rabinos em questões concretas: entendiam a proibição bíblica de acender fogo no sábado como vedando também deixar aceso um fogo já aceso antes; não aceitavam a leitura não literal que proíbe misturar carne e leite, e por isso eram chamados de 'comedores de carne com leite'; e criticavam o segundo dia de festa que os rabinos observam fora da Terra de Israel.c6-karaite-examples
  1085. p. 164, p. 164, p. 521A ascensão do caraísmo costuma ser datada do século VIII e, por volta do século X, os caraítas passaram a atribuir sua origem ao erudito Anan ben David. Os historiadores de hoje acham, porém, que os seguidores de Anan e os caraítas eram originalmente grupos diferentes, com ideias diferentes, fundidos só mais tarde na imaginação caraíta.c6-karaite-origins
  1086. p. 164, p. 164, p. 164No século X havia comunidades caraítas bem estabelecidas no Oriente Médio, com sinagogas próprias, sobretudo no Egito e na Palestina. Enfatizando a obrigação de habitar a Terra Santa, formavam parte significativa da população judaica de Jerusalém. Depois das Cruzadas, muitos se mudaram para o Império Bizantino e alguns até a Polônia e a Lituânia, sob a liderança de Tobias ben Moisés, a quem se atribui a tradução de textos caraítas do árabe para o hebraico.c6-karaite-communities
  1087. p. 164, p. 164Apesar do sucesso da migração, os caraítas atraíram relativamente poucos adeptos: segundo Benjamin de Tudela, no século XII, só 500 viviam em Constantinopla. A tradição rabínica da grande maioria dos judeus medievais resistiu ao desafio, mas no século X estudiosos caraítas deram contribuições importantes à filologia hebraica, à filosofia e à exegese bíblica.c6-karaite-small
  1088. p. 164, p. 164, p. 165Apesar das polêmicas, rabinitas e caraítas não viviam em comunidades separadas: a Genizá do Cairo mostra casamentos mistos frequentes no Egito, com contratos que definiam como conciliar as práticas do casal. Elites caraítas ajudavam o Gaon da yeshivá de Jerusalém a obter nomeação do califa fatímida, e os Gueonim de Sura e Pumbedita usavam comerciantes caraítas, como a família Tustari, para despachar responsa ao Egito e ao Norte da África.c6-karaite-rabbinic-ties
  1089. p. 165, p. 165A yeshivá de Tiberíades foi para Jerusalém no século X e, com as Cruzadas (Jerusalém caiu em 1099), mudou-se primeiro para Tiro, depois para Damasco e por fim para Fustat, no Egito. Os judeus do Egito estavam muito ligados aos líderes gaônicos da Palestina.c6-yeshiva-moves
  1090. p. 165, p. 165, p. 165No último terço do século XI surgiu um rival do Gaon palestino na liderança dos judeus do Egito: o ra'is al-yahud ('chefe dos judeus' em árabe, nagid em hebraico), nomeado pelo governo califal para representar a comunidade perante as autoridades muçulmanas. O cargo muitas vezes coube a médicos da corte, como Maimônides, chefe dos judeus egípcios nos anos 1170 e de novo de cerca de 1195 até 1204; do século XII ao XV foi ocupado por seus descendentes.c6-rais-al-yahud
  1091. p. 165, p. 165Alguns historiadores veem na ascensão do ra'is al-yahud um exemplo da passagem da organização 'ecumênica' para a 'territorial' da vida judaica medieval. No início do período abássida e fatímida os judeus do mundo se organizavam em torno de centros espirituais rivais na Palestina e na Babilônia; no século XI surgiu um novo padrão: os judeus do Egito, unidos sob uma liderança territorial, superaram a lealdade a uma autoridade gaônica em declínio. O mesmo se deu na Tunísia e na Espanha muçulmana, e daí surgiram identidades judaicas locais e regionais.c6-territorial-communities
  1092. p. 165, p. 165No século IX, o autor caraíta Daniel ben Moisés al-Qumisi exortou seus leitores a lembrar de Jerusalém e a seguir o exemplo de cristãos e muçulmanos que afluíam à cidade como peregrinos. No período fatímida, judeus do Egito, do Mediterrâneo e até do Norte da Europa fizeram grande esforço para ir a Jerusalém e participar da peregrinação anual de Sucot.c6-qumisi-pilgrimage
  1093. p. 165, p. 165, p. 521Quando os cruzados conquistaram Jerusalém em 1099, proibiram os judeus de viver na cidade; a vida judaica ali só foi retomada quando as forças muçulmanas de Saladino a reconquistaram, 88 anos depois. Um rabino da vizinha Aleppo testemunhou os estragos dos cruzados na Palestina. A cronologia do livro registra também a devastação das instituições de estudo judaicas em Jerusalém.c6-crusaders-1099
  1094. p. 165, p. 165Em geral, os cruzados não tiveram outra opção senão chegar a acordos com a população local (perderam seu último reduto, Acre, em 1291), e a Palestina continuou atraindo peregrinos e imigrantes judeus. O poeta e filósofo espanhol Judá ha-Levi partiu para lá em 1140; no século XIII, rabinos do Norte da Europa migraram para a Terra Santa, e Nahmânides se fixou na Terra de Israel poucos anos antes de morrer, em 1270.c6-crusader-accommodation
  1095. p. 165Com a transferência da yeshivá de Jerusalém para a Síria e depois para o Egito e com a turbulência das Cruzadas, a Terra de Israel deixou de funcionar como centro cultural, e menos ainda político, do mundo judaico no fim da Idade Média.c6-land-of-israel-decline
  1096. p. 165, p. 165, p. 521O período do domínio islâmico na Espanha (Sefarad em hebraico, al-Andalus em árabe) é lembrado popularmente como uma 'era de ouro' da história judaica. Como o Egito fatímida, a Espanha muçulmana dos séculos X e XI se tornou um centro de cultura judaica por direito próprio. O descendente de um sobrevivente da dinastia omíada derrotada fugiu para lá e, com Abd ar-Rahman III (912 a 961), estabeleceu em 929 o califado omíada de Córdoba, contracalifado em relação a Bagdá.c6-andalus-intro
  1097. p. 165, p. 165, p. 166Córdoba era então uma cidade vasta e sofisticada, com 100 mil habitantes ou mais, grandes bibliotecas (a do califa teria 400 mil volumes), uma magnífica mesquita e um enorme palácio real construído nos arredores, em Madinat az-Zahra. Observadores judeus também elogiaram a terra por sua fartura, e como centro de comércio e cultura.c6-cordoba-city
  1098. p. 165Reif assinala semelhanças entre o Seder Hibbur Berakhoth (rito italiano / minhag Roma) e tradições palestinenses documentadas na Genizah, em piyyutim, bênçãos matinais e aspectos ligados ao Shemá e à Kedushá.cl-italian-rite-palestinian-links
  1099. p. 166, p. 167, p. 521Hasdai ibn Shaprut (919 a 970), médico e conselheiro de Abd ar-Rahman III e de seu sucessor al-Hakam (961 a 976), subiu na corte graças à fama de médico, em especial pela descoberta de antídotos contra venenos. Ao ganhar a confiança do califa, passou a servir várias vezes como intermediário diplomático: nas negociações com o imperador bizantino, inimigo comum dos abássidas, e nas relações com governantes cristãos da Europa.c6-hasdai-rise
  1100. p. 166, p. 166, p. 166O erudito muçulmano Sa'id al-Andalusi (m. 1070) descreveu Hasdai como quem conduziu os judeus de Sefarad a uma nova era de independência cultural em relação aos centros orientais. Antes, os judeus da Andaluzia recorriam aos de Bagdá para aprender a lei e acertar o calendário; Hasdai, com ajuda do califa, obteve as obras dos judeus do Oriente e ensinou-os. Para os autores, foi parte de um processo maior: o declínio do centro babilônico e a ascensão de novos centros.c6-saidi-hasdai
  1101. p. 166, p. 166Quando escrituras e outros escritos sagrados envelhecem a ponto de não servir, os judeus não os jogam fora como lixo comum: enterram-nos em terra consagrada. Como seria ineficiente abrir uma cova para cada documento, depositavam-nos num repositório, a genizá, até serem enterrados de uma vez. A genizá da sinagoga palestina do Velho Cairo, por razões desconhecidas, nunca foi esvaziada, e acumulou ao longo dos séculos milhares de livros e documentos, de textos sagrados a cartas comerciais, provavelmente por estarem em caracteres hebraicos.c6-genizah-what
  1102. p. 166, p. 166A meados do século XIX, o estudioso Abraham Firkovitch começou a extrair livros e documentos da Genizá do Cairo e levou-os à Rússia, onde, em São Petersburgo, está a maior coleção desse achado. Só mais tarde no mesmo século Solomon Schechter, estudioso do Talmude em Cambridge, reconheceu a importância monumental da Genizá, depois que duas escocesas trouxeram o texto hebraico de Ben Sira, antes conhecido só em grego. Ele levou milhares de páginas a Cambridge e ali formou uma enorme coleção de documentos judeo-árabes e hebraicos.c6-genizah-discovery
  1103. p. 166, p. 166Os documentos da Genizá (cartas, contratos, recibos de venda, testamentos e literatura dos séculos X a XII) revolucionaram não só a história judaica medieval, mas a história da região em geral, com sua riqueza de informações sobre o cotidiano, o comércio, o casamento e as relações entre muçulmanos e judeus. Hoje historiadores de muitas áreas a usam como uma janela para o mundo mediterrâneo de mil anos atrás.c6-genizah-value
  1104. p. 167, p. 167Hasdai correspondeu-se com José, rei dos cázaros, povo turcomano do norte do mar Negro cujas famílias dominantes haviam abraçado o judaísmo. Interessado na ideia de um Estado judeu soberano, perguntou ao rei se tinha notícias da vinda do messias (não tinha).c6-hasdai-khazars
  1105. p. 167Quando o imperador bizantino enviou ao califa um raro manuscrito grego de farmacologia, mandou também um monge para traduzi-lo do grego ao latim (De Materia Medica), e coube a Hasdai traduzir o latim para o árabe.c6-hasdai-translator
  1106. p. 167, p. 167Como o califa, que patrocinava a erudição islâmica e secular, Hasdai foi mecenas das artes e das ciências. Entre seus protegidos estavam Menahem ben Saruq e Dunash ben Labrat, dois dos principais poetas e eruditos da língua hebraica, que ajudaram a lançar as bases da 'era de ouro' da poesia hebraica na Espanha medieval e cuja obra simbolizou o encontro entre a cultura judaico-hebraica e a islâmico-árabe.c6-hasdai-patron
  1107. p. 167, p. 167Menahem ben Saruq (cerca de 920 a 970) mudou-se de Tortosa, no nordeste da Espanha, para Córdoba por volta de meados do século X, para ser secretário pessoal de Hasdai. Cabia-lhe redigir a carta de Hasdai ao rei dos cázaros; mais tarde caiu em desgraça e escreveu um longo poema lamentando os maus-tratos sofridos.c6-menahem-career
  1108. p. 167, p. 167, p. 167Uma das maiores realizações de Menahem foi o Mahberet ('caderno'), dicionário hebraico pioneiro por definir as palavras bíblicas em hebraico, e não por traduzi-las para outra língua como o árabe. Escrito em hebraico, teve ampla repercussão como principal fonte de instrução filológica para quem não sabia árabe, em especial na Europa cristã, onde Rashi e seu neto Jacob Tam dependiam dele. Seu mérito duradouro foi estabelecer que o hebraico é uma língua com regras coerentes e identificáveis.c6-mahberet
  1109. p. 167, p. 167, p. 521Dunash ben Labrat (920 a 990), que fora aluno de Saadia no Iraque, é creditado por introduzir a métrica árabe na poesia hebraica. Foi também notável gramático: distinguiu verbos transitivos e intransitivos e identificou os verbos hebraicos como compostos de raízes de três letras. Criticou duramente o dicionário de Menahem, alegando que seus erros levariam à impiedade.c6-dunash
  1110. p. 167, p. 167A ascensão da poesia hebraica em al-Andalus mostra como os judeus do Islã medieval adotaram os valores culturais da sociedade ao redor e os tornaram seus. A celebração do hebraico foi a versão judaica da celebração islâmica do árabe como língua do Alcorão: gramáticos e poetas adaptaram ao hebraico, língua da Bíblia, o ideal da arabiyya, o árabe como língua perfeita e divina, e o hebraico passou a ser visto como 'língua sagrada'. Os judeus usavam também o árabe, como vernáculo e para escritos filosóficos e científicos.c6-hebrew-arabiyya
  1111. p. 167, p. 167Menahem e Dunash discordaram sobre a adaptação das regras do árabe à poesia hebraica. Menahem achava que não se podiam impor padrões árabes, já que a poesia bíblica não tem métrica discernível e devia ser o modelo; Dunash concluiu, pelo parentesco linguístico entre as duas línguas, que a poesia árabe podia e devia servir de modelo, e criou uma técnica para imitar a métrica quantitativa árabe em hebraico. No fim, a abordagem de Dunash dominou a produção de poemas seculares (e alguns litúrgicos) na Espanha medieval.c6-menahem-dunash-debate
  1112. p. 168, p. 168O conteúdo da poesia hebraica também foi moldado pelas convenções da árabe. Apesar da imagem de uma era profundamente religiosa, grande parte da criação poética era francamente secular: ao lado de esplêndidos poemas religiosos, muitos ainda no livro de orações, celebrava a vida cortesã de al-Andalus, o vinho e o amor. Os leitores modernos se surpreendem sobretudo com o imaginário homoerótico, sinal de que a homossexualidade não era um tabu como na lei bíblica e da influência de uma cultura árabe islâmica que não via problema nessa poesia nem no vinho.c6-secular-poetry
  1113. p. 168, p. 168Uma das grandes figuras da poesia hebraica espanhola no auge, no século XI, foi Samuel ha-Nagid (ibn Naghrela). Profundo conhecedor da tradição rabínica, conseguiu cópias da Mishná e do Talmude para estudiosos de Sefarad e doou azeite para a iluminação de sinagogas de Jerusalém, mas muitos de seus poemas refletem a cultura cortesã e secular de al-Andalus, onde se sentia em casa.c6-samuel-profile
  1114. p. 168, p. 168O poema de Samuel ha-Nagid que o livro cita (que pede dedicar a Deus metade do dia e o resto ao trabalho e à bebida) ilustra o equilíbrio que os poetas hebreus de al-Andalus, e os judeus do mundo islâmico medieval, encontraram entre a devoção à cultura rabínica e uma cultura secular partilhada com os vizinhos: uma curiosa invocação do tempo secular numa era supostamente religiosa.c6-samuel-poem
  1115. p. 168, p. 168, p. 521, p. 521O califado espanhol durou até o início do século XI, quando governantes locais de novo se livraram do poder central de Córdoba. A Espanha mergulhou em guerra civil e o califado deu lugar a pequenos principados, os taifas. A desunião encorajou os reis cristãos do norte a reagir, e no fim do século XI cerca da metade norte da Península havia sido tomada pela Reconquista, com Toledo caindo em mãos cristãs em 1085.c6-taifas
  1116. p. 168, p. 168, p. 521Apesar da mudança política, a 'era de ouro' da cultura judaica continuou. Como Hasdai no tempo do califado, outros líderes eruditos judeus serviram nas cortes dos reis taifas, o principal deles Samuel ha-Nagid, que foi conselheiro próximo e ministro-chefe do governante muçulmano de Granada. Em poemas, sugere ter comandado tropas nas campanhas de Granada, e suas realizações representam, ao que tudo indica, o ápice do que um dhimmi podia alcançar no Islã medieval.c6-samuel-vizier
  1117. p. 168, p. 168O filho de Samuel, José, que o sucedeu na função política, teve queda que mostra os limites da ordem social-religiosa da época. O cronista judeu Abraão ibn Daud, no Sefer ha-Kabbalah, disse que lhe faltava a humildade do pai e que se tornou arrogante para a própria ruína. Fontes muçulmanas confirmam a imagem de um José confiante demais em seu poder, envolvido em intrigas palacianas e tensões étnicas em Granada.c6-joseph-fall
  1118. p. 168, p. 168, p. 521Em 1066 uma multidão violenta se levantou contra José e o matou, junto com muitos membros da comunidade judaica de Granada. O episódio, quase pogrom, mostra que mesmo na 'era de ouro' uma comunidade inteira podia pagar pelos erros, reais ou supostos, de um líder, e que a coexistência medieval podia virar violência. Curiosamente, é pouco conhecido nas fontes judaicas e descrito em fontes árabes muçulmanas contemporâneas.c6-granada-1066
  1119. p. 168, p. 169Antes do ataque de 1066, parece ter pesado um venenoso poema contra José ibn Naghrela e os judeus de Granada, de um autor muçulmano, Abu Ishaq de Elvira, que mostra o papel social e político da poesia e o mal-estar de muitos muçulmanos com a ascensão de judeus (e cristãos) ao poder sob o Islã. Mesmo nessa polêmica o autor se sentiu obrigado a apresentar um argumento jurídico: os judeus teriam violado a aliança com eles, isto é, as condições do Pacto de Umar, e por isso a vingança seria aceitável.c6-abu-ishaq
  1120. p. 169, p. 170Segundo uma fonte muçulmana, cerca de 3 mil pessoas morreram no ataque. O raciocínio jurídico do poema não muda esse fato, mas ajuda a explicar por que explosões de violência como essa foram exceção, e bastante raras, na Idade Média islâmica.c6-1066-rarity
  1121. p. 169, p. 169Como no fim do Segundo Templo, muitos judeus medievais mantiveram expectativas messiânicas, muitas vezes avivadas por acontecimentos turbulentos como as Cruzadas, a invasão mongol ou a expulsão da Espanha. A cultura judaica nunca teve uma imagem única da era messiânica: Maimônides incluiu o messianismo entre as doutrinas essenciais do judaísmo, mas outros, como Joseph Albo (cerca de 1380 a 1445), não o incluíram como princípio central. Ainda assim, a crença messiânica em sentido geral parece ter sido muito difundida.c6-medieval-messianism
  1122. p. 169, p. 169, p. 169Em certas épocas grupos de judeus esperaram o messias em vida, às vezes em poucos anos ou meses. Sabemos pouco desses movimentos, que giravam em torno de um indivíduo carismático, em geral tido como de ascendência davídica, que se proclamava ou era aclamado como messias; os historiadores os chamam de 'falsos messias' porque, em retrospecto, não trouxeram a redenção, embora seus seguidores não os vissem assim. Um dos primeiros foi Serenus (ou Severus), que defendia a suspensão da lei judaica, foi preso e entregue pelo califa à comunidade judaica para execução. Outro foi David Alroy, líder messiânico do Curdistão no século XII.c6-false-messiahs
  1123. p. 169Maimônides conta de um pretenso messias no Iêmen que, pedido de provas, teria dito: 'Cortem minha cabeça e voltarei à vida imediatamente'. O captor atendeu, a ressurreição prometida não veio, e mesmo assim, segundo Maimônides, muitos tolos continuaram esperando que o homem se levantasse.c6-yemen-messiah
  1124. p. 169, p. 169O messianismo medieval pode ser visto como a imagem invertida do cotidiano judeu: o messias encarnava a esperança de ser redimido da condição da diáspora e voltar à Terra de Israel. Até alguém tão próspero quanto Hasdai ibn Shaprut queria saber a data da redenção prometida, lembrete de que a vida dos judeus medievais era mais que ganhar a vida ou cuidar da casa.c6-messianism-mirror
  1125. p. 170, p. 170O Mapa 6.2 do livro mostra a reconquista cristã da Espanha muçulmana (portuguesa, castelhana e aragonesa) e indica Granada como o último reino muçulmano em solo ibérico, conquistado em 1492.c6-map-reconquista
  1126. p. 170, p. 170, p. 521Duas dinastias berberes do Norte da África intervieram para frear a Reconquista. Primeiro vieram os almorávidas, que entraram em al-Andalus em 1086, depois da queda de Toledo, e estabeleceram um regime religioso duro: ao tomar Granada em 1090, destruíram e dispersaram a comunidade judaica, que mal se recuperara da violência de 1066.c6-almoravids
  1127. p. 170, p. 170, p. 521Nos anos 1140 os almorávidas foram substituídos pelos almóadas, também berberes do Norte da África, movidos por zelo religioso ainda maior. Sob seu domínio ocorreu uma das poucas conversões forçadas ao Islã do período medieval: milhares de judeus do Norte da África e da Espanha muçulmana foram obrigados a se converter ou a fugir, para o norte, rumo aos territórios cristãos, ou para o leste, até o Egito. Os detalhes da perseguição almóada não são muito conhecidos; uma carta de um judeu de origem marroquina no Egito diz que as congregações do Ocidente 'ou apostataram ou foram mortas'.c6-almohads
  1128. p. 170, p. 170Por causa da perseguição almóada, o grande erudito Maimônides, nascido em Córdoba em 1135, teve de fugir da Espanha com a família. Curiosamente, foram primeiro para Fez, no Marrocos, coração dos almóadas, e ele depois seguiu para o Egito. Quanto à islamização forçada, Maimônides decidiu que a conversão temporária era permitida para salvar a vida (o Islã, monoteísta, não é idolatria pela lei judaica), com a ressalva de que se devia deixar a terra da perseguição o quanto antes para voltar ao judaísmo em outro lugar.c6-maimonides-flight
  1129. p. 170, p. 171A perseguição almóada não pôs fim à vida judaica em al-Andalus muçulmana, mas marcou o fim da 'era de ouro' que os judeus haviam vivido sob o domínio islâmico. O foco da vida e da cultura judaicas na Península Ibérica passou ao território cristão, a que o livro volta no capítulo seguinte.c6-golden-age-end
  1130. p. 171, p. 171, p. 171, p. 521A al-Andalus muçulmana foi terreno especialmente fértil para o diálogo dos judeus com as correntes culturais da época, e ideias sobre Deus, criação e profecia circulavam com facilidade entre autores de religiões diferentes. Bahya ibn Paquda, no fim do século XI, copiou quase literalmente uma passagem de um texto teológico árabe de autor cristão em seu Deveres do Coração, e o mesmo texto reaparece no pensador islâmico al-Ghazali. A Fonte da Vida (Fons Vitae), de Salomão ibn Gabirol (cerca de 1020 a 1057), teve mais influência na teologia cristã, traduzida ao latim, do que o original (perdido) jamais teve entre os judeus.c6-philosophy-exchange
  1131. p. 171, p. 171Duas tradições filosóficas moldaram a filosofia judaica (como a muçulmana e a cristã): o neoplatonismo e o aristotelismo. O neoplatonismo, uma leitura de Platão surgida na Antiguidade tardia, vê toda a existência como resultado de uma 'emanação' a partir de um primeiro princípio espiritual puro; quanto mais distante da origem, mais material. A alma humana, de origem espiritual, pode se libertar do corpo e voltar à pureza, e parte da poesia de Gabirol exprime essas ideias.c6-neoplatonism
  1132. p. 171, p. 171O aristotelismo, mais influente, dominou a filosofia judaica medieval do século XII até bem dentro do período moderno inicial. Abraão ibn Daud, da Espanha, criticou o neoplatonismo de Gabirol, em Emunah Ramah, e desenvolveu em seu lugar um diálogo judaico com Aristóteles. Os pensadores judeus do mundo islâmico conheceram Aristóteles por traduções árabes de suas obras e de comentários gregos, e pela obra de filósofos islâmicos como al-Farabi, Avicena e, sobretudo, Averróis, nascido em Córdoba.c6-aristotelianism
  1133. p. 171, p. 171Os aristotélicos judeus diferiam dos adeptos da teologia racional (kalam) e dos neoplatônicos por estabelecerem um limite claro entre o conhecimento filosófico e o profético. Se pensadores como Saadia haviam sustentado que razão e fé sempre se conciliam, os aristotélicos afirmavam que eram dois conjuntos de conhecimento diferentes e que a filosofia devia operar sem considerar as verdades reveladas da Bíblia; só depois se poderia confrontar, e talvez harmonizar, filosofia e religião.c6-aristotelian-boundary
  1134. p. 171, p. 172A criação do mundo preocupava os aristotélicos judeus, como seus pares muçulmanos e cristãos: Aristóteles sustentava que o mundo era eterno, e a Bíblia ensina que Deus o criou. Alguns filósofos aceitavam um mundo eterno; outros tentavam defender a criação dentro do discurso filosófico. Maimônides rejeitou os argumentos do kalam em favor da criação, por falhos, e propôs sua própria teoria refutando a ideia aristotélica de universo eterno; Isaac Albalag, que vivia na Europa cristã no século XIII, aceitou o universo eterno como proposição mais razoável.c6-creation-debate
  1135. p. 172, p. 172, p. 521Judá ha-Levi (cerca de 1075 a 1141), nascido na Espanha cristã mas vivido quase sempre na al-Andalus muçulmana até partir para a Palestina em 1140, preocupava-se com as implicações da filosofia racional para o judaísmo rabínico. Escreveu em árabe um tratado, depois traduzido ao hebraico, conhecido como Sefer ha-Kuzari (Livro do Cázare), em defesa da fé desprezada contra o cristianismo, o Islã, os caraítas e, acima de tudo, a filosofia racional.c6-halevi-profile
  1136. p. 172, p. 172Ha-Levi enquadrou a defesa do judaísmo como um diálogo entre o rei dos cázaros e um rabino. A história é fictícia, embora a conversão da classe dirigente cázara ao judaísmo pareça fato histórico: o rei sonha que um anjo lhe diz que suas intenções são louváveis, mas seus atos não, e parte em busca da verdade. Convoca um filósofo, um cristão e um muçulmano, nenhum o convence, até que chama um rabino, que expõe os princípios do judaísmo.c6-kuzari-frame
  1137. p. 172, p. 172Pela voz do rabino, ha-Levi opõe o judaísmo à filosofia. Ao contrário de Saadia, para quem não havia contradição final entre filosofia racional e religião revelada, o Cuzari afirma uma diferença intransponível entre conhecimento filosófico e profético: só o povo judeu possui o espírito da profecia, e Deus se revelou especificamente a ele. Seu rabino nota, por exemplo, que Moisés não se apresentou ao faraó como enviado do Deus dos céus e da terra.c6-kuzari-vs-philosophy
  1138. p. 172, p. 172Grande parte do Cuzari enaltece as qualidades superiores do povo judeu, da Terra de Israel e do hebraico, e ha-Levi chega a dizer que o gentio que se une sinceramente a Israel compartilha sua boa sorte, mas não é igual a ele, pois não teria o espírito da profecia, transmitido de Abraão a Isaac e Jacó e ao povo como comunidade de descendência comum. Leitores modernos se incomodam com esse entendimento etnocêntrico (alguns dizem racista) da identidade judaica, o que não parece ter perturbado seus leitores medievais.c6-kuzari-ethnocentrism
  1139. p. 172, p. 172Preso entre o Islã e a cristandade, ha-Levi ansiava por Israel. Num famoso poema lamentou estar no extremo oeste com o coração no Oriente: Sião estaria atada por Edom, nome comum do cristianismo na literatura judaica medieval, isto é, os cruzados que haviam tomado a cidade santa e banido seus judeus, e ele pelas 'cadeias da Arábia', alusão aos tempos turbulentos sob os almorávidas. Ainda assim, foi representante da 'era de ouro' literária da Espanha judaica: chegaram até nós cerca de 800 poemas seus, inclusive poesia secular sobre vinho, amor e a beleza de rapazes e mulheres.c6-halevi-poem
  1140. p. 172, p. 173, p. 521A figura mais imponente do judaísmo medieval no mundo islâmico foi outro erudito de origem espanhola, Moisés Maimônides (Moshe ben Maimon, o Rambam, 1135 a 1204), nascido em Córdoba. Ele e a família foram forçados a deixar a Espanha durante a perseguição almóada: foram primeiro para Fez, e ele acabou se fixando no Cairo, onde foi médico a serviço da corte fatímida e ganhou poder dentro da comunidade judaica egípcia.c6-maimonides-intro
  1141. p. 172Nos processos mineiros, Novinsky registra cristãos-novos ligados à Bahia e ao Rio de Janeiro, além de Minas.c9-brazil-bahia-rio
  1142. p. 173, p. 173, p. 173Maimônides moldou a cultura judaica de três modos. Foi um dos filósofos mais notáveis (no interior da tendência dominante do aristotelismo judaico), expondo sua visão no Guia dos Perplexos, escrito em árabe. Escreveu em hebraico um clássico da lei judaica, o código abrangente Mishné Torá. E foi líder político, fundando o que viraria uma dinastia de liderança da comunidade judaica egípcia por várias gerações. Escreveu ainda aos judeus do Iêmen, advertindo-os contra os falsos messias.c6-maimonides-roles
  1143. p. 173, p. 173, p. 173O Guia dos Perplexos (escrito no fim dos anos 1180) tratou dos temas de todos os filósofos medievais: razão e profecia, criação, a lógica dos mandamentos, livre-arbítrio contra presciência divina, existência do mal e natureza de Deus. Maimônides reconheceu os limites da razão: só podemos saber o que Deus não é, e atribuir-lhe qualidades positivas seria erro filosófico. A linguagem antropomórfica da Bíblia devia ser lida como metáfora. O problema desse racionalismo é que o Deus dos aristotélicos permanecia esquivo, incognoscível e impessoal.c6-guide-themes
  1144. p. 173, p. 173, p. 173Saadia distinguia mandamentos compreensíveis pela razão e os aceitos só por autoridade da revelação, como as leis cerimoniais dos sacrifícios. Maimônides discordava: todos os mandamentos divinos podem ser derivados pela razão, embora a lei cujo motivo não se descobre deva ser cumprida por inteiro. Em sua explicação ousada, os sacrifícios do Templo foram essencialmente uma concessão aos costumes da época, pois a natureza humana gosta do que lhe é habitual.c6-commandments-reason
  1145. p. 173, p. 173Tal explicação histórica e racional levantava a pergunta de por que continuar praticando os mandamentos uma vez entendido seu sentido filosófico. Maimônides via o perigo do estudo filosófico: o Guia não se destinava aos 'vulgares' ou iniciantes, nem a quem só estudou a ciência da Lei, pois a filosofia era o maior grau de compreensão, mas perigosa para quem não tivesse preparo e pudesse se desviar da lei e da tradição. Ele a comparou à água: quem sabe nadar tira pérolas do fundo do mar; quem não sabe, se afoga.c6-maimonides-danger
  1146. p. 174, p. 174No mundo cultural islâmico, a obra filosófica de Maimônides foi muito respeitada. Depois que Samuel ibn Tibbon traduziu o Guia do árabe para o hebraico, em 1204, ela chegou também aos leitores judeus da Europa cristã. Alguns abraçaram a filosofia racional, e o pensamento aristotélico judaico floresceu entre eruditos do norte da Espanha e do sul da França, sendo Levi ben Gershon (Gersônides), da Provença do século XIV, o exemplo mais notável.c6-guide-translation
  1147. p. 174, p. 174, p. 175Outros viram a filosofia de Maimônides como ameaça perigosa à tradição judaica. Nos anos 1230 uma grande controvérsia eclodiu entre intelectuais judeus da Espanha e da França, com excomunhões e contraexcomunhões entre partidários e adversários de Maimônides; a polêmica reacendeu no início dos anos 1300, quando os adversários decretaram uma proibição de estudar filosofia e ciência abaixo dos 25 anos. A medida mal podia ser aplicada, até porque o decreto isentava estudantes de medicina.c6-maimonidean-controversy
  1148. p. 174A legenda da Figura 6.2 apresenta a estátua de Maimônides (1135 a 1204) em Córdoba, onde nasceu, como o eminente erudito medieval de direito rabínico e filósofo.c6-statue-caption
  1149. p. 175, p. 175Um texto de Joseph ben Judá ibn Aknin, escrito em árabe por volta de 1180, traça um plano de estudos até os 20 anos que começa pelas fontes judaicas tradicionais e sobe até a filosofia e a ciência gregas: leitura e escrita; Pentateuco, Profetas e Escritos com atenção à vocalização, depois a Mishná até os dez anos e a gramática hebraica; Talmud a partir dos 15, com compreensão mais profunda e pensamento independente aos 18; poesia religiosa e de beleza.c6-aknin-curriculum
  1150. p. 175, p. 175Só quando o Talmude estava firmemente assimilado vinham as observações filosóficas sobre a religião (a refutação dos erros de apóstatas e hereges) e depois a filosofia, em três grupos (ciências matemáticas, ciências naturais e metafísica), todos precedidos pela lógica, que serve de instrumento e mantém em ordem as faculdades mentais.c6-aknin-philosophy
  1151. p. 175, p. 175Durante grande parte do período medieval e moderno inicial, até o Iluminismo judaico redescobrir sua obra filosófica no século XVIII, Maimônides foi associado sobretudo ao Mishné Torá ('repetição da lei'). Não foi o primeiro rabino medieval a compor um compêndio abrangente da lei judaica: Isaac Alfasi, chefe da academia rabínica de Lucena, perto de Córdoba, fizera isso um século antes.c6-mishneh-torah-reputation
  1152. p. 175, p. 175O Mishné Torá foi, mesmo assim, uma grande inovação. Maimônides escreveu num hebraico claro, modelado na língua da Mishná, para alcançar o público mais amplo possível; reorganizou o vasto material da literatura rabínica clássica em capítulos por assunto, tornando o código mais acessível; e abriu mão da ambiguidade e do vaivém argumentativo típicos do Talmude, apresentando de forma concisa decisões jurídicas claras. Embora a lei judaica de hoje às vezes difira de suas decisões, a obra segue como uma das grandes da literatura rabínica medieval.c6-mishneh-torah-innovations
  1153. p. 176, p. 176, p. 176O estudo da Bíblia também viu muita inovação na Idade Média, e de novo al-Andalus foi um grande centro. Surgiu o comentário corrido ao texto bíblico, muitos ainda impressos na edição judaica tradicional chamada Mikraot Gedolot ('Grandes Escrituras'). Dois modos de interpretar se destacam: derash, que busca ir além do sentido explícito e extrair significados latentes sugeridos pela gramática, pela escolha de palavras ou pela grafia; e peshat, o sentido simples, que procura entender o texto em seu contexto literário e linguístico.c6-bible-commentary
  1154. p. 176, p. 176Os comentaristas fizeram grandes avanços na compreensão do peshat com as ferramentas de estudo gramatical e filológico que aprenderam com os estudiosos muçulmanos, que desenvolveram esses campos estudando o Alcorão. Apoiar-se no peshat era útil também contra leituras rivais, como as de teólogos cristãos, pois seus princípios eram compartilhados por todas as religiões, ao contrário do midrash judaico, mais figurado, ou das leituras cristológicas.c6-peshat-muslim-tools
  1155. p. 176, p. 176, p. 176, p. 521Um dos comentaristas mais famosos foi Abraão ibn Ezra (1089 a 1164), amigo próximo de Judá ha-Levi, que recorreu à ciência gramatical árabe para extrair racionalmente o sentido contextual da Bíblia. Também poeta, filósofo, matemático e astrônomo, é lembrado sobretudo por seu comentário, o primeiro do mundo islâmico escrito em hebraico, e não em árabe. Buscou um meio-termo entre quem se apoiava no midrash e quem queria entender a Bíblia só pela razão; algumas de suas sugestões, como a de que a segunda metade de Isaías foi escrita depois do exílio, antecipam a pesquisa bíblica moderna.c6-ibn-ezra
  1156. p. 176, p. 176A necessidade de comentário mostra a mescla peculiar de conservadorismo e inovação da Idade Média judaica, inovação fomentada pelo encontro com a cultura intelectual islâmica. A maior parte da Bíblia tinha mais de mil anos, e o Talmude era ainda mais difícil de compreender. Pela razão, os comentaristas desvendaram os enigmas desses textos, enquanto Maimônides buscou cortar a complexa estrutura dos argumentos talmúdicos para chegar a um resumo claro e, a seu ver, racional da Torá Oral. Filosofia, poesia e comentário bíblico mostram o tradicionalismo religioso dos judeus e sua abertura a ideias externas.c6-commentary-mix
  1157. p. 176, p. 176A maioria dos judeus medievais não era de poetas nem de filósofos, e a vida da pessoa comum quase não era moldada pelos debates entre aristotélicos como Maimônides e seus críticos. Por sorte, uma enorme quantidade de documentos medievais sobreviveu num depósito de uma sinagoga do Velho Cairo e permite entrever o cotidiano dos judeus do mundo islâmico entre os séculos X e XII.c6-ordinary-lives
  1158. p. 176, p. 176Já no século X, quando abundam os registros da Genizá, dois desenvolvimentos demográficos haviam remodelado o mundo judaico: a migração de leste a oeste, que levou ao declínio relativo da Babilônia e à ascensão de novos centros no Egito, no Norte da África e na Espanha; e a urbanização. Na Babilônia pré-islâmica muitos judeus ainda viviam no campo, mas a conquista islâmica iniciou um deslocamento gradual para as cidades, em parte pelos impostos especiais sobre proprietários de terra não muçulmanos, em parte pelas oportunidades dos centros cosmopolitas.c6-urbanization
  1159. p. 177, p. 177Ainda se encontram judeus donos de pomares, campos ou rebanhos nos séculos X e XI, mas em geral usavam agentes locais para cuidar das terras. Em essência, tornara-se uma comunidade urbana e, pelas evidências da Genizá, altamente móvel. Centenas de cartas mostram comerciantes judeus de Sijilmasa, no Marrocos, ou de Sevilha, na Espanha, em contato estreito com seus pares no Cairo e até em Samarcanda, em Constantinopla e nos portos da Índia.c6-urban-mobile
  1160. p. 177, p. 177, p. 178Uma grande família de comerciantes merece destaque, embora atípica pela escala: os radanitas, que negociavam tecidos de seda, escravos, peles e espadas e tinham negócios que chegavam à Europa e à China. Um cronista muçulmano os descreveu: falavam árabe, persa, grego, franco, andaluz e eslavo e viajavam de Ocidente a Oriente por terra e por mar, passando pelo Egito e pelo mar Vermelho rumo à Índia e à China, de onde traziam almíscar, madeira de aloés, cânfora e canela. O Mapa 6.3 mostra seu circuito.c6-radhanites
  1161. p. 177, p. 177O domínio islâmico favoreceu esse comércio de longo alcance, ao introduzir embarcações novas e mais seguras, construir mais faróis e unir, sob uma cultura islâmica de língua árabe, um território que ia da costa atlântica à Índia. Mesmo depois do fim do califado abássida, as fronteiras políticas não romperam de forma permanente o que se poderia chamar, em linguagem anacrônica, de uma vasta área de livre comércio.c6-islamic-trade
  1162. p. 177, p. 177A maioria dos comerciantes judeus operava em escala mais modesta, mas a Genizá guarda muitos documentos de famílias que mantinham relações comerciais estreitas com judeus de outras terras. Os sócios eram muitas vezes parentes, e a política de casamentos também servia para formar alianças entre famílias de diferentes lugares. Não era uma operação exclusivamente judaica: as cartas mencionam cooperação com comerciantes muçulmanos, sobretudo na organização das viagens por terra, em geral em caravanas.c6-merchant-networks
  1163. p. 177, p. 177, p. 177O comércio de luxo expunha os judeus à extorsão, pois podiam ser acusados de subverter a condição de inferioridade da dhimma. Uma carta do início do século XI dos irmãos Taherti, de Qayrawan, na Tunísia, aos irmãos Tustari, no Cairo, pede que se comprem de novo mantos que um homem lhe tomou à força. Segundo Goitein, Taherti provavelmente foi obrigado a vender as peças a um muçulmano, talvez um concorrente, que talvez o tenha ameaçado de invocar o Pacto de Umar e denunciá-lo por vestir roupas luxuosas. Isso não o impediu de confiar suas mercadorias a caravanas de comerciantes muçulmanos.c6-taherti-letter
  1164. p. 177, p. 177, p. 179Na segunda metade do século XII, um judeu convertido anônimo de Toledo escreveu uma defesa da Trindade, da Encarnação e do cumprimento das profecias; a obra só sobrevive porque um polemista muçulmano de Córdova (al-Imam al-Qurtubi) a refutou. Skarsaune o situa no círculo toledano de tradutores e polemistas, depois de Pedro Afonso e antes da virada dominicana do século XIII.cjb-toledo-anonymous-convert
  1165. p. 177Nulman situa Ayn Kaylohaynu no Sidur pioneiro atribuído a Rav Amram (por volta de 875), já na forma presente na época de Rashi; Rashi diz que foi prescrito para o Shabat porque a Tefilá tem só sete bênçãos em vez de dezoito/dezenove.cl-ein-keloheinu-amram
  1166. p. 178, p. 178Costuma-se dizer que as comunidades judaicas tinham autonomia jurídica sob o Islã. Mas, pelas condições refletidas na Genizá, cada dhimmi era pessoalmente responsável por pagar sua capitação ao Estado; o governo consultava líderes cristãos e judeus ao avaliar a carga tributária total, mas não era a comunidade que cobrava o imposto (a prática pode ter sido diferente em outros lugares e épocas).c6-poll-tax-individual
  1167. p. 178, p. 178, p. 178Os tribunais islâmicos se envolviam com frequência em assuntos internos dos judeus. O governo muçulmano, por exemplo, confiscava parte da herança de um judeu que deixasse apenas herdeiras, pois pela lei islâmica uma filha nunca herdava mais que metade do patrimônio do pai, enquanto pela judaica teria direito a tudo. Mas os judeus também recorriam por iniciativa própria aos tribunais muçulmanos, quando as diferenças entre as leis de herança os beneficiavam, e para registrar contratos, como a venda de uma casa.c6-islamic-courts
  1168. p. 178, p. 178, p. 178Alguns indivíduos desafiaram diretamente a autoridade dos rabinos levando seu caso a um juiz muçulmano. No tempo de Maimônides, um judeu cohen, proibido pela lei judaica de casar com uma divorciada, contraiu o casamento perante um juiz muçulmano. Quando líderes comunitários quiseram reduzir os acréscimos poéticos à liturgia, seus adversários não hesitaram em envolver as autoridades muçulmanas; e os opositores das reformas de Abraão Maimônides, filho de Moisés, na sinagoga do Cairo (nova disposição dos assentos, fim de almofadas, revisão da liturgia) denunciaram o plano ao sultão.c6-challenge-rabbis
  1169. p. 178, p. 178Cooperação entre comerciantes e até sociedades estáveis entre membros de religiões diferentes eram comuns. Sem restrições de moradia, judeus e muçulmanos muitas vezes eram vizinhos e, falando a mesma língua, o árabe, tinham muitos contatos no dia a dia. No século XII, Benjamin de Tudela, viajante judeu da Europa cristã, visitou muitas cidades do Oriente Médio e escreveu um extenso relato de viagem.c6-neighbors
  1170. p. 179, p. 179Benjamin notou com espanto que judeus e muçulmanos pareciam até compartilhar práticas religiosas, como a veneração de túmulos de santos. Na peregrinação ao túmulo do profeta Ezequiel, na Babilônia, entre o Ano-Novo e o Dia da Expiação, havia grande alegria entre os judeus; o chefe da diáspora e os chefes das academias vinham de Bagdá, mercadores árabes acorriam e distintos muçulmanos também iam rezar, tão grande era seu amor pelo profeta.c6-ezekiel-tomb
  1171. p. 179, p. 179, p. 179Isso não quer dizer que uma comunidade como a do Cairo medieval não conhecesse tensões. As cartas judeo-árabes da Genizá cunharam um termo, sinut (palavra de origem hebraica ausente da Bíblia e da literatura talmúdica), para designar o ódio antijudaico. Maimônides, respeitado médico da corte e chefe da comunidade judaica do Egito, observou numa carta aos judeus do Iêmen que Deus os lançara no meio do povo de Ismael, que os persegue duramente e inventa meios de prejudicá-los e rebaixá-los. Os judeus da era da Genizá conheceram, então, tempos bons e maus.c6-sinut
  1172. p. 179, p. 179Um aspecto do comércio judaico merece atenção por seu papel em acusações antissemitas: o tráfico de escravos. A acusação de que os judeus dominaram o tráfico em tempos históricos é uma distorção deliberada da história, embora seja verdade que judeus do mundo islâmico participaram dele, como muçulmanos e cristãos da mesma época, todos negociando e possuindo escravos.c6-slave-trade-distortion
  1173. p. 179, p. 179O que talvez distinguisse a posse de escravos por judeus eram as questões jurídicas geradas pela possibilidade de conversão ao judaísmo. A lei bíblica distinguia escravos israelitas e não israelitas, e os primeiros tinham proteções que os outros não tinham, o que dava aos escravos não judeus um incentivo para se converter. Era proibido ao senhor forçar a conversão, mas o escravo podia converter-se por vontade própria, e isso, ao que parece, era para alguns um caminho para a alforria, o que explica por que os cristãos procuraram proibir judeus de possuir escravos cristãos.c6-slave-conversion
  1174. p. 179, p. 179Grande parte da comunidade judaica, no Cairo medieval como em outros lugares, era muito pobre. Na época o governo não se ocupava de assistência social, embora membros de destaque da corte fizessem doações piedosas para os pobres em caráter privado, e a comunidade também procurava atenuar a pobreza. No Mishné Torá, Maimônides determinou que se desse ao pobre o que lhe faltava (roupas, móveis, ajuda para casar); a forma mais elevada de caridade era dar ao outro judeu uma oportunidade de ganhar seu próprio sustento.c6-poverty-charity
  1175. p. 179, p. 179, p. 180Um desafio frequente era sustentar estrangeiros pobres, como refugiados que chegavam ao Cairo em busca de vida melhor; uma carta de súplica da Genizá, de um homem de Rahba, no Iraque, mostra que essas esperanças às vezes se frustravam. Outro era apoiar comunidades de outros lugares, sobretudo na Terra Santa, e pagar resgate por judeus capturados por piratas. Uma carta de Alexandria ao Velho Cairo, de meados do século XI, trata de três cativos que bizantinos haviam despojado: faltavam quarenta dos cinquenta dinares necessários, e se pedia que as comunidades de Fustat os assumissem.c6-refugees-captives
  1176. p. 180, p. 180A pirataria era só um dos perigos das viagens, e muitos comerciantes de longa distância morreram a trabalho. Maimônides lamentou por muito tempo a morte do irmão David, comerciante afogado no oceano Índico. Um problema frequente era o destino das esposas deixadas para trás: se o marido não voltava e não havia prova de morte, a mulher ficava presa a ele, sem poder casar de novo nem cobrar o valor de seu contrato de casamento, tornando-se uma agunah. Entre muçulmanos e judeus era comum o marido conceder à esposa um divórcio condicional antes de partir.c6-travel-agunah
  1177. p. 180, p. 180, p. 180O casamento era em geral um acordo entre duas famílias, que servia aos interesses econômicos de ambas, e a endogamia, sobretudo entre primos de primeiro grau, era frequente, pois preservava o capital (o dote) dentro da família ampliada. A escolha do cônjuge costumava ser do pai da noiva, mas há casos de noivas que desafiaram os planos alheios, e legalmente uma mulher não podia ser casada contra a vontade. Uma carta da Genizá conta o caso de Rebeca, uma jovem caraíta em Jerusalém, disputada por dois homens, que acabou decidindo não se casar com nenhum deles.c6-marriage-families
  1178. p. 180, p. 180, p. 180O casamento judaico medieval se formalizava em etapas: os pais escolhiam os futuros cônjuges e acertavam os termos; depois vinham o noivado, em que as famílias se comprometiam com o contrato (e só um divórcio o desfazia), e o casamento propriamente dito, sob o dossel (huppah), logo combinados em uma só cerimônia. O contrato de casamento, a ketubá, obrigava marido e esposa a zelar um pelo bem-estar do outro; muitas eram formulaicas, como as de hoje, mas as caraítas, ou as de casamentos mistos com rabinitas, eram mais personalizadas e detalhadas.c6-marriage-stages
  1179. p. 180, p. 180No mundo islâmico a poligamia continuava permitida, ao passo que a monogamia já era a norma entre os judeus da Europa cristã. As comunidades judaicas do Islã achavam natural que um marido tivesse mais de uma esposa, desde que sustentasse todas, mas na prática isso parece ter sido pouco comum, e a maioria das famílias tinha marido, esposa e, segundo uma estimativa aproximada com base na Genizá, quatro filhos em média. Era frequente que divorciadas ou viúvas se casassem de novo: quase metade (45%) das mulheres dos documentos se casou mais de uma vez.c6-polygamy-remarriage
  1180. p. 180Gerber descreve judeus e conversos nas colônias espanholas assinando como capitães ou tripulação e, com frequência, desembarcando co-religionários ou saltando navio na América do Sul; capitães judeus conheciam enseadas secretas para passageiros e mercadorias ilegais.c-h502-gerber-new-world-secret-coves
  1181. p. 181, p. 181Era uma sociedade patriarcal, na qual a maioria das mulheres dependia dos homens (pais e maridos) para o sustento, e só poucas, como uma viúva rica, podiam viver sozinhas e participar da vida econômica da cidade. Isso não significa que não tivessem papel econômico: algumas possuíam imóveis que alugavam, emprestavam dinheiro ou entravam em sociedades comerciais.c6-women-economic
  1182. p. 181, p. 181, p. 181As mulheres que saíam de casa deviam cobrir o cabelo e se vestir com modéstia, mas, ao contrário das muçulmanas, não eram obrigadas a usar véu no rosto. Não ficavam confinadas ao lar: as sinagogas do Cairo medieval tinham galerias femininas e o comparecimento delas parecia comum, embora fossem excluídas da participação ativa no culto. Sabiam em geral as orações hebraicas básicas, mas poucas tinham educação formal, e o estudo da Bíblia e da lei rabínica era privilégio dos homens. Havia exceções, como um poema da Genizá atribuído à esposa de Dunash ben Labrat, de nome desconhecido, e as mulheres iam aos banhos públicos e viajavam, muitas vezes sem o marido.c6-women-public-life
  1183. p. 181, p. 181Como na Antiguidade tardia, a sinagoga continuava a instituição comunitária central: lugar de oração e leitura da Torá, mas também foco de todos os assuntos comunitários. Ali reuniam-se o tribunal rabínico, davam-se aulas às crianças, hospedavam-se viajantes e distribuía-se a caridade pública: no Cairo, pão aos pobres duas vezes por semana e, ocasionalmente, trigo, roupas ou dinheiro. As subcomunidades mantinham sinagogas próprias (babilônica, palestina, caraíta), embora a divisão não fosse tão nítida e as pessoas às vezes passassem de uma congregação a outra.c6-synagogue-center
  1184. p. 181, p. 181Principal espaço público da comunidade, a sinagoga era onde as hierarquias sociais se exibiam (na disposição dos assentos, por exemplo) e onde se proclamavam banimentos contra transgressores da autoridade rabínica. Era também o lugar onde os indivíduos, mulheres inclusive, tinham o direito de expor suas queixas se se sentissem prejudicados pelo sistema legal e, em casos excepcionais, de interromper a oração pública para falar diante de toda a comunidade.c6-synagogue-voice
  1185. p. 181, p. 181, p. 181As cartas de comerciantes da Genizá distinguem claramente as terras do Islã e os países cristãos da Europa, tanto o Império Bizantino quanto o Ocidente, mas isso não indica uma fronteira impermeável: comerciantes judeus do Norte da Europa e de Bizâncio aparecem com frequência nos documentos. Houve viagens também em sentido contrário: um viajante judeu da Espanha no século X, Ibrahim b. Ya'qub, espantou-se de achar sem dificuldade em Mainz especiarias da Índia e do Extremo Oriente, trazidas pelas rotas do mundo muçulmano, e de encontrar um homem capaz de traduzir do árabe para o hebraico um manuscrito sobre a cantilação da Bíblia.c6-islam-christendom-border
  1186. p. 181Os autores concluem que não se deve exagerar a divisão entre os judeus que viviam 'sob o Crescente' e os que viviam 'sob a Cruz'. É para estes últimos, as comunidades judaicas cada vez mais importantes da Europa cristã, que o livro se volta no capítulo seguinte.c6-crescent-and-cross
  1187. p. 182, p. 182Langer resume que a bênção maior após a refeição segue a ordem dos verbos de Dt 8:10 (comer, saciar-se, louvar); após refeição com pão vem a Birkat HaMazon em quatro parágrafos, o último acrescentado pelos rabinos após o fracasso de Bar Kokhba (135 EC).cl-birkat-hamazon-dt810-model
  1188. p. 183, p. 183Dividir o mundo judaico medieval entre as terras do Islã e as da cristandade tem seus problemas. As comunidades dos dois lados tinham muito em comum: seu estatuto legal derivava em parte do precedente do direito romano, e o contato cultural entre elas era frequente, de modo que se influenciavam mutuamente.c7-division-problems
  1189. p. 183, p. 183O Talmude babilônico, produzido pelas academias da Babilônia e difundido pela Diáspora na era do Império Islâmico, tornou-se a obra de referência por excelência da cultura rabínica (embora nunca a única) pelas mãos dos sábios da Europa setentrional medieval, a começar por Rashi (1040 a 1105). Nas palavras da historiadora Talya Fishman, os judeus passaram a ser o 'povo do Talmude'.c7-talmud-people
  1190. p. 183A Espanha, fronteira e campo de batalha entre o Islã e a cristandade ocidental durante boa parte da Idade Média, é outro caso em que a distinção nítida entre judeus do mundo muçulmano e do mundo cristão pouco ajuda a entender a experiência de quem vivia ali.c7-spain-blurs
  1191. p. 183, p. 183As diferenças internas em cada área eram grandes. O que teriam em comum os mercadores judeus isolados do Império Carolíngio e as comunidades urbanas seculares de Constantinopla ou de Roma? E a comunidade do Cairo, tão bem documentada pela Genizá, teria vivido como os judeus de tantos outros lugares do mundo islâmico, sobre os quais sabemos muito pouco?c7-internal-diversity
  1192. p. 183Circunstâncias e contingências locais costumavam definir o dia a dia dos judeus medievais, e qualquer quadro amplo precisa simplificar uma realidade complexa e em constante mudança.c7-local-circumstances
  1193. p. 183, p. 183A relação entre cristianismo e judaísmo era singular e produziu um encontro particularmente íntimo e propenso à tensão e até à violência. Os cristãos reconheciam a Bíblia judaica como parte de suas escrituras (o 'Antigo Testamento') e se viam como o 'novo Israel', que substituíra os judeus como povo eleito, e isso moldou sua relação com a religião mais antiga.c7-christian-jewish-bond
  1194. p. 183, p. 183Judeus e cristãos queriam traçar fronteiras sociais e teológicas entre suas comunidades, mas também se influenciaram. Que o diálogo viesse quase sempre em forma de polêmica ou sob a sombra da violência não deve ocultar que a cultura cristã medieval se construiu, em aspectos importantes, como resposta direta ao judaísmo, e que o judaísmo também foi moldado pelo contato com o cristianismo.c7-mutual-shaping
  1195. p. 183, p. 184Salo Baron denunciou a tendência 'lacrimosa' de boa parte da historiografia judaica: a visão que entendia a história medieval como uma sucessão de perseguições, das Cruzadas à Peste Negra, e a sociedade judaica como condenada desde o início e encerrada por uma série de expulsões. Essa visão pessimista, dizem os autores, não faz justiça a séculos de vida e florescimento cultural judaicos na Europa medieval.c7-lachrymose
  1196. p. 184, p. 184A violência, mesmo extrema, existiu, e a hostilidade cristã contra os judeus não deve ser banalizada. Mas nem a vida judaica nem as relações entre judeus e cristãos podem ser reduzidas a essas catástrofes, e o foco no lado negativo tampouco explica por que as comunidades da Europa cristã acabariam superando, em proporção da população judaica mundial, as do mundo islâmico.c7-violence-real
  1197. p. 184, p. 184Qualquer número de população para a Idade Média é só uma estimativa grosseira. Viajantes judeus como Benjamin de Tudela, no século XII, e outras fontes judaicas e não judaicas trazem números, mas em geral não são confiáveis. A 'estimativa' moderna de Salo Baron serve apenas como ordem de grandeza.c7-pop-unreliable
  1198. p. 184Pela estimativa de Baron, por volta de 1300 a França e o 'Sacro Império' (sobretudo terras germanófonas da Europa Central) tinham cerca de 100 mil judeus cada uma.c7-pop-1300
  1199. p. 184, p. 184Por volta de 1490, a população judaica da França caíra para 20 mil (pela expulsão de boa parte do país no século XIV) e a do Império para 80 mil. No sul da Europa, ao contrário, crescera: a Itália passou de 50 mil para 120 mil, a Espanha de 150 mil para 250 mil e Portugal de 40 mil para 80 mil, antes da expulsão da Espanha, em 1492.c7-pop-1490
  1200. p. 184, p. 184A Europa Oriental teve crescimento espetacular da população judaica, sobretudo por imigração da França e das terras germanófonas: a Polônia-Lituânia passou de cerca de 5 mil judeus em 1300 para 30 mil em 1490, e a Hungria de 5 mil para 20 mil. Para comparação, calcula-se entre 20 e 40 mil judeus no Egito do século XII.c7-pop-east
  1201. p. 184, p. 184Apesar da enorme margem de erro, os números mostram uma tendência de expansão demográfica judaica na Europa, exceto nos países que expulsaram os judeus. Em nenhum reino medieval, salvo a Espanha, eles passaram de 1% da população total, embora fossem muitas vezes parcela bem maior da população urbana.c7-pop-trend
  1202. p. 184, p. 184Por causa de seu legado para as culturas judaicas posteriores, a narrativa do capítulo se concentra em duas áreas: Ashkenaz (norte da França e Império Germânico) e Sefarad (os reinos cristãos da Espanha medieval), com atenção também à Itália e a outras regiões, como o Império Bizantino.c7-focus
  1203. p. 184, p. 184, p. 185A atitude cristã diante do judaísmo e dos judeus sempre foi ambígua. Duas cartas do apóstolo Paulo, no século I, mostram isso: aos Romanos, o tropeço dos judeus não é definitivo, Deus não os rejeitou por completo e, no fim dos tempos, eles voltarão a ocupar seu lugar de povo escolhido.c7-paul-ambiguity
  1204. p. 185, p. 185A carta aos Gálatas fala outra língua: o vínculo de Deus com os cristãos teria substituído a antiga aliança com os judeus. Paulo equipara os cristãos aos descendentes de Isaac e relega os judeus ao lugar de Ismael, expulso com Agar para o deserto, sugerindo que os vestígios do judaísmo precisavam ser removidos para que a nova fé se cumprisse.c7-paul-galatians
  1205. p. 185, p. 185A cristandade medieval oscilou entre dois polos: os judeus eram vistos como vivendo no erro, mas indispensáveis, e portanto com lugar na sociedade cristã; ou como ameaça potencial à pureza da fé e da sociedade. Para a maior parte do período prevaleceu a postura pragmática e tolerante, mas a visão alternativa de Gálatas estava sempre à mão para ser posta em prática.c7-two-poles
  1206. p. 185, p. 185Agostinho (354 a 430), considerado fundador do cristianismo ocidental, fixou a atitude que se tornou dominante. Citando o Salmo 59:12 ('Não os mates, para que meu povo não esqueça'), argumentou que os judeus tinham papel importante na sociedade cristã e deviam ser tolerados como 'testemunhas' da verdade do cristianismo: atestavam a antiguidade da profecia bíblica, que os cristãos liam como anúncio de Jesus.c7-augustine-witness
  1207. p. 185, p. 185Para Agostinho, a vida dos judeus como minoria discriminada e dispersa provava que haviam sido punidos por rejeitar Jesus e mostrava como é viver sem a graça. Ele contrapunha o judaísmo 'carnal', preso à lei, ao cristianismo 'espiritual', libertado pela graça: o destino judaico era prova viva da verdade da cristandade.c7-augustine-foil
  1208. p. 185, p. 185Essa construção teológica foi adotada por líderes posteriores da Igreja e traduziu-se, no direito medieval, numa tolerância básica dos judeus, mas não em 'tolerância' no sentido moderno. O papa Gregório I (590 a 604) declarou que os judeus não deviam ser reprimidos injustamente nem sofrer injustiça; o equilíbrio era impor restrições e uma posição inferior sem tratá-los de forma arbitrária.c7-toleration
  1209. p. 185, p. 185O cânon Sicut Iudaeis non, emitido pela primeira vez no século XII e repetido por quase todos os papas depois, fixou de novo esse equilíbrio agostiniano: prescrevia uma posição inferior para os judeus, mas dava-lhes garantias e proteções legais básicas. O tratamento diferia radicalmente do dado a outras religiões, sobretudo o Islã, visto como inimigo da cristandade.c7-sicut-iudaeis
  1210. p. 185Numa carta de 1063, o papa Alexandre II expressou o contraste: a questão dos judeus era totalmente diferente da dos sarracenos (muçulmanos), pois estes faziam guerra ativa contra os cristãos, enquanto os judeus estavam por toda parte prontos a se submeter.c7-alexander-ii
  1211. p. 185, p. 185O lugar peculiar dos judeus era comunicado também por imagens: esculturas de fachadas de igrejas, vitrais e manuscritos iluminados mostravam duas mulheres, Ecclesia (a cristandade) e Synagoga (os judeus). A Synagoga, de cabeça baixa, cetro quebrado e olhos vendados, simboliza a punição divina; a Ecclesia, orgulhosa, coroada e de cetro intacto, o triunfo cristão. Uma figura exige a outra: a mensagem só surge do contraste.c7-ecclesia-synagoga
  1212. p. 185, p. 185O cristianismo começou como religião de uma pequena minoria no Império Romano. Só em 313 o imperador Constantino tornou-se cristão, e o cristianismo acabou virando religião oficial. O processo não foi linear: Juliano, o último imperador pagão, que reinou brevemente no início dos anos 360, tentou sem sucesso reverter a cristianização do Império.c7-constantine-julian
  1213. p. 186, p. 186O direito imperial romano reconhecia desde longa data o estatuto do judaísmo, e os judeus eram cidadãos do Império. A revolta contra Roma na Judeia, no século I, não alterou a posição legal dos judeus em outros lugares. Mesmo depois da cristianização, os interesses do Estado e da Igreja nunca se alinharam perfeitamente, e durante toda a Idade Média os dois disputaram a autoridade sobre os judeus.c7-roman-law-status
  1214. p. 186, p. 186Em 388, um bispo na Mesopotâmia permitiu a queima de uma sinagoga. O imperador Teodósio I o repreendeu e mandou reconstruí-la, o que irritou Ambrósio, bispo de Milão, que o excomungou. O imperador cedeu a princípio, mas poucos anos depois declarou crime grave todo ataque a sinagogas.c7-theodosius-388
  1215. p. 186, p. 186Nos anos 430, Teodósio II (408 a 450) redefiniu o estatuto dos judeus segundo a nova realidade do Império cristão. O Código Teodosiano reafirmou a cidadania judaica e a proteção contra a anulação arbitrária de seus direitos, mas agrupou 'judeus, samaritanos, hereges e pagãos' numa mesma seção e impôs novas restrições.c7-theodosian-code
  1216. p. 186, p. 186Pelo Código, os judeus não podiam ocupar cargos públicos nem exercer autoridade sobre cristãos, nem construir novas sinagogas, nem converter cristãos ao judaísmo, sob pena de morte e perda dos bens.c7-theodosian-restrictions
  1217. p. 186, p. 186Códigos imperiais posteriores, como o de Justiniano (527 a 565), no Império Romano do Oriente (bizantino), trouxeram mais restrições. Como Justiniano se via como chefe da Igreja e do Estado, seu código minou ainda mais a situação dos judeus, que perderam qualquer autonomia legal e cujo testemunho contra cristãos deixou de ser aceito em tribunal.c7-justinian
  1218. p. 186, p. 186Diocleciano dividiu o Império Romano em duas partes em 286 d.C.; a ocidental caiu sob invasões do norte, e o último imperador, Rômulo Augusto, foi deposto em 476. Novos reinos dinásticos surgiram na Espanha, Inglaterra, França e outras regiões. No ano 800, Carlos Magno foi coroado imperador pelo papa; após a morte de seu filho Luís, o Piedoso, em 840, o império se dividiu em três, e a parte oriental ficou conhecida como Sacro Império.c7-roman-fall-carolingians
  1219. p. 186, p. 186No Império Carolíngio os judeus mantiveram os direitos coletivos que tinham no direito romano. Os imperadores, em especial Luís, o Piedoso, foram além e concederam privilégios a mercadores judeus individuais, com direitos e proteção especiais para estimular o comércio.c7-carolingian-privileges
  1220. p. 186, p. 186Uma carta carolíngia típica tomou sob proteção real um certo R. Domatus e seu sobrinho Samuel: isentava-os de impostos, taxas de residência e pedágios, permitia-lhes comerciar e vender seus bens, viver segundo suas próprias leis e contratar trabalhadores cristãos (exceto em festas cristãs e domingos). Previa regras de testemunho em litígios com cristãos e uma multa de dez libras de ouro ao palácio por quem os matasse, enquanto permanecessem fiéis ao imperador.c7-carolingian-charter
  1221. p. 186, p. 186A carta registra queixas dos judeus contra cristãos que induziam escravos de judeus a se batizar para se libertar de seus senhores. O imperador tomou o partido dos judeus nessa questão, decretando que ninguém batizasse o escravo de um judeu sem o consentimento do dono.c7-slave-baptism
  1222. p. 186, p. 187Esses amplos direitos provocaram a ira de líderes da Igreja como Agobardo, bispo de Lyon, que em 833 se juntou a uma rebelião contra Luís, o Piedoso. Agobardo denunciou o decreto como contrário à lei da Igreja, que insistia na inferioridade dos judeus e proibia qualquer confraternização com eles, e proibia que quem confraternizasse e comesse com judeus partisse o pão com os padres.c7-agobard
  1223. p. 187A figura 7.1 do livro mostra estátuas medievais da Igreja (mulher orgulhosa e vitoriosa) e da sinagoga (mulher vendada com cetro quebrado), de uma catedral alemã do século XIII, em Bamberg; imagens semelhantes apareciam em muitos outros lugares da Europa cristã, como Notre-Dame de Paris.c7-bamberg-figure
  1224. p. 187, p. 187Até cerca do século X, os judeus do Império Carolíngio tinham coletivamente um estatuto legal informado pela herança do direito romano. Com o tempo, esse estatuto se erodiu, e as cartas de privilégio, antes concedidas a mercadores individuais, passaram a ser o único fundamento da existência judaica no Império.c7-carolingian-erosion
  1225. p. 187, p. 188Como observou o historiador Kenneth Stow, a partir do fim do século XI os judeus deixaram de residir num território por direito inerente: a residência passou a depender de uma carta que o governante concedia a toda a comunidade. Os termos eram às vezes bastante benéficos, mas agora a comunidade inteira dependia de privilégios, e os judeus, que tinham um estatuto inerente no direito romano, passaram a depender de benfeitores individuais.c7-stow-charter
  1226. p. 188, p. 188Com a fragmentação do poder político no Sacro Império, no fim do século XI eram governantes locais, e não as autoridades imperiais centrais, que concediam privilégios aos judeus, sendo responsáveis por sua proteção e livres para revogá-los quando conviesse.c7-fragmented-power
  1227. p. 188, p. 188Um bom exemplo de carta do século XI para toda uma comunidade é a que o bispo de Speyer, Rüdiger (apelidado Huozmann), emitiu em 1084. Querendo transformar a aldeia em cidade e engrandecê-la com judeus, instalou-os fora do bairro dos demais burgueses e cercou-os com um muro contra a violência da turba. Concedeu-lhes livre câmbio de ouro e prata, comércio, terra da Igreja para um cemitério, e um chefe judeu para julgar disputas, com recurso ao bispo. Declarou conceder-lhes um estatuto mais generoso que o de qualquer judeu no reino alemão.c7-speyer-charter
  1228. p. 188, p. 188A proteção prometida pelas cartas locais era frágil, pois dependia da boa vontade e do poder das autoridades que as concederam, como mostrará a Primeira Cruzada. O estatuto jurídico dos judeus continuou ambíguo e os separava de todos: não eram tratados como os cidadãos, mas tampouco eram estrangeiros.c7-charter-fragile
  1229. p. 188, p. 188À medida que os monarcas centralizaram o poder, os judeus passaram a depender das autoridades reais. Frederico I Barbarossa tornou isso explícito em 1157, ao declarar que a Coroa tomara os judeus sob sua proteção 'porque pertencem à nossa câmara'. Em 1234, Frederico II declarou os judeus do império servi, 'servos', do tesouro real.c7-royal-chamber
  1230. p. 188, p. 188Em outros reinos europeus, as autoridades afirmaram igualmente que os judeus eram 'propriedade' da Coroa: o rei Ricardo I da Inglaterra em 1189, o duque Frederico II da Áustria em 1244 e o rei Boleslau da Polônia em 1264. Uma compilação legal castelhana do século XIII, o Libro de los fueros de Castilla, dizia que os judeus pertencem ao rei, ainda que estejam sob o poder de nobres, cavaleiros ou mosteiros.c7-property-crown
  1231. p. 188, p. 188A proteção real podia beneficiar os judeus, mas os sujeitava a um estatuto singular que os separava do resto da sociedade. Como eram identificados com o poder régio, atacá-los virou forma de exprimir descontentamento com a Coroa: em Girona, em 1320, relatou-se que pessoas, em desprezo à autoridade real, atiraram pedras e feriram judeus. A dependência exclusiva também os expunha à exploração sem freios.c7-royal-protection-cost
  1232. p. 188, p. 188O rei podia tributar os judeus a seu critério. Na Inglaterra, uma série de taxas impostas ao longo do século XIII arruinou boa parte da comunidade judaica e reduziu sua utilidade econômica para a Coroa. Em 1290, precisando de receita da nobreza, Eduardo I confiscou as dívidas devidas aos judeus, deixou os cavaleiros pagá-las ao tesouro sem os juros, recebeu o pagamento imediato que queria e cedeu às pressões religiosas e econômicas para expulsar os judeus do reino de vez.c7-edward-tallages
  1233. p. 189, p. 189O século XIII viu não só a expulsão dos judeus da Inglaterra, mas também um endurecimento da atitude da Igreja católica. Ao reafirmar o cânon Sicut Iudaeis, Inocêncio III (1198 a 1216) não deixou dúvida sobre o que sentia: falou da 'perfídia judaica', digna de condenação, mas disse que os judeus não deviam ser oprimidos com severidade, pois por meio deles se prova a verdade da fé cristã.c7-thirteenth-hardening
  1234. p. 189, p. 189Em 1215, Inocêncio III convocou o IV Concílio de Latrão, que tratou do lugar dos judeus na sociedade cristã. Censurou a 'usura imoderada' (empréstimo a juros excessivos), reiterou a antiga proibição de que judeus ocupassem cargos de autoridade e destacou a segregação social: judeus e sarracenos de ambos os sexos, em toda província cristã, deveriam distinguir-se publicamente dos demais pelo traje.c7-lateran-iv
  1235. p. 189, p. 189O decreto sugere que o convívio entre religiões era frequente e que em muitas partes da Europa cristã era impossível distinguir judeus de cristãos. A possibilidade de relações sexuais entre um judeu e uma cristã (mesmo prostituta) era vista como ameaça à pureza da sociedade cristã; um código castelhano do século XIII previa a morte para judeus que vivessem com cristãs.c7-lateran-mixing
  1236. p. 189, p. 189A preocupação ia além da sexualidade. As Siete partidas de Afonso X de Castela também proibiam cristãos de convidar judeus para comer ou beber, de aceitar convites deles ou de beber vinho feito por suas mãos. Qualquer contato social podia violar a ordem ideal da sociedade cristã, embora os líderes judeus também temessem o convívio sem freios, em particular o sexual.c7-siete-partidas-food
  1237. p. 189, p. 189A solução do Latrão IV, familiar das normas islâmicas para minorias religiosas, era a distinção pelo traje. Governantes seculares cristãos aplicaram a vaga determinação mandando os judeus prender um distintivo especial à roupa, para serem reconhecidos como judeus e, assim, marcados como párias sociais. É difícil saber em que medida essas regras eram cumpridas, e isso variava de lugar para lugar.c7-badge
  1238. p. 189, p. 189Mesmo mais apreensiva, a Igreja do século XIII continuava presa à postura tradicional de Gregório I. Nos anos 1230, o papa Gregório IX defendeu os judeus contra o tratamento arbitrário e a exploração por autoridades seculares: numa carta aos arcebispos e bispos da França, advertiu que certos senhores torturavam judeus com crueldade para obter o que pediam.c7-gregory-ix-protection
  1239. p. 189, p. 189O mesmo Gregório IX abriu um novo capítulo no confronto com o judaísmo ao responder, em 1236, a uma acusação de Nicholas Donin, judeu convertido ao cristianismo. Donin compôs um texto com 35 acusações contra o Talmude, que descrevia como blasfemo e ofensivo ao cristianismo, prova de que os judeus se desviaram dos livros do Antigo Testamento. O papa escreveu aos reis da Europa católica pedindo o confisco de todos os exemplares, mas só em Paris houve ação.c7-donin-charges
  1240. p. 189, p. 189Em 1242 realizou-se em Paris um julgamento do Talmude. A Inquisição, como era de esperar, concluiu que as acusações eram justificadas, e 24 carroças de manuscritos do Talmude e de outros escritos rabínicos foram queimadas em público.c7-paris-trial
  1241. p. 189, p. 189Annette Yoshiko Reed argumenta que textos e grupos 'judeu-cristãos' (incluindo o material das Pseudo-Clementinas) não se encaixam no esquema moderno que trata judaísmo e cristianismo como categorias fechadas. Alguns autores e comunidades aceitaram Jesus como figura especial na história da salvação sem ver nisso inconsistência com a observância da Torá e com a validade contínua da aliança com Israel.cjb-reed-pseudo-clementines
  1242. p. 189, p. 189, p. 9Na Baixa Idade Média europeia, alguns judeus convertidos ao cristianismo tornaram-se polemistas contra o judaísmo. Nicolau Donin apresentou ao papa, em 1236, 35 acusações contra o Talmude; o julgamento em Paris (1242) terminou com a queima pública de manuscritos. Pritz cita Donin e, mais tarde, Pfefferkorn como exemplos de convertidos hostis à tradição de origem.cjb-donin-convert-polemic
  1243. p. 190, p. 190Alguns teólogos cristãos preferiam que o Talmude fosse censurado, e não destruído: o novo interesse cristão por ele os levara a crer que os textos da tradição rabínica podiam servir à investida polêmica contra o judaísmo. Assim como antes leram a Bíblia hebraica de modo cristológico, passaram a afirmar que o Talmude e outros textos judaicos antigos continham referências veladas a Jesus.c7-censor-talmud
  1244. p. 190, p. 190Nos séculos XIII e XIV a Espanha viu uma série de debates públicos encenados em que um cristão (em geral um judeu convertido, familiarizado com as duas tradições) tentava provar que uma leitura correta do Talmude confirmava Jesus como messias e que os judeus erravam ao rejeitar o cristianismo.c7-spanish-debates
  1245. p. 190, p. 190A mais famosa dessas disputas ocorreu no verão de 1263 em Barcelona: o convertido Pablo Cristiani enfrentou um dos principais rabinos da época, Moisés ben Nahman (Nahmanides), num debate convocado pelo rei Jaime I de Aragão. Dois relatos foram escritos, um cristão em latim e a resposta de Nahmanides em hebraico, e este se revelou um debatedor brilhante.c7-barcelona-1263
  1246. p. 190, p. 190O relato do próprio Nahmanides faz parecer que ele 'venceu' o debate. Mas, ao chegar ao conhecimento dos frades dominicanos, seu escrito foi tomado por insulto blasfemo ao cristianismo, e ele foi forçado a deixar a Espanha, mudando-se por fim para a Terra Santa. Ao que parece, ele pretendia a resposta como guia para judeus que se vissem forçados a refutar polêmicas religiosas cristãs.c7-nahmanides-fate
  1247. p. 190Outros debates desse tipo ocorreram na Espanha: em Maiorca, em 1286; em Ávila, nos anos 1370; e em Pamplona, em 1375.c7-other-debates
  1248. p. 190, p. 190O rei Jaime I de Aragão, que empregava judeus e muçulmanos na administração do reino, apoiou ativamente o esforço missionário para converter os judeus. Em 1242, chegou a decretar que judeus e muçulmanos fossem obrigados a assistir a sermões missionários de frades dominicanos e franciscanos, prometendo que funcionários do Estado forçariam o comparecimento dos relutantes.c7-james-missionary
  1249. p. 190Apesar da atitude cada vez mais hostil da Igreja e da crescente pressão conversionista, a cultura judaica continuou a florescer por toda a Europa cristã no século XIII, e as comunidades judaicas do norte da Europa e do Mediterrâneo continuaram a se expandir.c7-culture-flourished
  1250. p. 190, p. 190Embora menos comuns que as conversões de judeus ao cristianismo, existem exemplos de conversão do cristianismo ao judaísmo, muitas vezes de clérigos treinados nas Escrituras. Bodo, capelão do imperador Luís, o Piedoso, converteu-se ao judaísmo em 838, adotou o nome hebraico Eliezer e fugiu para a Espanha muçulmana, onde ficou pelo resto da vida.c7-bodo-eliezer
  1251. p. 190, p. 190Casas judaicas podiam incluir escravos e servos, que às vezes adotavam a religião dos senhores. A lei judaica estimulava a circuncisão e a conversão de escravos não judeus, e provavelmente a maior parte dos convertidos ao judaísmo vinha dessa população. Uma vez convertidos e libertados, tinham plena posição como prosélitos formais e a proteção da lei judaica.c7-slave-converts
  1252. p. 190, p. 190A conversão de escravos preocupava profundamente as autoridades cristãs, que tentavam impedi-la. O IV Concílio de Toledo, em 633, publicou o documento 'Sobre a guarda de escravos': os judeus não deviam ter nem comprar escravos cristãos, e os que tivessem seriam retirados de seu domínio e libertados. A fronteira entre cristianismo e judaísmo permaneceu nítida porque as autoridades cristãs também a policiavam, e não só os judeus a defendiam.c7-toledo-633
  1253. p. 190, p. 190Hoje a esmagadora maioria dos judeus é asquenazita, e a cultura judaica atual, sobretudo na América do Norte, tem o sabor das tradições asquenazitas. Mas até pelo menos o século XI Ashkenaz foi um canto remoto da vida judaica: a maior parte dos judeus da Antiguidade e do início da Idade Média vivia em torno do Mediterrâneo e no Oriente Médio, e a presença judaica na Europa setentrional surgiu só aos poucos.c7-ashkenaz-backwater
  1254. p. 190, p. 190Em 1263, em Barcelona, o rei Jaime I obrigou Nahmânides a debater com Pablo Cristiani, judeu convertido ao cristianismo. Foi o mais famoso dos debates encenados na Espanha medieval: dois relatos sobreviveram (um latino cristão e a resposta hebraica de Nahmânides).cjb-pablo-cristiani-barcelona
  1255. p. 191, p. 191Para os judeus medievais, 'Ashkenaz', nome de lugar que aparece três vezes na Bíblia, designava uma área que incluía as comunidades do Império Germânico e do norte da França (esta, às vezes, chamada de 'Tsarfat'). Por volta do século XII, as identidades culturais de Ashkenaz e de Tsarfat tornaram-se mais distintas, embora as duas áreas continuassem em contato estreito.c7-ashkenaz-definition
  1256. p. 191, p. 191Sob os carolíngios (Carlos Magno e Luís, o Piedoso), vários mercadores judeus atravessaram os Alpes vindo da Itália e se fixaram em cidades do Império Germânico, sobretudo na Renânia. Até o século XI a mais importante dessas comunidades do norte foi a de Mainz; outras surgiram em Speyer, Worms, Colônia, Regensburg e Trier.c7-rhineland-merchants
  1257. p. 191, p. 191O povoamento judaico era pequeno nas cidades de Ashkenaz, em contraste com as grandes comunidades urbanas do mundo islâmico, e o número total de judeus ali era pequeno ao lado do da Espanha medieval. No fim do século X talvez não houvesse mais de 4 ou 5 mil judeus no Império Germânico; alguns historiadores estimam que, no século XIV, cerca de 100 mil viviam espalhados por mil cidades.c7-ashkenaz-numbers
  1258. p. 191, p. 191No sul da França, sobretudo na Provença, havia comunidades judaicas antigas e ligadas à Catalunha e à Espanha cristã. Do norte da França antes do ano 1000 sabe-se muito pouco; depois, regiões como a Normandia e Champagne atraíram mercadores judeus (mais tarde envolvidos com empréstimo de dinheiro) e tornaram-se centro de estudo. Troyes foi a cidade de Rashi. Na Inglaterra, judeus de origem francesa começaram a se estabelecer depois da conquista normanda de 1066.c7-northern-france
  1259. p. 191, p. 191Como se vê na carta de Speyer, os judeus em geral tinham o direito de julgar seus assuntos internos. Estavam, como todos, sujeitos em última instância às autoridades reais, e encontravam justificativa no princípio talmúdico dina de-malkhuta dina, 'a lei do reino é a lei'. Ainda assim, como grupo coeso e à parte da sociedade cristã, tinham amplo espaço para conduzir seus assuntos segundo a lei judaica, guiados por líderes rabínicos e leigos, mais entrelaçados em Ashkenaz que em outras partes.c7-self-government
  1260. p. 191, p. 191Cada comunidade era independente e o costume local era especialmente prezado em Ashkenaz; em nenhum lugar surgiu uma autoridade religiosa suprema, supralocal, ou uma hierarquia clara. Em certos lugares, reis nomearam alguém para supervisionar os judeus (como o Presbítero dos Judeus, na Inglaterra, ou o Rab de la Corte, em Castela), mas eram intermediários com o governo, não autoridades superiores em matéria de lei judaica. Rabinos de vários locais às vezes se reuniam em sínodos irregulares; em geral, a autoridade cabia ao rabino local ou a líderes cujo prestígio vinha da fama de erudição, não de um cargo.c7-no-supreme-authority
  1261. p. 191, p. 191Vários sábios exerceram grande influência sobre os judeus de Ashkenaz em seu tempo e depois: Gershom ben Judá (Rabenu Gershom, m. 1040), Salomão ben Isaac (Rashi, m. 1105), Jacó ben Meir Tam (Rabenu Tam, m. 1171) e Meir ben Barukh de Rothenburg (m. 1293).c7-ashkenaz-leaders
  1262. p. 191, p. 191A Rabenu Gershom atribuem-se decretos (takkanot) que definiram os contornos legais da cultura asquenazita medieval, como a proibição da poligamia e a de divorciar a esposa contra a vontade dela. Outra regra atribuída a ele: uma vez que a maioria da liderança comunitária aprovasse uma norma, toda a comunidade ficava obrigada por ela.c7-gershom-takkanot
  1263. p. 191, p. 191Uma inovação legal das comunidades asquenazitas foi o herem ha-yishuv, que permitia à comunidade local regular o assentamento de judeus e barrar recém-chegados, seja para se proteger da concorrência externa, seja para excluir quem se acreditasse minar a moral pública. As comunidades do mundo islâmico, por regra, não reivindicavam essa prerrogativa, provável reflexo do estatuto legal diferente dos judeus sob domínio cristão e muçulmano.c7-herem-yishuv
  1264. p. 191, p. 192Outro arranjo comum era a maarufiya, um monopólio que dava a um judeu uma relação comercial exclusiva com um cristão e o protegia da concorrência de outros judeus com o mesmo cliente. A prática deve ser entendida num contexto em que mercadores ou financistas judeus faziam grandes transações para patronos cristãos, em geral da nobreza.c7-maarufiya
  1265. p. 192, p. 192Uma narrativa antiga sustenta que Ashkenaz e Sefarad tinham raízes nos dois centros rivais da Antiguidade: a cultura asquenazita viria da Palestina, transmitida por famílias de mercadores através das terras bizantinas e da Itália até o norte dos Alpes na época carolíngia, a mais conhecida sendo a família Calonimo, de Lucca. A cultura sefardita viria da Babilônia.c7-two-roots-narrative
  1266. p. 192, p. 192Historiadores recentes contestaram essa narrativa por simplista: os rabinos tanto de Ashkenaz quanto de Sefarad receberam o ensinamento do Talmude dos Gueonim da Babilônia, e, se o aplicaram de modos diferentes, foi sobretudo pela influência das culturas medievais ao redor, não pela genealogia de suas tradições. O mesmo vale para a liturgia: os piyutim preservados em Ashkenaz têm muitas vezes origem palestina, mas a estrutura e o texto básico de todos os ritos de oração, inclusive o asquenazita, seguem o modelo babilônico.c7-roots-revised
  1267. p. 192, p. 192A figura de maior destaque foi Rabi Salomão ben Isaac, Rashi (1040 a 1105), natural de Troyes, no norte da França. Estudou nas academias rabínicas de Mainz e Worms e, aos cerca de 25 anos, voltou a Troyes, onde fundou sua própria escola. Sua erudição e a de seus filhos e discípulos teve impacto enorme sobre o estudo da Bíblia e do Talmude em todo o mundo judaico.c7-rashi-life
  1268. p. 192, p. 192Rashi escreveu um comentário à maior parte dos livros da Bíblia e um comentário abrangente a quase todo o Talmude babilônico. Seu comentário bíblico foi o primeiro livro em hebraico a ser impresso, em 1475, e praticamente todas as edições judaicas posteriores da Bíblia hebraica o incluíram.c7-rashi-bible
  1269. p. 192, p. 192Seu comentário ao Talmude teve impacto em todo o mundo judaico: em meio século após sua morte, as glosas eram conhecidas por rabinos de toda a Europa e, em um século, lidas por eruditos em todo lugar, inclusive hebraístas cristãos que buscavam entender o Talmude. Quando o Talmude babilônico completo foi impresso na Itália, nos anos 1520, as glosas de Rashi saíram nas margens, e todas as edições-padrão desde então as incluem.c7-rashi-reach
  1270. p. 192, p. 192No comentário bíblico, Rashi combinava a interpretação midráshica com a busca do 'sentido simples' (peshat) do texto, escolhendo em geral a leitura midráshica mais fiel a esse sentido. Elucidava passagens difíceis, traduzia palavras obscuras para o francês de seu tempo e apresentava, em essência, um resumo do entendimento rabínico tradicional.c7-rashi-method
  1271. p. 192, p. 192Em Levítico 19:18 ('Não te vingarás nem guardarás rancor'), Rashi explica a diferença com uma ilustração do cotidiano: quem recusa emprestar uma foice e depois, quando o outro lhe pede um machado, responde 'não empresto, como você não me emprestou', age por vingança; já quem empresta, mas diz 'não sou como você, que não me emprestou o machado', guarda rancor.c7-rashi-example
  1272. p. 193, p. 193Em seu comentário ao Talmude, Rashi estabeleceu a leitura correta do texto (numa época sem imprensa, circulavam muitos manuscritos com variantes), elucidou palavras e passagens difíceis e explicou termos técnicos. Pensado para uso junto ao texto, foi um passo importante na textualização de uma tradição que em Ashkenaz fora transmitida oralmente por muito mais tempo do que nas comunidades sefarditas da Espanha ou do Norte da África, e permitiu que o Talmude fosse lido como narrativa coerente e se tornasse o centro do ensino e da jurisprudência asquenazitas.c7-rashi-talmud
  1273. p. 193, p. 193Os filhos e discípulos de Rashi continuaram o estudo sistemático do Talmude, tomando seu comentário como ponto de partida. Essas glosas adicionais são as tosafot, e seus autores, ativos na França e na Alemanha nos séculos XII e XIII, são os tosafistas. Como o comentário de Rashi, as tosafot foram incluídas em praticamente todas as edições impressas do Talmude e, já no século XIII, seu método foi apresentado ao judaísmo sefardita por Nahmanides, de Girona.c7-tosafists
  1274. p. 193, p. 193Segundo um historiador recente, os tosafistas viam o Talmude como um corpus unificado e intrinsecamente coerente, identificavam paralelos textuais e criaram um sistema abrangente de referências cruzadas, partindo da ideia de que sua linguagem era fixa e autorizada e de que era internamente consistente. Desenvolveram um método dialético sofisticado e se valeram de escritos gaônicos, estudos de gramáticos hebreus da Espanha e do dicionário talmúdico Arukh, de Natan ben Yehiel de Roma (1101).c7-tosafist-method
  1275. p. 193, p. 193Os tosafistas tinham consciência da tensão entre os preceitos do Talmude e a prática costumeira dos judeus asquenazitas e, tomando ambos como autoridade, buscavam harmonizar entendimentos aparentemente incompatíveis da lei. Rashi e os tosafistas contribuíram para uma cultura asquenazita singular, distinta da sefardita, mas sua abordagem do Talmude moldou, até hoje, o contato dos judeus com o texto em outros lugares.c7-tosafist-custom
  1276. p. 193, p. 193Simhá ben Samuel de Vitry, aluno de Rashi, compôs o Mahzor Vitry, coletânea de liturgia e lei com as orações do ano inteiro e normas sobre o Shabat, as festas, o casamento e o abate ritual: obra de referência única sobre as tradições legais e costumes dos judeus do norte da França do fim do século X e início do XI. Outros membros da escola tosafista reuniram sistematicamente os costumes (minhag) dos asquenazitas, sociedade especialmente sensível ao costume local e familiar, a ponto de invocar o dito 'o costume anula a lei' (minhag mevatel Halakhah), que aparece no Talmude de Jerusalém.c7-mahzor-vitry
  1277. p. 193, p. 194Em 1303, o erudito tosafista Asher ben Yehiel (o 'Rosh') deixou sua Alemanha natal e mudou-se para Toledo, capital do reino cristão de Castela. Ali seu filho Jacó ben Asher (m. 1340) escreveu um novo código abrangente de lei judaica, o Arba'ah Turim, fruto do encontro de culturas asquenazita e sefardita: seguia Maimônides e as decisões do pai, levava a erudição dos rabinos asquenazitas à Espanha e adotava uma organização temática nova, em quatro partes, que viria a ser o padrão dos códigos posteriores, o mais influente sendo o de José Caro (anotado por Moisés Isserles), no século XVI.c7-asher-turim
  1278. p. 194, p. 194Na mesma época em que os tosafistas faziam do estudo talmúdico o ideal cultural de Ashkenaz, surgiu nas cidades da Renânia um movimento religioso muito diferente: os Hasidei Ashkenaz, 'piedosos de Ashkenaz', que não devem ser confundidos com o hassidismo posterior, do século XVIII na Europa Oriental. Seus ensinamentos se associam sobretudo a três descendentes da família Calonimo: Samuel, Judá e Eleazar.c7-hasidei-emerge
  1279. p. 194, p. 194Os piedosos escreveram muito sobre temas esotéricos, mas sua obra mais conhecida é uma coletânea de cerca de 2 mil exemplos moralizantes e vinhetas exegéticas, o Sefer Hasidim ('Livro dos Piedosos'), atribuído a Samuel, o Piedoso, e a seu filho Judá, o Piedoso (m. 1217). O livro apresenta os ideais e virtudes do hassidismo asquenazita e permite entrever a vida dos judeus asquenazitas medievais em geral.c7-sefer-hasidim
  1280. p. 194, p. 194Segundo Eleazar de Worms, os Hasidei Ashkenaz preservavam uma tradição esotérica antiga, transmitida por um certo 'Abu Aarão', que recebera seu saber na Babilônia e levara 'o segredo da ordenação das orações e os demais segredos' à Itália, de onde chegaram à família Calonimo de Lucca, depois radicada em Ashkenaz.c7-abu-aaron
  1281. p. 194, p. 194O ideal pietista nascia do desejo intransigente de cumprir a 'vontade do Criador' (retson ha-bore) além do que a própria lei exigia. Invocando o dito talmúdico 'serás sempre engenhoso no temor a Deus', desenvolveram uma ideologia de piedade com intenso sentido de autossacrifício a serviço da vontade divina. O Sefer Hasidim compara a disposição de cavaleiros, mulheres e até ladrões a arriscar tudo por honra ou ganho com o esforço que deve ter o piedoso pela honra do Criador.c7-creator-will
  1282. p. 194, p. 194Os piedosos evocaram o ideal de martírio surgido da tragédia da Primeira Cruzada: se alguém se dispunha a dar a vida pela 'santificação do Nome' (kiddush ha-shem), o justo devia aceitar o peso da piedade no dia a dia, indo além da letra da Halachá, sem contrariá-la, com proibições e atos mais rigorosos do que a lei prescrevia. Quanto maior o sofrimento, maior a recompensa, e só vencendo o desejo de pecar se chegava à piedade verdadeira.c7-pietist-martyrdom-penance
  1283. p. 194, p. 194Daí veio uma compreensão muito original do arrependimento: os piedosos ensinavam que havia diferentes tipos de expiação, com práticas penitenciais ritualizadas que correspondiam à gravidade da transgressão e a seu castigo merecido e que também contrabalançavam o prazer obtido ao pecar, por exemplo por meio de jejuns prolongados e abstinências. Outra forma, que Eleazar admitia não ser praticada, era recriar a situação do pecado e resistir à tentação.c7-pietist-repentance
  1284. p. 195, p. 195Judá, o Piedoso, autor da maior parte do Sefer Hasidim, queria fazer dos piedosos um grupo socialmente distinto, uma espécie de seita separada da comunidade judaica em geral. Distinguia os 'justos' (os que seguiam seu ideal) dos 'ímpios' (todos os outros judeus), contando entre estes até os maiores eruditos rabínicos que não pertencessem aos Hasidei Ashkenaz, e esperava que o piedoso se submetesse a práticas cada vez mais exigentes que expiassem os pecados de sua geração.c7-judah-sect
  1285. p. 195, p. 195O programa sectário de Judá acabou fracassando, e não está claro quão grande foi o movimento dos Hasidei Ashkenaz, se é que chegou a ser um movimento. Coube a seu primo Eleazar de Worms transformar a ideia sectária de Judá numa forma pessoal e individual de piedade, capaz de atrair a sociedade asquenazita como um todo e não só uma pequena elite.c7-eleazar-individual
  1286. p. 195, p. 195Em 1095, o papa Urbano II convocou todos os católicos para uma campanha de tomada de Jerusalém e da Terra Santa aos muçulmanos. No ano seguinte, a primeira onda de cruzados partiu do norte da França e, em 1099, os exércitos cruzados haviam conquistado Jerusalém e fundado o Reino de Jerusalém, que durou até Saladino retomá-lo em 1187.c7-urban-1095
  1287. p. 195, p. 195Na primavera de 1096, quando os primeiros cavaleiros cruzados atravessaram a Renânia, voltaram sua ira contra as comunidades judaicas que encontraram. Uma crônica hebraica descreve o motivo: antes de ir longe se vingar dos ismaelitas (os muçulmanos), era preciso se vingar dos judeus que viviam entre eles, cujos pais tinham matado e crucificado Jesus.c7-rhineland-1096
  1288. p. 195, p. 195Na primavera de 1096 cavaleiros cruzados e bandos de gente comum que os acompanhou atacaram as comunidades judaicas da Renânia e de outras partes da Europa Central, deixando cerca de mil judeus mortos e muitos batizados à força. Em Speyer, o bispo local protegeu todos os judeus da cidade, menos 11. Em Regensburg, os judeus foram levados ao Danúbio e batizados. Muitas outras comunidades, como Mainz e Worms, foram destruídas.c7-1096-toll
  1289. p. 195, p. 195Apesar da violência generalizada, das conversões forçadas e dos atos de martírio, as comunidades asquenazitas da Renânia se recuperaram mais depressa do que se poderia esperar. Embora muitos historiadores vejam a Primeira Cruzada como ponto de virada na história judaica medieval, ela não interrompeu de modo permanente a expansão da vida judaica no norte da Europa nem inaugurou um período de perseguição contínua.c7-recovery-1096
  1290. p. 195O imperador alemão Henrique IV publicou em 1097 um edito permitindo que os judeus convertidos à força no ano anterior voltassem à sua antiga religião.c7-henry-iv-1097
  1291. p. 195, p. 195Nas Segunda e Terceira Cruzadas (anos 1140 e fim dos anos 1180), os ataques violentos não se repetiram. Bernardo de Claraval, líder espiritual da Segunda, protegeu ativamente os judeus da Renânia, e Efraim de Bonn, que escreveu uma crônica dela, não relatou nada parecido com a violência generalizada da primeira. Eleazar de Worms contou, em memórias sobre a Terceira, que os judeus obtiveram do imperador Frederico Barbarossa um decreto segundo o qual quem matasse um judeu seria morto e que participar da Cruzada não servia de justificativa.c7-later-crusades
  1292. p. 195, p. 195Para o impacto duradouro da Primeira Cruzada, importa talvez mais a forma como os acontecimentos de 1096 foram lembrados nas gerações seguintes. A resposta judaica à violência moldou a cultura asquenazita: poemas litúrgicos, listas memoriais dos mortos e crônicas detalhadas expressaram um ideal de martírio e autossacrifício. As narrativas mais longas são um relato anônimo atribuído tradicionalmente (e por engano) a um Salomão ben Sansão e uma crônica mais curta, o Anônimo de Mainz, que enaltecem a conduta presumivelmente heroica dos que escolheram o martírio e até o suicídio, em vez de cair nas mãos dos cruzados ou aceitar o batismo.c7-crusade-memory
  1293. p. 195, p. 195Reed critica a tendência (ainda em Marcel Simon) de tratar o 'judaísmo cristão' tardio como forma fossilizada ou sobrevivência atrofiada após uma separação decisiva. Essa narrativa ecoa a heresiologia: minimiza e marginaliza a evidência de que variedades de crença e culto com Jesus e Torá puderam persistir e até prosperar além da era apostólica.cjb-reed-against-fossil
  1294. p. 196, p. 196Os historiadores ainda debatem a confiabilidade dessas crônicas e dos relatos nos poemas litúrgicos. Não há dúvida de que muitos judeus foram mortos e outros mataram a si mesmos e suas famílias, mas fica a pergunta sobre quão disseminada foi essa conduta. Os textos que celebram o autossacrifício foram escritos, às vezes décadas depois, não como relatos históricos objetivos: seus autores talvez quisessem justificar atos de assassinato e suicídio difíceis de conciliar com a lei judaica, ou enfrentar a crescente ameaça da conversão voluntária ao cristianismo no século XII, leitura sugerida pelos historiadores Jeremy Cohen e Avraham Grossman.c7-chronicles-reliability
  1295. p. 196, p. 196Seja qual for a confiabilidade dos detalhes das narrativas hebraicas da Cruzada, elas gravaram na memória coletiva dos judeus asquenazitas a imagem e o ideal do martírio, kiddush ha-shem, a 'santificação do Nome' de Deus.c7-martyrdom-image
  1296. p. 196, p. 196Os atos de autossacrifício não escaparam aos observadores cristãos contemporâneos das Cruzadas: Alberto de Aix, por exemplo, anotou como os judeus, vendo-se atacados com os filhos, se lançaram uns sobre os outros e pereceram pelas próprias mãos, e mães degolaram os bebês que amamentavam para que não fossem mortos pelas armas dos incircuncisos.c7-albert-of-aix
  1297. p. 196, p. 196As descrições das narrativas hebraicas são cruas e perturbadoras e, claro, impossíveis de verificar, podendo ser detalhadas demais para serem plausíveis, já que quem passou pelos acontecimentos não sobreviveu para contá-los. Ainda assim, as crônicas retratam uma comunidade presa numa violência extrema e numa ideologia igualmente extrema de martírio religioso.c7-chronicles-unverifiable
  1298. p. 196, p. 197O Anônimo de Mainz conta o caso de Meshulam ben Isaac, de Worms, que chamou os presentes e sua esposa Zipora, anunciou que ia oferecer o filho Isaac, nascido na velhice dela, como Abraão fez com o seu, e, apesar do pedido de Zipora para ser morta antes, realizou o sacrifício; os cruzados mataram então o casal.c7-meshullam
  1299. p. 196, p. 196O mapa 7.1 do livro mostra a rota dos cruzados em 1096 pelas cidades da Renânia e do Danúbio, distinguindo as cidades em que massacraram os judeus, aquelas em que o arcebispo ou o clero tentaram protegê-los (muitas vezes em vão) e as em que os próprios cruzados foram massacrados pelos húngaros.c7-map71
  1300. p. 197, p. 197A crônica atribuída a Salomão ben Sansão conta de Raquel, de Mainz, decidida a sacrificar os quatro filhos; o pai, ao presenciar a cena depois da morte de Raquel pelos cruzados, lançou-se sobre a própria espada. Os relatos hebraicos destacam o papel ativo e heroico das mulheres.c7-rachel-mainz
  1301. p. 197, p. 197Os judeus não esperaram passivamente o desastre para se sacrificar: o pai que se atirou sobre a espada estava armado, e as crônicas contam que, quando Mainz foi atacada pelos cruzados do conde Emicho, jovens e velhos vestiram armaduras e pegaram em armas, liderados pelo rabino Calonimo ben Meshulam, chefe da comunidade. Mas, esgotados por problemas e jejuns, não tiveram forças para enfrentar o inimigo.c7-jews-armed
  1302. p. 197Além do elogio à conduta heroica dos judeus de Mainz, dispostos a se defender e a suportar o martírio, os autores perguntam se não haveria no relato uma crítica sutil à liderança religiosa, que teria esgotado a comunidade com atos piedosos mas contraproducentes, como o jejum prolongado, na vã esperança de afastar o desastre.c7-fasting-critique
  1303. p. 197, p. 197Ao interpretar o martírio relatado nas crônicas, é preciso lembrar que muitos judeus não enfrentaram de fato a escolha entre batismo e morte: em muitos casos cruzados e multidões estavam decididos a matar, não a converter. A ideologia de autossacrifício atribuída à geração da Cruzada é antes expressão do que se formou depois, em resposta aos fatos e nas próprias crônicas. Pessoas como 'Raquel' ou 'Meshulam' talvez não fossem fanáticos do kiddush ha-shem; podem apenas ter agido por desespero.c7-no-real-choice
  1304. p. 197, p. 197A ideologia do martírio parece ter sido influenciada, ironicamente, pelos valores da sociedade cristã. Um cavaleiro cruzado não podia contar com a volta para casa, e sua participação era um sacrifício material e físico; o papa prometia indulgência que expiaria os pecados e daria recompensa no além. Nesse clima de sacrifício religioso, talvez não fosse tão estranho que judeus adotassem ideal semelhante, ainda que só para provar que o judaísmo não era inferior à cristandade.c7-martyrdom-christian-roots
  1305. p. 197Os Hasidei Ashkenaz do século XIII ainda promoviam o kiddush ha-shem (de tipo espiritual) como ideal abrangente que devia orientar o comportamento do piedoso.c7-hasidei-kiddush
  1306. p. 198, p. 198Ligado à celebração dos mártires veio um novo cuidado em lembrar os mortos. Segundo o historiador Ivan Marcus, o costume asquenazita de recitar anualmente a lista dos justos mortos de cada lugar, e depois o aniversário da morte de pais, deriva sobretudo da prática monástica cristã de compilar necrológios. Como os vizinhos cristãos, os judeus asquenazitas passaram a criar livros memoriais (Memorbücher) e adotaram rituais como o yizkor, no Dia da Expiação e nas três festas, e o Kadish como oração dos enlutados.c7-memorial-books
  1307. p. 198, p. 198A veia anti-judaica da cultura cristã medieval deixou marca profunda na cultura e na demografia judaicas. Em muitos judeus despertou um ódio fundo ao cristianismo, sentimento que se escondia dos de fora mas às vezes vinha à tona em rituais e na literatura. Os judeus produziram uma literatura polêmica própria ou parodiaram o cristianismo, como no Toledot Yeshu, uma história depreciativa de Jesus que inverte a prática cristã de usar fontes judaicas contra os judeus, ao usar o Novo Testamento contra os cristãos.c7-jewish-anti-christian
  1308. p. 198, p. 198Numa passagem do Toledot Yeshu citada no livro, Jesus debate de modo desrespeitoso com os sábios sobre o Talmude, e a narrativa revela algo incomum sobre sua paternidade: não que fosse filho de Deus, mas que fosse fruto de uma união ilegítima, filho de José Pandera. Segundo o relato, Jesus teve de fugir para a Alta Galileia.c7-toledot-yeshu-passage
  1309. p. 198, p. 198Fontes cristãs reclamam de outras práticas blasfemas, como judeus urinando em símbolos cristãos ou pendurando um boneco de Hamã no Purim, em paródia da crucificação. À primeira vista é tentador descartar os relatos como acusações forjadas, como a da profanação da hóstia, mas estudiosos recentes pensam que podem conter alguma verdade: o Purim, festa carnavalesca e barulhenta, pode ter sido ocasião para expressar ressentimento reprimido contra o cristianismo de modo zombeteiro, se não abertamente hostil.c7-purim-mockery
  1310. p. 198, p. 198Por traumática que tenha sido a Primeira Cruzada, o nível de violência permaneceu relativamente localizado e cessou depressa, e os ataques a judeus continuaram sendo exceção até o fim do século XIII.c7-first-crusade-localized
  1311. p. 198, p. 198Os massacres de Rindfleisch, nome do líder de uma turba que, em 1298, devastou por cinco meses mais de 40 comunidades na Baviera, deixaram, segundo os livros memoriais, no mínimo 3.400 vítimas.c7-rindfleisch
  1312. p. 198, p. 198Os massacres de Armleder, nos anos 1330, também começaram com a acusação de profanação da hóstia. Atingiram área maior, com mais de cem comunidades judaicas na Alsácia, e se voltaram em parte também contra cristãos.c7-armleder
  1313. p. 198, p. 198No fim dos anos 1340, com a Europa devastada pela peste bubônica, a Peste Negra, que segundo algumas estimativas matou até um terço da população, os cristãos se voltaram de novo contra os judeus, acusados de envenenar poços e cuja presença muitos acreditavam ter atraído a ira de Deus.c7-black-death-accusations
  1314. p. 198, p. 198Na Provença e na Catalunha, diz-se, os massacres causaram mais mortes do que a própria peste, e a violência logo se espalhou por boa parte da Europa Ocidental e Central, atingindo centenas de comunidades, da França e do norte da Espanha ao Império Germânico, ao norte da Itália e à Hungria. Foi sem dúvida a perseguição antijudaica mais desastrosa que o mundo medieval vira até então, embora, curiosamente, não tenha gerado entre os judeus uma resposta literária tão ampla quanto a das Cruzadas.c7-black-death-scale
  1315. p. 198, p. 199, p. 199Passados os massacres, muitas cidades que haviam expulsado os judeus durante a peste os readmitiram para ajudar a reconstruir a vida normal, mas a violência contra judeus continuou a ser um fator em nível relativamente alto, tanto em frequência quanto em alcance geográfico.c7-after-plague
  1316. p. 199, p. 199Quando os barões ingleses concordaram em adiantar ao rei Eduardo 115 mil libras de que ele precisava com urgência, em troca da expulsão dos judeus e do cancelamento das dívidas com eles (que a Coroa teria reivindicado), só ele sabia como o acordo era vantajoso para a monarquia: restavam apenas cerca de 10 mil libras em empréstimos judaicos em aberto.c7-edward-barons-deal
  1317. p. 199, p. 199Na época da Peste Negra, a vida judaica na maior parte da França e na Inglaterra já terminara: em 1290, o rei Eduardo expulsou os judeus da Inglaterra, pressionado pela nobreza fundiária, principal devedora dos prestamistas judeus.c7-edward-expulsion-1290
  1318. p. 199, p. 199Na França a situação era mais complicada, pois o controle político era mais fragmentado. Quando Filipe IV expulsou os judeus em 1306, o decreto valia só para as terras reais do centro do país, em torno de Paris, e reis seguintes permitiram a volta de alguns, para depois expulsá-los de novo. A expulsão tornou-se definitiva só em 1394, e mesmo então judeus continuaram no sudeste da França até 1501 e nunca foram expulsos de vez dos territórios papais em torno de Avignon.c7-france-expulsions
  1319. p. 199, p. 199Vários fatores pesaram nas expulsões na Inglaterra e na França: a hostilidade crescente da Igreja, o sentimento antijudaico popular e o papel central dos judeus no empréstimo de dinheiro. Como os judeus eram vistos como 'propriedade' do tesouro real, nobres inadimplentes acabavam perdendo suas terras para o poder central. Ao arrancar impostos e pagamentos irregulares dos judeus, os reis taxavam indiretamente os clientes cristãos do negócio, e quanto mais a Coroa os explorava, mais minava a possibilidade de eles seguirem prestando serviços úteis à economia e ao próprio rei.c7-expulsion-factors
  1320. p. 199Uma acusação de assassinato ritual na cidade francesa de Blois, em 1171, levou ao julgamento e à execução de mais de 30 judeus.c7-blois-1171
  1321. p. 199, p. 199Em 1190, quando o rei inglês estava fora numa Cruzada, judeus foram atacados em numerosos lugares da Inglaterra. Em York, refugiaram-se na torre do rei e acabaram cometendo suicídio em massa, como tantos haviam feito na Alemanha um século antes, durante a Primeira Cruzada. Os atacantes queimaram então todas as promissórias de dívidas com judeus depositadas na catedral da cidade.c7-york-1190
  1322. p. 199, p. 199Em consequência, o rei determinou que todas as dívidas com judeus fossem registradas em duas vias, uma delas guardada no tesouro real. Isso dava à Coroa conhecimento direto de todos os negócios de seus súditos judeus e a oportunidade de usar essa informação contra a nobreza endividada.c7-duplicate-records
  1323. p. 199, p. 199O século XIV foi emoldurado por grandes desastres: uma década antes da virada do século, todos os judeus foram expulsos da Inglaterra; um século depois, em 1391, os judeus da Espanha foram vítimas de uma onda de massacres e conversões forçadas que deixou uma comunidade gravemente traumatizada. Nas décadas intermediárias, sobretudo na Peste Negra, a maioria das comunidades judaicas europeias foi atingida por perseguição generalizada.c7-century-bookends
  1324. p. 199, p. 199Isso não significa que a vida judaica ao longo do século e em toda parte tenha sido uma ladainha de sofrimento, mas o século XIV viu o desmoronamento da antiga ordem medieval, e a recuperação da vida judaica na Europa Ocidental levaria tempo, num processo que se daria na era moderna (capítulo 8).c7-not-only-suffering
  1325. p. 199, p. 199Os judeus da Espanha medieval viviam na fronteira entre o Islã e a cristandade. Os cristãos viam a longa luta pelo controle das partes da península Ibérica que haviam caído sob domínio muçulmano depois de 711 como uma Cruzada, uma guerra santa, e chamaram a campanha de Reconquista. Os judeus de al-Andalus e dos reinos cristãos do norte foram afetados pelo conflito, embora não tivessem interesse na disputa entre as partes em guerra.c7-sefarad-frontier
  1326. p. 199, p. 199O célebre poeta e filósofo hebreu Judá ha-Levi lamentou num poema o destino dos judeus entre as hostes de Seir (a cristandade) e de Quedar (o Islã): eles combatem suas guerras e os judeus caem quando elas caem.c7-judah-halevi-wars
  1327. p. 200, p. 200Em 1144, os judeus de Norwich, na Inglaterra, enfrentaram uma acusação estranha: quando o corpo de um menino cristão chamado William foi achado no bosque, correu o boato de que os judeus o haviam sequestrado, torturado e assassinado ritualmente, como seus ancestrais teriam feito com Jesus. A acusação de 1144 foi provavelmente a primeira do gênero e logo foi seguida por outra em Blois, em 1171. O xerife local investigou o caso de Norwich e concluiu que a acusação era falsa.c7-norwich-1144
  1328. p. 200, p. 200Em 1235, na cidade alemã de Fulda, surgiu mais uma acusação: a de que os judeus não só tinham matado uma criança cristã, mas usado seu sangue para fins rituais. Nascia assim a calúnia do sangue, e os judeus de toda a Europa se viram expostos, dezenas de vezes, a acusações igualmente absurdas.c7-fulda-1235
  1329. p. 200, p. 200Na maioria das vezes, uma calúnia do sangue levava à violência popular contra a comunidade acusada. Às vezes as autoridades intervinham e defendiam os judeus; outras vezes pareciam dar crédito à calúnia. Dada a proibição estrita de consumir até o sangue de animais kosher, era claro para quem conhecesse a lei e as tradições judaicas que a calúnia só podia ser invenção. Vários reis, imperadores e papas declararam falsas as acusações, em vão: a calúnia persistiu, foi usada pelos nazistas e ainda aparece na propaganda antissemita e antissionista no Oriente Médio.c7-blood-libel-false
  1330. p. 200, p. 200A associação dos judeus com o sangue ganhou outras fantasias medievais: o sangue cristão serviria de remédio milagroso para os judeus (um judeu cego recuperaria a vista ao esfregar nos olhos sangue de monges; Constantino, leproso, teria sido aconselhado por seu médico judeu a se banhar em sangue de crianças cristãs; o mesmo teria ocorrido com Ricardo Coração de Leão), e acreditava-se que homens judeus menstruavam, ideia defendida pelo astrólogo italiano Cecco d'Ascoli.c7-blood-fantasies
  1331. p. 200, p. 200A acusação de profanação da hóstia seguiu trajetória semelhante. Seu estopim foi o Quarto Concílio de Latrão, em 1215, que reconheceu oficialmente a transubstanciação. Alguns cristãos sustentaram que os judeus, crendo na doutrina, apunhalavam e mutilavam a hóstia como reencenação da crucificação, fazendo-a supostamente sangrar. O primeiro caso conhecido ocorreu em 1243; em geral se estabelecia um culto no local e a comunidade buscava vingança contra os judeus locais, muitos dos quais foram julgados e executados.c7-host-desecration
  1332. p. 200, p. 200Em 1290, um prestamista judeu de Paris foi acusado de profanar a hóstia, episódio lembrado numa capela erguida no local e provavelmente um dos gatilhos da expulsão dos judeus da França em 1306. Outra acusação, em 1370, levou ao fim virtual da comunidade judaica na Bélgica medieval. O último judeu morto pelo 'crime' de profanação da hóstia morreu no século XVII.c7-host-paris-1290
  1333. p. 200, p. 200O poeta e filósofo Moisés ibn Ezra também aludiu às vicissitudes políticas da época: num texto lamentou seu deslocamento de Granada, sua cidade natal, depois que caiu nas mãos dos almorávidas, dinastia muçulmana que trouxe intolerância e perseguição religiosa a al-Andalus no fim do século XI. Encontrou refúgio no norte cristão da Espanha.c7-ibn-ezra-displaced
  1334. p. 200, p. 201Ibn Ezra comparou o refinamento de al-Andalus, de língua árabe, ao que considerava uma comunidade judaica inferior e atrasada nas terras da Espanha cristã, e dos judeus do norte cristão tinha apenas desprezo, como mostra o poema que descreve uma terra de 'selvagens que amam a corrupção'.c7-ibn-ezra-scorn
  1335. p. 200Chazan insiste que, para quem reconhece vigor e criatividade da cristandade ocidental medieval, faz sentido examinar o atrativo intrínseco dessa sociedade e cultura, além dos esforços da Igreja romana para atrair judeus.c-h502-chazan-christendom-intrinsic-appeal
  1336. p. 201, p. 201Há algo mais no texto de Ibn Ezra, uma observação de passagem: os judeus da Espanha cristã 'adotaram os costumes dos vizinhos', 'misturam-se' à sociedade cristã e são 'contados entre eles'. Por mais rudimentar que sua cultura parecesse ao poeta de al-Andalus, os judeus do norte pareciam bem à vontade na sociedade cristã: não havia sombras de perseguição iminente, mas integração profunda, e eram quase indistinguíveis dos vizinhos cristãos.c7-spain-integration
  1337. p. 201, p. 201Se não reduzirmos a história judaica medieval a intelectuais, poetas, filósofos e sábios rabínicos, e olharmos a sociedade judaica em geral (mercadores, donos de vinhedos, açougueiros, artesãos e mulheres, em sua maioria excluídas da alta cultura literária), surge um quadro mais matizado da vida judaica medieval.c7-beyond-elites
  1338. p. 201, p. 201A primeira grande vitória da Reconquista cristã foi a tomada de Toledo em 1085. Muito depois de os cristãos fazerem da cidade a capital do reino de Castela, seus judeus continuaram a exibir uma cultura fortemente arabizada, e seu domínio de línguas permitiu às elites participar do intercâmbio cultural e diplomático entre os Estados cristãos e muçulmanos da península.c7-toledo-1085
  1339. p. 201, p. 201Ainda no século XIII, os judeus tiveram papel importante no trabalho de tradução patrocinado pelo rei Afonso X de Castela, que tornou obras árabes de matemática, filosofia, medicina, astronomia e outros temas acessíveis ao público cristão da Europa. Judeus traduziam do árabe para a língua românica (o castelhano), e um estudioso cristão vertia depois o texto românico para o latim.c7-alfonso-translators
  1340. p. 201, p. 201O intercâmbio cultural que durou séculos, apesar das guerras da Reconquista e da violência sectária, aparece na sinagoga erguida em Toledo, em 1357, por iniciativa de Samuel ha-Levi Abulafia, rico judeu da corte e tesoureiro do rei Pedro I de Castela.c7-el-transito
  1341. p. 201, p. 201A decoração em estuque das paredes mesclava arte islâmica (motivos geométricos e florais, escrita hebraica e árabe como ornamento) com o simbolismo do reino cristão de Castela (o brasão real de Castela e Leão) e uma inscrição hebraica que exaltava o patrono, Samuel ha-Levi. O modelo dessa decoração está no Alcázar de Sevilha, do século XIV, inspirado por sua vez na Alhambra, palácio dos sultões nasridas de Granada, último reino muçulmano em solo ibérico.c7-el-transito-decor
  1342. p. 201, p. 201A Reconquista ganhou impulso no século XIII e, em meados do século, Castela, Aragão e Portugal controlavam a grande maioria da península. Córdoba foi conquistada em 1236, Valência em 1238, Sevilha em 1248 e Múrcia em 1266. O ritmo acelerado das conquistas exigiu um número crescente de colonos para repovoar as áreas cristãs, e entre os migrantes havia muitos judeus.c7-reconquest-conquests
  1343. p. 201, p. 201A Espanha atraiu também imigrantes judeus de além dos Pireneus, e Asher ben Yehiel, que se mudou da Alemanha para Toledo, é talvez o exemplo mais famoso. Ao chegar a Castela, surpreendeu-se com a autonomia legal das comunidades judaicas: em nenhum país que conhecia se julgavam casos capitais, exceto ali. Ele aceitou o costume, mas nunca concordou com eles na destruição de vidas.c7-asher-capital-cases
  1344. p. 202, p. 202As comunidades judaicas da Espanha cristã tinham, portanto, o direito de impor a pena de morte a membros da comunidade, direito que nenhuma comunidade judaica medieval ou do início da era moderna teve em outro lugar.c7-capital-punishment-right
  1345. p. 202, p. 202Isso não deve levar a exagerar o poder da comunidade sobre cada judeu, nem a confundir as prerrogativas concedidas à comunidade com autonomia jurídica genuína, que continuava subordinada à autoridade final da Coroa. Como em outras partes da Europa, os monarcas dos reinos cristãos da Espanha tratavam os judeus como 'propriedade' do tesouro real, o que permitia a judeus individuais contornar as instituições da comunidade e seus rabinos e recorrer às autoridades cristãs.c7-autonomy-limits
  1346. p. 202, p. 202Pelo menos na fase inicial depois da conquista cristã, muitos judeus se estabeleceram em lugares sem comunidade organizada nem infraestrutura religiosa.c7-no-organized-community
  1347. p. 202, p. 202Os judeus participaram da colonização da Reconquista desde o início. Dois prestamistas judeus, Raguel e Vidas, aparecem na epopeia medieval do Cid Campeador, que conquistou Valência dos muçulmanos nos anos 1090 (a cidade voltou ao domínio muçulmano e foi reconquistada por Jaime I de Aragão em 1236). Caído em desgraça com o rei Afonso VI, o Cid, segundo o Cantar, recorreu a eles para obter dinheiro.c7-el-cid-moneylenders
  1348. p. 202, p. 202Financistas judeus prestavam um serviço crucial: sem identificação a priori com os interesses políticos de cristãos ou muçulmanos, eram vistos como atores politicamente neutros, em quem se podia confiar em meio a intrigas políticas e confrontos militares.c7-neutral-financiers
  1349. p. 202, p. 202Em todos os reinos cristãos da península, judeus também foram empregados como arrecadadores de impostos: adiantavam capital ao governo e depois cobravam a receita da população local, ficando com um lucro. Era um arranjo comum a todos os Estados pré-modernos.c7-tax-farming
  1350. p. 202, p. 202Segundo o historiador Javier Castaño, os judeus não foram tão proeminentes na arrecadação de impostos na Espanha cristã quanto se costuma crer, mas ainda assim tiveram papel muito maior que sua proporção na população: eram cerca de 3% de Castela no fim do século XV, mas, dos 500 arrecadadores conhecidos entre 1439 e 1469, 15% eram judeus.c7-castano-tax-farming
  1351. p. 202, p. 203A maioria dos judeus, claro, não se dedicava ao empréstimo nem à arrecadação de impostos, e a atividade econômica na Espanha da Reconquista era muito mais diversificada que em outras partes da Europa: judeus trabalhavam como alfaiates, açougueiros, ourives ou comerciantes, mas também possuíam terras agrícolas e produziam vinho ou azeite.c7-economic-diversity
  1352. p. 202, p. 202Um manuscrito hebraico iluminado de um livro de orações judaico da Espanha (c. 1300) retrata cavaleiros a cavalo, reflexo de uma cultura que celebrava virtudes cavaleirescas durante a 'reconquista' cristã da Espanha.c7-fig73
  1353. p. 203, p. 203À medida que Castela, Aragão e Portugal estendiam suas conquistas no século XIII, deixando só um Estado residual sob domínio muçulmano até a tomada de Granada, em 1492, as autoridades reais afirmaram cada vez mais seu poder nos novos territórios. Leis foram codificadas e práticas jurídicas unificadas, e a obra culminante foi talvez as Siete Partidas, compiladas sob Afonso X de Castela (plenamente aplicadas só no século seguinte).c7-crown-consolidates
  1354. p. 203, p. 203Quando a Coroa afirmou sua supervisão direta sobre as comunidades judaicas, seus interesses colidiram com os de outros atores: os barões, os municípios cristãos e a Igreja católica. Cada um tinha pretensões sobre a minoria e disputava sua parte dos impostos. A Igreja, por exemplo, insistia que proprietários judeus pagassem também o dízimo (diezmo) devido por todos os proprietários cristãos, mas mesmo quando a Coroa cedia, aplicava as regras de modo desigual.c7-competing-claims
  1355. p. 203, p. 203Nas cidades, onde vivia a maioria dos judeus, as autoridades municipais viam a soberania régia exclusiva sobre os judeus como intrusão em seus direitos, e as comunidades judaicas ficavam no centro de conflitos de poder. Por serem vistos como propriedade real, os judeus eram especialmente suscetíveis a pagar pela raiva popular contra a Coroa, e a violência antijudaica era movida tanto por preconceito tradicional quanto por circunstâncias políticas.c7-royal-property-brunt
  1356. p. 203, p. 203Nos ataques da peste de fins dos anos 1340, judeus foram agredidos em Barcelona, e o rei Pedro IV de Aragão tentou afirmar sua autoridade e garantir a proteção deles contra a hostilidade popular, que aparentemente foi atiçada por certos pregadores nas igrejas locais. Em fins de maio de 1348, escreveu aos conselheiros da cidade, lembrando que os judeus viviam sob sua proteção especial, e dez dias depois escreveu ao bispo e ao clero pedindo que os sermões que incitavam contra os judeus fossem suprimidos.c7-barcelona-1348
  1357. p. 203, p. 203O aviso real parece não ter bastado para proteger os judeus de Barcelona: em fevereiro de 1349, Pedro IV escreveu aos conselheiros municipais sobre a 'temerária intrusão' contra a aljama dos judeus da cidade, observando que a justiça ainda não fora feita e que os agressores, impunes, espalhavam ameaças de atacar e destruir os judeus na Semana Santa seguinte.c7-barcelona-1349
  1358. p. 203, p. 203O sentimento antijudaico de motivação religiosa podia, portanto, ser mobilizado e levar à violência contra a minoria, mas essa mobilização sempre ocorria num contexto político local particular, em que a Coroa, a Igreja, o governo da cidade e a própria comunidade judaica tinham papel.c7-local-politics
  1359. p. 204, p. 203Em muitas áreas da Espanha da Reconquista a realidade social era ainda mais complexa, pois uma minoria muçulmana considerável passou a viver sob domínio cristão ao lado dos judeus. Embora muitos judeus conservassem a cultura arabizada, isso não significava necessariamente boas relações com os vizinhos muçulmanos: as duas minorias se chocavam por interesses econômicos concorrentes, conversão religiosa ou encontros sexuais entre membros dos dois grupos.c7-muslim-minority
  1360. p. 204, p. 204Às vezes as relações entre as minorias degeneravam em violência, espelhando os padrões de confronto com minorias na sociedade cristã. Exemplo marcante: muçulmanos participaram de ataques cristãos aos judeus na Semana Santa. O rei Jaime de Aragão registrou que, no início do século XIV, alguns muçulmanos de Deroca escalaram os muros do castelo onde viviam judeus e os atacaram com pedras e espadas, ferindo vários.c7-deroca
  1361. p. 204, p. 204A cultura literária produzida pelos judeus da Espanha cristã foi ao mesmo tempo continuação do legado de al-Andalus e integração de influências vindas da Europa ao norte dos Pireneus. Exemplo é a poesia hebraica de Todros ben Judá Abulafia (m. 1306), que continuou a tradição andalusi e experimentou estilos inspirados na poesia trovadoresca da Europa cristã.c7-sefarad-literary
  1362. p. 204, p. 204Talvez o mais renomado sábio da Espanha cristã medieval foi Moisés ben Nahman, Nahmânides (1194 a 1270), nascido em Girona, na Catalunha, que partiu para a Terra Santa em 1267 e passou os últimos anos em Jerusalém e Acre. Teve papel central na controvérsia dos anos 1230 sobre os escritos filosóficos de Maimônides, e o rei de Aragão o convocou à disputa pública com Pablo Cristiani em Barcelona, em 1263. Cerca de 50 de suas obras sobreviveram.c7-nahmanides-life
  1363. p. 204, p. 204Mais que ninguém, Nahmânides introduziu no mundo sefardita o tipo de estudo talmúdico desenvolvido pelos tosafistas do norte da França, e criou uma nova síntese da erudição talmúdica da Espanha, do norte da França e da Provença. Como os tosafistas, interessava-se pelo estudo detalhado do texto talmúdico por si mesmo e não principalmente para determinar a prática legal, que fora o foco da abordagem sefardita.c7-nahmanides-talmud
  1364. p. 204, p. 204A cabala foi a segunda área em que Nahmânides teve grande impacto, sobretudo por seu comentário bíblico, que se juntou aos de Abraão ibn Ezra e de Rashi entre os comentários clássicos. Ele foi o primeiro a integrar a cabala às suas glosas à Bíblia: citava muitas vezes uma interpretação 'segundo o sentido simples da Escritura' e depois outra, introduzida por 'segundo o caminho da Verdade', isto é, no espírito cabalístico.c7-nahmanides-kabbalah
  1365. p. 204, p. 204Cabala significa literalmente 'tradição', algo 'recebido', e designa os ensinamentos místicos que se desenvolveram na Provença e na Espanha nos séculos XII e XIII. O misticismo costuma designar uma experiência religiosa de comunhão com o divino, que transforma a consciência do indivíduo e leva à revelação de conhecimento 'secreto' e 'oculto'. Meados do século XII viu surgir na Provença uma nova literatura mística judaica.c7-kabbalah-definition
  1366. p. 204, p. 205Provavelmente não foi coincidência que a mesma área da Provença fosse palco de uma controvérsia sobre a filosofia judaica e os escritos de Maimônides, e em certo sentido a cabala foi uma resposta ao desafio da filosofia. Para filósofos aristotélicos como Maimônides, os mandamentos serviam principalmente a um fim educativo, pois um Deus autossuficiente e onipotente não 'precisava' de rituais ou orações. A cabala ofereceu entendimento oposto: palavras de oração e cumprimento dos mandamentos tinham impacto real sobre a vida do próprio reino divino e sustentavam literalmente o universo.c7-kabbalah-vs-philosophy
  1367. p. 204Nulman define Barekhu como a fórmula de abertura ('Bendizei o Senhor…') dita pelo sheliáh tzibbur para convocar o povo à oração pública em Shaharit e Arvit; o Zohar justifica o chamado dizendo que todo ato sagrado exige convocação.cl-barekhu-public-summons
  1368. p. 205, p. 205Uma das primeiras obras cabalísticas foi o estranho e obscuro Sefer ha-Bahir ('Livro da Clareza', ironicamente), composto na Provença do século XII em forma de midrash antigo que comentava cada versículo bíblico. Apesar da obscuridade, teve grande influência na literatura cabalística posterior: enumerou dez 'potências' de Deus, segundo as dez frases 'Haja...' do relato da criação, ideia que a cabala depois desenvolveu como as sefirot.c7-bahir
  1369. p. 205, p. 205A cabala posterior desenvolveu a ideia das dez potências (esferas), as sefirot, num sistema complexo de forças inter-relacionadas que juntas compunham a divindade. A cabala apresentava um universo mítico em que 'Deus', o reino divino, era palco da interação das dez sefirot, todas contidas no Deus único.c7-sefirot-system
  1370. p. 205, p. 205Nahmânides, Jonas Gerondi (m. 1263) e outros desenvolveram essa tradição cabalística na Catalunha do século XIII, do lado espanhol dos Pireneus. Outra escola cabalística surgiu em Castela, no fim do século XIII.c7-catalonia-castile-schools
  1371. p. 205, p. 205A obra mais influente do misticismo judaico, o Zohar ('Livro do Esplendor'), surgiu nesse círculo de cabalistas castelhanos por volta de 1290. Moisés de León foi a figura central na composição e circulação do texto, uma homilia mística em aramaico arcaico sobre o Pentateuco.c7-zohar-emerges
  1372. p. 205, p. 205Os cabalistas castelhanos afirmavam que o texto preservava uma tradição que remontava a Rabi Simeão bar Yohai e seus discípulos, no século II. Embora alguns espíritos críticos duvidassem da antiguidade da obra, ela foi amplamente aceita em todo o mundo judaico como portadora de verdades divinamente inspiradas, não menos autoritativas que as da Mishná ou do Talmude.c7-zohar-pedigree
  1373. p. 205, p. 205Para os cabalistas, a revelação divina na Torá não se destina a transmitir conhecimento histórico sobre as origens do mundo ou do povo judeu, nem seu objetivo principal é ensinar a lei. Sob a superfície do texto há uma mensagem oculta e mais profunda: a essência do próprio Deus está codificada no texto bíblico, e a cabala é a chave para destrancar os segredos do divino.c7-torah-hidden
  1374. p. 205, p. 205Diz o Zohar, pela voz de Rabi Simeão, que quem vê a Torá apenas como livro de narrativas e assuntos cotidianos está perdido: as histórias são só suas 'vestes externas', o corpo da Torá são seus preceitos e os verdadeiramente sábios chegam à alma, a verdadeira Torá, raiz de todos os princípios.c7-zohar-garments
  1375. p. 205, p. 205Segundo os cabalistas, o mundo surgiu por um processo de 'emanação'. A raiz última de todo ser é o ein-sof, o 'Infinito', de onde brotam as camadas de emanação, descritas como raios de luz ou fluxos de água. As dez sefirot são os primeiros produtos dessa emanação, dispostas numa ordem específica de proximidade decrescente à origem, e formam uma estrutura complexa de dez manifestações do divino que interagem entre si e são parte do próprio reino divino.c7-emanation
  1376. p. 205, p. 222, p. 226Skarsaune liga a 'descoberta' eclesial do Talmude no século XIII (Paris, anos 1240) a uma nova estratégia missionária dominicana: provar a messianidade de Jesus a partir da literatura rabínica. Isso prepara os debates públicos (Barcelona 1263) em que convertidos como Pablo Cristiani confrontam rabinos com o próprio Talmude.cjb-talmud-discovery-mission
  1377. p. 206, p. 207As sefirot têm dois lados, esquerdo e direito, muitas vezes representados como o lado 'masculino' e o 'feminino' da divindade. A literatura cabalística emprega a imagem da união sexual para descrever como as sefirot da 'sabedoria' (hokhmah, à direita) e do 'entendimento' (binah, à esquerda) se unem para produzir as sete sefirot inferiores. Idealmente há equilíbrio perfeito entre os dois lados; se o do 'julgamento' se fortalece demais, dá força às forças do mal.c7-sefirot-sides
  1378. p. 206, p. 206O diagrama do livro mostra as dez sefirot e suas relações. Keter é a mais alta, o ponto além do qual a mente não vai; a união de Hokhmah e Binah, aspectos masculino e feminino de Deus, produziu as sete sefirot inferiores. Os místicos acreditavam que os humanos espelhavam essa estrutura e, por isso, podiam influenciar Deus por suas ações, promovendo uma relação harmoniosa entre as partes do sistema.c7-fig74
  1379. p. 207, p. 207A tarefa do cabalista, em última análise, é restaurar a harmonia perfeita e efetuar a união das sefirot, o que se alcança pela oração e pelo cumprimento dos mandamentos. A energia divina é canalizada da sefirá mais alta, keter ('coroa'), até a mais baixa, malkhut ('reino') ou shekhiná, onde o mundo divino se conecta aos mundos inferiores, os dos anjos e, no fundo, o material, habitado pelos humanos.c7-kabbalist-task
  1380. p. 207, p. 207A força dessa estrutura teosófica era permitir aos cabalistas relacionar-se com o Deus pessoal da revelação. Enquanto filósofos como Maimônides tentaram explicar o sentido figurado da linguagem antropomórfica da Bíblia, os cabalistas a abraçaram como pista de como era o 'rosto' do divino, o que lhes permitia experimentar o divino pela prática mística e crer que orações e mandamentos afetavam diretamente a estrutura das sefirot e o bom funcionamento do cosmos.c7-kabbalah-strength
  1381. p. 207, p. 207O surgimento da cabala na Espanha cristã do século XIII não deve obscurecer a continuidade de outras facetas da criatividade literária judaica. Em filosofia, Hasdai Crescas, de Barcelona (c. 1340 a c. 1411), deu seguimento a uma longa tradição ilustre do judaísmo espanhol com o Or Adonai ('Luz do Senhor'), concluído em 1410, uma exposição sistemática dos dogmas centrais do judaísmo. Criticou o aristotelismo judaico medieval, como o de Maimônides.c7-crescas-philosophy
  1382. p. 207, p. 207Alguns estudiosos notaram a modernidade surpreendente da filosofia de Crescas, que 'prenuncia a revolução científica'. Ele argumentou, por exemplo, contra a noção aristotélica de espaço: enquanto os aristotélicos judeus sustentavam que o universo era finito, Crescas sugeriu que era aberto e infinito. A matéria, para ele, era uma entidade primária que existia em ato, e não mera potencialidade de ser.c7-crescas-modern
  1383. p. 207, p. 207A especulação filosófica continuou entre os judeus deslocados pela expulsão da Espanha em 1492, mas no fim foi a cabala que teve impacto mais significativo e duradouro sobre a cultura judaica nos séculos seguintes.c7-kabbalah-lasting
  1384. p. 207, p. 207No verão de 1391, as comunidades judaicas de toda a península Ibérica foram atacadas; dezenas de milhares, ao que parece, foram mortas ou se converteram ao cristianismo para escapar da violência. Os tumultos começaram em Sevilha, em junho daquele ano, e sua rápida difusão por Castela e além, até o reino de Aragão, ainda não é bem compreendida, embora houvesse precedentes em outras partes da Europa medieval.c7-1391-riots
  1385. p. 207, p. 207À violência de 1391 seguiu-se uma pressão conversionista duradoura, em especial por causa de outra disputa encenada, desta vez na cidade de Tortosa, que durou vários meses, de fevereiro de 1413 a novembro de 1414. Como resultado, um número ainda maior de judeus abraçou o catolicismo e reduziu as fileiras do judaísmo espanhol, o que criou uma nova classe social de judeus convertidos, os conversos.c7-tortosa
  1386. p. 207, p. 207Historiadores apontaram no passado a diferença entre a aparente disposição dos judeus asquenazitas da Renânia de morrer como mártires em vez de se batizar na Primeira Cruzada e as conversões em massa dos judeus espanhóis em 1391 e depois. A comparação é problemática, pois se trata de contextos históricos totalmente diferentes, em regiões distintas e separados por três séculos. Está errada também por outro motivo: houve 'martírio' generalizado na Espanha, e milhares morreram, fosse pelas mãos dos agressores ou sacrificando a própria vida.c7-martyrdom-comparison
  1387. p. 207, p. 207, p. 207No verão de 1391, tumultos que começaram em Sevilha mataram ou levaram ao batismo dezenas de milhares de judeus na península Ibérica. A disputa de Tortosa (1413 a 1414) aumentou ainda as conversões e consolidou a classe social dos conversos, cuja identidade ambígua (e a suspeita de 'judaizar') moldaria Espanha e Portugal nos séculos XV e XVI.cjb-1391-mass-conversion
  1388. p. 208, p. 208Hasdai Crescas descreveu os acontecimentos de 1391 numa carta comovente enviada ao sul da França: em Toledo, os rabinos 'santificaram o Nome' em público e muitos se converteram por não suportar a pressão; no sábado seguinte, a comunidade de Barcelona foi atingida, com cerca de 250 mortos. O resto refugiou-se na fortaleza, onde as turbas os atacaram com arcos e catapultas; muitos morreram como mártires e os demais foram batizados, e só uns poucos fugiram para cidades senhoriais. Hoje, escreveu ele, não há ninguém conhecido como judeu em Barcelona.c7-crescas-letter
  1389. p. 208, p. 208Enquanto Crescas fala de centenas de vítimas, outras fontes mencionam milhares, e o historiador Haim Beinart chegou a estimar que até um terço dos judeus da Espanha foi morto e outro terço batizado em 1391.c7-1391-casualties
  1390. p. 208, p. 208Dado o trauma do verão de 1391 e o fato de que apenas cem anos depois, em 1492, os judeus seriam expulsos da Espanha, é fácil ver o último século do judaísmo espanhol como período de declínio inevitável.c7-last-century-decline
  1391. p. 208, p. 208O surpreendente é que as comunidades judaicas sobreviventes da Espanha pareceram retomar o equilíbrio depois de se recuperarem do trauma inicial de 1391. O mapa judaico da Espanha cristã mudara muito: cidades como Barcelona e a ilha de Maiorca deixaram de ter comunidade judaica, e outras eram sombra do que foram. Mas, em 1480, uma estimativa recente ainda calcula cerca de 100 mil judeus só em Castela (cerca de 3% da população), a maioria agora em cidades menores e não nos grandes centros urbanos.c7-spain-recovery
  1392. p. 208, p. 208A criatividade cultural continuou, e até a cooperação pacífica entre judeus e cristãos não acabou. Nos anos 1420 e 1430, o rabino Moisés Arragel de Guadalajara produziu uma Bíblia e comentário em romance a pedido do grão-mestre da Ordem de Calatrava. Uma prensa hebraica foi instalada em Guadalajara, em 1476, e a impressão de livros hebraicos estava bem encaminhada na Espanha na época da expulsão.c7-late-creativity
  1393. p. 208, p. 208Também a economia dava sinais de recuperação: as comunidades judaicas da Espanha do século XV estavam se reconstruindo, e um historiador chega a falar, em estudo recente sobre os judeus de Morvedre, ao norte de Valência, de um 'renascimento judaico'.c7-morvedre-renaissance
  1394. p. 208, p. 208Entre os que tinham reservas quanto ao estudo da filosofia estava o grande sábio rabínico espanhol Salomão ben Adret (1235 a 1310), que conhecia a obra de Maimônides e de outros filósofos e não se opunha por completo à especulação filosófica. O banimento citado no livro representa um meio-termo: proíbe o estudo da filosofia até os 25 anos, sem ir tão longe quanto os que a teriam banido por inteiro.c7-adret-ban
  1395. p. 208, p. 208O texto do banimento decreta que, durante cinquenta anos e sob ameaça de excomunhão, ninguém na comunidade, a não ser maior de 25 anos, estudaria, no original ou em tradução, os livros que os gregos escreveram sobre filosofia religiosa e ciência. A medicina ficou excluída da proibição, pois a Torá permite ao médico curar.c7-adret-ban-terms
  1396. p. 209, p. 209Em Castela, Abraão Benveniste foi nomeado em 1421 Rab de la Corte, uma espécie de 'rabino-chefe' representante dos judeus do reino, e convocou em 1432 uma conferência das comunidades castelhanas em Valladolid. Aprovou-se uma série de ordenanças e a vida comunitária foi reorganizada. O esforço de centralização continuou sob o líder seguinte, Abraão Seneor, banqueiro proeminente da corte real.c7-castile-centralization
  1397. p. 209, p. 209Segundo Javier Castaño, o esforço de centralização levou ao 'desenvolvimento de uma consciência proto-nacional dos judeus em Castela'. Ironicamente, quando a história judaica na Espanha medieval se aproximava do fim, os judeus de Castela e Aragão talvez se identificassem mais do que nunca com os respectivos reinos. Talvez não surpreenda tanto, por isso, que os judeus espanhóis exilados tenham se agarrado com tanta tenacidade ao legado ibérico mesmo depois de expulsos, em 1492.c7-proto-national
  1398. p. 209, p. 209O mapa 7.2 do livro, sobre a expulsão e a migração de judeus da Europa Ocidental entre 1000 e 1500, indica as comunidades judaicas com a data de expulsão, a direção da fuga e dispersão dos expulsos, principalmente para a Polônia, a Itália e o Império Otomano, e os principais locais de reassentamento.c7-map72
  1399. p. 209, p. 209A imagem que temos da sociedade judaica na Europa cristã medieval é muitas vezes a de uma comunidade isolada do ambiente não judaico, frequentemente perseguida e guiada pela tradição religiosa. Nos três aspectos, a vida judaica na Idade Média foi mais complicada. É verdade que a diferença religiosa básica entre cristãos e judeus era aceita por todos e moldava o encontro entre eles, que os judeus foram muitas vezes vítimas de violência e que a tradição religiosa fundamentava o modo como viviam e pensavam.c7-apart-image
  1400. p. 209, p. 209O historiador judeu-americano Salo Baron argumentou num artigo de 1928 que a situação dos judeus na sociedade medieval é muitas vezes mal compreendida. Os judeus eram, na maioria, população urbana, e portanto uma pequena minoria cujo estatuto legal e privilégios os distinguiam da imensa maioria das pessoas, os camponeses. Os camponeses eram quase em toda parte servos presos à terra que lavravam, vendidos junto com ela se o proprietário vendesse suas posses.c7-baron-1928
  1401. p. 209, p. 209, p. 209Penner identifica três padrões distintos de oração diária no período do Segundo Templo: analogia com o sacrifício diário; legitimação pela Escritura (sobretudo Dt 6:7, e em Josefo também Moisés como exemplar); coordenação com os ciclos das luminárias celestes.cl-penner-three-patterns
  1402. p. 209No período do Segundo Templo, segundo Penner, o costume de oração diária foi promovido como prática religiosa importante, e várias estratégias surgiram para legitimá-lo (naturalização por analogia e etiologia).cl-daily-prayer-prominence
  1403. p. 210, p. 210Os judeus nunca tiveram 'direitos iguais' nas sociedades medievais, cristãs ou muçulmanas, mas ninguém realmente os tinha, conceito sem sentido na época. Os judeus constituíam um grupo claramente definido, com certos privilégios e oportunidades inacessíveis à massa camponesa. Ao mesmo tempo, como grupo, sempre sofreram restrições, mas isso também valia para quase todos os demais na sociedade medieval, fora a nobreza.c7-no-equal-rights
  1404. p. 210, p. 210Autoridades cristãs e judaicas tinham igual interesse em manter linhas divisórias claras entre as comunidades: quem violasse as fronteiras era visto por ambos como ameaça à ordem social e religiosa. A Igreja e o Estado estavam em posição bem mais forte para impor regras. Mas quando a Igreja insistia que cristãos não comessem comida judaica nem bebessem vinho feito por judeus, exigia o que os rabinos também endossariam: as restrições alimentares da lei judaica também serviam para manter fronteiras sociais nítidas entre judeus e gentios.c7-both-sides-boundaries
  1405. p. 210, p. 210A realidade cotidiana era outra coisa; veja-se a questão de compartilhar vinho. As regras talmúdicas sobre produção e manuseio do vinho são rigorosas, e por isso muitos judeus, do norte da França ao sul da Espanha, dedicavam-se a fazer vinho, abastecendo a comunidade com uma bebida usada no ritual religioso (a bênção sobre o vinho no Shabat) e também básica no cotidiano. Segundo o cálculo de um historiador, uma família judaica da Úmbria, no fim do século XV, bebia em média entre 1,5 e 3 litros de vinho por dia.c7-wine
  1406. p. 210, p. 210O cristianismo se estendeu além da órbita da Igreja católica, assumindo forma muito diferente no sudeste da Europa e na Ásia Menor. No Império Romano dividido, a metade oriental ficou conhecida como Império Bizantino, embora seus habitantes se chamassem romanos e vissem o imperador como herdeiro do trono de César. Reduzido pelas conquistas muçulmanas, perdeu a Itália no fim do século XI, e os turcos seljúcidas tomaram boa parte da Ásia Menor em 1071, mas um império bem reduzido durou até Constantinopla cair ante os otomanos, em 1453.c7-byzantine-empire
  1407. p. 210, p. 210A situação dos judeus sob domínio bizantino diferia da dos judeus na Europa católica. Num reino que se via como continuação do Império Romano, os judeus bizantinos se entendiam como romanos e não hesitavam em invocar o antigo estatuto legal do judaísmo como religião oficialmente reconhecida, como fonte de proteção. Por outro lado, enfrentaram discriminação legal e perseguição.c7-byzantine-status
  1408. p. 210, p. 210Às vésperas da conquista muçulmana da Palestina, em 634, os judeus sofriam sob a perseguição imposta pelo imperador Heráclio (610 a 641), pois (supostamente) haviam ajudado os persas na conquista de Jerusalém em 614, razão importante, ao que parece, para que os judeus tenham sido tão receptivos ao domínio muçulmano na Palestina e em outros territórios tomados dos bizantinos.c7-heraclius
  1409. p. 210, p. 210Vários imperadores posteriores também tentaram converter os judeus à força, e a controvérsia iconoclasta dos séculos VIII e IX, um cisma sobre se os cristãos deviam venerar imagens sagradas, foi particularmente dura para os judeus, identificados com o campo anicônico por causa da proibição religiosa judaica de imagens.c7-iconoclasm
  1410. p. 210, p. 210Apesar desses episódios, como um dos muitos grupos étnicos do império, os judeus bizantinos gozaram de existência relativamente estável. Segundo o viajante Benjamim de Tudela, 'há muito ódio contra eles', mas os judeus são 'ricos e bons, caridosos e religiosos'. No século XI as condições eram acolhedoras o bastante para atrair imigrantes. Surgiram centros de estudo em Tebas e Constantinopla, e mercadores judeus se destacaram no comércio têxtil, apesar das tentativas de excluí-los do ramo da seda.c7-byzantine-life
  1411. p. 210, p. 210O judaísmo rabanita bizantino não produziu muitos grandes estudiosos da tradição legal, embora muitos poetas e midrashistas viessem do império. Já os juristas caraítas bizantinos definiram a agenda de todo o seu movimento por quatro séculos. O rabanita Tobias ben Eliezer escreveu a conhecida compilação midráshica Midrash Leqah Tov e participou de um movimento messiânico que tomou os judeus da Grécia quando os cruzados avançavam para o leste.c7-byzantine-scholars
  1412. p. 210No capítulo final, Novinsky pergunta o que era o cristão-novo brasileiro, o homem dividido entre ser cristão e ser judeu.c9-bahia-divided-man
  1413. p. 211, p. 211Apesar das restrições teóricas da lei religiosa, sabia-se que alguns judeus na Itália não eram estritos ao provar vinhos não judaicos: o rabino veneziano Leone da Modena explicou, no século XVII, que os antepassados na Itália bebiam desde sempre vinho comum. Já cristãos ignoravam as admoestações da Igreja ao apreciar vinho judaico: no século XIV, o abade Taddeo, de um mosteiro da Úmbria, elogiou os tintos Trebbiano de um vinicultor judeu como os melhores da região, e monges da confraria de S. Stefano frequentavam nos anos 1380, em Assis, uma taberna de um judeu.c7-wine-practice
  1414. p. 211, p. 211A interação entre judeus e cristãos se manifestava em todas as camadas da vida, dos 'judeus da corte' às classes baixas. Na alta cultura há muitos exemplos de influência cruzada, da filosofia e da teologia à literatura. O poeta hebreu Immanuel de Roma (m. 1328) foi influenciado pela tradição poética hebraica da Espanha, mas conhecia a poesia italiana, e seu poema sobre 'inferno e paraíso' reflete a influência da epopeia de Dante.c7-cross-cultural
  1415. p. 211, p. 211A cooperação entre judeus e cristãos aparece também no extremo oposto da ordem social, entre párias de ambas as sociedades. Exemplo surpreendente é Abramo di Ventura da Roma, judeu que nos anos 1430 viveu como criminoso profissional em Perúgia, chefe de um bando com judeus e cristãos, especializado em sequestrar filhos de ricos mercadores e banqueiros judeus para extorquir resgates.c7-abramo-ventura
  1416. p. 211, p. 211Também em Ashkenaz a realidade social era mais complexa do que a imagem de uma sociedade mais tradicional e submissa à autoridade rabínica. O rabino Isaac de Corbeil, na França do século XIII, foi consultado sobre o caso de uma judia batizada que tomou um amante cristão, depois se arrependeu e voltou ao judaísmo, e cujo parceiro cristão também se converteu ao judaísmo. Podiam se casar? Ele decidiu que não. Não era caso típico, mas sugere que também em Ashkenaz as relações entre judeus e cristãos nem sempre podiam ser monitoradas como as autoridades queriam.c7-isaac-corbeil
  1417. p. 211, p. 211À medida que incorporavam práticas e valores da sociedade cristã circundante, os judeus asquenazitas os transformavam e os tornavam seus, exemplo da natureza da troca inter-religiosa na Idade Média, que sempre envolvia elementos de acomodação e de resistência.c7-accommodation-resistance
  1418. p. 211, p. 211O rito judaico da circuncisão sofreu mudanças na Idade Média que em alguns casos parecem modeladas no batismo cristão. Na época de Carlos Magno, a instituição dos padrinhos foi introduzida do Oriente bizantino no Ocidente católico, e provavelmente não por coincidência surgiu um papel honorífico semelhante no rito asquenazita: o ba'al ha-brit ou sandek, adulto (às vezes uma mulher) que passa a criança ao pai e a segura durante a circuncisão.c7-sandek
  1419. p. 211, p. 211Outro ritual infantil, que introduzia meninos ao estudo da Torá, pode também ter sido influenciado pelo cristianismo: o menino recebia bolos de mel com versículos bíblicos escritos, encenando simbolicamente Ezequiel 3:3 ('comi, e foi doce como mel'). O historiador Ivan Marcus sugeriu que essa prática pode ter sido 'uma transformação judaica do mistério litúrgico central da Igreja, a Eucaristia'.c7-honey-cakes
  1420. p. 211, p. 211Os judeus foram, portanto, influenciados pelos rituais e ideias religiosas de seus vizinhos cristãos, mas adaptá-los ao judaísmo não foi imitação nem assimilação cultural: foi um processo que transformou o significado dos rituais e símbolos adotados e os tornou seus.c7-adaptation-not-imitation
  1421. p. 212Para Penner, descrições em 1QS VI 6-7, 1QS IX 26b-X 8a, 1QHᵃ XX 7-14 e 4Q334 indicam que a comunidade de Qumran praticava oração noturna regular; textos como 4Q503 e 4Q510-511 entram com menor certeza.cl-qumran-nocturnal
  1422. p. 213A expulsão de 1492 foi o ápice de um longo êxodo judaico da Europa ocidental.c8-western-exodus
  1423. p. 213A Alemanha nunca decretou uma expulsão geral, mas muitas cidades e regiões removeram seus judeus.c8-german-expulsions
  1424. p. 213Em 1570, Frankfurt era a única cidade imperial livre alemã ainda habitada por judeus.c8-frankfurt-1570
  1425. p. 213O Império Otomano e a Polônia-Lituânia tornaram-se os dois grandes centros judaicos orientais.c8-eastern-centers
  1426. p. 213As comunidades deslocadas reconstruíram uma cultura resiliente, mas transformada por novos ambientes.c8-resilient-rebuilding
  1427. p. 213A época moderna inicial foi de transição gradual, não de ruptura revolucionária da identidade judaica.c8-early-modern-transition
  1428. p. 213Mudanças profundas abriram fissuras, embora a estrutura da tradição judaica permanecesse forte.c8-tradition-remained
  1429. p. 213Exilados ibéricos levaram sua herança a novos lares e frequentemente dominaram tradições locais.c8-sephardi-hegemony
  1430. p. 213As migrações transportaram o iídiche para o leste europeu e o ladino para terras otomanas.c8-languages-migrate
  1431. p. 213A tradição sefardita transformou e, em alguns lugares, substituiu costumes romaniotas.c8-romaniot-change
  1432. p. 214Iídiche e ladino separavam linguisticamente os judeus de grande parte de seus vizinhos.c8-distinct-jewish-languages
  1433. p. 214Portugal impôs uma conversão coletiva em 1497, cinco anos após a expulsão espanhola.c8-portugal-1497
  1434. p. 214Muitos conversos mantiveram identidade e práticas judaicas numa subcultura clandestina.c8-converso-subculture
  1435. p. 214Entre conversos, afirmar religiosamente a condição judaica tornou-se uma escolha pessoal.c8-converso-choice
  1436. p. 214A imprensa ampliou enormemente a circulação de conhecimento entre tradições judaicas.c8-print-exchange
  1437. p. 214Ensinamentos cabalísticos antes reservados a poucos alcançaram públicos muito maiores.c8-kabbalah-spread
  1438. p. 214A nova astronomia contestou cosmologias tradicionais judaicas, cristãs e clássicas.c8-science-challenge
  1439. p. 214Judeus de várias regiões estudaram medicina em Pavia e Pádua e levaram ciência secular para casa.c8-medical-students
  1440. p. 214Governantes passaram a priorizar interesses políticos e econômicos sobre considerações religiosas.c8-state-interest
  1441. p. 214Nulman atribui a composição de Barukh She'amar (abertura de Pesukei Dezimra) aos Homens da Grande Assembleia, a quem a tradição diz ter sido revelada do céu com oitenta e sete palavras (valor numérico de paz, 'ouro refinado').cl-barukh-sheamar-great-assembly
  1442. p. 215O mercantilismo incentivou Estados a considerar comerciantes e financistas judeus como ativos.c8-mercantilism-jews
  1443. p. 215Estimativas indicam que a população polonesa-lituana passou de cerca de 30 mil em 1500 para 100 mil, talvez mais, em 1575.c8-ashkenazi-growth
  1444. p. 215No início do século XVIII, os asquenazitas tornaram-se maioria entre os judeus do mundo.c8-ashkenazi-majority
  1445. p. 215Salônica e Istambul tinham cerca de 20 mil judeus cada em meados do século XVI.c8-ottoman-metropolises
  1446. p. 215Depois de 1650, Amsterdã e Livorno viram suas populações judaicas crescer rapidamente.c8-western-port-growth
  1447. p. 216Gutenberg imprimiu sua Bíblia de dois volumes em 1455.c8-gutenberg
  1448. p. 216Um contrato de 1444 em Avignon registra uma tentativa judaico-cristã de imprimir em hebraico.c8-avignon-experiment
  1449. p. 216O Arba'ah Turim e o comentário de Rashi estiveram entre os primeiros livros hebraicos impressos.c8-first-hebrew-print
  1450. p. 216Exilados sefarditas abriram uma prensa hebraica em Constantinopla já em 1493.c8-constantinople-press
  1451. p. 216A família Soncino iniciou sua atividade em 1484 e depois imprimiu no Império Otomano.c8-soncino
  1452. p. 216Daniel Bomberg publicou em Veneza uma Bíblia rabínica em 1517 e 1518.c8-bomberg-bible
  1453. p. 216A paginação talmúdica moderna ainda segue a edição completa de Bomberg.c8-bomberg-talmud
  1454. p. 216Livros impressos ampliaram leitores, alfabetização e acesso aos textos judaicos.c8-print-democratized
  1455. p. 216A página impressa estabilizou textos e ajudou a uniformizar práticas, sobretudo litúrgicas.c8-print-standardized
  1456. p. 216A leitura individual tornou o aprendizado menos dependente da orientação direta dos rabinos.c8-rabbinic-authority-print
  1457. p. 216A imprensa iniciou uma transformação lenta, pois livros ainda eram caros e raros.c8-print-gradual
  1458. p. 217O centro asquenazita moveu-se da França e Alemanha para a Polônia-Lituânia.c8-ashkenaz-shift
  1459. p. 217O antigo rabino Salomão ha-Levi tornou-se Pablo de Santa María e bispo de Burgos.c8-solomon-halevi
  1460. p. 217As conversões dividiram cônjuges, irmãos e primos entre judaísmo e cristianismo.c8-divided-families
  1461. p. 217Conversos continuaram próximos de parentes judeus, que podiam apoiar práticas clandestinas.c8-converso-neighbors
  1462. p. 217A violência de Toledo em 1449 dirigiu-se contra conversos, não contra judeus.c8-toledo-1449
  1463. p. 218Os estatutos de limpeza de sangue excluíam descendentes de judeus apesar de sua fé cristã.c8-purity-blood
  1464. p. 218A limpeza de sangue separou a identidade judaica da religião e lhe deu caráter hereditário.c8-identity-racialized
  1465. p. 218A disputa de Tortosa, de 1413 a 1414, terminou com uma vitória cristã declarada e novas conversões.c8-tortosa
  1466. p. 218Em 1478 os Reis Católicos pediram ao papa autorização para uma Inquisição nacional, que começou a atuar em 1481.c8-inquisition-founded
  1467. p. 218A Inquisição julgava cristãos por heresia, e não judeus como tais.c8-inquisition-target
  1468. p. 218A chegada de um tribunal abria um período de graça de trinta ou quarenta dias para confissões.c8-grace-period
  1469. p. 218Práticas alimentares, o descanso sabático e ritos de luto eram tratados como indícios de judaização.c8-judaizing-signs
  1470. p. 218Os registros inquisitoriais preservam testemunhos detalhados sobre a vida cotidiana conversa.c8-inquisition-records
  1471. p. 218María Días declarou em 1483 ter visto vizinhos preparando o sábado e evitando carnes não kosher.c8-maria-dias
  1472. p. 219Condenados por judaização podiam perder bens e ser entregues ao poder secular para execução.c8-auto-da-fe
  1473. p. 219Entre 1540 e 1700, menos de 2% dos acusados pela Inquisição teriam sido queimados.c8-inquisition-rate
  1474. p. 219Em Aragão, uma estimativa atribui 520 execuções aos 942 processos por criptojudaísmo.c8-aragon-crypto-jews
  1475. p. 219A conquista de Granada em janeiro de 1492 consolidou a monarquia católica na maior parte da Espanha.c8-granada-1492
  1476. p. 219O edito de março justificou a expulsão como meio de impedir que judeus influenciassem conversos.c8-expulsion-edict
  1477. p. 220O mapa 8.1 liga a expulsão espanhola a comunidades sefarditas do Mediterrâneo e do Atlântico.c8-map-sephardi
  1478. p. 220Historiadores divergem sobre se a expulsão buscava partida, conversão ou unidade religiosa.c8-expulsion-debate
  1479. p. 220A expulsão trouxe pouco ganho imediato e causou dano econômico direto limitado.c8-expulsion-economy
  1480. p. 220Provavelmente cerca de 100 mil judeus deixaram a Espanha.c8-exile-number
  1481. p. 220Manuel ordenou em dezembro de 1496 que os judeus deixassem Portugal em dez meses.c8-portugal-edict
  1482. p. 220Em 1497, o Estado tomou crianças judias de até quatorze anos para batizá-las.c8-children-seized
  1483. p. 220Portugal converteu coletivamente os judeus e os proibiu de emigrar.c8-portugal-conversion
  1484. p. 221A Inquisição foi instalada em Lima e na Cidade do México em 1569.c8-inquisition-overseas
  1485. p. 221Após 1506, conversos portugueses emigraram continuamente para o Mediterrâneo e o norte europeu.c8-converso-emigration
  1486. p. 221Os otomanos tomaram Constantinopla em 1453 e fizeram dela a capital de seu império.c8-ottoman-conquest
  1487. p. 221Exilados sefarditas construíram um centro florescente sob proteção dos sultões.c8-ottoman-refuge
  1488. p. 221A tradição de que Bayezid II convidou os judeus espanhóis é popular, mas historicamente inexata.c8-bayezid-myth
  1489. p. 221Isaac Zarfati apresentou a Turquia aos judeus alemães como terra de paz e oportunidade.c8-zarfati-letter
  1490. p. 221A conquista otomana de 1516 e 1517 incorporou Síria, Palestina e a Terra Santa judaica.c8-ottoman-holy-land
  1491. p. 221Safed tornou-se um novo centro de estudo judaico na Galileia otomana.c8-safed-center
  1492. p. 221Após 1453, a política de sürgün transferiu grupos inteiros, inclusive judeus, para Istambul.c8-surgun
  1493. p. 222Moisés Almosnino integrou uma missão de Salônica ao sultão na década de 1560.c8-almosnino
  1494. p. 222A população judaica de Istambul subiu de cerca de 12 mil em 1490 para mais de 20 mil em 1688.c8-istanbul-growth
  1495. p. 222Salônica chegou a cerca de 30 mil judeus, metade da população urbana, no século XVII.c8-salonika-growth
  1496. p. 222A sociedade judaica otomana concentrava-se nas grandes cidades portuárias.c8-ottoman-urban
  1497. p. 222Judeus e cristãos eram dhimmis protegidos, sujeitos à jizya e a restrições variáveis.c8-ottoman-dhimmi
  1498. p. 222O Estado otomano deixava administração cotidiana e religião às comunidades não muçulmanas.c8-communal-autonomy
  1499. p. 222Responsa rabínicos são fontes importantes para a vida judaica otomana.c8-responsa-source
  1500. p. 222Comerciantes locais de Janina pediram para excluir concorrentes judeus visitantes.c8-janina-merchants
  1501. p. 222Samuel de Medina recusou a exclusão, citando a liberdade comercial no império.c8-medina-ruling
  1502. p. 222As cidades otomanas admitiam corporações judaicas e corporações de filiação religiosa mista.c8-mixed-guilds
  1503. p. 223Sefarditas levaram técnicas de tecido largo para Salônica e Safed.c8-textile-transfer
  1504. p. 223Judeus de Salônica pagavam parte da jizya em tecido destinado aos janízaros.c8-cloth-tax
  1505. p. 223A concorrência inglesa enfraqueceu a indústria têxtil judaica otomana.c8-textile-decline
  1506. p. 223Redes sefarditas conectaram portos otomanos, italianos e atlânticos.c8-trading-diaspora
  1507. p. 223A expansão otomana do século XVI coincidiu com prosperidade e ampla liberdade religiosa judaica.c8-ottoman-golden-age
  1508. p. 223Em Salônica, o ladino tornou-se tão comum no mercado que também era usado por não judeus.c8-ladino-market
  1509. p. 223Comunidades gregófonas continuaram ao lado dos recém-chegados sefarditas.c8-romaniot-coexist
  1510. p. 223Baladas espanholas preservaram textos antigos, mas adotaram melodias otomanas.c8-ottoman-music
  1511. p. 223No século XVI, o ladino permaneceu sobretudo popular, enquanto rabinos escreviam em hebraico.c8-ladino-popular
  1512. p. 224Jacob Huli publicou em 1730 o primeiro volume do comentário bíblico ladino Me'am Lo'ez.c8-meam-loez
  1513. p. 224Gracia Mendes saiu de Portugal após a criação da Inquisição e protegeu a fortuna familiar.c8-gracia-flight
  1514. p. 224A família Mendes viveu abertamente como judia em Ferrara a partir de cerca de 1553.c8-gracia-open-jew
  1515. p. 224José Nasi tornou-se duque de Naxos e controlou extensa rede de arrendamentos fiscais.c8-joseph-naxos
  1516. p. 224Gracia e José tentaram organizar em 1555 um boicote otomano a Ancona.c8-ancona-boycott
  1517. p. 224O boicote respondeu à execução de duas dúzias de conversos por Paulo IV.c8-ancona-martyrs
  1518. p. 224Safed atraiu conversos, sefarditas e judeus de muitas regiões após a conquista otomana.c8-safed-immigration
  1519. p. 224No fim da década de 1560, Safed talvez tivesse 1.800 domicílios judaicos.c8-safed-population
  1520. p. 225O túmulo atribuído a Shimon bar Yohai em Meron atraía peregrinos desde o século XIV.c8-meron-pilgrimage
  1521. p. 225O Zohar, compilado na Espanha do século XIII, tornou-se a principal autoridade cabalística.c8-zohar-authority
  1522. p. 225José Karo, místico e jurista, publicou o Shulhan Arukh em Veneza em 1565.c8-joseph-karo
  1523. p. 225Isaac Luria viveu em Safed por menos de três anos antes de morrer aos 38.c8-luria-safed
  1524. p. 225Os cabalistas de Safed cultivavam vigílias, luto pelo Templo e mortificação.c8-safed-asceticism
  1525. p. 225Como Luria não escreveu seus ensinamentos, Haim Vital foi seu principal transmissor.c8-vital-transmission
  1526. p. 225O tikkun libertaria centelhas divinas presas na matéria e restauraria a unidade divina.c8-tikkun
  1527. p. 225Na cabala luriana, cada mandamento cumprido com intenção correta podia promover a redenção.c8-ritual-cosmic
  1528. p. 226A doutrina do gilgul explicava a transmigração de centelhas de almas até sua recomposição.c8-gilgul
  1529. p. 226Filósofos como Saadia rejeitaram a transmigração, mas a cabala antiga a aceitara.c8-gilgul-precedents
  1530. p. 226Místicos de Safed desenvolveram a recepção ritual da rainha do sábado.c8-kabbalat-shabbat
  1531. p. 226O estudo durante toda a primeira noite de Shavuot também remonta a esse ambiente.c8-shavuot-vigil
  1532. p. 226Muitos exilados espanhóis instalaram-se no Marrocos após 1492.c8-morocco-migration
  1533. p. 226A distinção entre exilados megorashim e nativos toshavim persistiu por séculos.c8-megorashim-toshavim
  1534. p. 226Judeus marroquinos incluíam comerciantes hispanófonos dos portos e mediadores arabófonos do interior.c8-moroccan-diversity
  1535. p. 226Para Reif, ajustes litúrgicos dos séculos XIX e XX diferem das inovações anteriores: ditados pela reforma em resposta a ideologias do ambiente não judeu, ou por ajustes circunspectos diante de mudanças demográficas e cataclismos.cl-modern-reform-ideologies
  1536. p. 227O café chegou a grandes cidades do Oriente Médio em meados do século XVI.c8-coffee-spread
  1537. p. 227Rabinos discutiram bênção, Pessach e sábado, mas não proibiram o café em si.c8-jewish-coffee
  1538. p. 227Segundo o historiador Elliott Horowitz, o café teria favorecido vigílias cabalísticas noturnas.c8-coffee-kabbalah
  1539. p. 227Fez transferiu seus judeus para um mellah em 1438, em parte para protegê-los.c8-fez-mellah
  1540. p. 227O sultão Abd al-Haqq nomeou o judeu Aaron ben Batash como vizir.c8-aaron-ben-batash
  1541. p. 227Rebeldes mataram muitos habitantes do mellah de Fez em 1465.c8-fez-1465
  1542. p. 228A vida judaica marroquina combinou restrições severas, integração econômica e acesso ocasional à corte.c8-morocco-ambiguity
  1543. p. 228O mellah de Marraquexe surgiu em meados do século XVI como parte de um projeto dinástico.c8-marrakesh-mellah
  1544. p. 228O mellah de Marraquexe também abrigava estrangeiros cristãos e uma igreja franciscana.c8-mixed-mellah
  1545. p. 228Relatos europeus registram separação e integração, mas carregam preconceitos contra judeus e muçulmanos.c8-travelers-bias
  1546. p. 228A Itália funcionou como ponte cultural e encruzilhada de tradições judaicas.c8-italy-crossroads
  1547. p. 229Refugiados de guerra ampliaram a presença judaica em Veneza a partir de 1509.c8-venice-refugees
  1548. p. 229Autoridades venezianas defendiam agiotas judeus como serviço necessário aos cristãos pobres.c8-venice-poor
  1549. p. 229Veneza estabeleceu em março de 1516 o primeiro gueto judaico.c8-ghetto-1516
  1550. p. 229A bula Cum nimis absurdum de Paulo IV iniciou nova fase de pressão católica.c8-cum-nimis
  1551. p. 229A Igreja ordenou em 1553 a queima do Talmude em toda a Itália.c8-talmud-burning
  1552. p. 230O índice expurgatório de 1595 exigia alterações em 420 obras hebraicas.c8-index-hebrew
  1553. p. 230Em 1555, cerca de quatro mil judeus romanos foram confinados junto ao Tibre.c8-rome-ghetto
  1554. p. 230Guetos espalharam-se por cidades italianas nos séculos XVI e XVII.c8-italian-ghettos
  1555. p. 230Paradoxalmente, o período dos guetos italianos teve pouca violência física antijudaica.c8-ghetto-violence
  1556. p. 230O gueto restringia e controlava os judeus, mas também criava um espaço reconhecido (em Veneza, o início de uma presença permanente).c8-ghetto-ambivalence
  1557. p. 230A razão de Estado e a utilidade econômica passaram a superar parte das objeções religiosas.c8-raison-detat
  1558. p. 230A carta veneziana de 1548 permitiu sinagogas antes que outras minorias recebessem templos.c8-venice-synagogues
  1559. p. 230Nulman descreve Berikh Shemayh como oração cabalística aramaica citada do Zohar e introduzida na liturgia por Isaac Luria (Ari); o Zohar a atribui a Rabi Shimon bar Yohai (séc. II). Foi prescrita na Itália em 1540 e difundida a partir de cerca de 1599.cl-berikh-shemeh-luria-zohar
  1560. p. 231A autobiografia de Leone Modena mostra intensa proximidade cultural entre judeus e cristãos.c8-modena-autobiography
  1561. p. 231Em 1622, cristãos e nobres ouviram um sermão de Modena numa sinagoga lotada.c8-modena-sermon
  1562. p. 231A aculturação italiana adaptou práticas vizinhas sem apagar a diferença judaica.c8-acculturation-not-assimilation
  1563. p. 231Sara Coppio Sullam reuniu intelectuais cristãos em seu salão no gueto veneziano.c8-sara-sullam
  1564. p. 231Sullam publicou um manifesto para rebater acusação pública de heresia.c8-sullam-manifesto
  1565. p. 231O gueto veneziano abrigava ao menos oito sinagogas de comunidades diversas.c8-venice-diverse
  1566. p. 231Em Roma, cinco ritos compartilhavam o edifício conhecido como Cinque Scole.c8-cinque-scole
  1567. p. 232Os judeus da Itália no século XVI provavelmente não passavam de trinta mil.c8-italian-population
  1568. p. 232Confrarias voluntárias organizaram estudo, caridade, sociabilidade e ajuda mútua.c8-confraternities
  1569. p. 232A confraria Gemilut Hasadim de Ferrara cuidava de doentes pobres e funerais.c8-gemilut-hasadim
  1570. p. 232Rabinos chamavam atividades alheias ao ritual e ao estudo de bitul torah.c8-bitul-torah
  1571. p. 232Estudiosos do século XV cunharam o termo Idade Média para o período anterior à sua própria época, conhecida como Renascença.c8-renaissance-definition
  1572. p. 232Judeus italianos cultivaram retórica, música e dança; sinagogas por toda a Europa mostram influência renascentista na arquitetura.c8-jewish-renaissance-arts
  1573. p. 232Mordechai Maisel patrocinou ampla reconstrução do gueto de Praga no fim do século XVI.c8-maisel-prague
  1574. p. 232Isaac Lampronti usou ciência contemporânea para rever a questão de matar piolhos no sábado.c8-lampronti-science
  1575. p. 233A Universidade de Pádua formou médicos judeus em medicina, artes liberais, latim e ciências naturais.c8-padua-medicine
  1576. p. 233A escrita histórica judaica reviveu brevemente após a expulsão da Espanha.c8-history-revival
  1577. p. 233Shlomo ibn Verga buscou causas sociais e históricas, em vez de teológicas, para perseguições.c8-ibn-verga
  1578. p. 233Samuel Usque publicou em Ferrara, em 1553, uma consolação histórica em português.c8-samuel-usque
  1579. p. 233Elijah Capsali escreveu uma história dos impérios veneziano e otomano.c8-capsali
  1580. p. 233Joseph ha-Kohen escreveu uma crônica dos reinos da França e da Turquia e traduziu uma história da conquista do México.c8-joseph-hakohen
  1581. p. 233David Gans separou história geral e judaica em seu Tsemah David de 1592.c8-david-gans
  1582. p. 233Azariah de' Rossi foi o representante mais completo da Renascença judaica e uma figura controversa.c8-azariah-derossi
  1583. p. 233Alguns dos principais rabinos da época baniram o Me'or Einayim, redescoberto no Iluminismo judaico.c8-meor-einayim-ban
  1584. p. 233De' Rossi comparou Talmude, fontes judaicas antigas e autores não judeus.c8-derossi-method
  1585. p. 234De' Rossi distinguiu autoridade legal rabínica de afirmações históricas sujeitas a erro.c8-derossi-history-authority
  1586. p. 234Ele defendeu o uso crítico de sábios gentios sem aceitar alegações hostis à Torá.c8-gentile-sources
  1587. p. 234Humanistas estudaram hebraico com grego e latim para alcançar textos em suas línguas originais.c8-humanist-hebrew
  1588. p. 234Pico della Mirandola aprendeu com estudiosos judeus como Delmedigo e Alemanno.c8-pico-jewish-teachers
  1589. p. 234Johannes Reuchlin via o hebraico como língua original da humanidade.c8-reuchlin-hebrew
  1590. p. 234Spicer (no Handbook) nota que a Igreja rejeitou o antissemitismo racial que fazia da linhagem o selo permanente da identidade judaica e assim esvaziava o batismo.c-h502-hayes-spicer-church-rejects-racial
  1591. p. 235Reuchlin opôs-se à confiscação geral dos livros hebraicos proposta por Pfefferkorn.c8-reuchlin-affair
  1592. p. 235A defesa da literatura hebraica por Reuchlin não eliminava seus preconceitos contra judeus.c8-reuchlin-limits
  1593. p. 235Erasmo valorizava pouco o hebraico e rejeitava o envolvimento cabalístico de Reuchlin.c8-erasmus
  1594. p. 235A Reforma rompeu a cristandade ocidental e abalou antigas certezas religiosas.c8-reformation-split
  1595. p. 235Historiadores divergem sobre os efeitos positivos e negativos da Reforma para os judeus.c8-luther-debate
  1596. p. 235Em 1523, Lutero criticou perseguições católicas e pediu tolerância visando converter judeus.c8-luther-1523
  1597. p. 235Em 1543, Lutero defendeu incendiar sinagogas, destruir casas, confiscar livros de oração e Talmudes e restringir rabinos e viagens.c8-luther-1543
  1598. p. 236Apesar da mudança de tom, Lutero sempre buscou a conversão e nunca legitimou o judaísmo.c8-luther-continuity
  1599. p. 236Josel de Rosheim representou os judeus alemães perante Maximiliano I e Carlos V.c8-josel-defense
  1600. p. 236Josel convenceu Estrasburgo em 1543 a proibir a reimpressão dos textos antijudaicos de Lutero.c8-strasbourg-ban
  1601. p. 236Correntes protestantes mais tolerantes ajudaram a preparar a readmissão judaica na Inglaterra.c8-readmission-england
  1602. p. 236Após 1570, julgamentos de assassinato ritual diminuíram por proteção imperial, autodefesa e novas ideias.c8-blood-libel-decline
  1603. p. 236A crença popular na calúnia do sangue persistiu muito depois do declínio dos julgamentos.c8-blood-libel-persisted
  1604. p. 236O impasse da Guerra dos Trinta Anos fortaleceu políticas estatais pragmáticas.c8-thirty-years-war
  1605. p. 236Interesses econômicos do Estado contribuíram para o retorno da vida judaica à Europa ocidental.c8-return-west
  1606. p. 238O início da era moderna levou sefarditas da Ibéria ao Império Otomano e asquenazitas da Europa Central à Polônia.c9-parallel-migrations
  1607. p. 238A Polônia-Lituânia tornou-se o principal centro da cultura asquenazita.c9-poland-heartland
  1608. p. 238No fim do século XVII, a comunidade polonesa-lituana era a maior do mundo judaico.c9-largest-community
  1609. p. 238Moisés Isserles descreveu a Polônia como menos hostil aos judeus do que as terras alemãs.c9-isserles-peace
  1610. p. 238Uma lenda interpretava Polin como a ordem divina 'more aqui'.c9-polin-legend
  1611. p. 238Bernard Weinryb contou mais de cinquenta perseguições locais entre a década de 1530 e o início do século XVIII.c9-local-persecutions
  1612. p. 238Nem os massacres de 1648 nem as invasões seguintes interromperam a expansão demográfica judaica.c9-growth-after-1648
  1613. p. 238A migração judaica das terras alemãs para a Polônia começou provavelmente até o século XI.c9-migration-eleventh
  1614. p. 238Depois dos massacres do século XVII, refugiados seguiram para a Alemanha e outras regiões ocidentais.c9-reverse-migration
  1615. p. 238Uma estimativa situa entre 150 mil e 170 mil judeus na Polônia-Lituânia em meados do século XVI.c9-population-estimate
  1616. p. 238A União de Lublin de 1569 criou uma comunidade política multinacional e multirreligiosa.c9-union-lublin
  1617. p. 238O Estado estendia-se do Báltico ao Mar Negro e reunia numerosas populações.c9-commonwealth-scale
  1618. p. 238Católicos eram menos da metade da população, ao lado de ortodoxos, protestantes, muçulmanos e judeus.c9-religious-diversity
  1619. p. 238Reif registra ampla circulação de livros de orações impressos na Polônia e terras vizinhas, com impulso paralelo na Turquia no século XVI e tipografias posteriores na Alemanha e Holanda.cl-print-siddur-dissemination
  1620. p. 238Nulman identifica Birkat HaLevanah (também Kiddush Levanah) como a bênção de consagração da lua; os sábios leram Ex 12:2 como 'vê a lua nesta forma e então santifica-a', com testemunhas perante o Bet Din.cl-birkat-halevanah-moon
  1621. p. 239Os judeus não tinham direitos iguais modernos, mas possuíam ampla liberdade religiosa e autonomia.c9-autonomy-toleration
  1622. p. 239O privilégio de Casimiro III em 1334 confirmou a carta concedida por Boleslau de Kalisz em 1264.c9-casimir-charter
  1623. p. 239A condição legal judaica variava conforme as autoridades e circunstâncias locais.c9-plural-jurisdictions
  1624. p. 239Varsóvia, Cracóvia, Gdansk e Lublin estavam entre as cidades que não admitiam moradores judeus.c9-city-exclusions
  1625. p. 239Varsóvia obteve em 1527 o direito de excluir judeus.c9-warsaw-1527
  1626. p. 239Kazimierz tinha cerca de 4.500 judeus na primeira metade do século XVII.c9-kazimierz-population
  1627. p. 239Após 1572, a nobreza elegia o rei no Sejm.c9-nobles-republic
  1628. p. 239A constituição de 1505 exigia aprovação parlamentar unânime para legislar.c9-constitution-1505
  1629. p. 239No século XVII, a Comunidade parecia mais uma federação de domínios do que um Estado centralizado.c9-decentralized-state
  1630. p. 239Depois de 1569, a colonização polonesa avançou para Belarus e Ucrânia.c9-eastward-settlement
  1631. p. 240Jan Zamoyski deixou onze cidades e mais de duzentas aldeias em 1605.c9-zamoyski-estate
  1632. p. 240Zamoyski acolheu sefarditas em Zamosc para estimular o comércio com terras otomanas.c9-zamosc-sephardim
  1633. p. 240Konstanty Wasyl Ostrogski possuía cem cidades e 1.300 aldeias.c9-ostrogski-estate
  1634. p. 240Magnatas mantinham tribunais e exércitos próprios em seus domínios.c9-magnate-autonomy
  1635. p. 240Muitos judeus administravam propriedades, comercializavam produtos e abasteciam aldeias.c9-jewish-intermediaries
  1636. p. 240A arenda era o arrendamento de monopólios e tornou-se central na relação entre magnatas, judeus e camponeses.c9-arenda
  1637. p. 240Arrendamentos podiam abranger bebidas, minas de sal, moinhos, tabaco, armazéns e pedágios.c9-arenda-range
  1638. p. 240O arrendatário judeu podia despertar ressentimento ao cobrar preços, impostos e pedágios.c9-arrendator-conflict
  1639. p. 240A hostilidade contra judeus podia nascer de conflitos econômicos tanto quanto do preconceito religioso.c9-economic-hostility
  1640. p. 240Em 1539, Sigismundo I colocou os judeus de domínios nobres sob autoridade dos proprietários.c9-sigismund-authority
  1641. p. 240A política de assentamento dependia de cada magnata, criando uma condição jurídica instável.c9-noble-whims
  1642. p. 240Em geral, nobres e arrendatários judeus obtinham vantagens mútuas de seus contratos.c9-aligned-interests
  1643. p. 240Uma autobiografia morávia relata que a mãe sustentou a família fabricando aguardente de aveia.c9-moravian-mother
  1644. p. 240Mulheres judias participavam ativamente da economia e não ficavam restritas ao lar.c9-women-economy
  1645. p. 241O pai do memorialista recebeu do conde uma destilaria em regime de arrendamento.c9-distillery-lease
  1646. p. 241O mesmo conde prendeu e expulsou o arrendatário após acusações de rivais.c9-patronage-risk
  1647. p. 241Líderes comunitários proibiam levar disputas judaicas a tribunais não judaicos.c9-outside-courts
  1648. p. 241A kehillah semiautônoma exercia funções comparáveis às de um município cristão.c9-kehillah-parallel
  1649. p. 241A principal separação entre judeus e cristãos era jurídica, não necessariamente residencial.c9-jurisdiction-boundary
  1650. p. 241A comunidade elegia dirigentes, cobrava tributos, mantinha tribunais e prestava serviços sociais.c9-community-services
  1651. p. 241Os contribuintes elegiam anualmente os dirigentes leigos chamados tovim.c9-tovim
  1652. p. 241O rabino era empregado da kehillah, embora sua autoridade religiosa legitimasse as instituições.c9-rabbi-employee
  1653. p. 241A comunidade podia conceder ou negar a recém-chegados o direito de residência.c9-residence-right
  1654. p. 241O direito comunitário de residência era conhecido como hezqat ha-yishuv.c9-hezqat-yishuv
  1655. p. 241Em Kazimierz, um judeu não residente não podia se fixar nem negociar.c9-kazimierz-outsiders
  1656. p. 241O shtadlan representava a comunidade diante de autoridades, cidades e magnatas.c9-shtadlan
  1657. p. 242No século XVI surgiu o Conselho das Quatro Terras para coordenar interesses das comunidades polonesas.c9-four-lands
  1658. p. 242A Lituânia possuía um Conselho de Províncias equivalente.c9-lithuanian-council
  1659. p. 242Os conselhos reuniam-se durante feiras comerciais como a de Lublin.c9-council-fairs
  1660. p. 242Até 1576, o conselho tinha tribunal central, distribuía impostos e mediava conflitos regionais.c9-council-functions
  1661. p. 242Uma resolução lituana de 1623 mandava vigiar assembleias para impedir medidas prejudiciais.c9-sejmiki-watch
  1662. p. 242A religião e a lei rabínica permeavam a existência individual e coletiva.c9-religion-pervasive
  1663. p. 242Isserles realizou um casamento no sábado para evitar a humilhação de uma noiva pobre.c9-isserles-wedding
  1664. p. 242O episódio demonstra flexibilidade pragmática dentro do compromisso com a Halakhah.c9-halakhic-flexibility
  1665. p. 243Em 1648, Bogdan Chmielnicki liderou uma insurreição cossaca contra o domínio polonês.c9-cossack-revolt
  1666. p. 243Chmielnicki aliou cossacos, camponeses ucranianos e tártaros da Crimeia.c9-rebel-alliance
  1667. p. 243Muitos refugiados judeus foram alcançados e mortos em cidades fortificadas como Nemirov.c9-nemirov
  1668. p. 243Nathan Neta Hanover narrou os massacres em Yeven Metsulah.c9-hanover-chronicle
  1669. p. 243Hanover registrou que católicos poloneses também foram massacrados.c9-poles-also-killed
  1670. p. 243Historiadores destacam dimensões sociais e políticas da revolta, além da religião.c9-social-political-revolt
  1671. p. 243Judeus foram associados ao regime por atuarem como agentes de proprietários poloneses.c9-agents-targeted
  1672. p. 243Shaul Stampfer argumentou que talvez cerca de vinte mil entre quarenta mil judeus da Ucrânia tenham morrido.c9-stampfer-estimate
  1673. p. 243Shabbatai Horowitz chamou os massacres de terceira destruição.c9-third-destruction
  1674. p. 243A recuperação das comunidades polonesas-lituanas foi rápida.c9-rapid-recovery
  1675. p. 243Convertidos sob coerção puderam voltar ao judaísmo com autorização régia em 1649.c9-return-after-baptism
  1676. p. 243Hanover descreveu seis pilares: estudo, oração, caridade, justiça, verdade e paz.c9-six-pillars
  1677. p. 244Comunidades sustentavam academias, mestres, jovens estudantes e meninos.c9-academy-support
  1678. p. 244A impressão ampliou o alcance do estudo rabínico.c9-printing-learning
  1679. p. 244Os Soncino imprimiram tratados desde a década de 1480, e Bomberg publicou um Talmude completo nos anos 1520.c9-soncino-bomberg
  1680. p. 244Censura e proibições católicas encerraram a impressão italiana do Talmude após meados do século XVI.c9-italian-censorship
  1681. p. 244Mais de cem tratados foram impressos em Cracóvia e sessenta em Lublin.c9-polish-printing
  1682. p. 244Um historiador estimou de 48 mil a 80 mil exemplares produzidos na Polônia.c9-copy-estimate
  1683. p. 244O pilpul reconciliava aparentes contradições do Talmude e de seus comentários por interpretação engenhosa.c9-pilpul
  1684. p. 244Judá Loew e Yom-Tov Lipmann Heller criticaram o pilpul.c9-pilpul-critics
  1685. p. 244No século XVII, a cabala ganhou primazia e deslocou a filosofia no mundo asquenazita.c9-kabbalah-ascendant
  1686. p. 244O Zohar passou a ocupar um lugar que rivalizava com o Talmude ou o superava.c9-zohar-status
  1687. p. 244Joseph Karo compôs o Shulhan Arukh entre 1555 e 1563; a obra foi impressa em 1565.c9-shulhan-arukh
  1688. p. 244Costumes de Pessach sobre leguminosas e arroz diferiam entre as comunidades.c9-custom-differences
  1689. p. 245Isserles publicou comentários que registravam a prática asquenazita onde divergia de Karo.c9-isserles-glosses
  1690. p. 245Alguns rabinos viam um código uniforme impresso como ameaça ao aprendizado tradicional.c9-code-resistance
  1691. p. 245No século XVII, a versão comentada por Isserles tornara-se norma nas terras asquenazitas.c9-code-accepted
  1692. p. 245Polônia-Lituânia, Boêmia, Morávia e Alemanha formavam uma área cultural asquenazita.c9-ashkenazi-area
  1693. p. 245Migrantes preservaram o iídiche na Polônia-Lituânia, onde a língua incorporou elementos eslavos.c9-yiddish-migration
  1694. p. 245Não surgiu uma língua judaico-polonesa comparável.c9-no-judeo-polish
  1695. p. 245Jacob ben Isaac Ashkenazi produziu a Tsenerene, versão iídiche acessível das leituras bíblicas.c9-tsenerene
  1696. p. 245A obra destinava-se a homens e mulheres sem educação hebraica.c9-tsenerene-audience
  1697. p. 246Meninos recebiam formação hebraica formal; meninas aprendiam sobretudo informalmente em iídiche.c9-gendered-education
  1698. p. 246O calendário judaico combina ciclos lunar e solar e acrescenta um mês em sete anos de cada ciclo de dezenove.c9-calendar-lunisolar
  1699. p. 246A Igreja reformulou seu calendário para separar domingo e Páscoa do sábado e de Pessach.c9-christian-separation
  1700. p. 246A reforma gregoriana de 1582 foi resistida por Estados protestantes até o século XVIII.c9-gregorian-reform
  1701. p. 246Livros sefer evronot ensinavam cálculo do calendário judaico e defendiam-no em polêmicas cristãs.c9-sefer-evronot
  1702. p. 246Almanaques anuais tornaram-se um negócio lucrativo para impressores hebraicos.c9-calendar-business
  1703. p. 246Calendários hebraicos incluíam festas cristãs e feiras comerciais relevantes à vida cotidiana.c9-mixed-time
  1704. p. 247As tkhines deram às mulheres orações em iídiche ligadas a práticas femininas.c9-tkhines
  1705. p. 248A Guerra dos Trinta Anos devastou a Europa Central entre 1618 e 1648.c9-thirty-years-war
  1706. p. 248Em geral, os judeus do Império sofreram menos do que seus vizinhos cristãos.c9-jews-fared-better
  1707. p. 248Em 1620, tropas imperiais saquearam Praga, mas pouparam o gueto judaico.c9-prague-spared
  1708. p. 248Jacob Bassevi financiou o esforço militar dos Habsburgos.c9-bassevi-financier
  1709. p. 248Financistas judeus eram vistos como relativamente neutros no conflito confessional.c9-neutral-outsiders
  1710. p. 248A Paz de Vestfália encerrou a guerra em 1648 e favoreceu indiretamente minorias religiosas.c9-westphalia
  1711. p. 248Depois de 1650, judeus da corte prestaram serviços essenciais a governantes alemães.c9-court-jews
  1712. p. 249Samuel Oppenheimer organizou recursos para a defesa austríaca de Viena em 1683.c9-oppenheimer
  1713. p. 249O imperador expulsou os judeus de Viena em 1670.c9-vienna-expulsion
  1714. p. 249Cerca de cinquenta famílias vienenses estabeleceram-se em Berlim em 1671.c9-berlin-1671
  1715. p. 250O mercantilismo tornou a utilidade econômica mais importante na política estatal.c9-mercantilism
  1716. p. 250A Livornina de 1593 protegeu ex-conversos em Livorno e Pisa contra investigações inquisitoriais.c9-livornina
  1717. p. 250No século XVIII, Livorno era grande comunidade sefardita e importante porto comercial.c9-livorno-hub
  1718. p. 250Simone Luzzatto publicou em 1638 uma defesa sistemática da utilidade comercial judaica.c9-luzzatto-discorso
  1719. p. 250Balthazar de Orobio fugiu para Amsterdã em 1662 e adotou o nome Isaac e o judaísmo público.c9-orobio
  1720. p. 250A Inquisição portuguesa criada em 1536 estimulou a emigração conversa.c9-portuguese-inquisition
  1721. p. 250Reif observa que material cabalístico passa a entrar nos Sidurim ashkenazim ao longo dos anos 1500 (ex.: comentário de Naftali Hirs Treves impresso em Thiengen em 1560).cl-kabbalah-ashkenazi-siddur-16c
  1722. p. 250, p. 250Goodman nota que a liturgia pública era sobretudo masculina e que a presença feminina nas sinagogas da Antiguidade tardia é incerta; na Idade Média, pátios ou salas com mehitsah (Provença, Alemanha) ou escuta pela janela em terras muçulmanas tornaram-se padrões comuns.c-h502-goodman-women-synagogue-space
  1723. p. 251Cerca de dez mil conversos portugueses emigraram para a Espanha no início do século XVII.c9-conversos-spain
  1724. p. 252Amsterdã, Hamburgo, Veneza e Livorno permitiram que ex-conversos vivessem abertamente como judeus.c9-western-destinations
  1725. p. 252No fim do século XVII havia comunidades portuguesas em Curaçao, Jamaica, Barbados e Nova Amsterdã.c9-atlantic-numbers
  1726. p. 252Liberdade religiosa e oportunidades comerciais atraíram conversos a Amsterdã.c9-amsterdam-attraction
  1727. p. 252Redes portuguesas ligavam Amsterdã, Londres e Hamburgo à Ibéria e ao Caribe.c9-atlantic-network
  1728. p. 252Em 1730, judeus possuíam 115 das quatrocentas plantações do Suriname.c9-surinam-plantations
  1729. p. 252Em 1639 foi fundada uma sinagoga em Joden Savanne.c9-joden-savanne
  1730. p. 252Em 1657, judeus eram dez por cento dos corretores da bolsa de Amsterdã.c9-stock-exchange
  1731. p. 253A comunidade portuguesa inaugurou uma grande sinagoga em 1675.c9-amsterdam-synagogue
  1732. p. 253Historiadores chamam essas comunidades comerciais integradas de judeus portuários.c9-port-jews
  1733. p. 253Ex-conversos tiveram de reconstruir tradições que suas famílias haviam perdido.c9-new-jews
  1734. p. 253Manuais em espanhol e português ensinavam lei e prática judaicas a adultos.c9-vernacular-guides
  1735. p. 253A academia Ets Hayim organizava seis níveis progressivos de leitura, Bíblia, gramática e lei.c9-ets-hayim
  1736. p. 254Os sefarditas ocidentais separaram mais claramente esferas religiosas e seculares.c9-religious-secular-spheres
  1737. p. 254Sua identidade combinava religião judaica e cultura ibérica.c9-iberian-identity
  1738. p. 254Daniel Levi de Barrios escreveu poesia e teatro em espanhol, provocando censura rabínica.c9-barrios
  1739. p. 255A comunidade portuguesa desencorajava casamentos com asquenazitas.c9-sephardi-endogamy
  1740. p. 255Sociedades Dotar financiavam dotes segundo critérios de ascendência ibérica.c9-dotar
  1741. p. 256Uriel da Costa rejeitou tradições rabínicas e depois questionou a origem divina da Torá.c9-uriel-da-costa
  1742. p. 256Da Costa foi excomungado em 1618 e seu livro posterior foi proibido.c9-da-costa-ban
  1743. p. 256A liderança de Amsterdã excomungou Barukh Spinoza em 1656.c9-spinoza-ban
  1744. p. 256Spinoza rejeitou o judaísmo tradicional sem se converter a outra religião.c9-spinoza-secular
  1745. p. 256Nulman identifica Birkat Kohanim (Duchenen / Nesi'at Kapayim) com a bênção sacerdotal bíblica em três versículos (Nm 6:24-26), inserida na Amidá de Shaharit, em jejum público na Minhá e no Musaf; práticas diárias vs. festivas variam entre Israel/Sepharad e Ashkenaz da diáspora.cl-birkat-kohanim-biblical-verses
  1746. p. 258Menasseh ben Israel defendeu a readmissão dos judeus na Inglaterra diante de Cromwell.c9-england-return
  1747. p. 258A Conferência de Whitehall de 1655 não aprovou formalmente a readmissão.c9-whitehall
  1748. p. 259O governo permitiu culto privado e cemitério, criando sem carta formal a comunidade judaica moderna de Londres.c9-london-community
  1749. p. 259Vinte e três imigrantes judeus chegaram a Nova Amsterdã em setembro de 1654.c9-new-amsterdam-1654
  1750. p. 259Peter Stuyvesant tentou expulsá-los, mas a Companhia das Índias Ocidentais impôs tolerância.c9-stuyvesant
  1751. p. 259A lei colonial de 1740 abriu a naturalização a judeus residentes havia sete anos.c9-naturalization-1740
  1752. p. 260Antes da Revolução Americana havia cinco comunidades judaicas na costa atlântica.c9-five-communities
  1753. p. 260Nathan de Gaza proclamou Shabbatai Zvi messias em 1665.c9-zvi-proclaimed
  1754. p. 260Zvi desafiava a tradição com atos estranhos e a bênção que permitia o proibido.c9-zvi-strange-acts
  1755. p. 260Zvi casou-se com Sarah, órfã asquenazita dos massacres de 1648.c9-sarah
  1756. p. 260Redes sefarditas difundiram rapidamente a notícia, que também mobilizou asquenazitas.c9-movement-networks
  1757. p. 260Glickl de Hameln registrou em suas memórias do século XVII a reação de Hamburgo às notícias sobre Shabbatai Zvi.c9-glickl-memoir
  1758. p. 260Em dezembro de 1665, Zvi ocupou uma sinagoga de Izmir e proclamou sua redenção.c9-izmir-scene
  1759. p. 261Autoridades otomanas prenderam Zvi a caminho de Istambul em fevereiro de 1666.c9-zvi-arrest
  1760. p. 261Em Edirne, diante da escolha entre morte e conversão, Zvi abraçou o Islã.c9-zvi-conversion
  1761. p. 261Centenas de seguidores de Salonica converteram-se e formaram a seita dönme.c9-donme
  1762. p. 261Messianismo converso, massacres, refugiados, impressão, cabala e crítica rabínica convergiram no movimento.c9-sabbatian-causes
  1763. p. 262A modernidade envolve reconhecer o presente como diferente das épocas anteriores.c10-modernity-consciousness
  1764. p. 262Na Europa, a renda da maioria permaneceu quase estagnada do ano 1000 até meados do século XIX.c10-premodern-income
  1765. p. 262Iluminismo, ciência, urbanização, industrialização e ascensão burguesa alteraram a ordem europeia.c10-modern-forces
  1766. p. 262Revoluções e reformas ampliaram instituições representativas, embora muitos grupos continuassem excluídos.c10-representative-politics
  1767. p. 262Pensadores iluministas propuseram reorganizar a sociedade por razão, progresso e liberdade individual.c10-enlightenment-reason
  1768. p. 263Conservadorismo, nacionalismo, racialismo e romantismo contestaram o universalismo iluminista.c10-countercurrents
  1769. p. 263No século XX, comunismo, fascismo e nazismo mobilizaram a política de massas para fins repressivos.c10-mass-ideologies
  1770. p. 263Judeus adotaram intensamente urbanização, comércio, alfabetização e ensino superior.c10-jewish-modern-markers
  1771. p. 263Direito, medicina e jornalismo tornaram-se campos de destacada presença judaica.c10-liberal-professions
  1772. p. 263A experiência judaica moderna combinou integração bem-sucedida e reações hostis a esse êxito.c10-integration-backlash
  1773. p. 263Desde 1700, novas formas religiosas e seculares de judaísmo acompanharam dispersão, política e integração.c10-radical-transformation
  1774. p. 264Por volta de 1700, comunidades autônomas ainda governavam a vida judaica pela lei judaica.c10-kehillah-autonomy
  1775. p. 264Heder, yeshiva e associações voluntárias transmitiam cultura e ofereciam assistência social.c10-education-network
  1776. p. 264Separação jurídica não significava isolamento cultural, pois judeus adaptavam costumes vizinhos.c10-separate-not-insular
  1777. p. 264Cartas de proteção trocavam residência e trabalho por impostos elevados e dependência vertical.c10-charter-status
  1778. p. 264Na Europa ocidental, quase noventa por cento dos judeus atuavam em pequeno comércio, artesanato e venda ambulante.c10-western-occupations
  1779. p. 264A viagem de Ascher Lehmann mostra como pedágios e impostos consumiam rendas judaicas modestas.c10-ascher-taxes
  1780. p. 265Friedrich Wilhelm I multiplicou impostos, restrições de entrada e limites ocupacionais aos judeus prussianos.c10-prussian-burdens
  1781. p. 265A pobreza causada por restrições alimentou debates sobre o suposto trabalho improdutivo judaico.c10-productive-labor-debate
  1782. p. 265Cerca de 22.500 judeus alemães converteram-se ao cristianismo durante o século XIX.c10-german-conversions
  1783. p. 265Entre 1770 e 1830, quase 1.600 judeus foram batizados em Berlim.c10-berlin-baptisms
  1784. p. 266Rahel Levin Varnhagen reuniu figuras judaicas e cristãs em seu salão literário.c10-varnhagen-salon
  1785. p. 266Varnhagen converteu-se ao protestantismo em 1819 para casar com um diplomata prussiano.c10-varnhagen-conversion
  1786. p. 266Abraham Mendelssohn criou os filhos como protestantes para ampliar suas oportunidades sociais.c10-mendelssohn-children
  1787. p. 266Antes de 1789, sefarditas franceses do sudoeste diferiam dos asquenazitas de Alsácia e Lorena.c10-french-diversity
  1788. p. 266Duas ondas de imigrantes asquenazitas formaram a base da comunidade judaica britânica moderna.c10-british-ashkenazim
  1789. p. 267Em 1799, a maioria dos sefarditas e quatro quintos dos asquenazitas holandeses dependiam de assistência.c10-dutch-poverty
  1790. p. 267Mudanças no comércio atlântico e o declínio têxtil de Salônica empobreceram comunidades otomanas.c10-ottoman-decline
  1791. p. 267As populações judaicas de Veneza e Roma encolheram aproximadamente pela metade no século XVIII.c10-italian-decline
  1792. p. 267A fisiocracia valorizou agricultura e tornou o comércio judaico alvo de crítica moral.c10-physiocracy-critique
  1793. p. 267Pobreza e contato com mercados de usados contribuíram para associar judeus à criminalidade.c10-crime-stereotype
  1794. p. 267A Polônia-Lituânia abrigava cerca de 750 mil judeus no século XVIII.c10-polish-population
  1795. p. 268Até três quartos dos judeus poloneses viviam em cidades e aldeias privadas de magnatas.c10-private-towns
  1796. p. 268Magnatas protegiam judeus em troca de competências administrativas e financeiras.c10-magnate-protection
  1797. p. 268Judeus compunham de oitenta a noventa por cento dos comerciantes em muitas cidades polonesas.c10-polish-commerce
  1798. p. 268O sistema de arenda concedia a arrendatários judeus monopólios sobre receitas e mercadorias.c10-arenda
  1799. p. 268A venda de álcool sustentava pelo menos um terço dos judeus poloneses no século XVIII.c10-alcohol-income
  1800. p. 268Em 1768, o Sejm restringiu tavernas judaicas sem autorização municipal.c10-liquor-restriction
  1801. p. 269Daniel Mendoza tornou-se campeão popular e exibiu publicamente orgulho judaico.c10-mendoza-celebrity
  1802. p. 270Conselhos locais poloneses uniam comerciantes ricos, arrendatários e elite rabínica.c10-polish-kahal
  1803. p. 270Voto e cargos comunitários dependiam do pagamento de impostos, excluindo pobres, mulheres e solteiros.c10-communal-franchise
  1804. p. 270O Conselho das Quatro Terras, estabelecido em cerca de 1580 neste capítulo (o cap. 9 situa um tribunal central já em 1576), funcionava como parlamento judaico nacional.c10-four-lands
  1805. p. 270A reforma fiscal polonesa de 1764 retirou a principal função do Conselho e levou à sua dissolução.c10-four-lands-dissolved
  1806. p. 270Na Inglaterra, a modernização judaica ocorreu gradualmente e sem grande rebelião contra líderes comunitários.c10-english-acculturation
  1807. p. 271O conselho de Hamburgo tentou proibir tavernas, boliche e comédias no sábado e feriados, e a ópera às mulheres em qualquer circunstância.c10-hamburg-regulation
  1808. p. 271Fogos em festas sinagogais mostram apropriação judaica de formas celebratórias barrocas.c10-baroque-borrowing
  1809. p. 271Rabinos lamentavam perder autoridade enquanto judeus frequentavam concertos, bares e teatros.c10-rabbinic-authority
  1810. p. 271Goethe descreveu a Judengasse de Frankfurt como superlotada, pobre e culturalmente estranha.c10-goethe-ghetto
  1811. p. 271Mayer Amschel Rothschild enviou cinco filhos a centros europeus que formaram uma casa bancária transnacional.c10-rothschild-network
  1812. p. 271, p. 271Gerber descreve o crescimento da comunidade sefaradi nos EUA após a Segunda Guerra (refugiados pós-Holocausto e judeus de terras muçulmanas) e nota que as congregações sefaradis, fiéis ao histórico, tendem a ser tradicionais ou ortodoxas e a organizar-se por países de origem.c-h502-gerber-american-sephardic-congregations
  1813. p. 272Antropólogos do século XVIII classificaram grupos humanos e converteram diferenças físicas em hierarquias.c10-racial-classification
  1814. p. 272Blumenbach atribuía diferenças humanas ao clima e rejeitava características raciais permanentes.c10-blumenbach-environment
  1815. p. 272Blumenbach tratou a persistência de traços judaicos na diáspora como exceção à sua teoria.c10-jewish-invariance
  1816. p. 273Voltaire combinou desprezo pelos judeus com rejeição de sua perseguição letal.c10-enlightenment-ambivalence
  1817. p. 273John Toland defendeu em 1714 a naturalização britânica dos judeus.c10-toland-naturalization
  1818. p. 273Christian Wilhelm Dohm defendeu emancipação condicionada a reforma econômica e educação.c10-dohm-improvement
  1819. p. 273Dohm considerava as deficiências judaicas históricas, não inatas.c10-dohm-historical-difference
  1820. p. 273Johann David Michaelis alegava que religião, lealdade e até estatura impediam a cidadania judaica.c10-michaelis-opposition
  1821. p. 273Fichte chamou os judeus de Estado dentro do Estado e imaginou uma solução física violenta.c10-fichte-state-within
  1822. p. 274O Edito de Tolerância de José II, em 1782, removeu restrições e incentivou educação secular.c10-joseph-edict
  1823. p. 274O edito exigiu sobrenomes alemães e proibiu o iídiche em documentos legais e comerciais.c10-edict-conditions
  1824. p. 274Escolas judaicas de língua alemã buscavam produtividade, germanização e aculturação.c10-habsburg-schools
  1825. p. 274Naftali Herz Wessely argumentou que conhecimento secular aprimoraria o entendimento religioso.c10-wessely-knowledge
  1826. p. 274Críticos rabínicos aceitaram ciência como adorno, mas insistiram na centralidade talmúdica.c10-traditionalist-response
  1827. p. 274O abade Grégoire atribuiu a degradação judaica à opressão, mas ainda falou em regeneração.c10-gregoire-regeneration
  1828. p. 275Clermont-Tonnerre propôs direitos individuais aos judeus, mas não autonomia nacional.c10-clermont-formula
  1829. p. 275Em janeiro de 1790, sefarditas franceses receberam cidadania plena.c10-sephardi-emancipation
  1830. p. 275Em setembro de 1791, asquenazitas franceses também conquistaram cidadania.c10-ashkenazi-emancipation
  1831. p. 275Revolucionários viam a emancipação judaica como teste da capacidade humana de transformação.c10-emancipation-experiment
  1832. p. 276Após a emancipação, judeus franceses adotaram costumes nacionais, serviram ao Estado e mantiveram o judaísmo.c10-french-integration
  1833. p. 276Exércitos franceses levaram emancipação à Holanda, Itália e Alemanha ocidental.c10-napoleonic-spread
  1834. p. 276Compras de terras e mudança monetária deixaram camponeses alsacianos endividados com credores judeus.c10-alsatian-debt
  1835. p. 276A crise alsaciana ajudou a formar a acusação de que judeus lucravam com a modernidade.c10-modernity-canard
  1836. p. 276Em 1806, Napoleão suspendeu por um ano dívidas de camponeses com judeus.c10-debt-suspension
  1837. p. 276Napoleão convocou 112 notáveis judeus para responder sobre lealdade, casamento e autoridade rabínica.c10-assembly-notables
  1838. p. 277As doze perguntas constituíram um teste estatal de lealdade judaica.c10-loyalty-test
  1839. p. 277A assembleia afirmou que judeus eram franceses leais e que rabinos exerciam apenas autoridade espiritual.c10-assembly-response
  1840. p. 277Os delegados distinguiram validade civil de casamento e validade religiosa judaica.c10-intermarriage-answer
  1841. p. 277A pergunta sobre poligamia revela como europeus orientalizavam o judaísmo.c10-polygamy-orientalism
  1842. p. 277O Grande Sinédrio ratificou as respostas e despertou expectativas messiânicas.c10-grand-sanhedrin
  1843. p. 278O Sinédrio redefiniu o judaísmo como fé privada compatível com a lei francesa.c10-private-faith
  1844. p. 278Napoleão criou em 1808 o Consistório como representante administrativo do judaísmo francês.c10-consistory
  1845. p. 278Os Decretos Infames limitaram residência judaica e suspenderam dívidas por dez anos.c10-infamous-decrees
  1846. p. 278Em 1831, o judaísmo obteve igualdade completa com o cristianismo na França.c10-french-equality-1831
  1847. p. 278Na Grã-Bretanha, direitos judaicos avançaram por legislação gradual, sem decreto geral de emancipação.c10-british-gradualism
  1848. p. 278A lei de 1845 abriu todos os cargos municipais britânicos aos judeus.c10-municipal-relief
  1849. p. 278Lionel de Rothschild assumiu em 1858 como primeiro parlamentar judeu da Inglaterra.c10-rothschild-parliament
  1850. p. 279Judah Monis publicou em 1735 o primeiro manual de hebraico da América do Norte.c10-monis-grammar
  1851. p. 279Vinte e três exilados de Recife chegaram a Nova Amsterdã em 1654.c10-new-amsterdam-jews
  1852. p. 280A Lei das Plantações de 1740 naturalizou judeus no Império Britânico.c10-plantation-act
  1853. p. 280A Constituição dos Estados Unidos proibiu testes religiosos para cargos federais.c10-us-religious-test
  1854. p. 280George Washington afirmou aos judeus de Newport uma visão de liberdade religiosa.c10-washington-newport
  1855. p. 280No Canadá, a exigência de juramento cristão para parlamentares foi removida em 1832.c10-canadian-office
  1856. p. 280Judeus australianos tiveram direitos civis desde o começo da colonização europeia.c10-australian-equality
  1857. p. 281Milhares de judeus participaram do Risorgimento e da unificação italiana.c10-italian-risorgimento
  1858. p. 281Lideranças nacionalistas italianas trataram judeus como aliados leais.c10-italian-nationalists
  1859. p. 281Em 1871, onze judeus haviam sido eleitos ao parlamento italiano.c10-italian-parliament
  1860. p. 282A fragmentação política alemã tornou a emancipação desigual e regional.c10-german-fragmentation
  1861. p. 282Autoridades alemãs tratavam direitos como recompensa por melhorias observadas.c10-conditional-emancipation
  1862. p. 282O edito prussiano de 1812 declarou judeus nativos e cidadãos com direitos civis.c10-prussian-1812
  1863. p. 282Os distúrbios Hep Hep de 1819 espalharam violência antijudaica por cidades alemãs e além.c10-hep-hep
  1864. p. 282A unificação de 1871 finalmente emancipou os judeus alemães.c10-german-emancipation-1871
  1865. p. 282A aculturação permitiu combinar alta cultura europeia e distinção judaica.c10-acculturation-distinctiveness
  1866. p. 283Freud chamou a si mesmo de judeu sem Deus, expressando identidade étnica secular.c10-freud-godless
  1867. p. 283No Império Otomano, judeus integravam um millet protegido, autônomo e juridicamente inferior.c10-ottoman-millets
  1868. p. 283O rescrito de 1839 prometeu proteção à vida, honra e propriedade de muçulmanos e não muçulmanos.c10-tanzimat-1839
  1869. p. 283O decreto otomano de 1856 concedeu igualdade explícita a judeus e cristãos.c10-ottoman-equality-1856
  1870. p. 283A lei de 1869 definiu todos os habitantes como súditos do sultão sem distinção religiosa.c10-ottoman-citizenship
  1871. p. 283Impostos, exclusão burocrática e aplicação irregular limitaram a igualdade otomana.c10-ottoman-practice-gap
  1872. p. 283A dissolução imperial colocou sefarditas sob novos Estados nacionais homogeneizadores.c10-sephardi-nation-states
  1873. p. 283A Turquia republicana suprimiu o millet e pressionou a educação judaica por turquificação.c10-turkicization
  1874. p. 284No século XIX, o Império Russo abrigava aproximadamente cinco milhões de judeus.c10-russian-five-million
  1875. p. 284A Rússia adquiriu sua grande população judaica nas partilhas da Polônia.c10-partitions-acquisition
  1876. p. 284Como ninguém possuía direitos independentes do czar, a condição judaica russa não era singular em todos os aspectos.c10-russian-autocracy
  1877. p. 284Catarina II registrou judeus como moradores urbanos, mas preservou os kahalim.c10-catherine-urban
  1878. p. 284Uma lei de 1791 confinou judeus aos territórios que formariam a Zona de Residência.c10-pale-1791
  1879. p. 285A Zona de Residência abrigava quase cinco milhões de judeus e tinha aproximadamente o tamanho da França, da Alemanha e da Áustria juntas.c10-pale-scale
  1880. p. 285O estatuto russo de 1804 buscou encaixar judeus em categorias ocupacionais existentes.c10-statute-1804
  1881. p. 285O estatuto abriu escolas e conselhos municipais, além de oferecer apoio à agricultura.c10-statute-opportunities
  1882. p. 285A proibição de vender álcool em aldeias ameaçou expulsar muitos judeus do campo.c10-village-alcohol-ban
  1883. p. 285Nicolau I impôs em 1827 serviço militar judaico de vinte e cinco anos.c10-nicholas-conscription
  1884. p. 285Cerca de cinquenta mil meninos judeus foram recrutados como cantonistas entre 1827 e 1855.c10-cantonist-children
  1885. p. 286Cantonistas sofreram quartéis isolados, violência, pressão religiosa e batismos forçados.c10-cantonist-coercion
  1886. p. 286Comunidades contrataram sequestradores para cumprir cotas, aprofundando conflitos de classe.c10-khappers
  1887. p. 286O serviço militar não integrou os judeus, que continuaram submetidos a regras distintas.c10-military-failure
  1888. p. 287O governo aboliu formalmente os kahalim em 1844, mas muitos continuaram clandestinos.c10-kahal-abolition
  1889. p. 287Escolas judaicas patrocinadas pelo Estado atraíram poucos alunos e fracassaram como integração.c10-russian-school-failure
  1890. p. 287Matrículas judaicas em universidades russas cresceram de 129 em 1865 para 1.856 duas décadas depois.c10-university-growth
  1891. p. 287Antes da Primeira Guerra, quase todos os meninos e a maioria das meninas judaicas liam iídiche.c10-jewish-literacy
  1892. p. 287Após a crise do kahal, comerciantes ricos substituíram parte da liderança rabínica tradicional.c10-merchant-leadership
  1893. p. 287Em meados do século XIX, judeus compunham três quartos dos comerciantes registrados na Zona.c10-pale-merchants
  1894. p. 288Alexandre III e Nicolau II usaram leis para reverter a integração judaica.c10-exclusionary-turn
  1895. p. 288Após 1905, judeus obtiveram direitos políticos eleitorais antes de direitos civis completos.c10-duma-paradox
  1896. p. 288O Governo Provisório aboliu restrições religiosas e nacionais em abril de 1917.c10-russian-emancipation
  1897. p. 288O poder soviético reconheceu os judeus como nacionalidade, mas restringiu autonomia coletiva.c10-soviet-nationality
  1898. p. 288A emancipação judaica assumiu formas diferentes conforme Estado, região e conjuntura política.c10-multiple-emancipations
  1899. p. 288Nulman identifica Elohai Neshamah como oração talmúdica ao despertar: 'Quando ele acorda, diz Elohai…'; a bênção não abre com Barukh porque se segue a Asher Yatzar, unindo alma e corpo.cl-elohai-neshamah-talmud-waking
  1900. p. 290Os judeus não apenas reagiram à modernidade, mas ajudaram a moldá-la.c11-modernity-agency
  1901. p. 290No século XVIII, comunidades asquenazitas tornaram-se cada vez mais distintas.c11-ashkenazi-fracture
  1902. p. 290Políticas europeias divergentes produziram experiências judaicas contrastantes.c11-european-policies
  1903. p. 290Hasidismo, Mitnagdismo e Haskalah ampliaram a diversidade cultural do leste europeu.c11-eastern-vibrancy
  1904. p. 290Áustria, Prússia e Rússia dividiram a Polônia em 1772, 1793 e 1795.c11-partitions-dates
  1905. p. 290As partilhas levaram cerca de 750 mil judeus à Rússia, 260 mil à Áustria e 160 mil à Prússia.c11-partition-numbers
  1906. p. 290Maria Teresa expulsou os judeus de Praga em 1744.c11-prague-expulsion
  1907. p. 290A Revolução Francesa converteu judeus em cidadãos franceses.c11-france-citizens
  1908. p. 290Judeus alemães tornaram-se mais germanizados e burgueses antes de alcançar plena igualdade.c11-german-middle-class
  1909. p. 291A antiga comunidade polonesa-lituana foi separada por fronteiras imperiais.c11-imperial-divide
  1910. p. 291Berlim, Viena, Praga e Budapeste tornaram-se centros judaicos modernos.c11-western-centers
  1911. p. 291Na Rússia, a modernização judaica tendeu a resultar sobretudo, de início, de processos internos de inovação religiosa.c11-russian-path
  1912. p. 291Jacob Leibowitz adotou o nome Jacob Frank durante uma estadia otomana.c11-frank-origins
  1913. p. 291Frank rejeitou a autoridade rabínica e combinou ideias cristãs, cabalísticas e antinomianas.c11-frank-doctrines
  1914. p. 291Os frankistas passaram de ramo judaico autodeclarado a grupo religioso separado.c11-frank-separate
  1915. p. 291Em 1756, seguidores de Frank foram flagrados em práticas antinomianas em Lanckorona.c11-lanckorona
  1916. p. 291Um tribunal judaico de Brody excomungou os frankistas.c11-frankist-herem
  1917. p. 291O bispo Dembowski apoiou os frankistas e promoveu uma disputa pública em 1757.c11-dembowski-disputation
  1918. p. 291Após a disputa, autoridades ordenaram a queima do Talmude.c11-talmud-burning
  1919. p. 291A morte de Dembowski em 1757 privou os frankistas de seu protetor.c11-dembowski-death
  1920. p. 292A disputa de Lwów de 1759 terminou sem resultado conclusivo.c11-lwow-disputation
  1921. p. 292Frank foi batizado em setembro de 1759 e adotou o nome Jakub Josef.c11-frank-baptism
  1922. p. 292Cerca de três mil judeus converteram-se após o batismo de Frank.c11-mass-conversion
  1923. p. 292No século XIX, redes sociais e comerciais sobreviveram à doutrina frankista.c11-frankism-decline
  1924. p. 292Ao contrário do frankismo, o hasidismo permaneceu no judaísmo normativo e alcançou grande êxito.c11-hasidism-success
  1925. p. 292O hasidismo surgiu entre pequenos círculos de estudiosos e cabalistas na Podólia dos anos 1750.c11-hasidism-origins
  1926. p. 292Hasidismo designa grupos diversos, não uma organização centralizada.c11-hasidism-diverse
  1927. p. 292Pesquisas recentes rejeitam a tese de que o hasidismo nasceu de uma comunidade em declínio.c11-no-crisis-origin
  1928. p. 292Israel ben Eliezer, o Baal Shem Tov, atuou como cabalista, curador e escritor de amuletos.c11-besht-profile
  1929. p. 292Apesar da imagem popular de homem iletrado, o Besht era um estudioso respeitado.c11-besht-scholar
  1930. p. 292Entre 1740 e 1760, o Besht reuniu seguidores em Mezhbizh.c11-besht-mezhbizh
  1931. p. 292Varsóvia tornou-se o principal centro frankista depois de 1791.c11-frankist-warsaw
  1932. p. 292A Podólia era um ambiente multiétnico e multirreligioso com ampla tolerância.c11-podolia-tolerance
  1933. p. 292O Besht tratava pacientes judeus e cristãos e recorria a autoridades cristãs por proteção.c11-besht-christians
  1934. p. 293O círculo íntimo do Besht era composto sobretudo por uma elite pietista.c11-besht-elite
  1935. p. 293O Besht ensinava que a presença divina permeava toda a criação.c11-divine-presence
  1936. p. 293Atividades comuns podiam tornar-se formas de culto corporal.c11-corporeal-worship
  1937. p. 293Os primeiros hasidim adotaram um rito de oração sefardita associado a Isaac Luria.c11-sephardic-prayer
  1938. p. 293Shivhei ha-Besht, publicado em 1815, reuniu mais de duzentas narrativas sobre o mestre.c11-shivhei
  1939. p. 293A narrativa hasídica influenciou literaturas hebraica e iídiche posteriores.c11-storytelling-legacy
  1940. p. 293O Besht não fundou instituições nem organizou conscientemente um movimento.c11-besht-no-movement
  1941. p. 293Dov Ber de Mezritch combinou erudição talmúdica, ascetismo e liderança hasídica.c11-dov-ber
  1942. p. 293Dov Ber e seus alunos refletiram sobre preparação mental e música na oração.c11-song-prayer
  1943. p. 293Narrativas hasídicas destacavam reconciliação, arrependimento e justiça econômica.c11-unity-tales
  1944. p. 293Música hasídica influenciou liturgia sinagogal e repertórios klezmer.c11-hasidic-music
  1945. p. 294Dov Ber ensinou uma unidade cósmica na qual o divino está presente em tudo.c11-shekhinah-unity
  1946. p. 294A transferência da corte de Dov Ber para a Volínia favoreceu a expansão hasídica.c11-court-move
  1947. p. 294Dov Ber enviou jovens emissários para conquistar novos adeptos.c11-emissaries
  1948. p. 295O hasidismo difundiu-se principalmente entre judeus de língua iídiche.c11-yiddish-boundary
  1949. p. 295Toledot Yaakov Yosef, de 1780, foi o primeiro livro a sistematizar ensinamentos hasídicos.c11-toledot
  1950. p. 295A autoridade do tzaddik derivava de poderes considerados divinos pelos seguidores.c11-tzaddik-authority
  1951. p. 295Yaakov Yosef colocou a relação entre tzaddik e massas no centro da estrutura social hasídica.c11-tzaddik-masses
  1952. p. 295Aron de Karlin e Menachem Mendel de Vitebsk lideraram importantes comunidades hasídicas.c11-post-maggid-leaders
  1953. p. 296A liderança hasídica tornou-se dinástica entre o fim do século XVIII e o início do XIX.c11-dynastic-succession
  1954. p. 296Em 1804, a Rússia legalizou casas de oração hasídicas.c11-russia-legalized
  1955. p. 296Shneur Zalman de Lyady criou o ramo Habad, centrado em sabedoria, razão e conhecimento.c11-habad
  1956. p. 296O Tanya apareceu em 1796 e tornou-se guia central da prática Habad.c11-tanya
  1957. p. 296O termo rebbe expressava a proximidade entre o tzaddik e seus discípulos.c11-rebbe-intimacy
  1958. p. 296Líderes hasídicos defenderam regras comunitárias que limitavam disputas por arrendamentos.c11-hazakah
  1959. p. 296O hasidismo incorporou eruditos e iletrados, ricos e pobres, moradores rurais e urbanos.c11-big-tent
  1960. p. 296A impressão hasídica tornou ideias cabalísticas mais acessíveis.c11-kabbalah-print
  1961. p. 296No Tanya, o judeu mediano podia alcançar devekut por sua relação com um tzaddik.c11-beinoni
  1962. p. 296O hasidismo canalizou anseios messiânicos para mandamentos e transformação interior.c11-messianic-longing
  1963. p. 297A oração concentrada deslocou parte da espiritualidade do estudo para a prece.c11-prayer-democratized
  1964. p. 297O culto hasídico empregava balanço corporal, palmas, canto e dança.c11-ecstatic-prayer
  1965. p. 297O hasidismo apresentou a alegria como caminho para a proximidade divina.c11-joy
  1966. p. 297No tish, discípulos buscavam restos da refeição do rebbe como alimento santificado.c11-tish
  1967. p. 297Farfel e kugel receberam interpretações místicas na mesa do sábado.c11-farfel-kugel
  1968. p. 297Semelhanças rituais entre hasidim e cristãos próximos não comprovam empréstimo direto.c11-religious-parallels
  1969. p. 298Historiadores concluem que a corte hasídica foi provavelmente criada à imitação consciente de casas nobres.c11-court-model
  1970. p. 298O hasidismo retirou práticas cabalísticas do domínio exclusivo de especialistas.c11-kabbalah-popularized
  1971. p. 298Hasidim e mitnagdim partilhavam compromisso com Torá, Halakhah e Cabala.c11-shared-foundations
  1972. p. 298Métodos de abate ritual ligaram divergências teológicas a receitas comunitárias.c11-slaughter-dispute
  1973. p. 298A disputa também opôs autoridade rabínica institucional e carisma do tzaddik.c11-authority-conflict
  1974. p. 298Eliyahu ben Shlomo Zalman, o Gaon de Vilna, foi o principal opositor do hasidismo.c11-gaon-profile
  1975. p. 298Oponentes acusaram hasidim de desordem, embriaguez e negligência do estudo.c11-mitnaggdic-charges
  1976. p. 299O Gaon dominava Bíblia, os dois Talmudes, midrash, Cabala, astronomia e álgebra.c11-gaon-learning
  1977. p. 299O Gaon atribuiu primazia ao estudo do Talmude sobre outras formas de aprendizagem.c11-talmud-primacy
  1978. p. 299O Mitnagdismo propôs uma via religiosa própria para a modernização.c11-mitnagdic-path
  1979. p. 299Em 1772, o Gaon de Vilna emitiu um herem contra os hasidim.c11-gaon-herem
  1980. p. 299O Gaon deixou Vilna para evitar uma reunião com líderes hasídicos.c11-gaon-refused-meeting
  1981. p. 300O conflito entre hasidim e mitnagdim atingiu seu auge entre 1785 e 1815.c11-campaign-peak
  1982. p. 300Autoridades russas e austríacas recusaram-se a proibir o hasidismo.c11-state-refusal
  1983. p. 300Hasidim e mitnagdim acabaram reconhecendo mutuamente sua fidelidade à Torá.c11-reconciliation
  1984. p. 300Hayim de Volozhin fundou sua academia talmúdica em 1803.c11-volozhin-founded
  1985. p. 300A excomunhão extrema podia equivaler à morte social em uma comunidade marginalizada.c11-herem-social-death
  1986. p. 300A maioria dos judeus orientais não se identificava plenamente com nenhum dos dois campos.c11-most-unaffiliated
  1987. p. 300Goodman destaca que no Mediterrâneo oriental judeus seguiram usando grego em letras hebraicas (ketubot, exegese), e que judeus romaniotas do Império Bizantino mantiveram o judaico-grego na leitura da Torá ao longo da Idade Média.c-h502-goodman-romaniot-judaeo-greek
  1988. p. 301Volozhin tornou-se uma yeshivá independente financiada por uma rede ampla.c11-independent-yeshiva
  1989. p. 301A escola formou uma elite judaica de alcance supracomunitário.c11-national-elite
  1990. p. 301Em Volozhin, o Talmude era estudado por si mesmo, não para treinamento profissional.c11-torah-lishma
  1991. p. 301A pedagogia buscava compreensão clara do texto em lugar do pilpul.c11-clear-text
  1992. p. 301Bolsas libertavam estudantes da dependência direta das famílias locais.c11-stipends
  1993. p. 301Estudantes de Volozhin estudavam em pares no grande salão.c11-khevruta
  1994. p. 301No auge, Volozhin reuniu cerca de 450 estudantes.c11-volozhin-scale
  1995. p. 301Conselhos estudantis de Volozhin arrecadavam fundos e exerciam funções organizacionais.c11-student-councils
  1996. p. 302A análise crítica cultivada na yeshivá podia incentivar questionamentos de autoridade.c11-critical-method
  1997. p. 302O governo czarista fechou Volozhin em 1892 após disputas curriculares e políticas.c11-volozhin-closure
  1998. p. 302Israel Salanter criou o movimento Musar para promover aperfeiçoamento ético e autocontrole.c11-musar
  1999. p. 302Musar combinava literatura ética, introspecção, melodias e, às vezes, diários pessoais.c11-musar-method
  2000. p. 302Após Salanter, escolas de Musar variaram entre emocionalismo e ascetismo.c11-musar-diversity
  2001. p. 302Esriel Hildesheimer abriu em 1851 uma yeshivá húngara com matérias seculares.c11-hildesheimer-yeshiva
  2002. p. 302Isaac Jacob Reines fundou em Lida, em 1905, uma yeshivá com currículo prático e secular.c11-reines-lida
  2003. p. 302A controvérsia sobre Musar difundiu-se pela imprensa hebraica.c11-musar-press
  2004. p. 303A oposição organizada à secularização também transformou a própria tradição.c11-modern-traditionalism
  2005. p. 303Da Costa denunciou o judaísmo rabínico como sistema coercivo de rituais vazios.c11-dacosta-critique
  2006. p. 303Em 1640, da Costa sofreu açoites públicos e humilhação ritual em Amsterdã.c11-dacosta-punishment
  2007. p. 303Spinoza rejeitou providência, imortalidade da alma e revelação literal da Torá.c11-spinoza-rationalism
  2008. p. 303A comunidade portuguesa excomungou Spinoza em 1656.c11-spinoza-herem
  2009. p. 303A yeshivá de Lida ensinava russo, história, geografia, matemática e ciências.c11-russian-secular-curriculum
  2010. p. 303Nulman chama Emet Veyatziv (Ge'ulah após o Shemá matinal) de ordenança escritural no Talmude, porque lembrar a saída do Egito está prescrito em Dt 16:3; a bênção liga-se ao Shemá juntando Emet às últimas palavras da leitura.cl-emet-veyatziv-scriptural
  2011. p. 304Spinoza abandonou a prática judaica sem aderir ao cristianismo.c11-spinoza-no-conversion
  2012. p. 304A Haskalah tornou-se porta de entrada para várias ideologias judaicas modernas.c11-haskalah-gateway
  2013. p. 304Os maskilim queriam aproximar vida judaica, ciência, línguas europeias e cultura burguesa.c11-haskalah-program
  2014. p. 304O regulamento prussiano de 1750 enfraqueceu a autonomia comunitária judaica.c11-prussian-regulation
  2015. p. 305Periódicos, prosa hebraica, teatro iídiche e salões criaram uma república judaica de letras.c11-republic-letters
  2016. p. 305O ideal maskílico combinava fidelidade judaica e participação na cultura moderna.c11-integral-jew
  2017. p. 305Moses Mendelssohn chegou a Berlim falando iídiche e depois aprendeu várias línguas europeias.c11-mendelssohn-languages
  2018. p. 305A reputação filosófica de Mendelssohn rendeu-lhe o epíteto Sócrates judeu.c11-jewish-socrates
  2019. p. 305A amizade entre Mendelssohn e Lessing tornou-se símbolo de tolerância iluminista.c11-lessing-friendship
  2020. p. 305, p. 323As Pseudo-Clementinas (Homilias, Reconhecimentos e textos afins) fascinam há séculos como possível janela para judeus crentes. Stanton adverte: a crítica literária é quase intransponível; os estágios finais foram moldados por preocupações didáticas e hagiográficas mais do que por ênfases distintivamente 'judeu-cristãs'. Só se pode usá-las com rigor e cautela.cjb-pseudo-clementines-caution
  2021. p. 306Em 1758, Mendelssohn lançou Kohelet Musar, primeiro periódico hebraico.c11-kohelet-musar
  2022. p. 306A tradução bíblica alemã e o comentário Biur integraram o programa educacional da Haskalah.c11-biur
  2023. p. 306Mendelssohn promoveu hebraico e alemão e rejeitou o iídiche como obstáculo cultural.c11-language-reform
  2024. p. 307A Escola Judaica Livre de Berlim, aberta em 1778, combinava línguas, ciências e estudos judaicos.c11-free-school
  2025. p. 307Médicos formaram uma vanguarda judaica de educação científica na Alemanha.c11-physicians-vanguard
  2026. p. 307Em Jerusalem, Mendelssohn defendeu Estado plural, tolerância e liberdade de consciência.c11-jerusalem-pluralism
  2027. p. 307Mendelssohn descreveu o judaísmo como legislação revelada, não religião revelada.c11-revealed-legislation
  2028. p. 307Para Mendelssohn, os mandamentos continuavam obrigatórios.c11-commandments-binding
  2029. p. 307Mendelssohn recusou a ideia de abandonar o judaísmo como preço da emancipação.c11-rights-no-price
  2030. p. 307Ha-Meassef divulgou poesia, exegese, ciência, filologia e notícias em hebraico.c11-hameassef
  2031. p. 308Em 1806, Sulamith transferiu a Haskalah berlinense para a língua alemã.c11-sulamith
  2032. p. 308David Friedländer vinculou reforma religiosa e busca de igualdade política.c11-friedlander-reform
  2033. p. 308Friedländer propôs abandonar hebraico, Talmude e referências cabalísticas na oração.c11-friedlander-radical
  2034. p. 308Saul Ascher buscou definir uma essência religiosa do judaísmo.c11-ascher-essence
  2035. p. 309O ladino tornou-se língua franca sefardita nos Bálcãs e na Anatólia.c11-ladino-lingua-franca
  2036. p. 309Me-am Loez, iniciado por Jacob Huli em 1730, popularizou saber rabínico em ladino.c11-meam-loez
  2037. p. 309David Moses Attias defendeu saber ocidental e línguas europeias em Guerta de Oro.c11-attias
  2038. p. 310A Haskalah oriental usou mais hebraico e iídiche e enfrentou maior oposição comunitária.c11-eastern-haskalah-differences
  2039. p. 310O governo de Nicolau I apoiou a Haskalah como instrumento de integração e conversão.c11-official-enlightenment
  2040. p. 310Na Galícia, uma larga distância social separava maskilim e massas pobres.c11-galician-class-gap
  2041. p. 311A Haskalah galiciana desenvolveu teatro, romance, poesia e periódicos em hebraico e iídiche.c11-galician-literature
  2042. p. 311Yosef Perl fundou uma escola judaica moderna em Tarnopol em 1813.c11-perl-school
  2043. p. 311Megaleh Temirin, publicado em 1819, inaugurou a sátira maskílica anti-hasídica.c11-perl-satire
  2044. p. 312Nahman Krochmal colocou o desenvolvimento histórico no centro da filosofia judaica.c11-krochmal-history
  2045. p. 312Teudah be-Yisrael, de Levinzon, defendeu ciência, línguas e reforma ocupacional.c11-levinzon
  2046. p. 313A lei de 1844 criou escolas judaicas reformadas e seminários rabínicos estatais.c11-state-schools
  2047. p. 313Max Lilienthal percorreu a Zona de Residência e encontrou forte desconfiança.c11-lilienthal-tour
  2048. p. 313Apenas cerca de três mil crianças frequentaram as escolas judaicas oficiais.c11-schools-limited
  2049. p. 314Sob Alexandre II surgiu uma intelligentsia judaica universitária de língua russa.c11-russian-intelligentsia
  2050. p. 314Nos anos 1860 e 1870, escritores maskílicos concentraram-se na pobreza e no atraso do shtetl.c11-radical-haskalah
  2051. p. 314Mendele Moykher Sforim retratou criticamente a vida do shtetl em romances iídiches.c11-mendele-works
  2052. p. 314A Haskalah oriental produziu uma renovação cultural profunda, embora tardia.c11-delayed-renewal
  2053. p. 315Abraham Mapu demonstrou a capacidade literária do hebraico moderno em Amor de Sião.c11-mapu
  2054. p. 315No censo russo de 1897, 97% dos judeus declararam o iídiche como língua materna.c11-yiddish-majority
  2055. p. 315Kol Mevasser padronizou a ortografia e abriu espaço a novos autores iídiches.c11-kol-mevasser
  2056. p. 316Mendele, Peretz e Sholem Aleichem elevaram o iídiche à condição de grande literatura europeia.c11-yiddish-canon
  2057. p. 316A conferência de Czernowitz de 1908 declarou o iídiche língua nacional judaica.c11-czernowitz
  2058. p. 316Setores ortodoxos também adotaram o iídiche como escolha ideológica moderna.c11-orthodox-yiddish
  2059. p. 317O multilinguismo ajudou judeus a adaptar-se a migrações e mudanças econômicas.c11-multilingualism
  2060. p. 317Em 1819, estudantes e maskilim fundaram a sociedade que iniciou a Wissenschaft des Judentums.c11-wissenschaft-founded
  2061. p. 317A nova ciência judaica buscava respeito universitário e conhecimento crítico da tradição.c11-wissenschaft-goals
  2062. p. 317Heinrich Heine converteu-se em 1825 para remover barreiras profissionais.c11-heine-conversion
  2063. p. 319Wissenschaft inaugurou o estudo secular do judaísmo e influenciou novas correntes religiosas.c11-wissenschaft-impact
  2064. p. 320Leopold Zunz aplicou métodos filológicos e históricos à literatura judaica medieval.c11-zunz
  2065. p. 320Isaac Marcus Jost publicou a primeira história moderna abrangente dos judeus.c11-jost-history
  2066. p. 321Heinrich Graetz publicou sua História dos Judeus em onze volumes entre 1853 e 1876.c11-graetz-history
  2067. p. 321Graetz apresentou os judeus como povo de caráter nacional.c11-graetz-national
  2068. p. 321Israel Jacobson criou serviços reformistas iniciais e tornou-se referência da Reforma judaica.c11-jacobson
  2069. p. 321A Associação do Novo Templo Israelita fundou o Templo de Hamburgo em 1818.c11-hamburg-temple
  2070. p. 322O Templo introduziu decoro, coro, órgão, sermões alemães e um novo livro de orações.c11-temple-innovations
  2071. p. 322O novo livro retirou pedidos por retorno a Sião e por um messias pessoal.c11-messiah-removed
  2072. p. 322Moses Sofer liderou a oposição tradicional às reformas do Templo.c11-sofer-opposition
  2073. p. 325Rabinos universitários dos anos 1830 deram base histórica e filosófica à Reforma.c11-reform-rabbis
  2074. p. 325Abraham Geiger usou a história para argumentar que o judaísmo sempre mudara.c11-geiger-history
  2075. p. 325Geiger negou que a nacionalidade fosse elemento essencial do judaísmo.c11-geiger-religion
  2076. p. 325Conferências rabínicas reuniram reformadores alemães em 1844, 1845 e 1846.c11-reform-conferences
  2077. p. 326A conferência de 1845 dividiu-se sobre a centralidade do hebraico na liturgia.c11-hebrew-debate
  2078. p. 326Zacharias Frankel abandonou a conferência após a maioria relativizar a necessidade do hebraico.c11-frankel-walkout
  2079. p. 326A maioria reformista manteve o sábado como dia de descanso judaico.c11-sabbath-retained
  2080. p. 326A primeira confirmação para meninas ocorreu em Berlim em 1814.c11-girls-confirmation
  2081. p. 327Geiger defendeu maioridade jurídica feminina e rejeitou uma oração masculina desigual.c11-geiger-women
  2082. p. 327Samuel Holdheim propôs votos recíprocos entre noiva e noivo.c11-holdheim-wedding
  2083. p. 327O relatório de 1846 recomendou direitos religiosos mais amplos para mulheres, mas não foi votado.c11-women-report
  2084. p. 327A adoção europeia de assentos mistos ocorreu apenas no século XX.c11-mixed-seating-late
  2085. p. 328Órgão, vernáculo, novas orações e maior igualdade feminina difundiram-se gradualmente.c11-reform-results
  2086. p. 328O termo Ortodoxia surgiu na modernidade para distinguir tradicionalistas de reformistas.c11-orthodoxy-term
  2087. p. 329As Dezenove Cartas de Hirsch criaram uma Ortodoxia conscientemente moderna.c11-hirsch-letters
  2088. p. 329Hirsch combinou Torá e participação ativa no Estado e na sociedade.c11-torah-derekh-erets
  2089. p. 329Hirsch e Hildesheimer defenderam educação de Torá para meninas e mulheres.c11-orthodox-women-study
  2090. p. 330A educação feminina foi apresentada como defesa da continuidade judaica no lar.c11-home-education
  2091. p. 330Frankel combinou revelação positiva e desenvolvimento histórico contínuo.c11-positive-historical
  2092. p. 330Frankel rejeitou tanto a ortodoxia inflexível quanto a reforma radical.c11-frankel-moderation
  2093. p. 331Darkhe ha-Mishnah apresentou os antigos rabinos como inovadores jurídicos.c11-darkhe
  2094. p. 331O Seminário Teológico Judaico de Breslau foi fundado em 1854.c11-breslau-seminary
  2095. p. 331Após 1867, judeus húngaros dividiram-se em Neolog, Ortodoxos e status quo ante.c11-hungarian-schism
  2096. p. 331Sinagogas monumentais afirmavam permanência, cidadania e orgulho judaico.c11-architecture-emancipation
  2097. p. 332A comunidade Neolog construiu a Grande Sinagoga de Budapeste entre 1854 e 1859.c11-dohany
  2098. p. 332O edifício combinou formas neo-islâmicas, bizantinas, românicas e góticas.c11-dohany-style
  2099. p. 332Comunidades ortodoxas também construíram sinagogas monumentais e modernas.c11-orthodox-monuments
  2100. p. 332A Grande Sinagoga de Sydney foi consagrada em 1878.c11-sydney
  2101. p. 333A Grande Sinagoga de Roma, inaugurada em 1904, ocupou o antigo local do gueto.c11-rome-synagogue
  2102. p. 333Transformações modernas produziram múltiplas formas religiosas e seculares de identidade judaica.c11-creative-modernity
  2103. p. 335A população judaica mundial cresceu de cerca de 2,7 milhões em 1800 para mais de 12 milhões em 1910.c12-population-rise
  2104. p. 335Em 1900, aproximadamente 82% dos judeus do mundo viviam na Europa.c12-european-concentration
  2105. p. 335O Império Russo abrigava cerca de 5,2 milhões de judeus no início do século XX.c12-russian-concentration
  2106. p. 335Quase dois milhões de judeus residiam no Império Austro-Húngaro.c12-austro-hungarian-share
  2107. p. 335Altas taxas de natalidade e baixa mortalidade impulsionaram o crescimento judaico.c12-demographic-balance
  2108. p. 335Entre 1850 e 1880, no leste europeu houve 17 nascimentos judaicos a mais que óbitos para cada mil pessoas.c12-eastern-natural-increase
  2109. p. 335Estatísticas contemporâneas atribuíam aos judeus maior longevidade e menor mortalidade infantil.c12-health-advantage
  2110. p. 335Médicos relacionaram a vantagem sanitária a sobriedade, alimentação, amamentação e higiene.c12-health-explanations
  2111. p. 336No shtetl, muitas mulheres sustentavam famílias por comércio, artesanato e agricultura doméstica.c12-women-economic-role
  2112. p. 336Comerciantes judias criavam vínculos econômicos e sociais com aldeãs não judias.c12-women-bridges
  2113. p. 336Antes da Primeira Guerra, prosperidade, contracepção, assimilação e emigração reduziram o crescimento.c12-growth-slowdown
  2114. p. 337Para Salo Baron, 'metropolitanização' descreve melhor o padrão judaico do que simples urbanização.c12-metropolitanization
  2115. p. 337A população judaica de Londres subiu de 40 mil em 1880 para 200 mil em 1914.c12-london-growth
  2116. p. 337A comunidade judaica de Viena cresceu de 72 mil em 1880 para 175 mil em 1910.c12-vienna-growth
  2117. p. 337Migração da Alsácia ajudou a formar o bairro judaico parisiense conhecido como Pletzl.c12-paris-pletzl
  2118. p. 337A presença judaica tornou Mokem um nome coloquial para Amsterdã.c12-amsterdam-mokem
  2119. p. 337Berlim passou de 36 mil judeus em 1871 para 144 mil em 1910.c12-berlin-growth
  2120. p. 337Por volta de 1900, cerca de 90 mil judeus compunham metade da população de Salônica.c12-salonika-metropolis
  2121. p. 337O incêndio de 1917 deixou 53 mil judeus de Salônica sem moradia.c12-salonika-fire
  2122. p. 337Entre 1897 e 1910, a população judaica urbana russa aumentou em cerca de um milhão.c12-russian-urbanization
  2123. p. 337Odessa cresceu de 55 mil judeus em 1880 para 200 mil em 1912.c12-odessa-growth
  2124. p. 337Varsóvia chegou a 337 mil judeus em 1910, 38% de sua população.c12-warsaw-growth
  2125. p. 337Diversas cidades da Zona de Residência tinham maiorias ou grandes minorias judaicas.c12-provincial-majorities
  2126. p. 337Migrantes da Galícia tornaram Leopoldstadt, o Segundo Distrito de Viena, cerca de metade judeu.c12-leopoldstadt
  2127. p. 338Entre 1881 e 1917, a população judaica de Nova York alcançou 1,5 milhão.c12-new-york-growth
  2128. p. 338Urbanização judaica também marcou Austrália, Argentina, Brasil, Uruguai e o mundo muçulmano.c12-global-urban-pattern
  2129. p. 338Cidades ampliaram acesso judaico à indústria, comércio, profissões e novas ideologias.c12-city-opportunities
  2130. p. 338Nacionalistas hostis apresentaram a vida urbana judaica como afastamento da terra nacional.c12-urban-critique
  2131. p. 338Os judeus passaram a representar 26,4% da população de Nova York.c12-ny-share
  2132. p. 339O antissemitismo moderno atribuiu problemas sociais contemporâneos aos judeus.c12-modern-antisemitism
  2133. p. 339Suas ideias centrais eram conspiração mundial judaica e diferença racial imutável.c12-conspiracy-race
  2134. p. 339Partidos, clubes, associações e grupos de pressão profissionalizaram a hostilidade antijudaica.c12-political-organizations
  2135. p. 339O antissemitismo podia unir grupos separados por classe, religião e nacionalidade.c12-cross-class-appeal
  2136. p. 339A expressão questão judaica surgiu na França em 1833 e ganhou projeção com Bruno Bauer.c12-jewish-question-term
  2137. p. 339Bauer culpava a persistência cultural judaica pela oposição dos não judeus.c12-bauer-assimilation
  2138. p. 339Acusações modernas de conspiração reaproveitaram preconceitos religiosos e clássicos antigos.c12-ancient-tropes
  2139. p. 339O antissemitismo transformou os judeus em explicação para aspectos contraditórios da modernidade.c12-critique-modernity
  2140. p. 340O êxito da europeização judaica não encerrou a hostilidade e gerou novas reações.c12-emancipation-backlash
  2141. p. 340Richard Wagner exigiu que judeus abandonassem integralmente sua particularidade.c12-wagner-self-extinction
  2142. p. 340Aculturação rápida coexistiu com casamento interno, bairros judaicos e identidade coletiva.c12-persistent-identity
  2143. p. 340Românticos rurais atacaram judeus por representar urbanidade e cosmopolitismo.c12-rural-romanticism
  2144. p. 341A loja de departamentos tornou-se alvo por simbolizar mercado de massa e produção industrial.c12-department-store-symbol
  2145. p. 341Antropologia física ofereceu uma aparência científica à classificação antissemita dos judeus.c12-race-science
  2146. p. 341Pesquisadores mediam crânios, tórax, estatura, olhos e cabelos para definir o corpo judaico.c12-measurements
  2147. p. 341Racialistas extremos passaram da diferença alegada à defesa do extermínio.c12-extermination-rhetoric
  2148. p. 341Pequenos agricultores e baixa classe média alemã culparam judeus pela crise de 1873.c12-german-depression
  2149. p. 341Após 1871, judeus alemães avançaram rapidamente em renda, educação e cultura.c12-german-success
  2150. p. 342Adolf Stöcker converteu seu Partido Social Cristão dos Trabalhadores ao antissemitismo eleitoral.c12-stocker-party
  2151. p. 342Stöcker propôs cotas para juízes judeus e a remoção de professores judeus.c12-stocker-quotas
  2152. p. 342Em 1892, o Partido Conservador adotou o programa antissemita de Tivoli.c12-tivoli-program
  2153. p. 342Clubes nacionalistas, coloniais e de estilos de vida excluíam judeus da sociabilidade alemã.c12-associational-exclusion
  2154. p. 342Wilhelm Marr cunhou o termo antissemitismo e apresentou conflito racial em linguagem secular.c12-marr-term
  2155. p. 343Marr afirmava que emancipação dera aos judeus vantagem numa guerra racial.c12-marr-pessimism
  2156. p. 343A Petição Antissemita reuniu 250 mil assinaturas por restrições a judeus na Alemanha.c12-petition-1880
  2157. p. 343O congresso antissemita internacional de Dresden reuniu mais de trezentas pessoas em 1882.c12-dresden-congress
  2158. p. 343Entre 1891 e 1900, ao menos 79 acusações de assassinato ritual ocorreram na Europa.c12-blood-libel-revival
  2159. p. 343Karl Eugen Duehring sustentou que conversão não alterava a identidade racial judaica.c12-duehring-race
  2160. p. 344Houston Stewart Chamberlain descreveu a história como luta entre arianos criadores e semitas destrutivos.c12-chamberlain-aryan
  2161. p. 344Na Alemanha imperial, propaganda antissemita cresceu sem revogação dos direitos judaicos.c12-german-paradox
  2162. p. 344Viena combinou inovação modernista com intensa política antissemita.c12-vienna-antisemitism
  2163. p. 344Antissemitas atacavam judeus vienenses aculturados por integração e imigrantes por estrangeirismo.c12-vienna-two-groups
  2164. p. 345Georg von Schönerer uniu pangermanismo, ruptura dos Habsburgo e antissemitismo racial.c12-schoenerer
  2165. p. 345Karl Lueger venceu a prefeitura de Viena em 1897 com mobilização antissemita de massas.c12-lueger-mayor
  2166. p. 346A demagogia de Lueger demonstrou a eficácia eleitoral de retórica brutal e emocional.c12-lueger-model
  2167. p. 346Ocultistas vienenses misturaram paganismo germânico, eugenia e antissemitismo.c12-occult-racism
  2168. p. 346Na França, tradições antissemitas surgiram tanto da direita clerical quanto da esquerda anticapitalista.c12-french-right-left
  2169. p. 346Charles Fourier tratou judeus como símbolo do comércio predatório e rejeitou sua emancipação.c12-fourier
  2170. p. 347Pierre-Joseph Proudhon combinou anticapitalismo, hostilidade religiosa e linguagem exterminadora.c12-proudhon
  2171. p. 347Alphonse Toussenel descreveu financistas judeus como nova nobreza econômica.c12-toussenel
  2172. p. 347A França judia (La France juive), de Édouard Drumont, tornou-se um grande sucesso editorial antissemita.c12-drumont
  2173. p. 347Em 1894, Alfred Dreyfus foi falsamente acusado de espionagem com documentos forjados.c12-dreyfus-accusation
  2174. p. 347Dreyfus foi degradado publicamente e enviado à prisão perpétua na Ilha do Diabo.c12-dreyfus-punishment
  2175. p. 348Em 1898, Émile Zola denunciou o encobrimento militar em J'accuse.c12-zola-jaccuse
  2176. p. 348Dreyfus recebeu perdão em 1899 e plena exoneração apenas em 1906.c12-dreyfus-exoneration
  2177. p. 348O caso Dreyfus testou a República e contribuiu para a separação entre Igreja e Estado.c12-affair-republic
  2178. p. 348Em 1840, judeus de Damasco foram torturados após uma falsa acusação de assassinato ritual.c12-damascus-affair
  2179. p. 348Rivalidades entre França, Grã-Bretanha e Áustria moldaram a crise de Damasco.c12-damascus-imperial
  2180. p. 349Em 1889, Adolphe Willette disputou uma cadeira legislativa em Paris com plataforma antissemita.c12-willette-poster
  2181. p. 350Crémieux, Munk e Montefiore obtiveram a libertação e o reconhecimento da inocência dos presos.c12-damascus-mission
  2182. p. 350A imprensa judaica transformou Damasco em acontecimento internacional.c12-jewish-press
  2183. p. 350A crise fortaleceu ação coletiva, filantropia e responsabilidade judaica transnacional.c12-mutual-responsibility
  2184. p. 350Em 1858, a polícia papal retirou Edgardo Mortara de sua família após um batismo secreto.c12-mortara-abduction
  2185. p. 351O caso Mortara mobilizou protestos liberais e enfraqueceu a autoridade temporal papal.c12-mortara-impact
  2186. p. 351Após 1881, o Estado russo passou a excluir judeus deliberadamente.c12-russian-turn
  2187. p. 351Pogrom designava violência coletiva, ataques físicos e destruição de bens.c12-pogrom-term
  2188. p. 351O assassinato de Alexandre II em março de 1881 agravou tensões políticas e religiosas.c12-alexander-assassination
  2189. p. 351A participação de Hessia Helfman tornou-se, para a direita russa, símbolo de uma suposta conspiração judaica.c12-helfman-symbol
  2190. p. 351Cerca de duzentos pogroms entre 1881 e 1883 deixaram cerca de quarenta judeus mortos e devastaram comunidades.c12-pogroms-1881
  2191. p. 352O relato de Mary Antin preserva o trauma dos pogroms, embora amplifique detalhes.c12-antin-memory
  2192. p. 352O governo não organizou os pogroms de 1881, mas autoridades locais pouco intervieram.c12-state-inaction
  2193. p. 352As Leis de Maio de 1882 restringiram residência, propriedade, trabalho público e comércio judaicos.c12-may-laws
  2194. p. 352Em 1887, cotas limitaram estudantes judeus a 10% na Zona, 5% fora dela e 3% nas capitais.c12-education-quotas
  2195. p. 352A partir de 1889, admissão de judeus à advocacia dependia de autorização ministerial.c12-legal-profession
  2196. p. 352Em 1900, até 35% dos judeus russos recebiam alguma forma de auxílio.c12-pale-poverty
  2197. p. 353O pogrom de Kishinev começou em 6 de abril de 1903 e durou três dias.c12-kishinev-date
  2198. p. 353Pavel Krushevan difundiu acusações rituais e conspiração política antes do ataque.c12-kishinev-incitement
  2199. p. 353Segundo estatísticas oficiais, em Kishinev 49 judeus morreram, 587 ficaram feridos e cerca de duas mil famílias perderam suas casas.c12-kishinev-casualties
  2200. p. 353Escritores, historiadores e ativistas russos e judeus protestaram contra o pogrom.c12-kishinev-protest
  2201. p. 353Bialik transformou testemunhos de Kishinev no poema Na Cidade do Massacre.c12-bialik-poem
  2202. p. 353O poema condenou os agressores e também atacou a suposta passividade masculina judaica.c12-bialik-critique
  2203. p. 354Os Protocolos dos Sábios de Sião apareceram em série poucos meses após Kishinev.c12-protocols-origin
  2204. p. 354A falsificação alegava registrar uma reunião judaica para dominar o mundo.c12-protocols-forgery
  2205. p. 354Depois do pogrom, rolos de Torá profanados foram colocados em macas para sepultamento.c12-kishinev-torah
  2206. p. 355Revolução russa e derrota alemã ajudaram os Protocolos a alcançar circulação mundial.c12-protocols-global
  2207. p. 355Pogroms em cerca de trezentas localidades entre 1905 e 1906 mataram mais de mil pessoas.c12-pogroms-1905
  2208. p. 355O Estado acusou Mendel Beilis de assassinato ritual em Kiev apesar de conhecer os criminosos.c12-beilis-trial
  2209. p. 355Em 1913, um júri camponês absolveu Beilis.c12-beilis-acquittal
  2210. p. 356Judeus responderam com política moderna, defesa filantrópica e migração em massa.c12-three-responses
  2211. p. 356Socialismo, nacionalismo e territorialismo frequentemente se combinaram.c12-political-variety
  2212. p. 356Alguns socialistas judeus acreditavam que revolução internacional resolveria a questão judaica.c12-socialist-internationalism
  2213. p. 357O Bund foi fundado em Vilna em 1897 para organizar trabalhadores judeus.c12-bund-founded
  2214. p. 357Trabalhadores judeus enfrentavam exclusão industrial e jornadas de dezesseis a dezoito horas.c12-bund-labor
  2215. p. 357Aleksandr Kremer insistia que trabalhadores sofriam tanto como trabalhadores quanto como judeus.c12-kremer
  2216. p. 357Em 1903, o Bund exigiu autonomia e representação exclusiva do proletariado judeu.c12-bund-autonomy
  2217. p. 357O Bund organizou unidades de autodefesa durante os pogroms de 1903 a 1907.c12-bund-self-defense
  2218. p. 357Em 1905, o Bund tinha 35 mil membros e era o maior partido judeu do leste europeu.c12-bund-membership
  2219. p. 357O Bund defendeu autonomia cultural nacional com instituições em iídiche.c12-bund-yiddish
  2220. p. 358A ideia bundista de doikayt defendia construir a vida judaica no lugar em que os judeus viviam.c12-doikayt
  2221. p. 358Em 1919, 160 bundistas conquistaram assentos em conselhos municipais poloneses.c12-bund-local-success
  2222. p. 358A recusa de alianças limitou a força nacional do Bund.c12-bund-limits
  2223. p. 358Chaim Zhitlovsky vinculou nacionalidade judaica à língua e cultura iídiche.c12-yiddishism
  2224. p. 359Zhitlovsky definiu pertencimento judaico secular por participação numa esfera cultural iídiche.c12-secular-jewishness
  2225. p. 359O Folkspartey, liderado por Shimon Dubnov e fundado em 1906, defendeu autonomia cultural democrática.c12-folkspartey
  2226. p. 359O partido propunha direitos de minorias, assembleias nacionais e escolas públicas próprias.c12-dubnov-program
  2227. p. 359Falta de recursos e conflito com Bund, sionistas e ortodoxos enfraqueceram o Folkspartey.c12-folkspartey-weakness
  2228. p. 360Yehuda Alkalai e Zvi Hirsch Kalischer defenderam ação humana para promover retorno a Sião.c12-religious-protozionism
  2229. p. 360Moses Hess apresentou os judeus como nação em Roma e Jerusalém, de 1862.c12-moses-hess
  2230. p. 360Após 1881, Hibbat Tsiyon formou uma federação de grupos na Rússia e Romênia.c12-hibbat-zion
  2231. p. 360A Primeira Aliyah assentou judeus na Palestina, mas, em termos práticos, pode ser considerada um fracasso.c12-first-aliyah
  2232. p. 360O sionismo rompeu com espera messiânica, autoridade parental e vida diaspórica.c12-zionist-revolution
  2233. p. 360Autoemancipação, de Leon Pinsker, respondeu aos pogroms de 1881.c12-pinsker-autoemancipation
  2234. p. 361Pinsker descreveu o antissemitismo como Judeofobia hereditária e incurável.c12-pinsker-judeophobia
  2235. p. 361Para Pinsker, os judeus precisavam criar consciência nacional e um lar próprio.c12-pinsker-homeland
  2236. p. 361Theodor Herzl era jornalista vienense vindo de família assimilada.c12-herzl-background
  2237. p. 361Em 1893, Herzl ainda imaginava uma conversão coletiva ao catolicismo.c12-herzl-conversion-plan
  2238. p. 362O caso Dreyfus e a eleição de Lueger alteraram a avaliação de Herzl sobre assimilação.c12-herzl-dreyfus-lueger
  2239. p. 362Herzl publicou O Estado Judeu em 1896 e defendeu soberania reconhecida internacionalmente.c12-jewish-state-book
  2240. p. 362Herzl propôs uma Sociedade dos Judeus política e uma Companhia Judaica econômica.c12-society-company
  2241. p. 362Seu Estado imaginado seria multilíngue, neutro e juridicamente igual para não judeus.c12-herzl-pluralism
  2242. p. 362O Primeiro Congresso Sionista reuniu cerca de duzentos delegados em Basileia em 1897.c12-basel-congress
  2243. p. 363O congresso buscou um lar judaico reconhecido publicamente e garantido por lei.c12-basel-program
  2244. p. 363Associações sionistas passaram de 117 para 913 no ano após Basileia.c12-zionist-growth
  2245. p. 363As tentativas diplomáticas de Herzl com Kaiser, sultão e ministros britânicos fracassaram.c12-diplomatic-failures
  2246. p. 364Sionistas russos criticavam a pouca atenção de Herzl ao hebraico e à cultura judaica.c12-cultural-critique
  2247. p. 364Chaim Weizmann liderou em 1901 uma facção que enfatizava cultura judaica.c12-democratic-faction
  2248. p. 364O legado institucional de Herzl foi a Organização Sionista Mundial.c12-wzo-legacy
  2249. p. 364Ahad Ha-Am propôs um centro espiritual hebraico em vez de priorizar soberania imediata.c12-ahad-cultural
  2250. p. 364Ele criticou assentamentos descoordenados que não cultivavam consciência nacional.c12-ahad-settlement-critique
  2251. p. 365Ahad Ha-Am alertou em 1891 que a população árabe resistiria à perda de seu lugar.c12-ahad-arabs
  2252. p. 365Após Kishinev, Herzl apresentou a oferta britânica no leste africano como refúgio temporário.c12-uganda
  2253. p. 365O congresso de 1903 aprovou por 295 a 178 o envio de uma comissão investigativa.c12-uganda-vote
  2254. p. 365A Organização Territorial Judaica buscou um território seguro fora da Palestina.c12-territorialism
  2255. p. 365O Projeto Galveston assentou cerca de 9.300 judeus no Texas entre 1907 e 1914.c12-galveston-project
  2256. p. 366Mizrahi, criado em 1902, combinou adesão estrita à tradição com aceitação nominal do sionismo.c12-mizrahi
  2257. p. 366Nahman Syrkin defendeu um Estado judaico socialista na Palestina.c12-labor-zionism
  2258. p. 367Ber Borochov combinou luta de classes e nacionalismo judaico.c12-borochov
  2259. p. 367Poalei Tsiyon, formado em 1906, foi o primeiro partido sionista socialista.c12-poalei-zion
  2260. p. 367A Segunda Aliyah levou cerca de 35 mil judeus à Palestina entre 1903 e 1914.c12-second-aliyah
  2261. p. 367Ben-Gurion, Katznelson e Ben-Zvi integraram o núcleo comprometido com uma nova sociedade hebraica.c12-founding-generation
  2262. p. 367Degania, fundada em 1910, foi o primeiro coletivo agrícola judaico.c12-degania
  2263. p. 367O kibutz organizou propriedade coletiva, trabalho próprio, igualdade e cooperação.c12-kibbutz-values
  2264. p. 367A. D. Gordon vinculou regeneração judaica ao trabalho manual agrícola.c12-gordon-labor
  2265. p. 367Ha-Shomer foi criado em 1909 para guardar assentamentos judaicos.c12-hashomer
  2266. p. 367Imigrantes de classe média preferiam Tel Aviv, cidade de cerca de 2 mil habitantes em 1914.c12-tel-aviv-1914
  2267. p. 368Pioneiros adotaram sobrenomes hebraicos para simbolizar ruptura com a diáspora.c12-hebraized-names
  2268. p. 368A Segunda Aliyah reuniu autores que consolidaram literatura hebraica moderna na Palestina.c12-modern-hebrew-literature
  2269. p. 368S. Y. Agnon examinou tradição e modernidade e recebeu o Nobel em 1966.c12-agnon
  2270. p. 368Eliezer ben Yehuda fez de sua casa um laboratório para reviver o hebraico falado.c12-ben-yehuda
  2271. p. 368Ben Yehuda criou vocabulário moderno e trabalhou num dicionário de dezessete volumes.c12-hebrew-dictionary
  2272. p. 368Em 1914, cerca de 85 mil judeus conviviam com aproximadamente 700 mil árabes na Palestina.c12-palestine-balance
  2273. p. 368A Alliance Israélite Universelle foi fundada em Paris em 1860 sob liderança de Crémieux.c12-alliance-founded
  2274. p. 369No auge, a Alliance manteve 183 escolas com 43.700 estudantes entre Marrocos e Irã.c12-alliance-schools
  2275. p. 369A educação de meninas pela Alliance ampliou mobilidade e status de mulheres judaicas.c12-alliance-women
  2276. p. 369A filantropia judaica passou de caridade local a redes internacionais administradas profissionalmente.c12-international-philanthropy
  2277. p. 369Associações britânicas, vienenses e alemãs seguiram o modelo da Alliance.c12-parallel-organizations
  2278. p. 369A Associação de Colonização Judaica financiou Moisesville na Argentina a partir de 1889.c12-moisesville
  2279. p. 369Em 1880, a Palestina tinha cerca de 25 mil judeus, majoritariamente pobres e religiosos.c12-old-yishuv
  2280. p. 369Organizações civis na Alemanha e nos Estados Unidos combateram difamação por imprensa e tribunais.c12-defense-organizations
  2281. p. 370Entre 1881 e 1924, quase 2,5 milhões de judeus deixaram o leste europeu.c12-mass-emigration
  2282. p. 370Cerca de 85% dos emigrantes judeus do leste europeu foram aos Estados Unidos.c12-america-share
  2283. p. 370Talvez até duzentos mil judeus centro-europeus chegaram aos Estados Unidos entre 1830 e 1860.c12-german-jewish-migration
  2284. p. 370Muitos imigrantes alemães passaram do comércio ambulante a lojas, indústria e finanças.c12-peddlers-business
  2285. p. 370Isaac Mayer Wise liderou a união congregacional de 1873 e o Hebrew Union College de 1875.c12-uahc-huc
  2286. p. 371Bertha Pappenheim fundou a Liga de Mulheres Judias em 1904.c12-pappenheim-league
  2287. p. 371A Liga combateu tráfico sexual, buscou participação comunitária feminina e ofereceu formação profissional.c12-pappenheim-goals
  2288. p. 371Imigrantes judeus enfrentavam travessia precária e inspeções intimidadoras em Ellis Island.c12-ellis-island
  2289. p. 371A HIAS, fundada em 1881, oferecia moradia, alimentação e roupas a recém-chegados.c12-hias
  2290. p. 371Entre 70% e 90% dos imigrantes judeus orientais permaneceram em Nova York.c12-new-york-retention
  2291. p. 372O banquete de 1883 em homenagem à primeira turma do Hebrew Union College simbolizou divisões do judaísmo americano.c12-trefa-banquet
  2292. p. 372Teatros iídiches ofereceram cultura popular e dramatizaram conflitos entre gerações.c12-yiddish-theater
  2293. p. 372Abraham Goldfaden criou uma indústria teatral judaica moderna.c12-goldfaden
  2294. p. 373Cerca de 95% dos imigrantes judeus permaneceram nos Estados Unidos.c12-permanent-settlement
  2295. p. 373A migração judaica oriental incluiu proporções elevadas de mulheres e crianças.c12-family-migration
  2296. p. 373Emma Goldman e outras ativistas judaicas defenderam contracepção e direitos reprodutivos.c12-birth-control-activism
  2297. p. 373Nulman descreve Hashkivaynu como a segunda bênção após o Shemá em Arvit (e na oração antes de dormir); foi instituída como pedido de proteção divina porque tefilin e tzitzit não se aplicam à noite, e conta como extensão longa da redenção (ge'ulah arikhta) sem interromper a Amidá.cl-hashkiveinu-divine-protection
  2298. p. 374Judeus compunham mais da metade dos trabalhadores qualificados do vestuário.c12-garment-trades
  2299. p. 374Em 1910, 540 mil judeus viviam em apenas uma milha e meia quadrada do Lower East Side.c12-lower-east-side-density
  2300. p. 374Lillian Wald fundou o Henry Street Settlement em 1895 para oferecer serviços sociais.c12-lillian-wald
  2301. p. 375O incêndio da Triangle Shirtwaist em 1911 matou 146 trabalhadoras, sobretudo judias e italianas.c12-triangle-fire
  2302. p. 375A tragédia impulsionou legislação de segurança fabril e sindicalismo.c12-factory-reform
  2303. p. 375Mulheres judias imigrantes participavam intensamente de trabalho, educação e política pública.c12-gender-public-life
  2304. p. 375Em 1902, mulheres judias organizaram um boicote bem-sucedido contra o aumento do preço da carne kosher.c12-meat-boycott
  2305. p. 375Judeus alemães de classe média e imigrantes orientais divergiam em classe, cultura e religião.c12-uptown-downtown
  2306. p. 375Sociedades de conterrâneos ofereciam seguro, empréstimos, auxílio-doença e sepultamento.c12-landsmanshaftn
  2307. p. 376O Lower East Side sustentava centenas de sinagogas, pelo menos 307 heders e várias yeshivot.c12-orthodox-institutions
  2308. p. 376Com o tempo, grupos judeus diversos aproximaram-se numa comunidade americana mais ampla.c12-american-convergence
  2309. p. 377Nulman reporta a tradição talmúdica de que a quarta bênção Hatov Vehamaytiv foi instituída em Yavneh em relação aos mortos de Betar, quando se permitiu sepultá-los.cl-birkat-hamazon-hatov-yavneh
  2310. p. 378O século XX juntou avanços sociais a níveis inéditos de violência.c13-age-of-extremes
  2311. p. 378A guerra enterrou, com milhões de jovens, a ordem antiga.c13-trenches
  2312. p. 378No leste, a guerra trouxe violência e ruína comunitária.c13-eastern-devastation
  2313. p. 378No centro e no oeste, o entusiasmo patriótico cedeu lugar a um antissemitismo mais duro.c13-patriotic-break
  2314. p. 378No entreguerras, nacionalismo e reavivamento espiritual alimentaram culturas judaicas modernas.c13-interwar-confidence
  2315. p. 378Em 1926, Freud disse à B'nai B'rith que, como judeu, estava pronto para a oposição.c13-freud-opposition
  2316. p. 378Jovens sionistas, mulheres, comunistas, poetas e psicanalistas enfrentaram autoridades.c13-youth-rebellion
  2317. p. 378A guerra começou em 1 de agosto de 1914 e terminou em 11 de novembro de 1918.c13-war-dates
  2318. p. 378O Império Britânico, a França, a Rússia e, depois de 1917, os Estados Unidos venceram Alemanha, Áustria-Hungria e o Império Otomano.c13-alliances
  2319. p. 378Cerca de 9 milhões de pessoas morreram e quase 22 milhões ficaram desaparecidas ou mutiladas.c13-war-dead
  2320. p. 379As perdas francesas levaram a um tratado duro, e a humilhação alemã alimentou o nazismo.c13-versailles
  2321. p. 379O fascismo italiano e a vitória bolchevique também nasceram da guerra.c13-fascism-bolsheviks
  2322. p. 379Cerca de 1,5 milhão de homens judeus lutaram por seus países.c13-jewish-enlistment
  2323. p. 379A frente oriental atravessou a Zona de Residência e a Galícia, lar de quase 4 milhões de judeus.c13-eastern-heartland
  2324. p. 379Populações locais acusaram judeus de ajudar o inimigo.c13-enemy-accusations
  2325. p. 379Tropas russas destruíram casas, negócios, sinagogas e escolas.c13-scorched-earth
  2326. p. 379Entre 500 mil e 1 milhão de judeus foram expulsos para trás das linhas russas.c13-mass-expulsion
  2327. p. 379Em maio de 1915, mais de 100 mil judeus sem teto chegaram só a Varsóvia.c13-warsaw-refugees
  2328. p. 379Pelo menos 500 mil judeus serviram no exército russo, e cerca de 70 mil morreram.c13-russian-dead
  2329. p. 379Na Alemanha, 100 mil homens, 18 por cento da população judaica, serviram; 12 mil morreram e 35 mil foram condecorados.c13-german-service
  2330. p. 379Cerca de 275 mil judeus, 11 por cento do total, lutaram no exército austro-húngaro.c13-austrian-service
  2331. p. 379Nulman define Havdalah ('separação') como as orações e bênçãos na saída de um dia mais santo (Shabat/festa) e o ritual final com distinções entre santo e profano, luz e escuridão.cl-havdalah-separation-ritual
  2332. p. 380Cerca de 41.500 judeus do império lutaram pela Grã-Bretanha.c13-british-numbers
  2333. p. 380John Monash comandou as forças australianas, o posto judaico mais alto da guerra.c13-monash
  2334. p. 380Ludendorff prometeu proteção em iídiche, mas depois apoiou Hitler.c13-ludendorff
  2335. p. 380Martin Buber passou a opor-se à guerra, e Gershom Scholem também a rejeitou.c13-war-critics
  2336. p. 381Nas trincheiras, soldados judeus sentiram que o alemão comum não os queria.c13-trench-alienation
  2337. p. 381Em 1916, o ministério prussiano fez um censo para verificar se judeus evitavam a frente.c13-jew-count
  2338. p. 381O ministério constatou serviço desproporcional na frente e não publicou os resultados.c13-count-hidden
  2339. p. 381A contagem destruiu a ilusão de que a integração judaica fora aceita.c13-illusion-broken
  2340. p. 381Jovens judeus alemães passaram a idealizar judeus do leste como representantes autênticos do povo.c13-eastern-ideal
  2341. p. 381Ernst Simon descreveu o retorno ao judaísmo e ao sionismo após a ruptura.c13-ernst-simon
  2342. p. 381Depois de 1881, cerca de 60 mil judeus ortodoxos de língua iídiche chegaram da Rússia.c13-british-split
  2343. p. 381O Jewish Chronicle, fundado em 1841, passou da neutralidade ao apoio em 7 de agosto de 1914.c13-chronicle
  2344. p. 381Rothschild e Lucien Wolf criticaram a aliança britânica com o tsarismo.c13-rothschild-objection
  2345. p. 381Após o naufrágio do Lusitania, em maio de 1915, o East End teve três dias de saques de lojas de alemães e austríacos.c13-lusitania-riots
  2346. p. 381Imigrantes russos relutavam em enviar filhos para defender a Rússia, aliada britânica.c13-immigrant-refusal
  2347. p. 382Sionismo, bundismo e territorialismo ganharam adesão da Europa ao Oriente Médio.c13-nationalist-menu
  2348. p. 382Sob ameaça crescente, a cultura secular floresceu na Alemanha, na Polônia e na União Soviética.c13-culture-paradox
  2349. p. 382A conferência de Paris de 1919 criou Estados novos sobre ruínas imperiais.c13-peace-map
  2350. p. 382Só a Tchecoslováquia manteve, nos anos 1930, o ideal democrático inicial.c13-czechoslovakia
  2351. p. 382Até 1919, a Polônia teve mais de 100 pogroms; em Lvov, 70 judeus foram mortos.c13-lvov-pogrom
  2352. p. 382Em setembro de 1919, Joseph Seff alertou que 6 milhões de almas na Ucrânia e na Polônia estavam em perigo.c13-seff-warning
  2353. p. 383Sob Weimar, os 564 mil judeus alemães tiveram acesso inédito a cargos antes fechados.c13-weimar-access
  2354. p. 383Kurt Eisner derrubou o governo bávaro em novembro de 1918 e foi assassinado em 1919.c13-eisner
  2355. p. 383Hugo Preuss redigiu a constituição liberal que a direita chamou de república judaica.c13-preuss
  2356. p. 383Walter Rathenau tornou-se ministro do Exterior em 1922 e foi assassinado no mesmo ano.c13-rathenau
  2357. p. 383A parcela europeia da população judaica caiu de 82 por cento em 1900 para 57 por cento em 1939.c13-europe-share
  2358. p. 383Em Budapeste, judeus eram 51 por cento dos advogados; em Viena e Budapeste, 63 por cento dos médicos.c13-law-medicine
  2359. p. 383Em 1931, judeus eram 56 por cento dos médicos poloneses e 83 por cento em Lodz.c13-polish-physicians
  2360. p. 383Sessenta por cento dos judeus alemães trabalhavam no comércio, contra cerca de 16 por cento dos não judeus.c13-german-commerce
  2361. p. 383Em 1920, Budapeste tinha 215 mil judeus; Varsóvia, 219 mil, número que chegou a 352.659 em 1931.c13-budapest-size
  2362. p. 384Em 1933, 9,5 milhões dos 15,3 milhões de judeus do mundo viviam na Europa.c13-map-1933
  2363. p. 384Por volta de 1930, quase 30 por cento dos judeus viviam em apenas 19 cidades.c13-urban-concentration
  2364. p. 384Goodman observa que o Kaddish dos enlutados tornou-se também parte integral da cultura sefaradi, junto com o yahrzeit (vela e papel na liturgia pública no aniversário da morte).c-h502-goodman-mourners-kaddish-sephardi
  2365. p. 385A revolução bolchevique misturou emancipação inédita e repressão da vida judaica coletiva.c13-mixed-blessing
  2366. p. 385A Revolução de Fevereiro emancipou os judeus russos e aboliu a Zona de Residência.c13-pale-ended
  2367. p. 385Bund e partidos sionistas foram fechados quando os bolcheviques monopolizaram o poder.c13-parties-crushed
  2368. p. 385No início dos anos 1920, a Yevsektsia fechou cerca de mil escolas hebraicas e 650 sinagogas e escolas religiosas.c13-yevsektsia-closures
  2369. p. 385A seção foi dissolvida em 1930, acusada de nacionalismo, e a maioria dos líderes acabou presa ou executada nos expurgos.c13-yevsektsia-end
  2370. p. 385Um dito resumia o custo: os Trotskys faziam a revolução e os Bronshteyns pagavam por ela.c13-bronshteyn-quip
  2371. p. 385Livros e panfletos iídiches passaram de 76 em 1924 para 531 em 1930.c13-yiddish-print-boom
  2372. p. 385O Teatro Judaico Estatal, com Mikhoels e cenários de Chagall, afirmou uma identidade distinta.c13-mikhoels
  2373. p. 386Escolas iídiches seculares passaram de 366 em 1924 para 1.100 em 1930.c13-yiddish-schools
  2374. p. 386A ascensão social exigia russo, e o iídiche passou a parecer resquício do shtetl.c13-russian-route
  2375. p. 386Em 1934, Birobidjan tornou-se Região Autônoma Judaica.c13-birobidzhan-status
  2376. p. 387A população judaica atingiu cerca de 30 mil em 1948, um quarto do total local.c13-jar-peak
  2377. p. 387Os expurgos de 1936 a 1938 prenderam líderes judeus da região por atividade contrarrevolucionária.c13-jar-purges
  2378. p. 387Trotsky, Zinoviev, Sverdlov e Kamenev ocuparam postos centrais do novo regime.c13-soviet-command
  2379. p. 387Em janeiro de 1937, 42 altos funcionários da NKVD eram judeus, e 12 das 20 diretorias tinham chefes judeus.c13-nkvd-share
  2380. p. 387Em 1922, 72 por cento dos bolcheviques eram russos étnicos, mas a revolução foi vista como complô judaico.c13-plot-myth
  2381. p. 387Em 1939, 40 por cento dos judeus haviam deixado a antiga Zona de Residência.c13-left-the-pale
  2382. p. 387Moscou passou de 15.300 judeus em 1912 para cerca de 250 mil em 1939.c13-moscow-growth
  2383. p. 388Estudantes judeus universitários passaram de 22.500 em 1929 para 98 mil em 1939.c13-university-rise
  2384. p. 388Em 1939, judeus eram cerca de 70 por cento dos dentistas de Moscou e Leningrado.c13-moscow-dentists
  2385. p. 388O russo como língua materna declarada subiu de um quarto em 1926 para 55 por cento em 1939.c13-russian-mother-tongue
  2386. p. 388Na República Russa, casamentos mistos de homens judeus subiram de 17,4 para 42 por cento entre 1924 e 1936.c13-intermarriage
  2387. p. 388Nos expurgos, parentes no exterior tornavam judeus vulneráveis a acusações de internacionalismo.c13-purge-isolation
  2388. p. 389Desde 1919, o descanso dominical impedia o comércio judaico no sábado e no domingo.c13-sunday-law
  2389. p. 389Quase todos os 4 mil judeus das ferrovias e os 6 mil da madeira perderam o emprego.c13-rail-dismissals
  2390. p. 389Em Varsóvia, onde judeus eram 30 por cento da população, só 50 dos 20 mil servidores municipais eram judeus.c13-warsaw-payroll
  2391. p. 389Em 1934, o rabino de Radzilow escreveu a Nehemiah Rozenbaum, na Austrália, pedindo ajuda para um sobrinho dele que passava fome.c13-gelgor-letter
  2392. p. 389O golpe de Pilsudski em 1926 melhorou um pouco as condições e legalizou as kehilot em 1927.c13-pilsudski-coup
  2393. p. 390Dmowski entendia a polonidade como língua polonesa e catolicismo, sem lugar para judeus.c13-dmowski
  2394. p. 390O Estado não financiou escolas iídiches e hebraicas e barrou seus formandos nas universidades.c13-school-costs
  2395. p. 390Depois de 1936, nacionalistas organizaram boicotes contra negócios judeus.c13-boycott-1936
  2396. p. 390A presença judaica nas universidades caiu de cerca de 25 por cento em 1921 para pouco mais de 8 por cento em 1938.c13-university-drop
  2397. p. 390Entre 1935 e 1937, pogroms mataram 79 judeus e feriram cerca de 500.c13-pogroms-1935
  2398. p. 390O cardeal Hlond apoiou o boicote e condenou a agressão física em uma carta pastoral de fevereiro de 1936.c13-hlond
  2399. p. 390O judaísmo romeno reunia elites germanizadas, massas iídiches e comunidades de língua húngara.c13-romania-mosaic
  2400. p. 391Cuza mobilizou estudantes, e em 1922 alunos de medicina quiseram impedir dissecações de cadáveres cristãos por judeus.c13-cuza-students
  2401. p. 391A Guarda de Ferro, fundada em 1927 e liderada por Codreanu, uniu fascismo, cristianismo místico e antissemitismo.c13-iron-guard
  2402. p. 391O breve governo Goga-Cuza de 1938 impôs leis inspiradas em Nuremberg, e pelo menos 270 mil judeus perderam a cidadania até 1939.c13-goga-cuza
  2403. p. 391A revolução de março de 1919, liderada por Béla Kun, foi seguida por terror vermelho.c13-bela-kun
  2404. p. 391Entre 1919 e 1920, extremistas de direita mataram centenas de judeus no terror branco.c13-white-terror
  2405. p. 391Em 1920, Horthy limitou judeus a 6 por cento das vagas universitárias.c13-horthy-quota
  2406. p. 391Em 24 de maio de 1938, o parlamento húngaro aprovou leis raciais.c13-hungary-race-law
  2407. p. 392No entreguerras, Turquia, Grécia, Iugoslávia e Bulgária tinham cerca de 82, 75, 68 e 48 mil judeus.c13-balkan-counts
  2408. p. 392Em Salônica, 61 mil judeus eram um sexto da população e um quinto da atividade econômica.c13-salonika-share
  2409. p. 392Na Bulgária, o ladino como língua materna caiu de quase 90 por cento em 1926 para menos de 40 por cento em 1934.c13-ladino-bulgaria
  2410. p. 392A latinização do alfabeto turco nos anos 1920 acompanhou a do ladino e enfraqueceu sua imprensa.c13-ataturk-script
  2411. p. 392Goodman registra que, menos de trinta anos após a morte de Isaac Luria, cabalistas na Itália já o chamavam Ari (sigla hebraica de 'o divino rabino Isaac'), status elevado produzido sobretudo pelos escritos dos discípulos.c-h502-goodman-luria-ari-title
  2412. p. 393Scholem deixou a Alemanha pela Palestina em 1923 e dedicou-se aos textos místicos.c13-scholem-departure
  2413. p. 393Kafka criticou o judaísmo formal do pai, limitado a poucos dias na sinagoga.c13-kafka-father
  2414. p. 393Rosenzweig e Buber prepararam uma nova tradução alemã da Bíblia hebraica.c13-bible-translation
  2415. p. 393Judeus secularizados construíram identidades novas em vez de copiar tradições intactas.c13-post-assimilatory
  2416. p. 394Rosenzweig fundou o Lehrhaus em Frankfurt em 1920 como escola de adultos.c13-lehrhaus-founded
  2417. p. 394O ensino invertia o caminho tradicional: da vida de volta para a Torá.c13-reverse-order
  2418. p. 394Em 1913, Rosenzweig desistiu da conversão após o Yom Kippur em Kassel.c13-kassel-return
  2419. p. 394Weimar produziu o Jüdisches Lexikon e uma Encyclopaedia Judaica interrompida no L.c13-encyclopedias
  2420. p. 395No início dos anos 1920, Berlim reuniu Bialik, Berdichevsky, Greenberg e Agnon.c13-berlin-hebrew-circle
  2421. p. 395O capítulo situa a fundação do YIVO em Berlim em 1925, com sede depois em Vilna e Nova York; a cronologia do livro registra a fundação em Vilna.c13-yivo-founded
  2422. p. 395A cultura judaica polonesa circulava em iídiche, polonês e hebraico.c13-polysystem
  2423. p. 395No censo de 1931, 80 por cento declararam iídiche, 12 por cento polonês e 8 por cento hebraico; o capítulo adverte que esses números não refletem a realidade linguística, sobretudo o hebraico.c13-census-1931
  2424. p. 396Hofmannsthal, Reinhardt e Strauss abriram o Festival de Salzburgo em 1920.c13-salzburg
  2425. p. 396Segundo Goodman, Luria e seguidores foram em geral conservadores no ritual; ler significado místico na liturgia reforçou práticas existentes, e o legado luriano foi menos mudar o comportamento do que aprofundar o apreço do significado das práticas já vigentes.c-h502-goodman-luria-liturgy-conservative
  2426. p. 397Hugo Bettauer, autor de uma Viena sem judeus, foi morto por um nazista em 1925.c13-bettauer
  2427. p. 398O diretor Mikhl Weichert funcionou como figura pública do judaísmo polonês, semelhante a Mikhoels.c13-weichert
  2428. p. 398Max Weinreich dirigiu o YIVO em Vilna de 1925 a 1939.c13-weinreich
  2429. p. 398A rede escolar do Bund atendia mais de 24 mil alunos, do jardim à formação de professores.c13-bund-schools
  2430. p. 399A TOZ, apoiada pelo Joint, organizou colônias de férias contra a tuberculose e outras doenças.c13-toz-camps
  2431. p. 400Em 1929, Nasz Przeglad organizou o concurso Miss Judeia, vencido por Zofia Oldak.c13-miss-judea
  2432. p. 401Bund, Poalei Zion, sionistas gerais, folkistas, revisionistas e Agudas disputavam a juventude.c13-party-map
  2433. p. 401A divisão impediu uma voz única e enfraqueceu os partidos na política polonesa.c13-powerlessness
  2434. p. 401Cerca de 140 mil judeus poloneses chegaram à Palestina no entreguerras.c13-polish-aliyah
  2435. p. 401O sionismo abrigou socialistas, centristas, seculares e religiosos.c13-zionist-umbrella
  2436. p. 401O Bund nunca elegeu um deputado ao Sejm, apesar da força municipal.c13-bund-sejm
  2437. p. 402Em 1898, Max Nordau pediu um judaísmo muscular, e clubes como Maccabi e Hakoah se espalharam.c13-muscular-judaism
  2438. p. 402Hank Greenberg recusou jogar no Yom Kippur de 1934.c13-greenberg-fast
  2439. p. 402A Grã-Bretanha prometeu a Husayn um Estado árabe que ele acreditava incluir a Palestina.c13-husayn-pledge
  2440. p. 403O Hakoah de Viena, com 5 mil sócios, conquistou o campeonato austríaco em 1924-1925.c13-hakoah-title
  2441. p. 403Weizmann, químico em Manchester, abriu portas do poder ao produzir acetona para explosivos.c13-acetone
  2442. p. 404Em novembro de 1917, o gabinete britânico favoreceu um lar nacional judaico na Palestina.c13-balfour-wording
  2443. p. 404O texto protegia direitos de não judeus na Palestina e de judeus em outros países.c13-safeguards
  2444. p. 404As palavras a e in limitavam o lar a uma parte da Palestina e a um entre vários destinos.c13-a-and-in
  2445. p. 404Após Herzl, Wolfssohn, Warburg, Weizmann e Sokolow presidiram a Organização Sionista.c13-wzo-line
  2446. p. 404Jabotinsky, de Odessa, via-se como herdeiro político de Herzl.c13-jabotinsky-heir
  2447. p. 404A Legião Judaica reuniu cerca de 5 mil voluntários nos batalhões 38, 39 e 40.c13-jewish-legion
  2448. p. 404Jabotinsky lia a declaração como imigração livre em toda a Palestina, inclusive a Transjordânia.c13-transjordan-claim
  2449. p. 405Em 1923, Jabotinsky criou o Betar, liga juvenil nomeada em memória de Trumpeldor.c13-betar
  2450. p. 405Em 1937, dissidentes da Haganah formaram o Irgun, braço militar revisionista.c13-etzel
  2451. p. 405O assassinato de Chaim Arlosoroff em 1933 enfraqueceu a direita.c13-arlosoroff
  2452. p. 405Em 1935, Jabotinsky saiu da Organização Sionista e fundou a Nova Organização Sionista.c13-nzo
  2453. p. 406Ahad Ha-Am já notava, em 1891, objeções árabes à compra de terras.c13-ahad-1891
  2454. p. 406A conquista pelo trabalho colocou sionistas socialistas em choque com árabes locais.c13-conquest-of-labor
  2455. p. 406Revisionistas queriam um Estado judeu nas duas margens do Jordão.c13-both-banks
  2456. p. 406Perante a Comissão Peel, Jabotinsky contrastou apetite árabe e fome judaica.c13-appetite-starvation
  2457. p. 406Em San Remo, França recebeu Líbano e Síria, e a Grã-Bretanha, Palestina e Iraque.c13-san-remo
  2458. p. 406Herbert Samuel, ex-ministro judeu, tornou-se alto comissário e tratou com a Agência Judaica.c13-samuel-arrival
  2459. p. 406Em maio de 1921, distúrbios em Jafa e Petah Tikvá, ligados a Haj Amin, mataram 43 judeus.c13-jaffa-1921
  2460. p. 406O Livro Branco de Churchill, em 1922, recusou fazer da Palestina um país tão judeu quanto a Inglaterra é inglesa.c13-churchill-paper
  2461. p. 407Em Londres, em 1920, Weizmann disse a Brandeis que não havia ponte entre Washington e Pinsk.c13-brandeis-split
  2462. p. 407O mandato construiu estradas, ferrovias, telégrafo e o porto de Haifa.c13-haifa-port
  2463. p. 407A Terceira Aliá, de 1919 a 1923, trouxe cerca de 35 mil judeus, sobretudo da Ucrânia e da Rússia.c13-third-aliyah
  2464. p. 408Em 1920, essa geração fundou a Histadrut, sindicato, construtora e seguradora social.c13-histadrut
  2465. p. 408Henrietta Szold fundou a Hadassah em 1912; em 1927 havia mais de 40 mil sócias americanas.c13-hadassah
  2466. p. 408Em 1930, a esquerda formou o Mapai, sob Ben-Gurion e Arlosoroff, aceitando capital privado.c13-mapai
  2467. p. 408Depois de 1929, a Agência Judaica assumiu a Haganah.c13-agency-haganah
  2468. p. 408Ben-Gurion definiu a diáspora como dependência e propôs rompê-la.c13-galut-dependence
  2469. p. 408Avraham Yitzhak Kook, nomeado rabino-chefe asquenazita em 1921, aliou ortodoxia e sionismo.c13-kook-alliance
  2470. p. 409Pelo menos metade dos 67 mil imigrantes da Quarta Aliá, de 1924 a 1929, eram lojistas e artesãos poloneses.c13-fourth-aliyah-class
  2471. p. 409A Quinta Aliá, de 1929 a 1939, trouxe mais de 250 mil judeus, em grande parte da Alemanha e da Áustria.c13-fifth-aliyah
  2472. p. 409Tel Aviv passou de 4 mil judeus em 1921 para 135 mil em 1935.c13-tel-aviv-boom
  2473. p. 409O congresso de Basileia de 1905 decidiu criar Bezalel, aberto em Jerusalém no ano seguinte.c13-bezalel
  2474. p. 410A arquitetura de Tel Aviv usou janelas em fita, pilotis, terraços e telhado plano.c13-thermometer-windows
  2475. p. 410Habimah, a primeira companhia teatral hebraica, nasceu em Moscou em 1917.c13-habimah-1917
  2476. p. 410A companhia encenou O Dibuk, de An-ski, em hebraico, sob Vakhtangov, com tradução de Bialik.c13-dybbuk-vakhtangov
  2477. p. 410A pedra fundamental da Universidade Hebraica foi lançada em 1918, e as portas abriram em 1925.c13-university-1925
  2478. p. 410O Technion de Haifa abriu em 1924.c13-technion
  2479. p. 410Segundo Nulman, o Kadish não nasceu dentro da sinagoga: muito provavelmente surgiu na era talmúdica em aramaico (falado na Babilônia) e encerrava o discurso de um mestre ou pregador; só depois entrou no serviço.cl-kaddish-aramaic-talmudic-origin
  2480. p. 410Nulman registra que o Kadish dos enlutados parece firmar-se nos anos 1200; antes a doxologia encerrava sete dias de luto por um sábio e depois acompanhou cada enterro.cl-kaddish-mourner-thirteenth-century
  2481. p. 411Judeus passaram de cerca de 85 mil, 12 por cento, em 1914, para 475 mil, cerca de 31 por cento, às vésperas da guerra.c13-percent-shift
  2482. p. 411Em 1920, um ataque a Tel Hai matou oito judeus, entre eles Yosef Trumpeldor.c13-tel-hai
  2483. p. 411A partir de 23 de agosto de 1929, cinco dias de ataques mataram 133 judeus, 60 deles em Hebron, e os britânicos mataram 116 árabes.c13-riots-1929
  2484. p. 411Em 1936, a Haganah tinha 10 mil homens armados e cerca de 40 mil reservistas.c13-haganah-1936
  2485. p. 412Até 1939, a revolta árabe deixou quase 5 mil árabes e 415 judeus mortos.c13-revolt-toll
  2486. p. 412A Comissão Peel propôs um Estado judeu no litoral e na Galileia, e um Estado árabe maior ligado à Transjordânia.c13-peel-map
  2487. p. 412A liderança sionista aceitou a partilha a contragosto; revisionistas e alguns religiosos a rejeitaram.c13-partition-split
  2488. p. 413O Livro Branco de 1939 abandonou a partilha e limitou a imigração a mais 75 mil pessoas em cinco anos.c13-white-paper-1939
  2489. p. 413Em 1914, cerca de 1 milhão de judeus sefarditas e orientais viviam dos Bálcãs ao Afeganistão.c13-sephardi-million
  2490. p. 413O ladino otomano incorporou hebraico, turco e grego e era escrito em letra Rashi.c13-rashi-script
  2491. p. 413Esther Azhari Moyal, em Beirute e depois em Jafa, defendeu direitos das mulheres árabes.c13-moyal
  2492. p. 414Judeus da Tunísia obtiveram cidadania em 1881, os de Marrocos direitos civis em 1912 e os da Líbia emancipação em 1916.c13-maghreb-citizenship
  2493. p. 414O censo marroquino de 1936 contou 161 mil judeus, três quartos bilíngues em berbere e árabe.c13-morocco-1936
  2494. p. 415No fim dos anos 1930, Mussolini estendeu leis antissemitas aos judeus líbios.c13-libya-race-laws
  2495. p. 415Em 1927, metade dos 81.500 judeus turcos vivia em Istambul.c13-istanbul-1927
  2496. p. 415Judeus iraquianos dividiam-se entre até 20 mil nas montanhas e comunidades arabizadas de Bagdá.c13-kurdish-split
  2497. p. 415Quando os britânicos ocuparam Bagdá em março de 1917, judeus chamaram o dia de milagre.c13-day-of-miracle
  2498. p. 415De 202 mil habitantes, 80 mil, ou 40 por cento, eram judeus.c13-baghdad-40
  2499. p. 416Ezra Haddad escreveu que os judeus iraquianos tinham sido árabes antes de serem judeus.c13-haddad-arabs
  2500. p. 416Em 1929, o professor da Alliance Loubaton denunciou ignorância hebraica e casamentos mistos na Tunísia.c13-loubaton
  2501. p. 416O declínio da observância acompanhou escolarização e culturas seculares novas, na Europa e no Oriente.c13-secular-pattern
  2502. p. 418Entre 1933 e 1945 os judeus sofreram a maior catástrofe de sua história.c14-catastrophe-scale
  2503. p. 418Ao fim da guerra, pelo menos seis milhões de judeus estavam mortos.c14-six-million
  2504. p. 418As civilizações asquenazita e sefardita que floresceram na Europa foram aniquiladas.c14-civilizations-destroyed
  2505. p. 418O ataque aos judeus da Europa teve raízes na Primeira Guerra Mundial.c14-war-origins
  2506. p. 418Fascistas do entreguerras exaltavam nacionalismo integral, anticomunismo, militarismo, violência e antissemitismo.c14-fascist-creed
  2507. p. 418A maioria dos eleitores de Hitler não votou por causa do antissemitismo do partido.c14-voter-motives
  2508. p. 418Muitos alemães achavam que algo precisava ser feito em relação aos judeus, sem ir além dessa exigência vaga.c14-vague-demand
  2509. p. 418A destruição dos judeus europeus não era inevitável nem previsível quando os nazistas chegaram ao poder.c14-not-inevitable
  2510. p. 418Na guerra de conquista mundial, Hitler via os judeus como o principal inimigo da Alemanha.c14-principal-enemy
  2511. p. 418O ataque estatal aos judeus alemães começou quando Hitler se tornou chanceler em 30 de janeiro de 1933.c14-chancellor-date
  2512. p. 418Em discursos e em Mein Kampf (1925), Hitler chamou judeus de parasitas, vermes, baratas, bacilos e câncer.c14-mein-kampf-slurs
  2513. p. 418Esses insultos vinham de antissemitas anteriores, sobretudo racistas ocultistas de Viena, que nunca governaram.c14-borrowed-slurs
  2514. p. 418Hitler pretendia praticar uma política biológica, usando recursos intelectuais, econômicos e militares do país.c14-biological-politics
  2515. p. 418Na hierarquia nazista, alemães eram super-homens e judeus sub-humanos disfarçados de humanos.c14-racial-hierarchy
  2516. p. 418Hitler descreveu o judeu como contra-homem, criação de outro deus e ser estranho à natureza.c14-counter-man
  2517. p. 418, p. 20Nulman descreve a Kedushá De'amidah (entre a segunda e a terceira bênção na repetição da Amidá) como instituída pelos Homens da Grande Assembleia, recitada em pé com minian, com núcleo em Is 6:3 e passagens de Ez 3:12 e Sl 146:10.cl-kedushah-great-assembly-institution
  2518. p. 419Em 1922, o jornalista antinazista Josef Hell perguntou a Hitler o que faria aos judeus com plenos poderes.c14-hell-interview
  2519. p. 419Hitler respondeu que sua primeira tarefa seria a aniquilação dos judeus, começando por forcas em Munique.c14-1922-annihilation
  2520. p. 419Ele falou em erguer tantas forcas na Marienplatz quanto o tráfego permitisse.c14-marienplatz
  2521. p. 419Hitler afirmou que o odor de judeus de caftã lhe causava náusea, e julgava a moral deles ainda pior.c14-caftan-nausea
  2522. p. 419Saul Friedländer chamou a pregação de Hitler de antissemitismo redentor.c14-redemptive-antisemitism
  2523. p. 419Hitler disse crer que, ao se defender do judeu, lutava pela obra do Senhor.c14-work-of-the-lord
  2524. p. 419A ideologia nazista também buscava vingança pela derrota de 1918 e pela humilhação de Versalhes.c14-versailles-revenge
  2525. p. 419O Holocausto não foi um aspecto separado da Segunda Guerra: estava no centro dos objetivos de guerra nazistas.c14-war-aims-center
  2526. p. 419Intencionalistas sustentam que Hitler sempre quis o assassinato em massa, meta fixada perto do fim da Primeira Guerra.c14-intentionalists
  2527. p. 419Funcionalistas argumentam que a decisão evoluiu durante a guerra, com a Alemanha controlando cada vez mais judeus.c14-functionalists
  2528. p. 419Os autores sugerem que o intencionalismo moderado é o que melhor se encaixa: o antissemitismo era central, mas remover judeus no início significava, muito provavelmente, despojo e expulsão, não assassinato.c14-moderate-intentionalism
  2529. p. 419A história do Holocausto divide-se em 1933 a 1939 e 1939 a 1945.c14-two-phases
  2530. p. 419A maior parte do que se sabe sobre ebionitas e outros grupos de judeus crentes vem de inventários heresiológicos dos Padres da Igreja, a partir de Irineu no final do século II. O caráter estereotipado dessas fontes exige cautela: elas ordenam adversários teológicos mais do que descrevem comunidades vivas com neutralidade.cjb-ebionites-heresiology
  2531. p. 420A primeira fase excluiu judeus da vida econômica, social e cultural da Alemanha e da Áustria.c14-phase-one-scope
  2532. p. 420O programa de 25 pontos do partido, de 1920, prometia expulsar judeus da vida pública alemã.c14-twenty-five-points
  2533. p. 420O ponto 4 dizia que só quem fosse de sangue alemão podia ser cidadão, e portanto nenhum judeu.c14-point-four
  2534. p. 420Dachau, o primeiro campo de concentração, abriu nos arredores de Munique em março de 1933, e judeus estavam entre os primeiros presos.c14-dachau-march
  2535. p. 420No início, judeus iam para campos muitas vezes por serem socialistas, não por serem judeus, e alguns eram soltos após declarar bom tratamento.c14-early-camp-reason
  2536. p. 420Pesquisas recentes apontam cerca de 30 mil campos de trabalho escravo, 980 campos de concentração, seis de extermínio e mil de prisioneiros de guerra.c14-camp-system-scale
  2537. p. 420A política antijudaica seguiu duas vias: violência local das SA e perseguição mais discreta de funcionários conservadores.c14-two-tracks
  2538. p. 420Depois da Noite dos Longos Punhais, o expurgo das SA em 1934, a campanha passou a ser dirigida cada vez mais de Berlim.c14-long-knives
  2539. p. 420Em 1º de abril de 1933, os nazistas lideraram um boicote a lojas e negócios de propriedade judaica.c14-boycott-day
  2540. p. 420Às dez da manhã, agressores vigiaram comércios judeus com cartazes pedindo que não se comprasse de judeus.c14-boycott-signs
  2541. p. 420Em 4 de abril de 1933, o líder sionista Robert Welsch respondeu às estrelas de Davi pintadas no dia do boicote com a manchete "O distintivo amarelo, porte-o com orgulho!"; o decreto nazista do distintivo veio anos depois.c14-welsch-pride
  2542. p. 420O decreto do distintivo amarelo veio primeiro para judeus poloneses acima de dez anos em 23 de novembro de 1939, e para judeus alemães em 1º de setembro de 1941.c14-badge-dates
  2543. p. 420Edwin Landau, judeu prussiano de 43 anos, não conseguia crer que o boicote ocorresse no século XX.c14-landau-disbelief
  2544. p. 421Landau sentiu que a Alemanha, que amara, tornara-se inimiga, e envergonhou-se de ter pertencido àquele povo.c14-landau-break
  2545. p. 421Landau pertencia à Associação do Reich dos Soldados Judeus da Linha de Frente e, incomum no grupo, também era ortodoxo.c14-frontline-association
  2546. p. 421Na sexta-feira anterior ao boicote, Landau chorou no jantar de shabat ao se despedir de sua germanidade.c14-sabbath-burial
  2547. p. 421No cemitério, ele devolveu aos antepassados a germanidade de três gerações, e as lápides permaneceram mudas.c14-silent-graves
  2548. p. 421No dia do boicote, Goebbels declarou que o ano de 1789 estava erradicado da história.c14-goebbels-1789
  2549. p. 421Berlim e os municípios emitiram centenas de leis, decretos e portarias que tornavam impossível uma vida normal.c14-web-of-laws
  2550. p. 421Leis menores, como a de 1938 que proibiu judeus de possuir armas, mostram o mesmo zelo aplicado a poucos indivíduos.c14-gun-ban
  2551. p. 421Em 4 de abril, a associação alemã de boxe excluiu todos os pugilistas judeus.c14-boxing-ban
  2552. p. 421Em 7 de abril de 1933, a lei do funcionalismo demitiu servidores que não fossem de ascendência ariana.c14-civil-service-law
  2553. p. 421Em 11 de abril, não ariano passou a significar quem tivesse um avô ou avó não ariano, em especial judeu.c14-one-grandparent
  2554. p. 422Cerca de dois milhões de servidores e milhares de profissionais vasculharam arquivos para provar pureza ariana.c14-ancestry-bureaucracy
  2555. p. 422Quando Hitler chegou ao poder, judeus eram 16% dos advogados e 11% dos médicos da Alemanha.c14-lawyer-doctor-shares
  2556. p. 422Em março de 1933, a liga de advogados nacional-socialistas exigiu que todo escritório ficasse livre de judeus.c14-judenrein-firms
  2557. p. 422Na Prússia, 60% dos advogados judeus perderam a licença em 7 de abril de 1933.c14-prussian-licenses
  2558. p. 422Em 27 de setembro de 1933, até os advogados judeus veteranos perderam o status excepcional: nenhum judeu podia mais advogar.c14-law-closed
  2559. p. 422Metade dos médicos de Berlim era judaica, e em Viena a parcela chegava a 60%.c14-berlin-vienna-doctors
  2560. p. 422A campanha contra médicos judeus teve três fases: exclusão do seguro em 1933, descadastramento no verão de 1938 e confinamento hospitalar na guerra.c14-doctor-phases
  2561. p. 422Em 1934, a renda tributável anual dos médicos arianos tinha subido 25%.c14-aryan-windfall
  2562. p. 422Mais de metade dos médicos alemães filiou-se ao partido nazista, e a associação médica foi a mais facilmente nazificada.c14-doctors-party
  2563. p. 422Após o descadastramento, judeus não podiam tratar alemães e só podiam chamar-se tratadores de doentes.c14-sick-treaters
  2564. p. 422No início de 1939 restavam apenas 285 médicos judeus na Alemanha.c14-285-left
  2565. p. 422Em 12 de abril de 1933, Victor Klemperer anotou que estava seguro como alguém na forca com a corda no pescoço.c14-klemperer-rope
  2566. p. 422Em 25 de abril, uma lei limitou matrículas judaicas a 5% nas escolas e universidades alemãs.c14-school-quota
  2567. p. 422Piscinas públicas foram prioridade: os nazistas temiam que banhistas judeus poluíssem a água e ameaçassem sexualmente os arianos.c14-pool-panic
  2568. p. 422Hilma Geffen Ludomer, de Berlim, lembrou que de repente não tinha mais amigas e vizinhos temiam falar com a família.c14-child-ostracism
  2569. p. 423Em Dresden, a professora apontou Henny Brenner, loira e de olhos azuis, como exemplo de mulher ariana, e Henny respondeu que era judia.c14-henny-exposed
  2570. p. 423Em 10 de maio de 1933, universidades alemãs queimaram livros de humanistas liberais, antinazistas e judeus.c14-book-burning
  2571. p. 424Judeus pessimistas recordaram Heine: queimar livros era apenas prelúdio de queimar pessoas.c14-heine-warning
  2572. p. 424Em 14 de julho, dia da Queda da Bastilha na França, os nazistas proibiram todos os outros partidos.c14-parties-outlawed
  2573. p. 424No mesmo dia passou a lei que permitia esterilizar pessoas com várias doenças, entre elas deficiência intelectual, esquizofrenia e alcoolismo grave.c14-sterilization-statute
  2574. p. 424Muitos dos que depois mataram judeus nos campos de extermínio treinaram nesses programas de esterilização e eutanásia.c14-euthanasia-training
  2575. p. 424A lei dos editores, de 4 de outubro de 1933, demitiu jornalistas judeus e os proibiu de dirigir jornais.c14-editor-law
  2576. p. 424Dois conglomerados judaicos, Ullstein e Mosse, bastaram para os nazistas falarem de uma imprensa judaica conspiratória.c14-ullstein-mosse
  2577. p. 424Em 1934, pelo menos 20% dos judeus alemães já tinham perdido o sustento.c14-livelihood-fifth
  2578. p. 424As Leis de Nuremberg, de setembro de 1935, revogaram a cidadania alemã de judeus e de quem fosse considerado racialmente judeu.c14-nuremberg-citizenship
  2579. p. 424As leis proibiram casamento e todo contato sexual entre judeus e alemães, sob a obsessão da profanação racial.c14-sex-ban
  2580. p. 424O Times de Londres chamou as Leis de Nuremberg de pogrom frio.c14-cold-pogrom
  2581. p. 424Nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936, cartazes antijudaicos foram retirados para não ofender visitantes, sem aliviar a discriminação.c14-olympics-signs
  2582. p. 424Decretos de 1936 a 1939 barraram judeus de contabilidade, veterinária, jardins, cinemas, teatros e joias de metal precioso.c14-daily-decrees
  2583. p. 424Em 27 de outubro de 1937, Klemperer escreveu que desprezo, nojo e desconfiança da Alemanha nunca o deixariam.c14-klemperer-scorn
  2584. p. 425Kurt Baumann propôs um círculo cultural judaico porque só Berlim tinha 175 mil judeus, o bastante para teatro, ópera e orquestra.c14-baumann-numbers
  2585. p. 425Em abril de 1933 os nazistas permitiram o Kulturbund e depois exigiram que a palavra alemão saísse do nome.c14-kulturbund-founded
  2586. p. 425O regime usou o Kulturbund para alegar bom tratamento, segregar cultura judaica e encerrar a participação judaica na cultura alemã.c14-kulturbund-reasons
  2587. p. 425Nenhum evento podia ocorrer sem aprovação de Hans Hinkel, e só a imprensa judaica podia noticiá-los.c14-hinkel-censorship
  2588. p. 425Judeus não podiam apresentar Schiller, Goethe, Wagner e Strauss; Beethoven, Brahms e Bach foram vetados em 1936, Mozart e Schubert após o Anschluss.c14-forbidden-repertoire
  2589. p. 425Em 1938 o Kulturbund tinha 76 filiais, cerca de 20 mil membros e havia realizado 8.457 eventos.c14-kulturbund-scale
  2590. p. 425A primeira produção foi Nathan, o sábio, de Lessing, defendida por Kurt Singer; sionistas advertiram que ela não deveria encerrar os judeus num velho mundo de ilusões.c14-nathan-premiere
  2591. p. 426O Kulturbund foi dissolvido em 11 de setembro de 1941, quando o assassinato em massa no leste já tornava inútil a fachada.c14-kulturbund-dissolved
  2592. p. 426Em setembro de 1933 nasceu a Representação do Reich dos Judeus Alemães, liderada pelo rabino Leo Baeck, de Berlim.c14-baeck-body
  2593. p. 426Em 1935 o nome mudou para Representação dos Judeus na Alemanha, porque judeu alemão era, na ideologia nazista, um oximoro.c14-name-forced
  2594. p. 426A entidade oferecia formação profissional, ensino, assistência e pequenos empréstimos a quem perdera emprego e escola.c14-baeck-aid
  2595. p. 426Depois que seus últimos líderes foram deportados para Theresienstadt em 1943, a representação foi fechada.c14-theresienstadt-leaders
  2596. p. 426Em 1933 viviam na Alemanha 525 mil judeus, e naquele ano só 37 mil partiram.c14-population-1933
  2597. p. 426Em junho de 1933, a União Central liberal afirmou que a grande maioria dos judeus alemães permanecia enraizada na pátria.c14-central-union-roots
  2598. p. 426Em outubro de 1933, a comunidade ortodoxa escreveu a Hitler que a situação era intolerável, mas não acreditava que o Führer aprovasse a fome.c14-orthodox-letter
  2599. p. 426Até sionistas advertiam contra êxodo em massa, temendo que a fuga encorajasse outros países a acelerar a discriminação.c14-zionist-caution
  2600. p. 427Ismar Elbogen lembrou em 1933 que os antepassados tinham enfrentado catástrofes sem entregar a vontade de viver.c14-elbogen-forefathers
  2601. p. 427A vida média de um governo de Weimar era de nove meses, e muitos esperavam que os nazistas caíssem cedo.c14-weimar-lifespan
  2602. p. 427Até setembro de 1939, cerca de 282 mil judeus tinham deixado a Alemanha e 117 mil a Áustria.c14-emigration-totals
  2603. p. 427De 1933 a 1939, cerca de 95 mil foram aos Estados Unidos, 60 mil à Palestina, 40 mil à Grã-Bretanha, 75 mil à América Central e do Sul, e quase 20 mil a Xangai.c14-destinations
  2604. p. 427, p. 427Skarsaune propõe que 'ebionitas' remete a ebionim, 'pobres', termo bíblico honorífico para os perseguidos escolhidos por Deus (como no pešer de Qumran sobre o Salmo 37, edat ha-ebionim). Um nome honorífico tende a ser autodesignação, não rótulo inventado só pelos Padres.cjb-ebionite-name-poor
  2605. p. 428Lydia Gottschewski, da Liga Feminina Nazista, pedia às irmãs que abandonassem a piedade e tratassem o judeu como parasita.c14-gottschewski
  2606. p. 428Em 1933 nenhum professor universitário protestou quando livros foram queimados e 1.200 colegas judeus demitidos.c14-professors-silent
  2607. p. 428O banqueiro de Hamburgo Alwin Muenchmeyer admitiu: não fizemos nada e não pensamos nada disso.c14-muenchmeyer
  2608. p. 428Em 4 de abril de 1933, o bispo protestante Otto Dibelius declarou que sempre se considerara antissemita.c14-dibelius
  2609. p. 428Em julho de 1933 o Vaticano assinou uma concordata com os nazistas e não protestou contra a perseguição aos judeus.c14-concordat
  2610. p. 428Já em 1928, Goebbels perguntou em Der Angriff por que os nazistas eram inimigos dos judeus e culpou-os pela derrota.c14-goebbels-enemies
  2611. p. 428Livros infantis como O cogumelo venenoso traziam imagens destinadas a assustar e educar.c14-toadstool
  2612. p. 428Em novembro de 1937, o museu alemão de Munique abriu a mostra O judeu eterno, e Alfred Rosenberg disse ao público que o filme era feito para horrorizá-los.c14-eternal-jew-show
  2613. p. 428Quando Hitler chegou ao poder, cerca de 100 mil empresas judaicas operavam na Alemanha.c14-enterprise-count
  2614. p. 429Até 1938, entre 60% e 70% dos negócios judeus tinham fechado ou virado propriedade ariana, primeiro por pressão dita voluntária e depois por transferência obrigatória.c14-aryanization-stages
  2615. p. 429Herbert Göring, irmão de Hermann, descreveu a tática de entrar nos conselhos de firmas judaicas para depois criar dificuldades ao dono.c14-herbert-goering
  2616. p. 429Götz Aly argumenta que o saque racial financiou igualdade econômica inédita e mobilidade social, tornando o regime popular e criminoso.c14-aly-equality
  2617. p. 429Em 1935 Hitler declarou que a Alemanha estaria pronta para a guerra em quatro anos e que os judeus precisavam ser removidos antes.c14-four-year-war
  2618. p. 429Em 12 de março de 1938 Hitler anexou a Áustria, e cerca de 190 mil judeus caíram sob domínio nazista.c14-anschluss
  2619. p. 430Em Viena, judeus foram forçados a esfregar o calçamento enquanto a multidão zombava.c14-vienna-scrubbing
  2620. p. 430Sigmund Freud foi vigiado, interrogado e roubado, mas a celebridade o poupou de ajoelhar-se; partiu em 4 de junho de 1938 com a mulher e a filha.c14-freud-exit
  2621. p. 430Freud acrescentou ao documento de saída um comentário sarcástico: recomendava a Gestapo a todos.c14-freud-quip
  2622. p. 430Freud passou o último ano em Londres; as três irmãs, sem visto de saída, morreram em campos de concentração.c14-freud-sisters
  2623. p. 430Em 18 meses, quinhentos burocratas informaram a Himmler que a desjudaização da economia austríaca estava praticamente completa.c14-ostmark-dejudaized
  2624. p. 430No fim de 1938, 44 mil dos 70 mil apartamentos judaicos de Viena tinham sido tomados por não judeus.c14-vienna-apartments
  2625. p. 430Em 20 de agosto de 1938, Adolf Eichmann abriu em Viena a Central de Emigração Judaica, que forçou a saída de 110 mil judeus até junho de 1939.c14-eichmann-office
  2626. p. 430A Conferência de Evian, de 6 a 13 de julho de 1938, reuniu 32 países e avisou que ninguém precisaria receber mais do que a lei já permitia.c14-evian-limits
  2627. p. 430O delegado australiano Thomas Walter White disse que a Austrália não tinha problema racial e não desejava importar um.c14-white-australia
  2628. p. 430Em 6 de dezembro de 1938, William Cooper levou ao consulado alemão em Melbourne um protesto da Liga dos Aborígenes Australianos, e o cônsul recusou a delegação.c14-cooper-protest
  2629. p. 431Frederick Charles Blair gabou-se do controle da entrada judaica no Canadá e, perguntado quantos seriam aceitos após a guerra, respondeu que nenhum já era demais.c14-blair-quota
  2630. p. 431Chaim Weizmann resumiu o clima: o mundo dividia-se entre quem queria livrar-se dos judeus e quem recusava recebê-los.c14-weizmann-camps
  2631. p. 431O imposto de fuga, cerca de 25% do patrimônio, e o câmbio ruinoso deixavam pouco para provar capacidade de sustento.c14-flight-tax
  2632. p. 431Como percentual da população, os judeus tinham o dobro de pessoas acima de 60 anos, o que dificultava a partida.c14-older-refugees
  2633. p. 431Ainda assim, até o início da guerra cerca de metade dos judeus alemães conseguiu sair.c14-half-left
  2634. p. 431O acordo Haavara, de 27 de agosto de 1933, permitiu transferir bens para a Palestina em troca de exportações alemãs.c14-haavara
  2635. p. 431Cerca de 100 milhões de Reichsmarks foram transferidos, e uns 60 mil judeus alemães emigraram à Palestina entre 1933 e 1939.c14-haavara-scale
  2636. p. 431Em 1938, Itália e Hungria juntaram-se à Alemanha na adoção de leis raciais antissemitas.c14-italy-hungary-laws
  2637. p. 431Em 17 de agosto de 1938, todos os judeus foram obrigados a acrescentar Israel, se homens, ou Sara, se mulheres.c14-israel-sara
  2638. p. 431Heinrich Rothmund, da polícia de estrangeiros suíça, recomendou carimbar passaportes judeus com a letra J, e os nazistas tornaram a medida lei.c14-passport-j
  2639. p. 431Em 1º de outubro de 1938, as potências ocidentais cederam os Sudetos a Hitler, em política de apaziguamento.c14-sudetenland
  2640. p. 431Em 28 de outubro de 1938, a Alemanha expulsou cerca de 17 mil judeus poloneses para uma terra de ninguém na fronteira.c14-polish-expulsion
  2641. p. 431Em 7 de novembro, em Paris, Hershel Grynszpan, filho de deportados, atirou no secretário Ernst vom Rath, que morreu dois dias depois.c14-grynszpan
  2642. p. 432Na noite de 9 para 10 de novembro, Hitler autorizou em segredo a proposta de Goebbels de manifestações ditas espontâneas.c14-kristallnacht-order
  2643. p. 432Cerca de 7.500 lojas foram destruídas, mais de mil sinagogas saqueadas, umas 300 queimadas, 91 judeus mortos e cerca de 26 mil levados a campos.c14-kristallnacht-toll
  2644. p. 432Goebbels anotou o brilho vermelho no céu, sinagogas em chamas e a ordem de prender de 20 a 30 mil judeus.c14-goebbels-diary
  2645. p. 432Hitler ordenou que polícia e bombeiros não interferissem, salvo quando vida ou propriedade alemã corresse risco.c14-police-stood-by
  2646. p. 432Em Wittlich, um homem da SA subiu ao telhado da sinagoga e atirou rolos da Torá como confete.c14-wittlich-torah
  2647. p. 433O advogado Max Moses Polke, de Breslau, foi espancado, viu a sinagoga em chamas e foi enviado a Buchenwald.c14-polke-buchenwald
  2648. p. 433Polke pagou um tributo de 20% do patrimônio e, em 18 de dezembro de 1938, deixou a Alemanha com um certificado para a Palestina, abandonando a mãe em Breslau.c14-polke-exit
  2649. p. 433Pouco depois, os nazistas transmitiram pelo rádio O mercador de Veneza, para apresentar Shylock como o judeu que recebera o castigo merecido.c14-shylock-broadcast
  2650. p. 433Em 12 de novembro, Göring anunciou que o seguro pago aos judeus seria confiscado numa multa de um bilhão de Reichsmarks, chamada penalidade de expiação.c14-atonement-fine
  2651. p. 433Göring declarou que, a partir de 1º de janeiro de 1939, toda atividade comercial judaica cessaria.c14-business-cease
  2652. p. 434Cerca de 115 mil judeus partiram na esteira do pogrom.c14-post-pogrom-flight
  2653. p. 434, p. 431Em 13 de maio de 1939, o St. Louis zarpou de Hamburgo para Cuba com 900 judeus; os vistos foram invalidados e Cuba, os Estados Unidos e o Canadá recusaram desembarque.c14-st-louis
  2654. p. 434Bélgica, Holanda, Grã-Bretanha e França acolheram os passageiros temporariamente; os que ficaram no continente foram depois deportados e mortos.c14-st-louis-fate
  2655. p. 434Os planos de Madagascar e de Nisko, perto de Radom, foram abandonados como impraticáveis, embora uns 70 mil judeus já tivessem sido enviados à reserva até janeiro de 1940.c14-madagascar-nisko
  2656. p. 434Em 6 de dezembro de 1938, Göring avisou que os lucros da arianização pertenciam ao Reich, porque só assim o programa de rearmamento do Führer se cumpriria.c14-rearmament-theft
  2657. p. 434Em 30 de janeiro de 1939, Hitler profetizou no Reichstag que, se financistas judeus levassem as nações a outra guerra mundial, o resultado seria a aniquilação da raça judaica na Europa.c14-reichstag-prophecy
  2658. p. 434A Segunda Guerra começou em 1º de setembro de 1939, com a invasão da Polônia.c14-war-outbreak
  2659. p. 434Em 23 de agosto de 1939, Alemanha e União Soviética assinaram o pacto Molotov-Ribbentrop, com protocolo secreto de esferas de influência.c14-molotov-pact
  2660. p. 435Após a invasão soviética em 17 de setembro, a Polônia caiu em três semanas: 1,2 milhão de judeus no leste ficaram sob controle soviético e mais de dois milhões no centro e oeste sob os nazistas.c14-poland-split
  2661. p. 435Os alemães congelaram contas, cofres e títulos judaicos; acima de dois mil zlotys, o saque semanal limitava-se a 250.c14-zloty-freeze
  2662. p. 435Só em Varsóvia, imóveis judaicos somavam cerca de 50 mil propriedades, avaliadas em dois bilhões de zlotys.c14-warsaw-real-estate
  2663. p. 435Uma ordem de 16 de dezembro de 1939 retirou dos judeus poloneses do Governo Geral pensões, seguro-desemprego e benefícios por doença.c14-pensions-cut
  2664. p. 436Em Boryslav, tomada em 1º de julho de 1941, havia 14 mil judeus; o massacre de 4 de julho matou mais de 800, segundo um dos 400 sobreviventes.c14-boryslav-pogrom
  2665. p. 436Em agosto de 1941 os nazistas impuseram 20 milhões de rublos aos judeus de Boryslav; pagar 18 rublos, valor numérico de chai, era comum.c14-chai-ransom
  2666. p. 436Szaje Chaskiel contou que em Czestochowa, em janeiro de 1940, a Gestapo enforcou dez judeus e fuzilou seu pai por recusar participar.c14-czestochowa-hanging
  2667. p. 437Em 21 de setembro de 1939, Heydrich ordenou a guetização dos judeus poloneses, processo que durou de outubro de 1939 a abril de 1941.c14-ghetto-order
  2668. p. 437Comunidades com menos de 500 pessoas foram dissolvidas, e a maioria dos guetos devia ficar junto a linhas férreas, para um fim final ainda não determinado.c14-rail-ghettos
  2669. p. 437Cada gueto teria um Conselho de Anciãos, o Judenrat, com 24 membros das elites seculares e religiosas de antes da guerra.c14-judenrat-size
  2670. p. 437Os conselhos depois tiveram de escolher quem seria enviado às câmaras de gás, estratégia para tornar judeus cúmplices da própria destruição.c14-councils-selections
  2671. p. 437Os guetos nazistas não se pareciam com o de Veneza de 1516: eram trancados por fora, em bairros pobres, descritos por um preso como prisão sem teto.c14-venice-contrast
  2672. p. 437Houve cerca de 1.150 guetos, diferentes entre si, mas todos marcados por terror, superlotação, fome, epidemias e isolamento.c14-ghetto-count
  2673. p. 437Em 10 de março de 1940, Chaim Kaplan escreveu que a catástrofe polonesa não tinha paralelo e que quase não havia suicídios.c14-kaplan-defiance
  2674. p. 437No início, o Joint, organização americana fundada em 1914, enviava alimentos aos guetos do Governo Geral por meio da Autoajuda Social Judaica.c14-joint-aid
  2675. p. 437Nulman traça o Kiddush Hayyom (santificação do dia sobre vinho) aos Homens da Grande Assembleia; o midrash liga 'Lembra o dia de Shabat' (Ex 20:8) a lembrar sobre o vinho.cl-kiddush-great-assembly
  2676. p. 438Em Varsóvia, Emanuel Ringelblum dirigiu a ZETOS, que operava cozinhas, comitês de prédio e auxílio, em oposição ao Judenrat.c14-ringelblum-zetos
  2677. p. 438Em 1940 havia 788 comitês de prédio, servindo 7.500 pessoas; em 1942 o número chegou a 1.108.c14-house-committees
  2678. p. 438Em Varsóvia, pelo menos 75% das 100 mil crianças judias com menos de 15 anos precisavam de assistência.c14-warsaw-children
  2679. p. 438O socorro do Joint terminou quando a Alemanha declarou guerra aos Estados Unidos em dezembro de 1941.c14-joint-ended
  2680. p. 438O gueto de Varsóvia chegou a cerca de 450 mil pessoas, contra 337 mil judeus na cidade antes da guerra.c14-warsaw-peak
  2681. p. 438Lodz, com cerca de 200 mil judeus, e Lvov, com cerca de 120 mil, eram o segundo e o terceiro maiores guetos.c14-lodz-lvov-size
  2682. p. 438Dos 31.271 apartamentos do gueto de Lodz, só 725 tinham água corrente.c14-lodz-water
  2683. p. 439Uma epidemia de tifo no gueto de Varsóvia no fim de 1940 fez 43.239 vítimas.c14-typhus-toll
  2684. p. 439Dawid Sierakowiak morreu em 8 de agosto de 1943, aos 18 anos, da chamada doença do gueto: tuberculose, fome e exaustão.c14-sierakowiak
  2685. p. 439Em janeiro de 1941 a ração oficial em Varsóvia era de 220 calorias diárias; em agosto, 177.c14-warsaw-calories
  2686. p. 439Em janeiro de 1941, 818 pessoas morreram de fome no gueto de Varsóvia; em agosto, 5.560.c14-hunger-deaths
  2687. p. 439O contrabando, muitas vezes feito por crianças, impediu ainda mais mortes, embora os nazistas matassem no ato quem fosse pego.c14-smuggling-children
  2688. p. 439Até 1942, estima-se que pelo menos 80 mil morreram de fome e doença só no gueto de Varsóvia.c14-eighty-thousand
  2689. p. 439Produtivistas queriam explorar os guetos para a guerra; atricionistas queriam apenas destruir os habitantes, e estes prevaleceram.c14-productionists
  2690. p. 440Marion Kaplan observa que, até 1937, muitos homens judeus tentaram manter os negócios, enquanto mulheres reconheceram mais cedo a gravidade da situação.c14-kaplan-women
  2691. p. 441O rabino Joachim Prinz, de Berlim, disse que a desgraça do judeu era viver sem vizinhos.c14-neighborless
  2692. p. 441Na Polônia, 30% das mulheres judias trabalhavam para viver, num judaísmo mais pobre e mais tradicional que o alemão.c14-polish-women-work
  2693. p. 441Mulheres serviram como contrabandistas, mensageiras entre guetos e combatentes em Varsóvia e em unidades de guerrilheiros.c14-women-couriers
  2694. p. 442Entre abril e junho de 1940 os nazistas conquistaram Dinamarca, Noruega, França, Bélgica, Luxemburgo e Holanda, com populações judaicas que iam de dois mil a 350 mil.c14-western-populations
  2695. p. 442Leis antissemitas também foram adotadas na Eslováquia, na França de Vichy, na Itália, na Romênia, na Hungria, na Bulgária e na Croácia.c14-ally-populations
  2696. p. 442Com as anexações, a população judaica soviética passou de três milhões em 1939 para cinco milhões em 1940.c14-soviet-five-million
  2697. p. 443Ao deportar judeus para o interior soviético, os soviéticos salvaram sem querer um quarto de milhão da morte certa nas mãos nazistas.c14-siberia-reprieve
  2698. p. 443Em 22 de junho de 1941 Hitler lançou a Operação Barbarossa, com mais de três milhões de soldados alemães e 650 mil aliados, numa frente de mais de 2.200 quilômetros.c14-barbarossa
  2699. p. 443Hitler chamou a guerra contra a Rússia de Stalin de guerra de aniquilação, a guerra racial que antissemitas previam desde o século XIX.c14-annihilation-war
  2700. p. 443Até 500 mil judeus serviram no Exército Vermelho, e cerca de 180 mil tombaram.c14-red-army-jews
  2701. p. 443Em agosto de 1941, Ilya Ehrenburg disse que os nazistas lhe lembraram que o nome de sua mãe era Hannah e que ele era judeu.c14-ehrenburg
  2702. p. 443A decisão de assassinar os judeus soviéticos parece ter sido tomada no planejamento da invasão e, no último trimestre de 1941, estendida a todos os judeus da Europa; nenhum documento assinado foi achado.c14-oral-order
  2703. p. 443A política de espaço vital previa matar, deportar ou escravizar eslavos, eliminar judeus e repovoar a área com pelo menos meio milhão de pessoas de ascendência alemã.c14-lebensraum
  2704. p. 443Entre 1939 e 1941, mais de 300 mil judeus poloneses fugiram para a União Soviética; com a invasão, até um milhão de judeus soviéticos fugiu para o leste, restando cerca de dois milhões.c14-flight-east
  2705. p. 443Quatro esquadrões móveis, os Einsatzgruppen A, B, C e D, seguiam as tropas, cada um com 600 a mil homens.c14-einsatz-structure
  2706. p. 444Heydrich escolheu chefes entre a elite instruída: três dos quatro primeiros comandantes tinham doutorado.c14-educated-killers
  2707. p. 444Nenhum alemão foi obrigado a participar dos fuzilamentos; quase não há casos de punição por pedir dispensa.c14-no-one-forced
  2708. p. 444Nos primeiros cinco meses, os esquadrões mataram cerca de 100 mil judeus por mês.c14-monthly-toll
  2709. p. 444Em dois períodos de dois dias, em novembro e dezembro de 1941, o Einsatzgruppe A e a SS letã fuzilaram 25 mil judeus de Riga em Rumbula.c14-rumbula
  2710. p. 444Em 29 e 30 de setembro de 1941, o Einsatzgruppe C fuzilou 33.371 judeus de Kiev no desfiladeiro de Babi Yar.c14-babi-yar
  2711. p. 444Em 22 de outubro de 1941, após uma explosão no quartel romeno em Odessa, esquadrões romenos fuzilaram 19 mil judeus no porto e mais 20 mil em Dalnic.c14-odessa-retaliation
  2712. p. 444Raul Hilberg afirmou que nenhum país, além da Alemanha, participou de massacres de judeus em tal escala quanto a Romênia.c14-hilberg-romania
  2713. p. 444Com milícias locais, os quatro Einsatzgruppen assassinaram aproximadamente 1,4 milhão de judeus até a primavera de 1943.c14-einsatz-total
  2714. p. 444Rivka Yoselevska testemunhou no julgamento de Eichmann, em 1961, que em 15 de agosto de 1942 sobreviveu a um fuzilamento em que a filha Merkele foi morta.c14-yoselevska
  2715. p. 445O engenheiro Hermann Graebe, como Oskar Schindler, usou o cargo para salvar judeus e foi o único alemão a depor pela acusação em Nuremberg.c14-graebe
  2716. p. 446A partir de 1942, unidades Sonderkommando 1005, sob Paul Blobel, exumaram e cremaram cadáveres para apagar os crimes dos Einsatzgruppen.c14-blobel-1005
  2717. p. 446A Conferência de Wannsee, adiada de 9 de dezembro de 1941, realizou-se em 20 de janeiro de 1942 num subúrbio de Berlim.c14-wannsee-date
  2718. p. 446Heydrich disse que os métodos usados até então não bastavam para os 11 milhões de judeus europeus destinados à aniquilação.c14-eleven-million
  2719. p. 446Ele anunciou que, na execução prática, a Europa seria penteada de oeste para leste.c14-west-to-east
  2720. p. 446Havia apenas seis campos de extermínio, todos na Polônia: Chelmno, Belzec, Sobibor, Treblinka, Lublin-Majdanek e Auschwitz.c14-six-camps
  2721. p. 447Até novembro de 1944, mais de um milhão de judeus e dezenas de milhares de ciganos, poloneses e prisioneiros soviéticos tinham sido mortos com gás em Auschwitz, com o inseticida Zyklon B.c14-zyklon
  2722. p. 447O primeiro gaseamento de judeus começou em Chelmno em 8 de dezembro de 1941, em caminhões cujo escapamento era desviado para o compartimento.c14-chelmno-first
  2723. p. 447A Aktion Reinhard visava matar os dois milhões de judeus poloneses do Governo Geral, explorando parte do trabalho e confiscando bens.c14-aktion-reinhard
  2724. p. 447Cerca de cem operadores vinham do programa T-4, que entre 1939 e 1941 matou uns 100 mil doentes e deficientes na Alemanha e na Áustria.c14-t4-link
  2725. p. 447Cerca de 1,7 milhão de judeus foram mortos com gás em Belzec, Sobibor e Treblinka; apenas 120 pessoas sobreviveram aos três campos.c14-reinhard-toll
  2726. p. 447Segundo os números de Globocnik, a Aktion Reinhard confiscou bens avaliados em mais de 178 milhões de Reichsmarks.c14-reinhard-loot
  2727. p. 447Nulman afirma que data e autor de Kol Nidre são difíceis de fixar, mas o texto muito provavelmente já existia sob os geonim (séc. VIII-IX); a declaração em aramaico abre Arvit de Yom Kipur e, ao longo do tempo, gerou acusações injustificadas contra judeus.cl-kol-nidre-geonic-uncertain-author
  2728. p. 448A Aktion Erntefest, em 3 e 4 de novembro de 1943, matou os últimos judeus do Governo Geral: até 10 mil em Trawniki, 18 mil em Majdanek e 15 mil em Poniatowa.c14-harvest-festival
  2729. p. 448Entre 22 de julho e 21 de setembro de 1942, cerca de 300 mil pessoas do gueto de Varsóvia foram gaseadas em Treblinka, em 52 dias.c14-warsaw-treblinka
  2730. p. 448Adam Czerniakow recusou assinar a ordem de reassentamento, com cota mínima de seis mil por dia, e suicidou-se no dia seguinte.c14-czerniakow-suicide
  2731. p. 448Em 4 de setembro de 1942, Chaim Rumkowski pediu ao gueto de Lodz que entregasse crianças e velhos, dizendo que era preciso cortar membros para salvar o corpo.c14-rumkowski-speech
  2732. p. 449Dos cerca de seis milhões de judeus mortos, uns 2,75 milhões foram assassinados nos seis campos de extermínio da Polônia.c14-map-camp-share
  2733. p. 449Cerca de 875 mil das um milhão de vítimas judaicas de Auschwitz foram mortas logo na chegada.c14-auschwitz-immediate
  2734. p. 449Em Treblinka, 80 quilômetros a nordeste de Varsóvia, entre 25 e 35 homens da SS e 90 a 150 guardas auxiliares mataram até 925 mil judeus.c14-treblinka-toll
  2735. p. 449Lodz foi o último gueto liquidado; em agosto de 1944 ainda restavam 70 mil judeus, e o Exército Vermelho parou a 75 milhas da cidade.c14-lodz-last
  2736. p. 450De 1942 a 1944, 107 mil judeus holandeses foram gaseados em Auschwitz e Sobibor, cerca de 75% da população judaica de antes da guerra.c14-dutch-deportations
  2737. p. 450Até o fim de 1942, 42.500 judeus tinham sido deportados da França; até 1944, mais de 77 mil foram mortos, e mais de 14% dos deportados tinham menos de 18 anos.c14-french-toll
  2738. p. 450Na Bélgica, mais de 25 mil judeus se esconderam com ajuda da resistência; ainda assim, quase 25 mil foram enviados a Auschwitz.c14-belgium-hiding
  2739. p. 450Em Auschwitz, Josef Mengele aguardava os comboios e dirigia as pessoas à esquerda ou à direita, morte imediata ou trégua temporária.c14-mengele-selection
  2740. p. 450Cerca de 60% das vítimas foram mortas nos seis campos, em métodos de linha de montagem que Omer Bartov chama de assassinato industrial.c14-industrial-murder
  2741. p. 451No verão de 1944, cerca de sete mil judeus húngaros eram gaseados e cremados por dia em Auschwitz.c14-hungarian-pace
  2742. p. 451No inverno de 1944 a 1945, os nazistas esvaziaram os campos; cerca de 250 mil judeus e não judeus morreram nas marchas da morte.c14-death-marches
  2743. p. 451Em 27 de janeiro de 1945 o Exército soviético entrou em Auschwitz e libertou os sete mil presos restantes.c14-auschwitz-liberated
  2744. p. 451Cerca de dez mil crianças judias do Reich foram enviadas à Inglaterra nos chamados Kindertransport.c14-kindertransport
  2745. p. 451Ringelblum organizou a operação secreta Oyneg Shabbes para reunir materiais sobre o martírio dos judeus da Polônia.c14-oyneg-shabbes
  2746. p. 451O arquivo foi enterrado em três latas de leite e dez caixas de metal; duas latas foram achadas em 1946 e as caixas em 1950.c14-milk-cans
  2747. p. 451Ringelblum registrou 600 sinagogas clandestinas, embora o culto fosse proibido na maioria dos lugares, inclusive Varsóvia.c14-secret-synagogues
  2748. p. 452A resistência armada ocorreu em até cem guetos e em campos como Sobibor, Treblinka e Birkenau, mas não era viável para a maioria.c14-armed-limits
  2749. p. 452Até 30 mil judeus formaram unidades de guerrilheiros próprias ou juntaram-se a partisans soviéticos nas florestas do leste.c14-partisan-numbers
  2750. p. 452Em 19 de abril de 1943, véspera de Pessach, combatentes do gueto de Varsóvia esperaram os alemães que vinham liquidá-lo.c14-uprising-date
  2751. p. 452Cerca de mil jovens da Organização Judaica de Combate, sob Mordechai Anielewicz, lutaram três semanas com pistolas e coquetéis molotov.c14-anielewicz-command
  2752. p. 452Em 16 de maio de 1943, o general da SS Jürgen Stroop informou que Varsóvia estava liquidada e explodiu a Grande Sinagoga.c14-stroop-report
  2753. p. 452Para os judeus, pegar em armas não fazia parte de uma estratégia de vitória militar: era vingança e respeito próprio.c14-jewish-rationale
  2754. p. 453Em 1º de janeiro de 1942, com mais de 30 mil dos 57 mil judeus de Vilna já fuzilados, Abba Kovner declarou que não havia resgate, só rebelião.c14-kovner-call
  2755. p. 453Jovens sionistas e comunistas formaram a Organização Unida dos Partisans (FPO), liderada por Itsik Wittenberg e Abba Kovner.c14-upo-formed
  2756. p. 453Na floresta de Rudnicki, os combatentes cantavam o hino iídiche Nunca digas, Zog nit keyn mol.c14-never-say
  2757. p. 453Jacob Gens, chefe do Judenrat de Vilna, foi fuzilado pela Gestapo em 14 de setembro de 1943, na liquidação final do gueto.c14-gens-shot
  2758. p. 454Em 24 de novembro de 1941 os alemães criaram um gueto modelo, na verdade um campo, em Terezin, libertado em 8 de maio de 1945.c14-terezin-founded
  2759. p. 454Em junho de 1944, antes da visita da Cruz Vermelha, o gueto foi embelezado e muitos judeus foram enviados a Auschwitz para esconder a superlotação.c14-red-cross-hoax
  2760. p. 454O diretor prisioneiro Kurt Gerron foi coagido a filmar as condições ditas excelentes; depois, ele e a maior parte do elenco foram mortos em Auschwitz.c14-gerron-film
  2761. p. 454Friedl Dicker-Brandeis deu aulas de arte às crianças e escondeu 4.500 desenhos em duas malas antes de ser deportada em setembro de 1944.c14-dicker-drawings
  2762. p. 454Cerca de 140 mil judeus foram enviados a Theresienstadt; uns 33 mil morreram lá e aproximadamente 90 mil foram deportados e mortos em outros lugares.c14-terezin-toll
  2763. p. 455Em 8 de agosto de 1942, Gerhard Riegner, do Congresso Judaico Mundial em Genebra, informou Londres e Washington de um plano para exterminar todos os judeus sob controle alemão.c14-riegner-cable
  2764. p. 455Jan Karski entrou no gueto de Varsóvia e, em 1º de dezembro de 1942, informou o governo polonês no exílio em Londres.c14-karski
  2765. p. 455Em abril de 1944, Rudolf Vrba e Alfred Wetzler fugiram de Auschwitz e ditaram um relato de 32 páginas sobre os preparativos para destruir os judeus da Hungria.c14-vrba-wetzler
  2766. p. 455Entre 15 de maio e 7 de julho de 1944, 437 mil judeus húngaros foram mortos em Auschwitz, quase todos gaseados na chegada.c14-hungarian-toll
  2767. p. 455O papa Pio XII, hostil aos judeus, recusou uma condenação inequívoca do assassinato dos judeus da Europa.c14-pius-silence
  2768. p. 455Raoul Wallenberg, diplomata sueco em Budapeste, deu passaportes suecos a 30 mil judeus e montou casas seguras.c14-wallenberg
  2769. p. 456Anne Frank, nascida em 12 de junho de 1929 em Frankfurt, escondeu-se com a família em Amsterdã de julho de 1942 até a prisão em 4 de agosto de 1944.c14-anne-hiding
  2770. p. 456Anne e a irmã Margot morreram de tifo em Bergen-Belsen em março de 1945, semanas antes da libertação britânica em 15 de abril.c14-anne-death
  2771. p. 456Anne Frank foi uma das mais de um milhão de crianças judias assassinadas pelos nazistas e seus colaboradores.c14-million-children
  2772. p. 456De 31 de julho a 28 de agosto de 1940, Chiune Sugihara e a esposa escreveram à mão mais de seis mil vistos de trânsito, contra a recusa de Tóquio.c14-sugihara-visas
  2773. p. 456Na aldeia huguenote de Le Chambon-sur-Lignon, os pastores Andre e Daniel Trocme esconderam e salvaram cinco mil judeus.c14-lechambon
  2774. p. 457Dos 140 mil judeus dos Países Baixos em 1939, 107 mil foram exterminados, mas pelo menos 25 mil sobreviventes devem a vida a compatriotas que os esconderam.c14-dutch-toll-rescue
  2775. p. 457Quando os alemães começaram a prisão na noite de 1º de outubro de 1943, acharam poucos judeus: a resistência, a polícia, as igrejas e a família real já os tinham escondido; cerca de 7.200 judeus e 700 parentes não judeus chegaram à Suécia.c14-denmark-rescue
  2776. p. 457Em junho de 1944, o Departamento de Guerra dos Estados Unidos disse que bombardear os campos não podia ser feito, embora não tivesse investigado a possibilidade.c14-mccloy-refusal
  2777. p. 457Entre 20 de agosto e 13 de setembro de 1944, os americanos bombardearam fábricas em Auschwitz-Birkenau e arredores, enquanto pedidos para atacar os trilhos eram recusados.c14-factories-bombed
  2778. p. 457Depois de receber o relatório do Tesouro em 17 de janeiro de 1944, Roosevelt criou o War Refugee Board, que salvou 200 mil judeus apesar de pouco dinheiro e pouco interesse presidencial.c14-war-refugee-board
  2779. p. 457O que deteve a matança foi a vitória aliada, em especial as conquistas do Exército Vermelho; para seis milhões de judeus, a vitória chegou tarde demais.c14-victory-too-late
  2780. p. 459A maioria dos sobreviventes respondeu ao Holocausto casando, formando família e sustentando os filhos.c15-survivors-rebuild
  2781. p. 459Por volta de 1950, a maior parte das comunidades judaicas do Oriente Médio terminou por política local, não pela ocupação nazista.c15-arab-lands-politics
  2782. p. 459No Farhud, em 1 e 2 de junho de 1941, soldados iraquianos desmobilizados, membros de tribos e moradores de Bagdá mataram 180 judeus.c15-farhud
  2783. p. 459Em novembro de 1945, um pogrom na Líbia matou 140 judeus e destruiu cinco sinagogas.c15-libya-1945
  2784. p. 459Em junho de 1948, tumultos na Líbia mataram 12 judeus e destruíram 280 casas judaicas.c15-libya-1948
  2785. p. 459Novos distúrbios, antes da independência líbia de 1951, levaram cerca de 30 mil judeus a partir.c15-libya-departure
  2786. p. 459O pogrom de Alepo em 1947 fez fugir 7 mil dos 10 mil judeus da cidade.c15-aleppo-1947
  2787. p. 459Em 1949, a Síria congelou contas bancárias judaicas, expropriou bens e demitiu quase todos os funcionários judeus.c15-syria-freeze
  2788. p. 459Cerca de 800 mil judeus de terras árabes foram deslocados e despojados depois da fundação de Israel.c15-arab-displaced
  2789. p. 459Depois da guerra, União Soviética, Israel e Estados Unidos passaram a abrigar as maiores comunidades judaicas.c15-three-centers
  2790. p. 460O fim da União Soviética, depois de 1990, produziu nova saída em massa e alterou comunidades judaicas no mundo.c15-post-1990-exodus
  2791. p. 460Dos mais de 900 jovens libertados em Buchenwald, 60 foram para a Austrália e formaram os Buchenwald Boys em Melbourne.c15-buchenwald-boys
  2792. p. 460A cada aniversário da libertação, os Buchenwald Boys celebram a sobrevivência com o Buchenwald Ball.c15-buchenwald-ball
  2793. p. 460Guerra Fria, descolonização, guerras no Oriente Médio, queda do comunismo e capitalismo global voltaram a transformar o povo judeu.c15-postwar-forces
  2794. p. 460Entre 1945 e 1952, cerca de 250 mil judeus, 80 por cento deles da Polônia, passaram por campos de deslocados na Alemanha, Áustria e Itália.c15-dp-scale
  2795. p. 460O último campo de deslocados fechou em 1957.c15-last-dp-camp
  2796. p. 460Em 1946, 185 mil deslocados estavam na Alemanha, vivendo, para seu horror, entre os assassinos.c15-among-murderers
  2797. p. 460De 1945 a 1948, a Brihah contrabandeou mais de 100 mil judeus para a Palestina, apesar do bloqueio britânico.c15-brihah
  2798. p. 460Em 1946, a natalidade judaica nos campos chegou a 14,1 por mil, contra 5 por mil entre não judeus da Baviera em 1945.c15-dp-births
  2799. p. 460Uma edição do Talmude impressa em Munique em 1946 mostrava os campos cercados de arame e judeus caminhando rumo à terra de Israel.c15-munich-talmud
  2800. p. 460Em 1946, a zona americana reunia quatro yeshivot, 18 rabinos, 16 abatedores e quatro mohelim muito ocupados.c15-dp-religion
  2801. p. 460Os campos produziram mais de 170 publicações e 169 clubes esportivos, com futebol e boxe em destaque.c15-dp-culture
  2802. p. 460O grande mufti, antissemita declarado, teve audiência com Hitler em 30 de novembro de 1941 e viveu em Berlim durante a guerra.c15-mufti-hitler
  2803. p. 461Em julho de 1947, o Exodus partiu da França com mais de 4.500 sobreviventes a bordo.c15-exodus-sailing
  2804. p. 461Os passageiros recusaram desembarcar na França, fizeram greve de fome e acabaram em campos de deslocados em Hamburgo.c15-exodus-hamburg
  2805. p. 461O episódio do Exodus, segundo o capítulo, gerou simpatia mundial pelos sobreviventes do Holocausto que buscavam chegar à Palestina.c15-exodus-sympathy
  2806. p. 461O Holocausto e a obstrução britânica, que impedia refugiados judeus de chegar à Palestina, radicalizaram certos elementos do Yishuv.c15-yishuv-radicalized
  2807. p. 461Desde o verão de 1942, uma unidade de Einsatzgruppen em Atenas estava pronta para avançar sobre a Palestina se Rommel vencesse.c15-athens-unit
  2808. p. 461Em maio de 1942, 600 sionistas no Hotel Biltmore rejeitaram o Livro Branco e a partilha e pediram um commonwealth judaico em toda a Palestina.c15-biltmore
  2809. p. 461O Irgun, com cerca de 2 mil membros e liderado por Menachem Begin, pediu revolta contra os britânicos na Palestina.c15-irgun-begin
  2810. p. 461O Lehi, sob Yitzhak Shamir, assassinou Lord Moyne em 1944 e o conde Folke Bernadotte em 1948.c15-lehi-assassinations
  2811. p. 461Na operação Sábado Negro, os britânicos prenderam 3 mil judeus, torturaram muitos e deportaram alguns para a África.c15-black-sabbath
  2812. p. 461Em julho de 1946, o Irgun explodiu o Hotel King David, sede militar e administrativa britânica, matando 91 pessoas.c15-king-david
  2813. p. 461Em fevereiro de 1947, a Grã-Bretanha entregou a jurisdição da Palestina às Nações Unidas.c15-un-referral
  2814. p. 461Em 29 de novembro de 1947, a Assembleia Geral aprovou a partilha por 33 votos a 13. A Grã-Bretanha se absteve.c15-partition-vote
  2815. p. 461União Soviética, Estados Unidos e países latino-americanos votaram a favor. Moscou via no Yishuv um possível aliado socialista.c15-vote-coalition
  2816. p. 462Nas primeiras semanas da guerra civil, morreram mais de 80 judeus e 90 árabes.c15-civil-war-toll
  2817. p. 462Em Alepo, 300 casas judaicas e 11 sinagogas foram queimadas e 2 mil judeus fugiram. Em Áden, 76 judeus foram assassinados.c15-aleppo-aden-1947
  2818. p. 462O Plano D expulsou guerrilheiros de aldeias de onde partiam ataques; em muitos casos as autoridades judaicas sancionaram a expulsão de aldeões. Segundo a evidência disponível, o livro julga que a conquista, e não um plano sistemático de esvaziamento, era o objetivo.c15-plan-d
  2819. p. 462A conquista de Lida e Ramle forçou 100 mil árabes a deixar suas casas.c15-lydda-ramle
  2820. p. 462Em 9 de abril de 1948, o Irgun matou cerca de 120 árabes em Deir Yassin, muitos deles civis desarmados.c15-deir-yassin
  2821. p. 462Às 16 horas de 14 de maio de 1948, horas depois de a bandeira britânica ser arriada, Ben-Gurion leu a declaração no Museu de Tel Aviv.c15-declaration-hour
  2822. p. 462Naquela noite os Estados Unidos reconheceram o novo Estado. Três dias depois, a União Soviética fez o mesmo.c15-recognition
  2823. p. 462Ben-Gurion tornou-se primeiro-ministro e Chaim Weizmann o primeiro presidente, depois de Albert Einstein recusar a honra.c15-weizmann-einstein
  2824. p. 462No dia seguinte, exércitos do Egito, da Transjordânia, da Síria, do Líbano e do Iraque, com voluntários da Arábia Saudita e do Iêmen, atacaram.c15-invasion-names
  2825. p. 462Israel chamou o conflito de Guerra da Independência. Mais tarde, os palestinos o chamaram de Nakba, catástrofe.c15-nakba-name
  2826. p. 462Os invasores somavam cerca de 25 mil homens. O Yishuv tinha uns 35 mil da Haganá e 3 mil do Stern e do Irgun.c15-opening-forces
  2827. p. 462Cerca de 3.500 voluntários judeus e não judeus, veteranos da Segunda Guerra, vieram do exterior e pesaram no resultado militar.c15-machal
  2828. p. 462A Tchecoslováquia violou o embargo da Resolução 50 e forneceu material crítico, inclusive caças.c15-czech-arms
  2829. p. 462Em 26 de maio de 1948, Ben-Gurion criou as Forças de Defesa de Israel, incorporando Haganá, Irgun e grupo Stern.c15-idf-founded
  2830. p. 462Voluntários estrangeiros, sobretudo americanos, eram tão numerosos na aviação que o inglês, e não o hebraico, era a língua operacional.c15-air-language
  2831. p. 463Na primavera de 1949, Israel tinha 115 mil soldados, contra cerca de 60 mil nas forças árabes.c15-spring-1949-troops
  2832. p. 463Uma trégua da ONU em junho de 1948 permitiu a Israel reagrupar e reabastecer o exército.c15-june-truce
  2833. p. 463Israel tomou a Galileia ocidental e o Neguev, ficando 20 por cento maior do que o plano de partilha previa. Estado palestino não surgiu.c15-territory-gain
  2834. p. 463A ONU dividiu Jerusalém entre Israel e a Jordânia, que ficou com o Muro Ocidental.c15-jerusalem-wall
  2835. p. 463A guerra matou 6.373 judeus, cerca de 1 por cento da população judaica, e feriu outros 15 mil.c15-war-dead
  2836. p. 463Entre 600 mil e 750 mil palestinos fugiram ou foram expulsos e tornaram-se refugiados.c15-palestinian-refugees
  2837. p. 463Cinquenta anos separavam a proclamação de Ben-Gurion do diário de Herzl em Basileia, em 1897: "Today I created the Jewish state!"c15-herzl-fifty
  2838. p. 463Os tratados posteriores com Egito e Jordânia não produziram convivência calorosa.c15-cold-peace
  2839. p. 463Os cananeus, com cerca de duas dúzias de membros, opunham o sabra ao judeu da diáspora e sonhavam com a Terra de Kedem, anterior ao judaísmo e ao islã.c15-canaanites
  2840. p. 463A glorificação do novo homem e da nova mulher hebreus atraiu círculos intelectuais, e a divisão israelense/diáspora moldou a cultura dos primeiros anos.c15-negation-diaspora
  2841. p. 464Alguns altos funcionários diziam que Israel não podia acolher todo judeu. O ministro da Fazenda, Eliezer Kaplan, dizia: precisamos de trabalhadores e combatentes.c15-kaplan-workers
  2842. p. 464Em 5 de julho de 1950, a Lei do Retorno deu a todo judeu o direito de imigrar. Nos quatro anos seguintes chegaram uns 700 mil.c15-law-of-return
  2843. p. 464Cerca de 350 mil sobreviventes tinham chegado a Israel em 1949. A integração política e cultural foi muito difícil.c15-survivors-1949
  2844. p. 464Michael Goldman sobreviveu a 80 chicotadas e chamou a incredulidade da família de o octogésimo primeiro golpe. O relato virou filme.c15-eighty-first
  2845. p. 464Ben-Gurion chamou os sobreviventes de pó humano. Um líder do Mapai exigiu que aprendessem amor à pátria, ética de trabalho e moral.c15-human-dust
  2846. p. 464A presença dos sobreviventes lembrava que o Yishuv não conseguira resgatar grandes números nem deter o Holocausto.c15-yishuv-guilt
  2847. p. 464Em setembro de 1949, Israel tinha 957 mil judeus. Um em cada três era sobrevivente.c15-one-in-three
  2848. p. 464Yosef Rosensaft, líder de deslocados em Bergen-Belsen, acusou os sionistas de dançar a hora enquanto outros queimavam nos crematórios.c15-hora-rebuke
  2849. p. 464No inverno de 1949, em Haifa, Rita Waxman reencontrou o filho Haim, de quem se separara na Polônia quando ele tinha 14 anos.c15-waxman-reunion
  2850. p. 464Entre 1948 e 1951, uns 260 mil judeus de países árabes imigraram e compuseram cerca de 56 por cento da imigração.c15-mizrahi-share
  2851. p. 464A Operação Tapete Mágico trouxe 49 mil judeus do Iêmen em 450 voos: 35 mil até dezembro de 1949 e mais 14 mil depois.c15-magic-carpet
  2852. p. 465Yitzhak Greenbaum protestou contra a vinda de iemenitas, dizendo que 70 por cento estavam doentes.c15-greenbaum
  2853. p. 465Ben-Gurion queria que o imigrante iemenita esquecesse a origem, como ele dizia ter esquecido que era polonês.c15-forget-polish
  2854. p. 465A Operação Esdras e Neemias, em 1950 e 1951, transportou por avião 100 mil judeus do Iraque.c15-ezra-nehemia
  2855. p. 465Quando o Iraque congelou os bens de quem partia, Israel vinculou o caso à indenização exigida para refugiados palestinos e neutralizou os dois pedidos.c15-iraqi-assets
  2856. p. 465Em novembro de 1950, Ben-Gurion escreveu a Yigael Yadin que os iemenitas estavam 2 mil anos atrás em conceitos básicos de civilização, ao mesmo tempo em que os chamava de mais fáceis de absorver e versados em hebraico.c15-yadin-letter
  2857. p. 465O mapa do capítulo indica cerca de 120 mil imigrantes judeus em 1948 e 240 mil em 1949.c15-map-1948-peak
  2858. p. 466Nos anos 1970, o descontentamento dos judeus do Oriente Médio gerou um movimento de protesto chamado Panteras Negras, inspirado no grupo americano.c15-black-panthers-name
  2859. p. 466Em 1949, alojar e empregar 230 mil imigrantes foi estimado em até 700 milhões de dólares. O governo imprimiu moeda e racionou alimentos.c15-austerity-cost
  2860. p. 466O poeta Uri Zvi Greenberg queria que o programa de austeridade virasse a constituição permanente de Israel.c15-greenberg-austerity
  2861. p. 466Ben-Gurion disse que, sem austeridade, seria quase impossível cumprir defesa, absorção de imigrantes e um padrão de vida aceitável.c15-three-tasks
  2862. p. 466Apesar das divisões entre seculares e religiosos, esquerda e direita, asquenazitas e outros, o capítulo conclui que uma nação foi forjada.c15-nation-forged
  2863. p. 466A eleição de 25 de janeiro de 1949 escolheu 120 membros por sufrágio universal a partir dos 18 anos. O Trabalhismo de Ben-Gurion venceu e governou até 1977.c15-first-election
  2864. p. 466A representação proporcional torna partidos pequenos indispensáveis e, segundo o livro, deixa o sistema muito instável.c15-proportional-instability
  2865. p. 467O hebraico como língua nacional e o serviço militar obrigatório formaram uma cultura compartilhada em meio a guerra quase constante.c15-hebrew-and-army
  2866. p. 467No verão de 1949, Israel assinou armistícios com Egito, Jordânia, Líbano e Síria. Em agosto, o Egito fechou o Canal de Suez à navegação israelense.c15-armistices-1949
  2867. p. 467Em 1954, o chanceler egípcio Muhammad Salah al-Din declarou que só a obliteração final de Israel satisfaria o povo árabe.c15-obliteration-boast
  2868. p. 467Em outubro de 1956, com apoio de França e Grã-Bretanha, Israel tomou o Sinai. Os Estados Unidos, antes alheios ao plano, repreenderam Londres e Paris.c15-sinai-1956
  2869. p. 467Washington forçou a devolução do Sinai. Uma força da ONU garantiu o acesso israelense pelo estreito de Tiran.c15-tiran-un
  2870. p. 468O julgamento de Adolf Eichmann em Jerusalém correu de 11 de abril a 16 de agosto de 1961.c15-eichmann-dates
  2871. p. 468Eichmann vivia na Argentina como Ricardo Klement até o Mossad sequestrá-lo em 1960.c15-eichmann-abduction
  2872. p. 468Foi condenado em todas as 15 acusações e enforcado na noite de 31 de maio para 1 de junho de 1962. As cinzas foram lançadas ao mar.c15-eichmann-verdict
  2873. p. 468Depoimentos de sobreviventes, muitos ouvidos pela primeira vez, tornaram a empatia com as vítimas mais central na cultura israelense.c15-eichmann-empathy
  2874. p. 468Em maio de 1967, Nasser fechou o estreito de Tiran e ordenou a saída da força da ONU no Sinai.c15-tiran-1967
  2875. p. 468O medo de centenas de milhares de mortos levou rabinos a consagrar parques públicos para valas comuns.c15-mass-grave-fear
  2876. p. 468Em 5 de junho, a aviação israelense bombardeou campos de aviação do Egito, da Jordânia, da Síria e do Iraque.c15-june-5-strike
  2877. p. 468Israel entrou em Gaza e no Sinai, tomou o Golã, ocupou a Cisjordânia e capturou Jerusalém Oriental, ampliando o território em cerca de 28 mil milhas quadradas (uns 72 mil km²).c15-six-day-gains
  2878. p. 468A guerra matou 776 soldados israelenses e causou cerca de 5.200 baixas. Soldados no Muro Ocidental eletrizaram o mundo judeu.c15-six-day-losses
  2879. p. 468Moshe Dayan entrou na Cidade Velha e proclamou que Israel voltara ao que era sagrado na terra e não se separaria dele de novo.c15-dayan-return
  2880. p. 468Amos Oz advertiu em 1967 que mesmo uma ocupação inevitável é uma ocupação corruptora.c15-oz-warning
  2881. p. 468Yeshayahu Leibowitz pediu que Israel não retivesse os territórios e disse que a vitória do sexto dia virou derrota no dia seguinte.c15-leibowitz-seventh
  2882. p. 468Em Cartum, no fim de agosto de 1967, oito países árabes proclamaram: sem paz, sem negociação e sem reconhecimento de Israel.c15-khartoum
  2883. p. 468A Guerra de Atrito, de 1968 a 1970, foi inconclusiva. Pilotos soviéticos voaram missões em aviões egípcios. A trégua veio em 1970.c15-attrition
  2884. p. 469Em 1972, o Setembro Negro sequestrou atletas israelenses nos Jogos de Munique. Onze foram mortos depois de uma operação de resgate fracassada.c15-munich-athletes
  2885. p. 469Em 6 de outubro de 1973, às 14 horas, Egito e Síria atacaram no Yom Kippur. Com muitos israelenses em jejum e nas sinagogas, o país foi pego de surpresa.c15-yom-kippur-surprise
  2886. p. 469Israel prevaleceu, mas perdeu 2.688 mortos, 7.200 feridos e 294 prisioneiros. O mito da invencibilidade militar quebrou.c15-yom-kippur-losses
  2887. p. 469Golda Meir e Moshe Dayan foram forçados a renunciar pelo fracasso de Yom Kippur.c15-meir-resigns
  2888. p. 469A OPEP triplicou o preço do petróleo e pressionou países do Terceiro Mundo a romper relações com Israel.c15-opec-oil
  2889. p. 469Em 1974, Yasser Arafat falou na Assembleia Geral com um ramo de oliveira e uma arma no coldre.c15-arafat-un
  2890. p. 469Em novembro de 1975, a Assembleia Geral condenou o sionismo como forma de racismo, por 75 votos a 35, com 32 abstenções.c15-zionism-racism
  2891. p. 469Em 1977, Menachem Begin e o Likud venceram com apoio de judeus de terras árabes e de eleitores afastados pelo secularismo trabalhista. Foi a primeira derrota do Trabalhismo desde 1948.c15-begin-1977
  2892. p. 469Sadat visitou Israel em novembro de 1977. O tratado foi negociado em Camp David em 1978, com Jimmy Carter, e assinado em 1979.c15-camp-david-1979
  2893. p. 469A Jihad Islâmica Egípcia assassinou Sadat em 6 de outubro de 1981. Hosni Mubarak manteve o tratado, sem mudar o sentimento popular.c15-sadat-killed
  2894. p. 469Sob Begin, Israel anexou formalmente as Colinas de Golã, mesmo depois do tratado com o Egito.c15-golan-annex
  2895. p. 469Em outubro de 1980, Jacob Talmon escreveu a Begin que dominar uma população estrangeira hostil era como tentar reviver o feudalismo.c15-talmon-letter
  2896. p. 470Em 1982, a Operação Paz para a Galileia levou tropas israelenses ao Líbano para expulsar a OLP. Cerca de 600 israelenses morreram.c15-lebanon-1982
  2897. p. 470Ariel Sharon ultrapassou o limite de 25 milhas, chegou aos arredores de Beirute e cortou comida, eletricidade e água.c15-sharon-beirut
  2898. p. 470Abba Eban escreveu que aquelas seis semanas tinham sido uma página sombria na história moral do povo judeu.c15-eban-dark-page
  2899. p. 470De 16 a 18 de setembro de 1982, milícias libanesas massacraram até 2.300 civis nos campos de Sabra e Shatila.c15-sabra-shatila
  2900. p. 470A comissão Kahan concluiu que o exército israelense não participou dos assassinatos, mas poderia e deveria tê-los impedido, e que Sharon tinha responsabilidade pessoal.c15-kahan
  2901. p. 470Sob Shamir, a inflação chegou a 400 por cento ao ano, com pânico na bolsa de Tel Aviv e corrida aos bancos.c15-inflation-400
  2902. p. 470Shimon Peres encerrou a ocupação do sul do Líbano em 1985, deixando cerca de 200 soldados na zona de segurança.c15-peres-1985
  2903. p. 470O Hezbollah, com apoio do Irã, tornou-se inimigo implacável de Israel no sul do Líbano.c15-hezbollah
  2904. p. 470Em 1987, palestinos nos territórios ocupados lançaram a intifada: fechamento de lojas, greve de impostos, barricadas e pedras. Rabin respondeu com força brutal, com pouco resultado.c15-first-intifada
  2905. p. 470Na Guerra do Golfo de 1990 a 1991, o Iraque lançou mísseis Scud sobre Tel Aviv. A pressão americana impediu retaliação israelense.c15-scud-gulf
  2906. p. 470Yitzhak Shamir, linha-dura que votara contra o tratado com o Egito, manteve o Líbano e a política de assentamentos do antecessor.c15-shamir-hardline
  2907. p. 471Em 25 de janeiro de 1991, o jornal Davar publicou a manchete de que aquilo também acontecera com os israelenses.c15-davar-headline
  2908. p. 471Para Dina Porat, muitos em Israel leram a Guerra do Golfo como analogia do Holocausto: Saddam como Hitler e Israel impedido de reagir.c15-porat-analogy
  2909. p. 471Em 7 de abril de 1992, no Yom ha-Shoah, Ehud Barak levou 18 representantes das Forças de Defesa a Auschwitz e disse que os israelenses não tinham direito de julgar os judeus da Europa.c15-barak-auschwitz
  2910. p. 471Segundo Epifânio e Jerônimo, os nazorenos eram judeus crentes em Jesus que viviam em Beréia, na Celessíria, ao lado de uma comunidade cristã e de uma comunidade judaica forte. Epifânio também os liga a Pela e a Kokabe/Chochabe, mas Kinzig (no volume de Skarsaune) trata essas localizações como tentativas pouco históricas de amarrá-los ao êxodo de Pela e aos ebionitas.cjb-nazoraeans-beroea
  2911. p. 472O Acordo de Oslo foi assinado no gramado da Casa Branca em 13 de setembro de 1993. Clinton viu Arafat e Rabin apertarem as mãos.c15-oslo-signing
  2912. p. 472Rabin disse aos palestinos, em voz alta e clara, que bastava de sangue e lágrimas.c15-enough-blood
  2913. p. 472Em 4 de novembro de 1995, o extremista de direita Yigal Amir assassinou Yitzhak Rabin em Tel Aviv.c15-rabin-killed
  2914. p. 472Em julho de 2000, Clinton reuniu Ehud Barak e Arafat em Camp David. Os dois lados se acusaram mutuamente pelo fracasso.c15-camp-david-2000
  2915. p. 472Em 28 de setembro de 2000, Ariel Sharon visitou o Monte do Templo com mais de mil policiais. A segunda intifada estourou em seguida, sem ser causada diretamente pela visita.c15-sharon-mount
  2916. p. 473Em 27 de março de 2002, no massacre de Pessach no Park Hotel de Netanya, 30 pessoas morreram e 140 ficaram feridas.c15-passover-massacre
  2917. p. 473A Operação Escudo Defensivo, a maior ação militar na Cisjordânia desde 1967, destruiu quase toda a administração pública palestina e sitiou o complexo de Arafat em Ramallah.c15-defensive-shield
  2918. p. 473O capítulo registra cerca de 3 mil palestinos, 1 mil israelenses e 64 estrangeiros mortos no período que descreve após a Operação Escudo Defensivo.c15-intifada-toll
  2919. p. 473Em março de 2002, uma iniciativa árabe patrocinada pela Arábia Saudita propôs retirada às linhas de junho de 1967 em troca de reconhecimento.c15-saudi-plan
  2920. p. 473O Quarteto, Estados Unidos, União Europeia, Nações Unidas e Rússia, propôs o Roteiro para a Paz, com acordo final previsto para 2005. O plano estagnou.c15-roadmap
  2921. p. 473Em junho de 2002, o governo de Sharon começou um muro na Cisjordânia. Israelenses o chamam de cerca de segurança. Palestinos e apoiadores o chamam de muro do apartheid.c15-barrier-names
  2922. p. 473Em dezembro de 2003, Yossi Beilin e Yasser Abed Rabbo anunciaram o Acordo de Genebra, em que palestinos abririam mão do direito de retorno em troca de quase toda a Cisjordânia.c15-geneva-accord
  2923. p. 474Em Annapolis, em 2007, George W. Bush reuniu Ehud Olmert e Mahmoud Abbas. O Hamas, no controle de Gaza, disse que não se vincularia ao que fosse decidido.c15-annapolis
  2924. p. 474Sob John Kerry, as negociações ainda miravam um acordo de status final e a solução de dois Estados. O livro trata esse cenário como um sonho distante.c15-two-state-dream
  2925. p. 474O Hamas e apoiadores, de grupos militantes a organizações internacionais não violentas como o BDS, repetem o slogan "from the river to the sea Palestine will be free", fórmula que extinguiria Israel como Estado judeu.c15-river-to-sea
  2926. p. 474Vozes estridentes da direita israelense, segundo o capítulo, tratam toda a Palestina histórica como território de Israel, e algumas defendem a expulsão dos palestinos.c15-right-one-state
  2927. p. 474O capítulo chama ambas as soluções de um só Estado, a palestina e a da direita israelense, de receita para injustiça sem fim.c15-one-state-recipe
  2928. p. 474O livro chama a condição não resolvida dos palestinos de o maior desafio moral e político diante do Estado de Israel.c15-moral-challenge
  2929. p. 475Em 2015, Yishai Schlissel, ultraortodoxo, atacou a parada do orgulho em Jerusalém. Shira Banki morreu dos ferimentos. Ele já cumprira pena por ataque semelhante em 2005.c15-schlissel
  2930. p. 475Nos primeiros 50 anos, a população de Israel passou de 600 mil para 6 milhões. A agricultura caiu de 16 por cento dos empregos em meados dos anos 1950 para 3 por cento em 1995.c15-population-six-million
  2931. p. 475Moshe Smilansky temia que a mentalidade de loja de Tel Aviv levasse a comerciantismo, assimilação e apostasia. O livro diz que ele errou: Tel Aviv tornou-se a maior e mais viva cidade judaica do mundo.c15-smilansky
  2932. p. 475Cerca de 20 por cento da população de Israel é de origem árabe. Cerca de 25 por cento dos judeus israelenses se consideram religiosos.c15-arab-citizens
  2933. p. 475O projeto de Idan Raichel e o grupo etíope Kafeh Shahor Hazak cantam em hebraico e amárico, retomando raízes que muitos imigrantes tinham abandonado.c15-raichel
  2934. p. 476Em meados do século XX havia cerca de 900 mil mizrahim em terras árabes, no Irã e na Turquia.c15-mizrahi-900k
  2935. p. 476Yehouda Shenhav, sociólogo israelense de origem iraquiana, considera infundada a analogia entre refugiados palestinos e judeus mizrahim.c15-shenhav
  2936. p. 476Na fundação, Israel era cerca de 80 por cento asquenazita. Hoje a população judaica está aproximadamente dividida ao meio.c15-ashkenazi-majority
  2937. p. 476Barbara Okun sustenta que casamentos mistos em Israel não apagam necessariamente diferenças étnicas de status socioeconômico.c15-okun
  2938. p. 476Ben-Gurion disse que judeus do Marrocos não tinham educação e que seus costumes eram os dos árabes.c15-morocco-customs
  2939. p. 476Em 1949, Arye Gelblum escreveu no Haaretz que judeus norte-africanos quase não tinham educação e associou a imigração deles ao Herut de Begin.c15-gelblum
  2940. p. 477Muitos recém-chegados de terras árabes foram enviados a cidades de tendas, as ma'abarot, e depois a regiões pouco desenvolvidas.c15-maabarot
  2941. p. 477Yosef Amoyal, sapateiro norte-africano em Jafa, escreveu a Ben-Gurion que parecia um enteado do povo israelense.c15-amoyal
  2942. p. 477Os protestos de Wadi Salib começaram depois que a polícia baleou o imigrante marroquino Ya'akov Elkarif em 9 de julho de 1959.c15-wadi-salib
  2943. p. 477Na Noite das Panteras, em 18 de maio de 1971, entre 5 mil e 7 mil manifestantes se reuniram na Praça Sião, em Jerusalém.c15-night-panthers
  2944. p. 478Dados de 2011 indicam que 28,8 por cento dos mizrahim de segunda geração tinham diploma superior, contra 49,6 por cento dos asquenazitas, números que o livro observa serem em parte contestados e difíceis de calcular.c15-degree-gap
  2945. p. 479O peso demográfico mizrahi alimentou um processo chamado orientalização ou mizrahização, com elite intelectual de segunda e terceira geração.c15-mizrahisation
  2946. p. 479Depois da Segunda Guerra, os Estados Unidos tornaram-se o lar da maior e mais influente comunidade judaica do mundo.c15-us-largest
  2947. p. 480O juiz Nathan Perlman pediu a Meyer Lansky que dispersasse um comício do Bund germano-americano, com a condição de que ninguém morresse.c15-lansky-bund
  2948. p. 480Em 1934, Jerry Siegel e Joe Shuster, em Cleveland, criaram o Superman, fantasia de assimilação em que o tímido Clark Kent esconde um homem de aço.c15-superman
  2949. p. 481Prosperidade, realinhamento racial das cidades e escassez de moradia levaram judeus americanos aos subúrbios, onde a sinagoga virou centro comunitário.c15-suburban-move
  2950. p. 481Herbert Gans descreveu as sinagogas suburbanas como judaísmo simbólico, não como volta à observância tradicional.c15-symbolic-judaism
  2951. p. 482Philip Roth, Saul Bellow e Bernard Malamud examinaram com dureza a passagem da experiência imigrante para a cultura suburbana.c15-roth-suburb
  2952. p. 482Lenny Bruce, nascido Leonard Alfred Schneider, recusou censurar o próprio número depois de condenação por obscenidade e zombou da assimilação judaica.c15-lenny-bruce
  2953. p. 483O rabino Mortimer Cohen encomendou a Frank Lloyd Wright a sinagoga Beth Sholom, em Elkins Park. O único templo projetado por Wright abriu em 1959 e senta 1.020 pessoas.c15-beth-sholom
  2954. p. 483Em 1957, cerca de 50 mil judeus da Filadélfia, um quinto da comunidade, tinham ido para os subúrbios do norte.c15-philadelphia-suburbs
  2955. p. 485A minissérie Holocaust, de 1978, e A Lista de Schindler, de Spielberg, em 1993, ampliaram o interesse americano. O museu do Mall em Washington abriu em 1993.c15-ushmm
  2956. p. 486A taxa de casamento misto nos Estados Unidos subiu de cerca de 9 por cento em 1964 para 50 por cento em 2004.c15-intermarriage-rate
  2957. p. 486Em 1983, o judaísmo reformista aceitou como judeu quem tivesse educação judaica e ao menos um dos pais judeu, mãe ou pai.c15-reform-1983
  2958. p. 487O crescimento ultraortodoxo americano foi liderado por Joel Teitelbaum, de Satmar, Menachem Mendel Schneerson, de Lubavitch, e Shlomo Halberstam, de Bobov.c15-hasidic-rebbes
  2959. p. 487Por volta de 2000, entre 7 e 9 por cento dos judeus americanos eram ortodoxos, e provavelmente cerca de metade deles, uns 350 mil, eram hassídicos.c15-hasidic-numbers
  2960. p. 488Em 1968, Meir Kahane fundou a Liga de Defesa Judaica, com o lema Nunca mais, para proteger judeus pobres que permaneceram nos centros urbanos.c15-kahane-jdl
  2961. p. 489M. Jay Rosenberg, radical de esquerda, escreveu que em 5 de junho de 1967 sua preocupação com Israel era a de um judeu, não a de um esquerdista.c15-rosenberg-1967
  2962. p. 489Nulman registra Lekhah Dodi como hino de Kabalat Shabat composto pelo cabalista Salomão Alkabetz de Safed em 1529 (outros dizem 1571), com acróstico SHeLoMoH HaLeVI; Isaac Luria e Isaiah Horowitz recomendaram-no, e foi aceito por todas as comunidades.cl-lekha-dodi-alkabetz
  2963. p. 490Cerca de 70 por cento dos judeus americanos dizem apoiar Israel e sentir vínculo emocional com o país, mas a era de apoio sem perguntas terminou.c15-pew-attachment
  2964. p. 491David Azoulay, do Shas, disse no rádio que não podia chamar de judeu um reformista que deixasse de seguir a lei judaica.c15-azoulay-reform
  2965. p. 493Por cerca de duzentos e cinquenta anos o Brasil manteve, no âmago da sociedade, um grupo marcado pela legislação como cristão-novo.c9-brazil-new-christian-status
  2966. p. 493Novinsky observou que, ainda em 1971, quase nada se conhecia sobre o número e o papel dos cristãos-novos no Brasil colonial.c9-brazil-historiography-gap
  2967. p. 49342 por cento dos judeus em Israel dizem que continuar os assentamentos ajuda a segurança do país. Só 17 por cento dos judeus americanos concordam.c15-settlement-poll
  2968. p. 493As diretrizes do Taglit-Birthright pedem respeito à integridade dos participantes e proíbem tentativa de missionar.c15-birthright-guidelines
  2969. p. 494A população judaica soviética pré-guerra era de cerca de 3 milhões. Em 1945 restavam cerca de 1,5 milhão.c15-soviet-1945
  2970. p. 494Em 1943, Shlomo Mikhoels e o poeta iídiche Itsik Fefer viajaram aos Estados Unidos, ao Canadá e ao México para apoiar o esforço de guerra soviético.c15-jafc-tour
  2971. p. 495Em novembro de 1952, o julgamento de Rudolf Slánsky em Praga apresentou o sionismo como canal de traição. Em 3 de dezembro, 11 dos 13 executados eram judeus.c15-slansky
  2972. p. 495Em 13 de janeiro de 1953, o Pravda acusou médicos judeus de conspiração terrorista a serviço do Joint.c15-doctors-plot
  2973. p. 496Um mês após a morte de Stalin, em 5 de março de 1953, o Pravda declarou que o complô dos médicos era uma fraude.c15-stalin-thaw
  2974. p. 497A tentativa de desviar um avião de Leningrado para Israel em 1970, e o julgamento em que os réus expressaram sionismo, provavelmente ajudou a afrouxar a emigração em 1971 e 1972.c15-leningrad-hijack
  2975. p. 497Depois da Lei Jackson-Vanik, de 1974, Moscou endureceu e quase não deixou judeus sair entre 1980 e 1986.c15-jackson-vanik
  2976. p. 498Em 1968, uma campanha antissemita na Polônia levou cerca de 20 mil judeus a emigrar, sobretudo para Israel, até 1970.c15-poland-1968
  2977. p. 498Todo verão, o Festival Judaico de Cracóvia ocupa o antigo bairro judaico e é o maior do gênero na Europa.c15-cracow-festival
  2978. p. 499Entre o fim de 1949 e o fim de 1989, perto de 300 mil judeus romenos foram vendidos a Israel por moeda forte, sobretudo sob Nicolae Ceausescu.c15-romania-sale
  2979. p. 499O rabino-chefe Moses Rosen convenceu o regime de que tratar bem os judeus traria opinião pública, comércio e simpatias políticas.c15-moses-rosen
  2980. p. 500O livro descreve a Europa centro-oriental contemporânea como cenário de um judaísmo virtual, cercado de kitsch.c15-virtual-judaism
  2981. p. 500Em 1995, Jacques Chirac admitiu oficialmente a culpa francesa pelo tratamento dos judeus sob Vichy.c15-chirac-1995
  2982. p. 500Com mais de 500 mil judeus, mais da metade em Paris, a França abriga a terceira maior comunidade judaica do mundo.c15-france-size
  2983. p. 500Em 1962, quase toda a comunidade judaica da Argélia migrou para a França. Muitos dos 220 mil norte-africanos chegaram já como cidadãos franceses.c15-algeria-1962
  2984. p. 501Jacques Derrida, nascido em 1930 numa família judaica da Argélia, introduziu a desconstrução. Emmanuel Levinas, nascido na Lituânia, colocou o outro no centro da ética.c15-derrida
  2985. p. 502Em julho de 1948, o Congresso Judaico Mundial advertiu que judeus não deveriam voltar a se estabelecer em solo alemão ensopado de sangue.c15-wjc-germany
  2986. p. 503Juan Perón, simpático aos nazistas, chegou ao poder em 1946, pôs fim à imigração judaica e acolheu nazistas foragidos, mas abriu relações com Israel em 1949.c15-peron
  2987. p. 504Em 2005, 372 mil judeus viviam no Canadá, a quarta maior comunidade do mundo, sobretudo em Montreal, Toronto e Winnipeg.c15-canada-2005
  2988. p. 504Helen Suzman passou 36 anos no Parlamento contra o apartheid. Joe Slovo, imigrante da Lituânia, chefiou o Partido Comunista sul-africano e integrou o Congresso Nacional Africano.c15-suzman-slovo
  2989. p. 505O Mount Scopus Memorial College, fundado em Melbourne em 1949, tinha mais de 3 mil alunos nos anos 1980, em vários campi.c15-mount-scopus
  2990. p. 505Em 1996, a taxa de casamento misto na Austrália era de 15 por cento, apesar do caráter majoritariamente secular da comunidade. Cerca de 70 por cento das crianças judias estudavam em escolas judaicas.c15-australia-marriage
  2991. p. 506Em 21 de janeiro de 2006, Ilan Halimi, jovem francês de origem marroquina, foi sequestrado, torturado por três semanas e morto pela Gangue dos Bárbaros.c15-halimi
  2992. p. 506Em 19 de março de 2012, Mohammed Merah matou quatro pessoas, entre elas três crianças, na escola judaica Ozar Hatorah, em Toulouse.c15-toulouse
  2993. p. 507O Community Security Trust registrou 1.309 incidentes antissemitas no Reino Unido em 2016, alta de 36 por cento em relação a 2015.c15-cst-2016
  2994. p. 507Em abril de 2016, Ken Livingstone foi expulso do Partido Trabalhista depois de dizer que Hitler apoiava o sionismo antes de enlouquecer.c15-livingstone
  2995. p. 508Em outubro de 2015, um comício em Malmö ouviu pedidos de morte aos judeus, e políticos locais presentes não objetaram.c15-malmo-chants
  2996. p. 508Em 15 de fevereiro de 2015, um atirador matou Dan Uzan, que fazia segurança diante da sinagoga principal de Copenhague durante um bat mitzvah.c15-uzan
  2997. p. 508Na Noruega, centenas de jovens muçulmanos formaram um anel de paz em torno da principal sinagoga de Oslo.c15-ring-of-peace
  2998. p. 509Viktor Orbán descreveu o império transnacional de George Soros, com artilharia internacional e somas enormes, ao atacar a Universidade Centro-Europeia.c15-orban-soros
  2999. p. 509Nulman define Mah Tovu como oração de cinco versículos bíblicos (Nm 24:5; Sl 5:8, 26:8, 95:6, 69:14) dita ao entrar na sinagoga antes do serviço matinal; é difícil fixar quando esses versículos entraram na liturgia diária.cl-mah-tovu-five-verses
  3000. p. 510Antissemitas passaram a marcar nomes de jornalistas judeus com parênteses triplos, eco de um podcast. Jornalistas reapropriaram o sinal.c15-echo-mark
  3001. p. 512Pesquisa de Barry Kosmin e Ariela Keysar com 1.157 estudantes judeus em 55 campi achou que 54 por cento tinham vivido ou testemunhado antissemitismo entre setembro de 2013 e março de 2014.c15-kosmin-survey
  3002. p. 513O livro distingue crítica às políticas de Israel de antissemitismo e afirma que nem toda crítica é expressão de ódio.c15-criticism-distinction
  3003. p. 514Em 24 de junho de 2017, três pessoas com bandeiras do orgulho judaico foram afastadas da Chicago Dyke March porque, segundo os organizadores, a estrela de Davi fazia as pessoas se sentirem inseguras numa marcha antissionista.c15-dyke-march
  3004. p. 515Jonathan Sacks advertiu que o ódio político que começa mirando judeus não se detém neles.c15-sacks-warning
  3005. p. 516O livro estima cerca de 14 milhões de judeus no mundo, concentrados sobretudo em Israel e nos Estados Unidos.c15-fourteen-million
  3006. p. 516O pós-escrito nota que o Taglit-Birthright, com viagens gratuitas para jovens adultos, é citado como reforço do vínculo americano com Israel, enquanto outros apontam distanciamento.c15-taglit-postscript
  3007. p. 516Nulman identifica Maoz Tzur como hino de Hanucá do século XIII por um poeta desconhecido chamado Mordecai (acróstico nas cinco estrofes); não faz parte da tradição sefaradi clássica, embora entre em alguns sidurim.cl-maoz-tzur-13c-mordecai
  3008. p. 519A cronologia do livro avisa que datar com exatidão os eventos da narrativa bíblica é notoriamente difícil e que nem todos os estudiosos concordam com a historicidade de vários deles, como o Êxodo e a conquista de Canaã; mesmo as datas de outras culturas antigas, como a egípcia, podem ser calculadas de formas diferentes.c1-tl-dating-caution
  3009. p. 519, p. 519A cronologia registra a vida de Sargão I, 'o Grande', fundador de um dos primeiros impérios centralizados da Mesopotâmia (2334 a 2279 a.C.), e a promulgação do código de leis do rei babilônico Hamurabi nos séculos XIX ou XVIII a.C.c1-tl-sargon-hammurabi
  3010. p. 519, p. 519, p. 519, p. 519No quadro da cronologia, sobre o Egito e Canaã: a expulsão dos hicsos pelos egípcios nativos (século XVI a.C.); a aparição no Egito dos 'Shasu', seminômades vindos de Canaã (1500 a 1100 a.C.); a vitória de Tutmés III em Megido, que inicia o controle egípcio sobre Canaã (1482 ou 1457 a.C.); o auge da cidade-Estado síria de Ugarit (séculos XIV e XIII a.C.); e o reinado de Amenhotep IV, que se rebatiza Aquenáton (1377 a 1361 ou 1350 a 1334 a.C.).c1-tl-egypt-canaan-events
  3011. p. 519, p. 519, p. 519Também na cronologia: Merneptá reina no Egito (1213 a 1203 a.C.); o povo de Israel aparece vivendo em Canaã em 1207 a.C.; a morte do rei egípcio Ramsés III e o fim do controle egípcio sobre Canaã (1156 ou 1155 a.C.); o suposto período dos Juízes (1200 a 1000 a.C.).c1-tl-merneptah-ramesses-iii
  3012. p. 519, p. 519A cronologia diz que, por volta de 1000 a.C., Davi governa como rei dos israelitas, e que Salomão morre por volta de 930 a.C.c1-tl-david-solomon
  3013. p. 519, p. 519, p. 519Na cronologia, no século IX a.C. os reinos de Israel e de Judá já existem; entre os séculos IX e VIII a.C., o Império Assírio se expande da Mesopotâmia para a Síria e Canaã; em 853 a.C., Acabe participa de uma batalha contra os assírios; em 722 a 720 a.C., a Assíria conquista e destrói o Reino do Norte; em 701 a.C., conquista a maior parte de Judá.c1-tl-kingdoms-assyria
  3014. p. 519, p. 519A cronologia registra que os babilônios capturam Jerusalém em 598 ou 597 a.C. e que o rei babilônico Nabucodonosor II destrói o Primeiro Templo em 587 ou 586 a.C.c1-tl-babylonian-conquests
  3015. p. 519Antíoco IV governou o reino selêucida de 175 a 164 a.C.c3-antiochus-iv-reign
  3016. p. 520Segundo a cronologia do livro, em 414 multidões cristãs expulsaram os judeus de Alexandria.c5-alexandria-414
  3017. p. 521, p. 521A cronologia do livro registra que os omíadas tomaram a Espanha em 711 e que, em 732, Carlos Martel deteve os exércitos muçulmanos ao sul dos Pirineus na Batalha de Tours.c6-tl-spain-711
  3018. p. 521Em 756, Abd al-Rahman I, herdeiro omíada que fugira dos abássidas, estabeleceu um principado na Espanha e governou até 788.c6-tl-abd-rahman-756
  3019. p. 521, p. 521A cronologia registra que Sherira presidiu a academia de Pumbedita como Gaon de 968 a 998 e que Hai, seu sucessor na lista, a presidiu de 998 a 1038.c6-tl-gaonim-dates
  3020. p. 521Segundo a cronologia, Benjamin de Tudela viajou da Espanha ao Oriente Médio entre 1165 e 1173.c6-tl-benjamin-journey
  3021. p. 521, p. 521Saladino tirou os fatímidas do Egito em 1171, e os mamelucos começaram a governar o Egito em 1250, domínio que durou até 1517, quando foram derrotados pelos otomanos.c6-tl-saladin-mamluks
  3022. p. 528, p. 530, p. 531Epifânio conta de primeira mão o encontro, em Citópolis (Bet Shean), cerca de 355 d.C., com José de Tiberíades, judeu proeminente convertido ao cristianismo, então com pelo menos setenta anos e com o título de 'conde'. Na cidade dominada pelo bispo ariano Patrófilo, José era o único cristão niceno público; havia ainda um jovem judeu crente que o visitava em segredo. Skarsaune destaca que Epifânio não se surpreende com judeus crentes de cristologia 'ortodoxa' integrados a igrejas mistas.cjb-joseph-tiberias
  3023. p. 547Nulman registra que Modeh Ani aparece pela primeira vez no século XVI no comentário místico Seder Hayom (Moisés ibn Makhir de Safed, Veneza 1599); o Talmude de Jerusalém já cita as palavras iniciais Modeh Ani com finais distintos para os três serviços diários.cl-modeh-ani-seder-hayom
  3024. p. 548Nulman identifica Modim (Hoda'ah) como a bênção de ação de graças da Amidá que, como Retzay, formava parte do ritual sacerdotal no Templo; a forma curta Modim Derabbanan compõe textos de vários rabinos.cl-modim-priestly-temple
  3025. p. 552Nulman explica Netilat Yadayim ('levantar as mãos') como a bênção ao lavar as mãos ao despertar e antes do pão; netilah vem do aramaico 'elevar', simbolizando passagem do físico ao moral.cl-netilat-yadayim-washing
  3026. p. 554, p. 554Nulman registra autoria obscura para Nishmat Kol Hai: alguns atribuem a Simeão ben Shetah (séc. I AEC) por acróstico; outros aos Homens da Grande Assembleia; outros a um autor Isaac (acróstico com Rivka). Também aparece no Talmude como ação de graças após chuva e como Birkat Hashir no Seder.cl-nishmat-competing-authors
  3027. p. 559, p. 559, p. 559Em fevereiro de 418, na ilha de Minorca, o bispo Severo descreve em carta a conversão de 540 judeus, toda a população judaica da ilha, em oito dias (2 a 9 de fevereiro). Havia judeus sobretudo em Magona (leste); em Jamona (oeste) não. A carta, cuja autenticidade Skarsaune aceita com Bradbury, mostra relações antes amistosas, depois ocupação e queima da sinagoga e batismos sob pressão. Não é uma 'igreja nazarena': é um episódio local de coerção cristã sobre uma diáspora judaica.cjb-minorca-418
  3028. p. 560O líder da comunidade judaica de Magona, Teodoro, era respeitado pelos serviços públicos à cidade. Quando os cristãos avançaram, a comunidade aguardava seu retorno de Maiorca, onde tratava de negócios. A carta de Severo o apresenta como figura central nas negociações antes dos batismos coletivos.cjb-theodorus-magona
  3029. p. 634Nulman define o Shemá como declaração de fé recitada de manhã em Shaharit e de novo à noite em Arvit, com as três seções bíblicas clássicas.cl-shema-twice-daily-nulman
  3030. p. 634Nulman apresenta a leitura do Shemá duas vezes ao dia como preceito da Torá, lendo 'quando te deitares e quando te levantares' (Dt 6) como noite e manhã; a ordem das três seções é justificada no Talmude (jugo do Reino antes do jugo dos mandamentos).cl-shema-torah-precept-twice-daily
  3031. p. 684Nulman define Tefillat Haderekh como oração de viagem nos ritos ashkenazi e sefaradi, dita ao percorrer pelo menos uma milha persa; a recitação do Yehi ratzon na jornada é atribuída à advertência do profeta Elias a Rab Judah.cl-tefillat-haderekh-travel
  3032. p. 711, p. 712Nulman relata a tradição do Or Zaru'a (séc. XIII) sobre Unetaneh Tokef: Rabi Amnon de Mainz (séc. XI) teria composto a oração após martírio sob um bispo e a ensinado em sonho a R. Kalonymus ben Meshullam; serve de Silluk no rito ashkenazi em Rosh Hashaná e Yom Kipur.cl-unetaneh-tokef-amnon-tradition
  3033. p. 714Nulman descreve Uva Letziyon Go'ayl ('Um redentor virá a Sião') no fecho do Shaharit diário e na Minhá de Shabat/festas; o núcleo é a Kedushá escritural (Is 6:3, Ez 3:12, Ex 15:18) com paráfrase aramaica.cl-uva-letzion-kedushah-core
  3034. p. 772Nulman descreve Ya'aleh Veyavo como oração acrescentada em Rosh Hodesh e festas em cada Amidá e em Birkat Hamazon; o Talmude exige lembrar o mês novo na décima sétima bênção, e Soferim cita o texto na graças após a refeição.cl-yaaleh-veyavo-rosh-hodesh
  3035. p. 779Nulman atribui Yedid Nefesh ao cabalista Eleazar ben Moses Askari de Safed, provavelmente escrito em 1584 e publicado em Sefer Haredim; foi aceito por todo o judaísmo como hino de união e desejo de amor.cl-yedid-nefesh-askari-1584
  3036. p. 798Nulman registra que as duas orações aramaicas Yekum Purkan foram compostas na Babilônia após a conclusão do Talmude, na língua vernácula judaica; embora Sidur Saadia tenha material babilônico, esses dois textos não aparecem ali da mesma forma.cl-yekum-purkan-babylonian
  3037. p. 801Nulman identifica Yigdal como hino medieval composto pelo Dayan Daniel ben Yehudah de Roma (séc. XIV), baseado nos Treze Princípios de Maimônides; cabalistas, hasidim e vários grupos sefaradis omitem-no por reduzir o credo a treze princípios.cl-yigdal-daniel-rome
  3038. p. 804Nulman descreve Yishtabah como a bênção conclusiva de Pesukei Dezimra (Birkat Hashir), instituída como fecho assim como Barukh She'amar foi fixada como abertura; não começa com Barukh porque fica próxima de Barukh She'amar.cl-yishtabach-pesukei-close

§ 04Revisão

Pendências editoriais

Itens visíveis no site, mas marcados como em revisão. Nada foi corrigido silenciosamente.