Um mar de dois milhões e meio de palavras
Data
500d.C.
entre 500 e 700 d.C.data aproximada
Finalizado por sábios anônimos entre 500 e 700, o Talmude babilônico registra debates sem fim e se tornou 'o' Talmude da cultura judaica posterior.
Narrativa com fontes
Cada bloco é uma afirmação verificável. O número abre a página citada; blocos em âmbar ou coral sinalizam tradição ou interpretação contestada.
13 afirmações
01Compor um mar
O Talmude babilônico, resposta babilônica à Mishná, parte da tradição palestina mas a adapta e acrescenta a voz dos Amoraim babilônios, citados ao lado dos palestinos. Seus sucessores anônimos, os Saboraim ('explicadores') ou, em termo moderno, Stamaim ('anônimos'), finalizaram o Talmude entre 500 e 700 d.C. O resultado, com argumentação cuidadosamente estruturada, dialética e narrativas, tem cerca de 2,5 milhões de palavras.
O Talmude babilônico mistura tradições palestinas e babilônicas como se todos os sábios participassem de uma só conversa, mas, comparando as literaturas, os estudiosos conseguem distinguir as duas variantes da cultura rabínica.
Tradição ou narrativa
Rav Ashi, chefe da academia de Sura no início do século V, cultivou boas relações com o governo persa. Seguindo os Gueonim posteriores, credita-se a ele, com Ravina, boa parte do trabalho que levou ao Talmude babilônico, concluído por gerações seguintes.
02Como o Talmude argumenta
O Talmude, ou Guemará, é um comentário à Mishná que busca suas razões, levanta dúvidas e resolve contradições. Sua unidade básica não é o capítulo, mas a sugya, uma análise lançada por uma questão da Mishná que avança num vaivém de afirmações e objeções (shakla ve-tarya, em aramaico), cheio de digressões.
Tradição ou narrativa
Veja-se Qiddushin 39b. Rabi Jacó afirma que, sempre que a Torá anuncia a recompensa ao lado de um mandamento, como no caso de honrar pai e mãe ou de deixar ir a mãe-pássaro ao tirar filhotes do ninho, a recompensa está no mundo vindouro. O Talmude conta então que um filho, a pedido do pai, subiu para pegar filhotes, espantou a mãe-pássaro, desceu e morreu na queda: se nem cumprindo os dois mandamentos ele viveu muito, a 'vida longa' prometida só pode estar no outro mundo. Alguns rabinos diziam que um episódio parecido fez o avô de Jacó, Elisha ben Abuya, abandonar a fé; por isso os rabinos nem pronunciam seu nome e o chamam de Aher, 'o Outro'.
O Talmude então desafia e defende a posição de Jacó em sucessivas objeções e respostas, exemplo clássico de sua dialética. Por trás do que parece argumentação pela argumentação estão questões graves: por que coisas ruins acontecem a quem cumpre os mandamentos? Por que Deus faz promessas que parece não cumprir?
03Academias e debate
Quando o Talmude babilônico recebeu sua forma final, nos séculos VI e VII, os sábios da Babilônia já tinham uma cultura intelectual própria. Estudavam em grandes academias, mais organizadas, hierárquicas, fechadas, elitistas e duradouras do que os círculos e casas de estudo palestinos. Com o ensino centralizado, os alunos iam mais longe e passavam mais tempo fora de casa. A lenda babilônica da mulher de Akiva, que o esperou 24 anos, é exagerada, mas tem um fundo de verdade: provavelmente reflete não a vida do casal, e sim a experiência de sábios babilônios separados das esposas por longos períodos.
Tradição ou narrativa
O estudo babilônico seguia um ethos de argumentação temperado pela etiqueta: debatia-se pelo prazer do debate e pelo respeito conquistado com a agudeza, sem necessariamente chegar a uma conclusão. Depois da morte de Resh Lakish, Rabi Yohanan recebeu um novo parceiro que sempre lhe dava razão; em vez de se consolar, lamentava o antigo, que lhe opunha 24 objeções a cada afirmação (Bava Metsia 84a).
Tradição ou narrativa
Numa disputa legal, Rabi Eliezer invoca milagres: uma alfarrobeira se desloca, a água de um canal corre para trás e uma voz celeste lhe dá razão. Os sábios respondem que a Torá, dada no Sinai, manda seguir a maioria. E Deus, rindo, admite: 'Meus filhos me venceram' (Bava Metsia 59b). Nessa teologia babilônica, Deus é um colega de estudo, que pode ser contestado com respeito e bons argumentos e até perder o debate.
04Herança
Foi a forma de cultura rabínica refletida no Talmude babilônico a que mais influenciou a cultura judaica posterior: quando se diz 'o Talmude' hoje, fala-se do babilônico, e sua maneira de entender a Mishná e a interpretação das Escrituras tornou-se a referência. Para descrever o impacto rabínico, os autores se baseiam no Talmude babilônico tal como mediado pelos Gueonim. Seria anacrônico aplicá-lo aos rabinos da Palestina ou da Babilônia antes do século VI, mas foi essa a visão que mais influenciou a cultura judaica posterior.
Contexto
Os rabinos da Palestina estavam em desvantagem sob um império cristianizado que pressionava pela conversão e impunha discriminação, confisco de sinagogas e surtos de violência. Os judeus da Babilônia viviam num ambiente mais receptivo, com uma estrutura comunitária mais estável sob o exilarca, e foi lá que a cultura rabínica tomou a forma que, no fim da Antiguidade, orientaria a vida judaica. A literatura rabínica é vasta (o Talmude é chamado de 'mar'), técnica e opaca, mas é uma fonte histórica traiçoeira: suas histórias aparecem em textos posteriores, misturam lenda e memória e muitas vezes dizem mais sobre os editores anônimos do que sobre as pessoas descritas.
§ 01Geografia
Onde aconteceu
§ 04Rede
Conexões
§ 05Bibliografia
Para continuar
Jeffrey Rubenstein, The Culture of the Babylonian Talmud (Baltimore, MD: Johns Hopkins University Press, 2005).
O Talmude babilônico em seu meio cultural · recomendado em Efron, Lehmann e Weitzman, p. 153
Shai Secunda, The Iranian Talmud: Reading the Bavli in Its Sasanian Context (Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 2013).
O contexto iraniano do Talmude babilônico · recomendado em Efron, Lehmann e Weitzman, p. 153
Charlotte Fonrobert and Martin Jaffee, The Cambridge Companion to the Talmud and Rabbinic Literature (Cambridge: Cambridge University Press, 2007).
Novas perspectivas sobre o Talmude e a literatura rabínica · recomendado em Efron, Lehmann e Weitzman, p. 153
§ 06Aparato
Fontes desta página
- 01Efron, Lehmann e Weitzman, p. 141; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 141inspecionar
- 02Efron, Lehmann e Weitzman, p. 144inspecionar
- 03Efron, Lehmann e Weitzman, p. 141inspecionar
- 04Efron, Lehmann e Weitzman, p. 147; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 147inspecionar
- 05Efron, Lehmann e Weitzman, p. 142; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 142inspecionar
- 06Efron, Lehmann e Weitzman, p. 142; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 143inspecionar
- 07Efron, Lehmann e Weitzman, p. 143; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 144inspecionar
- 08Efron, Lehmann e Weitzman, p. 144; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 144inspecionar
- 09Efron, Lehmann e Weitzman, p. 144; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 144inspecionar
- 10Efron, Lehmann e Weitzman, p. 146; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 146; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 146inspecionar
- 11Efron, Lehmann e Weitzman, p. 146inspecionar
- 12Efron, Lehmann e Weitzman, p. 140inspecionar
- 13Efron, Lehmann e Weitzman, p. 131inspecionar
- Evidência documentadaAtestado por evidência da própria época: textos, inscrições, moedas, papiros ou arqueologia.
- Reconstrução acadêmicaInferência dos historiadores a partir de evidência indireta.
- Tradição ou narrativaRelato literário, tradicional ou religioso; importante em si, mas não verificado de forma independente.
- Interpretação contestadaEstudiosos discordam explicitamente; veja as posições em debate.
- Reconstrução ilustrativaHipótese ou esquema visual para orientar a leitura; não é afirmação histórica.