Templo, pureza e imagens
Data
63a.C.
fim do período do Segundo Templodata aproximada
Pobres, escravos e mulheres quase não deixaram registros; o que se vê é uma cultura unida pelo Templo e pelas peregrinações e distinguida por sábado, pureza ritual e recusa às imagens de culto.
Narrativa com fontes
Cada bloco é uma afirmação verificável. O número abre a página citada; blocos em âmbar ou coral sinalizam tradição ou interpretação contestada.
14 afirmações
01Quem ficou de fora das fontes
Não havia uma única maneira de ser judeu antes de 70 d.C.: tudo dependia de ser fariseu ou essênio, sacerdote ou leigo, homem ou mulher, morador de Jerusalém ou de uma aldeia galileia. Quase toda essa variedade se perdeu. As fontes escritas são obra de intelectuais ou então inscrições, papiros e moedas que registram sobretudo negócios, atos públicos e questões jurídicas.
Os evangelhos mostram uma Palestina do século I cheia de pobres, famintos e doentes, às vezes reduzidos à mendicância, à prostituição ou ao roubo. Jesus e, depois, os rabinos se preocuparam com eles e estimularam a caridade, embora desconfiassem de quem a praticasse para se exibir. Os próprios pobres, porém, não deixaram nenhum texto; quem tinha dinheiro o ostentava em casas e túmulos decorados, e eles não tinham como deixar monumentos.
Quanto à escravidão, os judeus pensavam como os demais habitantes do Império e a tinham por normal, com exceções como os essênios, que não possuíam escravos. Muitos judeus livres viviam de trabalho pesado, por necessidade: lavouras de grandes propriedades, pedreiras que abasteciam Jerusalém, extração de sal no Mar Morto, pesca no Mar da Galileia, como alguns discípulos de Jesus. Nem escravos nem trabalhadores deixaram relatos próprios.
A maior lacuna é a voz das mulheres, que aparecem pouco nas fontes e quase nunca falam por si. Em certos lugares talvez se esperasse que ficassem fora da vida pública: Fílon, referindo-se a Alexandria, diz que a casa é o lugar da mulher. Nada garante que fosse assim em toda parte, e nos evangelhos muitas mulheres abordam Jesus sem embaraço; esperava-se delas, porém, que cobrissem a cabeça com um manto.
02O Templo no centro
O que separava os judeus de gregos e romanos era motivo de orgulho para Fílon e Josefo, que afirmam que os judeus morreriam antes de abandonar os costumes dos antepassados; o direito de segui-los esteve sempre em jogo diante de Roma. As disputas entre seitas continuaram, mas a fidelidade comum às leis de Moisés e à tradição dos pais unia muitos judeus e dava à sua cultura um perfil próprio.
O Templo era o coração dessa tradição. Nas três festas de peregrinação, Pessach, Shavuot e Sucot, os judeus deviam ir a Jerusalém; não se sabe se iam todo ano, mas sob Roma as multidões chegavam a dezenas de milhares, e o complexo do Templo teve de crescer para recebê-las. Já havia sinagogas, mas o culto a Deus parecia impensável sem o Templo; mesmo a comunidade do Mar Morto, crítica de sua administração, se inspirava nele e esperava vê-lo restaurado no fim dos tempos.
Fílon descreve multidões de inúmeras cidades, vindas por terra e por mar de todos os pontos cardeais, que nas festas faziam amizades e se sentiam unidas. Era o ideal; na prática, havia superlotação, desordem e até motins. Quem não podia viajar contribuía com o meio siclo anual, que pagava o sacrifício diário. Para os autores, não é exagero dizer que a lealdade ao Templo era o que mantinha unidos judeus espalhados e separados por geografia, política e economia.
Sem reis davídicos, os sacerdotes, sobretudo as famílias do topo, viraram a elite da Judeia, religiosa e também política. Daí o empenho de Herodes e dos romanos em controlar o sumo sacerdócio: interferiam nas nomeações e chegaram a guardar consigo as vestes do sumo sacerdote. O sacerdócio como um todo, porém, manteve prestígio: Josefo exibe sua origem sacerdotal como prova de nobreza, e os títulos de sacerdote e sacerdotisa (este dado a esposas e filhas) continuaram a conferir status séculos depois de 70.
03Pureza
Fora do Templo, muitos judeus compartilhavam hábitos próprios, como o sábado e a sinagoga, defendidos tanto na Palestina quanto na diáspora. Por motivos ainda obscuros, a pureza ritual ganhou peso, ao menos em Jerusalém e na Palestina. A impureza era pensada como um contágio, vindo de fluidos do corpo, de cadáveres ou de não judeus contaminados pela idolatria; não era doença, mas precisava ser eliminada para chegar perto do sagrado. Para isso usavam-se vasilhas de pedra, material tido como imune à impureza, e o banho ritual no micvê.
Cada grupo tinha seu jeito de lidar com a impureza. Os fariseus insistiam na lavagem das mãos antes de comer. Os essênios rejeitavam o óleo, que outros judeus usavam no banho, e faziam suas necessidades longe dos olhos alheios, enterrando os dejetos, ao passo que outros judeus, sem ver nisso impureza, não tinham essa preocupação.
Num palácio hasmoneu de Jericó está o micvê mais antigo com data conhecida, em uso entre 150 e 100 a.C., segundo se acredita. Os hasmoneus eram sacerdotes, e outros micvês antigos aparecem em ambientes sacerdotais; por isso se supõe que foram os sacerdotes que adotaram o banho ritual, para entrar no Templo em estado de pureza. Após 70, a imersão continuou importante por outras razões, como a purificação feminina depois da menstruação e a conversão, uso que leva a pensar que o batismo cristão venha daí.
04Sem imagens de culto
Os judeus também se distinguiam por recusar estátuas e imagens de culto. Pensou-se que rejeitassem toda e qualquer imagem: o mandamento contra ídolos foi às vezes entendido como proibição de representar Deus ou pessoas. Mas essa leitura não é obrigatória, e nas sinagogas dos séculos III e IV há figuras humanas. No fim do Segundo Templo, contudo, a arte judaica que sobrou, de pinturas a moedas, prefere padrões geométricos, plantas, aves, peixes e símbolos como a menorá, e não mostra nem pessoas nem Deus. Em Jerusalém não havia imagens de deuses, mas em Alexandria ou em Roma os judeus conviviam com estátuas cultuadas pelos vizinhos. Toleravam sua presença; o que não aceitavam era venerá-las. Era aí que se separavam de gregos, egípcios e outros povos, para quem incluir o culto à estátua do imperador em suas práticas não representava problema.
Contexto
Uma rara exceção surgiu em 1961, na mesma caverna das cartas de Bar Kochba: o arquivo de Babatha, jovem viúva judia do século II d.C., descoberto por Yigael Yadin. Os documentos, datados de 93 a 132 d.C., tratam de seus casamentos, da briga pelo sustento do filho e de seus negócios. Guardados numa fenda de uma caverna isolada, lembram como é escasso o que sobrou sobre mulheres judias na Antiguidade.
§ 01Geografia
Onde aconteceu
§ 02Museu
Objetos e imagens
§ 04Rede
Conexões
§ 05Bibliografia
Para continuar
Shmuel Safrai and Menachem Stern, The Jewish People in the First Century, 2 vols. (Assen: Van Gorcum & Co., 1974, 1976).
O povo judeu no século I · recomendado em Efron, Lehmann e Weitzman, p. 119
John Collins and Daniel Harlow, The Eerdman's Dictionary of Early Judaism (Grand Rapids, MI: William B. Eerdmans Publishing, 2010).
Dicionário do judaísmo antigo até o século II d.C., com bibliografia temática · recomendado em Efron, Lehmann e Weitzman, p. 119
§ 06Aparato
Fontes desta página
- 01Efron, Lehmann e Weitzman, p. 104inspecionar
- 02Efron, Lehmann e Weitzman, p. 105inspecionar
- 03Efron, Lehmann e Weitzman, p. 107; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 108inspecionar
- 04Efron, Lehmann e Weitzman, p. 105inspecionar
- 05Efron, Lehmann e Weitzman, p. 105; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 105inspecionar
- 06Efron, Lehmann e Weitzman, p. 105inspecionar
- 07Efron, Lehmann e Weitzman, p. 105inspecionar
- 08Efron, Lehmann e Weitzman, p. 106inspecionar
- 09Efron, Lehmann e Weitzman, p. 106inspecionar
- 10Efron, Lehmann e Weitzman, p. 106inspecionar
- 11Efron, Lehmann e Weitzman, p. 106inspecionar
- 12Efron, Lehmann e Weitzman, p. 106; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 107inspecionar
- 13Efron, Lehmann e Weitzman, p. 107inspecionar
- 14Efron, Lehmann e Weitzman, p. 105; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 102inspecionar
- Evidência documentadaAtestado por evidência da própria época: textos, inscrições, moedas, papiros ou arqueologia.
- Reconstrução acadêmicaInferência dos historiadores a partir de evidência indireta.
- Tradição ou narrativaRelato literário, tradicional ou religioso; importante em si, mas não verificado de forma independente.
- Interpretação contestadaEstudiosos discordam explicitamente; veja as posições em debate.
- Reconstrução ilustrativaHipótese ou esquema visual para orientar a leitura; não é afirmação histórica.

