A fonte indispensável, e tendenciosa
Data
80d.C.
c. 80 d.C.data aproximada
Em Roma, sob a proteção dos imperadores flavianos, Josefo escreveu a única narrativa extensa do período: uma fonte em parte corroborada pela arqueologia, mas também peça de propaganda e de defesa pessoal.
Narrativa com fontes
Cada bloco é uma afirmação verificável. O número abre a página citada; blocos em âmbar ou coral sinalizam tradição ou interpretação contestada.
10 afirmações
01De general a historiador
Para o início do domínio romano, nenhuma fonte pesa tanto quanto Flávio Josefo. Nascido em 37 d.C., de linhagem sacerdotal e hasmoneia, ele comandou tropas judaicas na revolta de 66 d.C. e, mais tarde, passou para o lado romano. Durante o cerco de Jerusalém, Josefo trabalhou para os romanos como intérprete e intermediário. Depois de 70 d.C. instalou-se em Roma e escreveu a história da revolta, as Antiguidades judaicas (das origens bíblicas até pouco antes da guerra), Contra Apião e uma autobiografia. Os textos mais tardios parecem dos anos 90, daí a suposição de que tenha morrido por volta de 100 d.C.
02Um historiador antigo
Josefo não está sozinho: há Fílon de Alexandria, os Manuscritos do Mar Morto, os pseudepígrafos, menções em autores gregos e latinos e o Novo Testamento, além de ruínas como as do Templo, de Cesareia e de Massada, inscrições e moedas. Ainda assim, só ele narra em detalhe os cerca de 150 primeiros anos de domínio romano, e sem ele seria difícil articular esse material.
Em parte, Josefo foi confirmado por outras evidências. O que ele conta dos essênios bate em vários pontos com a seita dos Manuscritos do Mar Morto; as escavações no ângulo sudoeste do Monte do Templo sustentam parte de sua descrição arquitetônica; e os achados de Massada confirmaram muito de seu relato do cerco.
Os critérios de Josefo eram os da historiografia greco-romana, não os atuais. Ele reproduzia fontes mais antigas sem checá-las, aceitava explicações hoje vistas como simplistas e inventava falas e detalhes para dar vida ao texto ou reforçar um argumento.
03Propaganda e sobrevivência
A credibilidade de Josefo sofre também com seus interesses. Ele precisava rebater a acusação de traidor e agradar a Vespasiano, Tito e Domiciano, uma dinastia que se legitimava pela vitória sobre os judeus; daí o nome Flávio, tirado da família imperial, e a alegação, talvez exagerada, de que Tito aprovou seu relato. O resultado exalta Roma e põe a culpa pela perda do Templo nos rebeldes, não nos imperadores.
Para os autores, o viés pró-romano de Josefo também ensina algo: mostra um dos caminhos que os judeus seguiram diante da conquista, o da submissão voluntária de quem não podia vencer e não queria morrer. Em sua história da guerra, Josefo enumera povos que já tinham se curvado, como os atenienses, e conclui que um poder tão invencível só podia contar com o favor divino.
Hoje esses elogios soam servis, mas seguem uma tática de sobrevivência antiga, já visível no Dêutero-Isaías, que trata o persa Ciro como instrumento de Deus. E havia motivos práticos: Roma oferecia estradas e obras, paz relativa, um direito desenvolvido e garantias à religião e aos direitos dos judeus, enquanto desafiá-la era arriscadíssimo.
Talvez, no íntimo, judeus como Fílon e Josefo detestassem o domínio romano; ainda assim concluíram que a submissão aparente era o caminho mais seguro, e podem ter acreditado sinceramente que o poder romano vinha de Deus, que o usava para seus fins como antes usara os persas.
Contexto
Josefo não foi exceção: na Palestina (como os romanos chamavam a faixa entre o Mediterrâneo e o Jordão) e em Alexandria, muitos judeus não só aceitaram Roma como serviram a ela. Na família de Fílon, o sobrinho Tibério Júlio Alexandre chegou a governador-geral e foi o número dois de Tito no cerco de 70 d.C. O próprio Fílon via em imperadores como Augusto um reflexo das virtudes divinas.
§ 01Geografia
Onde aconteceu
§ 02Museu
Objetos e imagens
§ 04Rede
Conexões
§ 05Bibliografia
Para continuar
Emil Schürer, The History of the Jewish People in the Age of Jesus Christ, as updated by Geza Vermes and Fergus Millar (Edinburgh: T & T Clark, 1973).
História e cultura judaicas no período romano (obra de referência) · recomendado em Efron, Lehmann e Weitzman, p. 119
§ 06Aparato
Fontes desta página
- 01Efron, Lehmann e Weitzman, p. 91; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 520inspecionar
- 02Efron, Lehmann e Weitzman, p. 91inspecionar
- 03Efron, Lehmann e Weitzman, p. 91; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 92inspecionar
- 04Efron, Lehmann e Weitzman, p. 91inspecionar
- 05Efron, Lehmann e Weitzman, p. 91; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 520inspecionar
- 06Efron, Lehmann e Weitzman, p. 91inspecionar
- 07Efron, Lehmann e Weitzman, p. 92; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 92inspecionar
- 08Efron, Lehmann e Weitzman, p. 92inspecionar
- 09Efron, Lehmann e Weitzman, p. 93inspecionar
- 10Efron, Lehmann e Weitzman, p. 92inspecionar
- Evidência documentadaAtestado por evidência da própria época: textos, inscrições, moedas, papiros ou arqueologia.
- Reconstrução acadêmicaInferência dos historiadores a partir de evidência indireta.
- Tradição ou narrativaRelato literário, tradicional ou religioso; importante em si, mas não verificado de forma independente.
- Interpretação contestadaEstudiosos discordam explicitamente; veja as posições em debate.
- Reconstrução ilustrativaHipótese ou esquema visual para orientar a leitura; não é afirmação histórica.
