Talvez a rebelião provincial mais bem documentada do Império
Data
66d.C.
66 a 70 d.C.
Em 66 d.C., os rebeldes suspenderam os sacrifícios pelo imperador, expulsaram os romanos, formaram um governo e cunharam moedas, confiantes em Deus e na fraqueza momentânea de Roma.
Narrativa com fontes
Cada bloco é uma afirmação verificável. O número abre a página citada; blocos em âmbar ou coral sinalizam tradição ou interpretação contestada.
17 afirmações
01O estopim e as raízes
Ainda assim, em 66 d.C. muitos judeus, longe de serem todos, acharam que a revolta era necessária e possível. O gesto que a anunciou foi público: os sacrifícios oferecidos no Templo pelo imperador e pelo povo romano foram interrompidos. Assim começou o que hoje se chama Primeira Revolta Judaica, que logo passou da Judeia ao resto da Palestina e é talvez a rebelião provincial mais bem documentada do Império.
A faísca foi um confronto entre judeus e gregos em Cesareia, agravado pela resposta desproporcional do procurador Floro. O combustível, porém, eram ressentimentos religiosos, econômicos e sociais acumulados desde que Pompeu invadira a Judeia, em 63 a.C.
O ressentimento crescia porque muitos judeus sonhavam com outra realidade. Herdeiros do apocalipticismo surgido no período helenístico, esperavam que Deus derrotasse os romanos. Vários apocalipses são da época romana, como o Rolo da Guerra, com sua batalha final entre os filhos da luz, talvez a própria seita, e os filhos das trevas, entre os quais talvez estivessem os romanos.
Interpretação contestada
Para muitos estudiosos, esses textos eram resistência passiva: um sonho que mandava esperar por Deus. Os autores lembram outra leitura possível, a de incentivo à ação. A certeza de que o fim estava chegando, com Deus e seus anjos entrando na luta, pode ter impulsionado levantes, talvez até a grande revolta, e o Rolo da Guerra pode ter funcionado como um manual de treino.
02Por que acreditar na vitória
Na diáspora quase ninguém se envolveu, mas na Palestina a adesão foi ampla: no sul e no norte (Judeia, Galileia, Golã), entre pobres e ricos, sacerdotes e leigos. Livres de Roma por um tempo, os rebeldes montaram um governo, um exército de defesa e até cunharam moeda, até que Roma enviou forças suficientes para esmagá-los.
O retrato de rebeldes insensatos vem de Josefo, que escreveu depois do desastre e com simpatia por Roma. Na época, havia motivos para otimismo: Céstio Galo, governador da Síria mandado por Nero, foi batido de surpresa; com a morte de Nero em 68, três imperadores se sucederam num ano até Vespasiano tomar o poder; os judeus superavam em muito as poucas tropas romanas na região, conheciam o território e tinham Jerusalém, com três muralhas, e fortalezas como Massada.
Os rebeldes também apostavam na Pártia, o grande rival de Roma no Oriente, com base no atual Irã; os partas já tinham ocupado Jerusalém por pouco tempo em 40 a.C. A ponte seria a numerosa comunidade judaica da Mesopotâmia, fora das fronteiras romanas.
E contavam com Deus. Antes da guerra, Roma esmagara pequenos movimentos de líderes proféticos que prometiam prodígios: Teudas anunciava que abriria o Jordão como Moisés ou Josué; um profeta egípcio, cujo nome não ficou registrado, arrastou milhares numa marcha frustrada contra Jerusalém. Os líderes morreram, mas não a esperança de uma intervenção divina contra Roma.
Tradição ou narrativa
Às vésperas da guerra, multiplicaram-se os sinais. Sábios leram na Torá o anúncio de que um homem da Judeia dominaria o mundo; viram-se uma estrela com forma de espada sobre a cidade, um clarão no santuário durante a Páscoa e tropas armadas cruzando o céu. Mesmo cercados no Monte do Templo, no fim da guerra, os rebeldes ainda esperavam a proteção de Deus.
03Josefo em Yodefat
Em 67 d.C., em Yodefat (Jotapata), Josefo e seus soldados ficaram presos numa caverna. Os homens exigiram um suicídio coletivo; Josefo concordou e sugeriu decidir por sorteio a ordem das mortes. Ele acabou entre os dois últimos e, junto com o outro sobrevivente, entregou-se aos romanos. Josefo dá a entender que Deus o salvou; os historiadores desconfiam de trapaça no sorteio.
04Zelotes, sicários e outras facções
A palavra 'zelote', hoje sinônimo de fanático, vem de um grupo da revolta. Na Bíblia, zelo é a defesa ciumenta de Deus e do povo, às vezes violenta, como quando o sacerdote Fineias mata um israelita e uma midianita. Há estudiosos que chamam de zelotes todos os rebeldes da época; nos textos de Josefo, porém, os Zelotes formam uma facção própria, nascida no fim da guerra, ao lado dos sicários (cujo nome vem de um punhal) e dos homens de Simão, filho de Giora. Na reta final, instalados no Templo, os Zelotes lutaram contra facções rivais e contra o governo provisório da cidade, que optara pela rendição; mataram o sumo sacerdote e outros acusados de traição. Uma facção rival expulsou parte deles do Templo; os demais morreram combatendo Roma.
Contexto
Havia também a pobreza. A economia mediterrânea sob Roma enriqueceu alguns judeus, mas empobreceu muitos: a Judeia do século I conheceu fomes e desemprego. Roma tomava terras e cobrava impostos e taxas (cerca de 30% da renda de um agricultor, segundo uma estimativa); somaram-se a fome dos anos 40, o desemprego após o fim das obras do Templo e a concentração de terras em mãos de Herodes e dos ricos. Endividados ou sem terra, alguns se vendiam como escravos, ou vendiam os filhos; outros viravam bandidos.
A revolta não foi um movimento camponês: havia rebeldes da elite, como o próprio Josefo. Mas razões econômicas parecem ter pesado, já que a guerra permitia livrar-se dos impostos, saquear os palácios dos ricos e pôr as mãos no tesouro do Templo.
Por que, então, arriscar uma revolta contra um poder praticamente invencível? Roma punia com ferocidade, e a crucificação era sua arma de intimidação mais conhecida, 'a mais miserável das mortes' nas palavras de Josefo: destinada a escravos, soldados amotinados e estrangeiros considerados inimigos, era feita à beira das estradas mais movimentadas para que todos vissem.
Indícios materiais da crucificação são raríssimos. Um deles saiu de um túmulo nos arredores de Jerusalém, em 1968: um osso de calcanhar ainda atravessado por um prego, de um homem de vinte e poucos anos; a inscrição hebraica diz 'Yehohanan, filho de HGQWL'. Uma hipótese para a raridade: os pregos eram tirados dos corpos porque se acreditava que tinham poder curativo como amuletos.
Em 37 d.C. a dinastia teve um breve renascimento com Agripa I, neto de Herodes, popular na Judeia por seu zelo religioso; ele morreu já em 44 d.C. Agripa II, seu sucessor, e a irmã Berenice perderam o controle de Jerusalém, que se rebelou em 66. Depois da guerra de 66 a 70 d.C. e da queda do Templo, o poder herodiano praticamente deixou de existir.
§ 01Geografia
Onde aconteceu
§ 03Historiografia
O que os estudiosos discutem
Debate acadêmico · 01
A literatura apocalíptica do período romano pregava a espera ou incitava à revolta?
2 posições · sem resposta única · sentar à mesa →
- A
Resistência passiva
Muitos estudiosos
Os textos apocalípticos seriam uma fantasia de consolo, que incentivava a esperar que Deus interviesse para salvar seu povo, sem ação humana.
- B
Incitação
Leitura alternativa apresentada pelos autores
Os mesmos textos podiam convencer os judeus de que Deus estava prestes a agir e de que deviam estar prontos. Algumas revoltas, talvez a própria grande revolta, podem ter sido alimentadas pela crença no fim iminente, e o Rolo da Guerra pode ter servido de manual de treinamento.
Debate acadêmico · 02
Quem eram os zelotes?
2 posições · sem resposta única · sentar à mesa →
- A
Todos os revolucionários
Alguns estudiosos
O termo designaria todos os revolucionários judeus do período; Josefo, de fato, chama de 'zeloso' qualquer um que mostre entusiasmo apaixonado por uma causa.
- B
Uma facção específica
Leitura dos autores, a partir de Josefo
O grupo que Josefo chama de Zelotes era uma facção específica, surgida nas fases finais da revolta, distinta de outros grupos como os sicários e os seguidores de Simão, filho de Giora.
§ 04Rede
Conexões
§ 05Bibliografia
Para continuar
Emil Schürer, The History of the Jewish People in the Age of Jesus Christ, as updated by Geza Vermes and Fergus Millar (Edinburgh: T & T Clark, 1973).
História e cultura judaicas no período romano (obra de referência) · recomendado em Efron, Lehmann e Weitzman, p. 119
Shmuel Safrai and Menachem Stern, The Jewish People in the First Century, 2 vols. (Assen: Van Gorcum & Co., 1974, 1976).
O povo judeu no século I · recomendado em Efron, Lehmann e Weitzman, p. 119
§ 06Aparato
Fontes desta página
- 01Efron, Lehmann e Weitzman, p. 97; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 520inspecionar
- 02Efron, Lehmann e Weitzman, p. 97inspecionar
- 03Efron, Lehmann e Weitzman, p. 97; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 98inspecionar
- 04Efron, Lehmann e Weitzman, p. 97inspecionar
- 05Efron, Lehmann e Weitzman, p. 96inspecionar
- 06Efron, Lehmann e Weitzman, p. 96; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 97inspecionar
- 07Efron, Lehmann e Weitzman, p. 98inspecionar
- 08Efron, Lehmann e Weitzman, p. 98inspecionar
- 09Efron, Lehmann e Weitzman, p. 98inspecionar
- 10Efron, Lehmann e Weitzman, p. 91; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 91inspecionar
- 11Efron, Lehmann e Weitzman, p. 98; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 98inspecionar
- 12Efron, Lehmann e Weitzman, p. 98inspecionar
- 13Efron, Lehmann e Weitzman, p. 96; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 96inspecionar
- 14Efron, Lehmann e Weitzman, p. 96inspecionar
- 15Efron, Lehmann e Weitzman, p. 97inspecionar
- 16Efron, Lehmann e Weitzman, p. 97inspecionar
- 17Efron, Lehmann e Weitzman, p. 94; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 520inspecionar
- Evidência documentadaAtestado por evidência da própria época: textos, inscrições, moedas, papiros ou arqueologia.
- Reconstrução acadêmicaInferência dos historiadores a partir de evidência indireta.
- Tradição ou narrativaRelato literário, tradicional ou religioso; importante em si, mas não verificado de forma independente.
- Interpretação contestadaEstudiosos discordam explicitamente; veja as posições em debate.
- Reconstrução ilustrativaHipótese ou esquema visual para orientar a leitura; não é afirmação histórica.